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O muskismo como um novo fordismo
Quinn Slobodian e Ben Tarnoff (*)
Tem-se observado muitas vezes que Elon Musk e Henry Ford têm muito em comum. Ambos foram aclamados como génios da tecnologia que revolucionaram os processos de produção e os produtos de consumo. Ambos eram politicamente conservadores. E ambos defenderam visões reacionárias através dos seus veículos de comunicação pessoais, com Ford a publicar uma série de artigos antissemitas no seu jornal, The Dearborn Independent, e Musk a utilizar o Twitter, mais tarde X, como megafone para expressar a sua hostilidade em relação aos imigrantes não-brancos. No entanto, ao iniciarmos o nosso recente livro sobre Elon Musk (1), rapidamente percebemos que os paralelismos entre Musk e Ford não se referem principalmente à biografia pessoal. Dizem respeito ao tipo de sociedade que as suas versões de economia política produzem — e exigem.
Logo após a publicação da autobiografia de Ford, My Life and Work (A Minha Vida e Obra), o economista alemão Friedrich von Gottl-Ottlilienfeld cunhou um termo duradouro com o seu livro de 1926: Fordismo. O que ele sugeriu foi que o fordismo era maior do que Ford, o homem; passava por uma reconfiguração das relações sociais. Chamou-lhe “a ditadura da razão técnica”. O marxista italiano Antonio Gramsci retomou este tema nos seus escritos da prisão. Entre outras coisas, defendia que a introdução da linha de montagem na fábrica exigia um trabalhador mais disciplinado e “racional”, cuja reprodução social e estabilização “psicofísica” ocorriam no seio da família nuclear heterossexual.
Na década de 1970, um grupo de teóricos franceses fez renascer a categoria de fordismo no que ficou conhecido como a Escola da Regulação. Sugeriram que cada fase historicamente definida do crescimento capitalista consistia em dois elementos principais. O primeiro era o que designavam por regime de acumulação: como se ganha o dinheiro?; como se organiza o processo de trabalho?; como se estrutura a produção e o consumo?; como se distribui o excedente social? O segundo era o que chamavam de modo de regulação. Seguindo Gramsci, questionaram que tipo de costumes sociais e códigos legais, escritos e não escritos, eram indispensáveis para estabilizar os efeitos potencialmente disruptivos dos novos modelos económicos. Um modo de regulação abrange a rede de instituições que regulam ou “regularizam” um regime de acumulação, gerindo as suas contradições. É por este modo que uma sociedade mantém as crises, às quais o capitalismo é perpetuamente propenso, sob controlo.
Para os regulacionistas, o fordismo era a ordem político-económica que definia o capitalismo industrial avançado em meados do século XX. O seu regime de acumulação centrava-se na produção em massa, enquanto o seu modo de regulação se caracterizava pelo consumo em massa. A produção em massa envolvia a fabricação industrial em grande escala de bens de consumo, na qual uma nova divisão técnica e social do trabalho facilitava o rápido crescimento da produtividade. O consumo em massa era facilitado por salários mais elevados, que criavam uma base de consumidores suficientemente grande para absorver todos os automóveis, rádios e frigoríficos produzidos nas fábricas fordistas, criando assim um ciclo virtuoso de crescimento económico.
Em termos mais abrangentes, o consumo em massa baseava-se naquilo a que o economista Michel Aglietta, um dos fundadores da Escola da Regulação, chamou de “norma social de consumo”, sustentada pelas instituições de negociação coletiva e pelo Estado-providência keynesiano. Segundo Aglietta, estas instituições canalizaram as intensas lutas de classes travadas pela classe trabalhadora norte-americana nas décadas de 1930 e 1940 para um novo pacto social em que os trabalhadores abdicaram das suas aspirações mais ambiciosas — como o controlo significativo sobre o processo de produção — em troca da relativa estabilidade económica de que gozava a família branca chefiada pelo homem no período pós-guerra.
É importante realçar que os regulacionistas estavam a teorizar o fordismo em retrospetiva. A obra de Aglietta, Régulation et crises du capitalisme (Regulação e crises do capitalismo), texto fundador da Escola da Regulação, foi publicada em 1976, quando o fordismo já se encontrava em clara crise. Uma queda acentuada da taxa de lucro, a estagflação, o choque petrolífero de 1973 e um novo ciclo de lutas de classes, tanto nos locais de trabalho (principalmente sob a forma de greves selvagens) como em novos movimentos sociais, pressionavam o paradigma político-económico vigente. As estratégias de acumulação do fordismo estavam a ruir, assim como os seus mecanismos para manter a paz social.
Mas se o fordismo se estava a desintegrar, o que viria depois? Aglietta especulou sobre o surgimento daquilo a que chamou “neofordismo”, ou aquilo a que o economista britânico Robin Murray mais tarde chamou “pós-fordismo”, termo que acabou por se consolidar. O pós-fordismo basear-se-ia em novas possibilidades de globalização e de deslocalização (“outsourcing”), bem como naquilo que ficou conhecido como estratégias de produção no momento certo (“just-in-time”) e enxuta (“lean”). Enquanto o fordismo tendia a centralizar a produção numa única empresa, o pós-fordismo dava prioridade à montagem do produto final a partir de peças provenientes de um conjunto de fornecedores independentes, interligados por cadeias de abastecimento globais. A queda dos custos de transporte, a difusão da informática e as alterações no direito económico internacional permitiram que as coisas fossem produzidas em pequenas partes separadas, por todo o mundo, e os capitalistas puderam procurar os custos de mão-de-obra mais baixos.
Se a flexibilidade era a palavra de ordem do regime de acumulação pós-fordista, o seu modo de regulação apontava em dois sentidos. Por um lado, prometia-se aos indivíduos uma gama alargada de auto-expressão pessoal, em grande parte a ser satisfeita através das suas escolhas de consumo. Sob o fordismo, o consumo tinha assumido uma forma “de massa”; sob o pós-fordismo, o mercado começou a desagregar-se em nichos e segmentos. Mas esta tendência para a especialização foi acompanhada por aquilo a que os estudiosos chamaram “responsabilização”: a transferência do risco para os trabalhadores e para as famílias. As pessoas eram obrigadas a assumir cada vez mais a responsabilidade pelos seus próprios cuidados básicos e reprodução, à medida que o Estado de bem-estar social se enfraquecia, o movimento operário declinava e o mercado de trabalho se fragmentava com a proliferação de trabalhos terceirizados, temporários e a tempo parcial. Os vencedores do pós-fordismo não foram os assalariados, mas sim os proprietários de ativos financeiros, uma vez que os governos recorriam cada vez mais à inflação dos preços dos ativos como motor de criação de riqueza. Embora esta mudança tenha beneficiado principalmente os mais ricos da sociedade, também envolveu uma nova classe de "abastados em massa" composta por proprietários de imóveis e investidores individuais, que passaram a apoiar uma financeirização cada vez maior da economia.
A financeirização acabou por se revelar o calcanhar de Aquiles do pós-fordismo. A crise financeira de 2007-2008 e a subsequente Grande Recessão desencadearam um lento desmantelamento da ordem político-económica então vigente. O reduzido dinamismo económico no Ocidente levantou preocupações sobre a viabilidade do modelo de crescimento pós-fordista e facilitou a ascensão de novas correntes políticas anti-sistema, amplamente rotuladas como "populistas", particularmente sob a forma de uma extrema-direita em ascensão. Ao mesmo tempo, o surgimento dos gigantes tecnológicos levantou novas questões sobre a relação entre o capitalismo e a digitalização. Por fim, a pandemia da Covid-19 e o aumento das tensões geopolíticas levaram as empresas e os países a reconsiderar a sensatez de uma economia totalmente globalizada.
O pós-fordismo estava em crise, mas o que o substituiria? Uma série de visões e estruturas concorrentes foram propostas. Ouvimos falar de capitalismo de Estado, capitalismo de desastre, capitalismo de plataforma, capitalismo de estrangulamento (“chokepoint”), capitalismo abutre, capitalismo em teia de aranha, capitalismo em arquipélago, capitalismo de gestão de ativos, capitalismo de vigilância e até capitalismo de colapso (“crack-up”). Os teóricos sugeriram que vivemos numa era de neofeudalismo, tecnofeudalismo, tecnolibertarianismo, tecnoautoritarismo, tecnopopulismo, tecnofascismo, fascismo do fim dos tempos, neofascismo, fascismo neoliberal, pós-neoliberalismo, paleopopulismo, neopatrimonialismo, hiperpolítica e geoeconomia.
Queremos propor um outro possível sucessor para o pós-fordismo: o muskismo. Acreditamos que este conceito ajuda a fundamentar parte da imprecisão encontrada noutros termos propostos, que muitas vezes se baseiam em metáforas evocativas ou precedentes históricos que lutam para captar o que é genuinamente novo e ainda emergente. Tal como os intérpretes do fordismo no século passado, que extraíram o seu material analítico da vida e obra de Ford, o ponto de partida — embora não o ponto final — para a compreensão do muskismo é a vida e a obra do próprio Elon Musk.
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O primeiro passo para extrapolar o muskismo a partir de Musk é refutar as interpretações erradas mais comuns sobre o homem e as suas ideias. Uma das mais fáceis de dissipar é a noção de Musk como libertário. Na verdade, um princípio central do muskismo é a fusão público-privado; a utilização do Estado como financiador, facilitador e garantia para empreendimentos de alto risco e alto retorno — aquilo a que chamamos simbiose estatal. Isso é evidente na SpaceX, na Starlink e na Tesla. Musk é um crítico acérrimo da burocracia e de certos tipos de regulamentação, mas certamente não do Estado em si. Pelo contrário, tem instrumentalizado consistentemente o Estado como fonte de poder e de lucro. Fá-lo prometendo ajudar os governos a cumprir as suas funções soberanas através da utilização das suas infraestruturas: uma dinâmica que descrevemos como soberania como serviço.
Outra ideia errada é a de que a empresa mais famosa de Musk, a Tesla, vende sobretudo um automóvel ao consumidor comum, semelhante ao da Ford — o Model Y como um Model T elétrico. Na verdade, a Tesla não trata de carros. Representa uma visão de autonomia elétrica numa era de desastres naturais, guerras e instabilidade social. Musk soube capitalizar um período de ceticismo global sobre as vantagens das cadeias de abastecimento interligadas e oferecer um modelo escalável de soberania, desde a nação até ao indivíduo em sua casa. A transição do Roadster para o Cybertruck (2) acompanha uma mudança de um futuro verde brilhante de consumismo com zero emissões de carbono para um futuro verde sombrio de colapso climático e sobrevivência. No seu auge, o muskismo explora o desejo de fortalecimento territorial contra choques externos, inimigos e indesejáveis. Num mundo de deslocalização da produção e de rearmamento, o muskismo oferece infraestruturas globais para projetos nacionais.
Esta visão do mundo reflete-se também na sua adesão à integração vertical, um modelo industrial singularmente adequado à nossa era de desglobalização. Durante décadas, Musk procurou concentrar a produção o mais possível dentro das suas empresas e reduzir a sua dependência de fornecedores externos. No muskismo, a fábrica não é um nó dentro de uma rede de produção global, mas sim um enclave. Esta estratégia desafiou a sabedoria convencional dos anos 2000, década em que Musk fundou a SpaceX e se tornou CEO da Tesla, mas revelar-se-ia profética na década de 2020, quando “uma série de crises nas áreas das finanças, saúde, energia e geopolítica… expuseram os riscos da integração global extrema”, para citar as declarações do primeiro-ministro canadiano Mark Carney em Davos, no início deste ano.
Outra ideia errada comum sobre Musk é a de que ele se diferencia de outros multimilionários da tecnologia por estar mais interessado em engenharia de ponta e na criação de coisas do que na imaterialidade etérea dos sítios e das plataformas, como exemplificado por alguém como Mark Zuckerberg. Há razões para conceder a Musk este estatuto: afinal, supervisionou a criação de foguetões reutilizáveis, encheu o céu de satélites, popularizou o veículo elétrico, construiu interfaces cérebro-computador e refletiu sobre os desafios de escavar túneis gigantes para combater o congestionamento do trânsito.
No entanto, a atenção de Musk tem-se voltado cada vez mais para o mundo em linha e para aquilo a que ele chama os seus "coletivos cibernéticos". A partir de 2015, e acelerando rapidamente desde a aquisição do Twitter em 2022, Musk passou a enquadrar o que acontece em linha não apenas como um reflexo do mundo real ou como uma distração do mesmo, mas antes como o campo de batalha central para o futuro da humanidade. Longe de ser um materialista sóbrio nestas questões, abraçou acriticamente uma crença maximizada no poder dos memes e contramemes para orientar todas as ações humanas. Desde 2023, este impulso também tem guiado o seu crescente desejo por uma Inteligência Artificial (IA) livre do que ele chama de "vírus da mente woke". Uma vez que a "inteligência" dos grandes modelos linguísticos é derivada do conjunto de dados com que foram treinados, tentar ajustar os seus resultados para se alinharem com um ponto de vista político específico pode ser difícil. Com o Grok, a linha de modelos de IA "anti-woke" de Musk, este tentou várias abordagens, desde a integração do Grok com a Grokipedia — uma versão de direita da Wikipédia — até à contratação de anotadores humanos que orientam o modelo para fornecer a sua versão de respostas politicamente corretas.
A crença surpreendentemente literal de Musk no poder da internet reflete uma espécie de determinismo memético. A internet não reflete apenas o mundo: na última década, para ele, tornou-se o mundo. Os processos no mundo real são consequência de eventos que acontecem na rede, e especificamente na plataforma que o próprio Musk possui e manipula frequentemente para ir ao encontro das suas preferências políticas. Este ponto de vista não é pura ilusão. Uma semelhança entre Musk e Ford é a extrema iliquidez das suas riquezas pessoais. Quase toda a fortuna de Ford estava em ações da Ford, que permaneceram privadas até quase uma década após a sua morte. Ao contrário de outros magnatas como John D. Rockefeller e Andrew S. Mellon, Ford não diversificou os seus investimentos e manteve-se distante de Wall Street, considerando-a o domínio dos parasitas — e, notavelmente, acreditava, dos judeus. Musk é igualmente peculiar na estrutura da sua riqueza. Está quase inteiramente concentrada em ações das suas próprias empresas. Como o próprio afirmou numa entrevista: "Se a Tesla e a SpaceX falissem, eu também faliria imediatamente".
Isto é fundamental para compreender a economia política do muskismo. O modelo de negócios de Musk não se baseia na produção constante ou na rentabilidade a longo prazo, mas sim na projeção contínua de promessas grandiosas — de avanços tecnológicos iminentes, salvação do planeta e ganhos financeiros extraordinários. Estas promessas geram inflação nos preços dos ativos através da captação de atenção. Como o preço das ações é sempre o preço que as pessoas estão dispostas a pagar num determinado dia, pode mudar muito rapidamente — como acontece frequentemente com a Tesla, oscilando 10% ou mais de um dia para o outro. A bolha precisa de se manter insuflada. Com o tempo, esta estratégia amadureceu para um controlo absoluto dos meios de produção narrativa: Musk acabou por adquirir uma plataforma mediática global para propagar a crença na sua própria rentabilidade futura.
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Em termos gerais, estes são alguns dos principais elementos do regime de acumulação de Musk. Fundir-se com o Estado, tornando-se um fornecedor monopolista de funções essenciais. Concentrar a produção, dando prioridade à resiliência, independência e controlo. Vender tecnologia para a autossuficiência nacional e individual num mundo hostil, repleto de outros racializados. Acelerar a digitalização para tornar tudo programável, incluindo e principalmente o cérebro humano.
Mas e quanto ao modo de regulação? Que contrato social é oferecido pelo muskismo? Qual é o seu equivalente à "galinha em cada panela" e à mobilidade social ascendente intergeracional prometidos pelo fordismo? Ou às ofertas do pós-fordismo, como a interminável reconfiguração da identidade do consumidor e os ciclos de esperança e desespero movidos a adrenalina numa economia financeirizada onde o vencedor leva tudo?
Um dos aspetos do pós-fordismo herdados pelo muskismo é a oportunidade de participar, de forma liliputiana, no enriquecimento dos capitalistas através da detenção de ações na sua carteira de investimento ou fundo de pensões. Os investidores da Tesla são notoriamente leais tanto à marca como ao próprio Musk. A sua devoção expressa-se em linha, onde seguidores subservientes se enfileiram para elogiar a visão do mestre ou publicar as últimas notícias sobre o sucesso dos seus empreendimentos. Desde a compra do Twitter por Musk e a sua transformação no X, uma subscrição paga vem com o visto azul anteriormente reservado a jornalistas, políticos, marcas e outros. Tornou-se um símbolo de devoção a Musk, pela qual os seguidores são recompensados com o algoritmo a impulsionar as suas publicações. Os subscritores também podem ganhar dinheiro com os seus feeds. Os retweets e as visualizações não são apenas bons para libertar endorfinas, mas também são literalmente monetizados. Os apoiantes mais devotos de Musk gabam-se frequentemente do seu rendimento mensal obtido através da bajulação. É possível entrar na onda e procurar a inclusão nos círculos internos, ou até mesmo externos, da comunidade de fãs de Musk.
Em síntese, em vez do contrato social, o muskismo oferece um contrato de fã. Ao entrar para o círculo adoradores de Musk, o fã ganha acesso a uma camada privilegiada de comunicação amplificada e monetizada. Mas até onde pode chegar? O contrato de fã tem um apelo limitado. Não é um modo de regulação comparável aos apresentados pelo fordismo ou pelo pós-fordismo. Se considerarmos a incursão feita por Musk na alta política, com a sua aceitação da direção do Department of Government Efficiency (DOGE), no início de 2025, como uma espécie de teste para o modo de regulação muskista, o resultado não foi animador. Musk chegou a Washington convicto de que o código-fonte do governo federal estava repleto de erros que tinham de ser eliminados. A sua solução foi despedimentos em massa e o extermínio indiscriminado de agências e programas "progressistas". Mas o muskismo falhou quando ponderou atacar a Segurança Social e a Medicare. Musk absorveu a indignação pública e deixou Washington. Como método de regulação, o muskismo não estava preparado para o cenário nacional.
Sem a capacidade de persuadir os outros, na sociedade em geral, de que a sua própria ascensão social também os beneficiará, Musk optou por alertá-los, histericamente, contra o tsunami de forasteiros que virá afogá-los. Temas como o declínio demográfico europeu e o "genocídio branco" são o refrão central das publicações diárias e, muitas vezes, até de hora a hora, feitas por Musk. Este é o terreno mais fértil para a construção de uma ideologia quase coerente, amplamente emprestada da linguagem da extrema-direita europeia. O mundo não branco é tanto vilão como peão. Os seus membros procuram entrar no Atlântico Norte para saquear os “nossos” bens e profanar as “nossas” mulheres — e estão a ser encorajados a fazê-lo pelos partidos de centro e centro-esquerda do Ocidente, que estão a importar futuros eleitores como parte de uma suposta Grande Substituição. Em resposta, Musk defende a “remigração”, a deportação em massa de residentes não brancos.
Este é o outro lado do modelo de regulação muskista: uma visão, não de prosperidade partilhada, mas de violência. O contrato de fã para os que estão dentro dos muros de um Ocidente fortificado e a expulsão para os que estão marcados como ilegítimos. Depois de os modelos de industrialismo fordista e de deslocalização e globalização pós-fordistas terem recuado, o muskismo oferece a perspetiva de uma comunidade purificada de sobreviventes.
Também aqui, porém, o muskismo tem lutado para obter um apoio mais amplo. O próprio Musk tem-se revelado surpreendentemente ineficaz nas suas intervenções políticas fora dos Estados Unidos da América. Mesmo as suas alianças com os partidos de extrema-direita na Europa são tensas. É difícil que partidos como a Reunião Nacional de França, os Irmãos de Itália ou mesmo a Alternativa para a Alemanha, definidos pela linguagem do soberanismo, demonstrem demasiada fidelidade a um estrangeiro que procura interferir na política interna dos seus países. Quando Musk se tentou aproximar de Nigel Farage, no Reino Unido, este afastou-se.
Outra fonte de atrito para o muskismo é a organização popular do tipo que se viu recentemente em Minneapolis. Em muitos aspetos, a incursão do ICE foi o muskismo em acção: agentes fortemente armados, equipados com painéis de análise de dados e software de reconhecimento facial, utilizando alta tecnologia para expulsar os migrantes considerados fora de lugar e punir os seus cúmplices "progressistas". As comunidades de Minneapolis mobilizaram-se em resposta e, correndo grande risco pessoal, obstruíram a operação com sucesso. "Protejam os nossos vizinhos", dizia uma palavra de ordem popular. Esta é uma ideia de soberania completamente estranha ao muskismo, onde não se trata da quantidade de foguetes, gigawatts ou gigabits disponíveis, mas da expressão coletiva de um futuro partilhado.
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Para a Escola da Regulação, a luta de classes era o motor da história. Impulsionava o capitalismo de um estádio de desenvolvimento para o seguinte. À medida que a classe trabalhadora resistia à exploração, os capitalistas eram forçados a encontrar novos métodos para obter o seu consentimento. Foi assim que nasceram os sucessivos modos de regulação: como esforços de compromisso e de cooptação que surgiram em resposta a surtos de conflito social.
Musk e os seus colegas têm a sorte de viver numa época em que não existe nenhum ator estrutural capaz de desafiar o seu domínio. A classe operária praticamente deixou de existir como força organizada. Sem pressão de baixo para cima, os próprios partidos políticos não oferecem uma oposição significativa ao muskismo. O efeito é paradoxal. Por um lado, a vida dos capitalistas torna-se mais fácil quando podem intensificar a exploração dos seus trabalhadores e comprar influência na política com pouca resistência. Mas isto também significa que não têm qualquer incentivo para refrear os seus impulsos mais antissociais ou para considerar as consequências a longo prazo das suas ações.
O muskismo exemplifica esta tendência: se o fordismo e o pós-fordismo foram ambos, de formas diferentes, organizados para garantir a paz social, o muskismo orienta-se para a guerra social. A relativa fragilidade do modo de regulação muskista é sintomática: o antagonista da classe operária é tão fraco, a guerra social tão assimétrica, que não há necessidade de uma paz negociada. Neste momento, a estratégia parece estar a resultar. Musk, já o homem mais rico do mundo, tem a projeção de se tornar o primeiro trilionário já no próximo ano.
O capitalismo sem restrições, contudo, nem sempre é bom para os capitalistas. Ao longo da sua história, o capitalismo transformou continuamente a natureza e a sociedade. Isto gera enormes convulsões. No entanto, os negócios também precisam de um ambiente político ordenado e previsível para operar. Uma importante perceção do regulacionismo é que a resistência da classe operária, paradoxalmente, serviu para estabilizar o processo de acumulação, obrigando à criação de um tal ambiente. Sem uma contraparte que lhes exija concessões, os capitalistas podem gerar um tamanho caos que minará a sua própria capacidade de acumulação. Se o muskismo é o triunfo do domínio de classe, pode vir a ser um triunfo que se autodestrói.
(*) Quinn Slobodian (n. 1978) é um historiador canadiano, atualmente professor de História Internacional na Universidade de Boston, depois de ter lecionado no Wellesley College e em Harvard, sempre no estado de Massachussets (E.U.A.). De 2020 a 2024, foi coeditor da revista Contemporary European History. Em anos mais recentes tem publicado alguns livros de grande sucesso sobre os desmandos ideológicos neoliberais, com destaque para Globalists: The End of Empire and the Birth of Neoliberalism, Harvard UP, 2018; Crack-Up Capitalism: Market Radicals and the Dream of a World Without Democracy, Metropolitan, 2023; Hayek's Bastards: Race, Gold, IQ, and the Capitalism of the Far Right, Zone Books, 2025 e (com Ben Tarnoff), Muskism: A Guide for the Perplexed, HarperCollins, 2026. Ben Tarnoff (n. 1985) é um escritor norte-americano sobre temas tecnológicos e de comunicação social, baseado também no Massachussets. Foi editor e cofundador da revista Logic. As suas peças têm sido publicadas em Guardian, The Nation, New Republic, The New York Times e The New York Review of Books. Em volume publicou (como coeditor) Voices from the Valley: Tech Workers Talk About What They Do - And How They Do It, FSGO x Logic, 2020 e Internet for the People: The Fight for our Digital Future, Verso Books, 2022. O presente artigo foi publicado originalmente no blogue Law and Political Economy (LPE). A tradução é da responsabilidade de Ângelo Novo.
_____________________ NOTAS DO TRADUTOR:
(1) Quinn Slobodian e Ben Tarnoff, Muskism: A guide for the perplexed, Harper Collins, 2026.
(2) Roadster e Cybertruck são dois modelos de automóveis Tesla, o primeiro um desportivo clássico e o segundo uma “pick-up” futurista e um tanto distópica.
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