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Introdução
De uma forma subreptícia, sem alarde, nem qualquer sombra de reconhecimento explícito, a transição climática saiu completamente da agenda decisória da classe dirigente mundial. Não estamos a falar de Trump e da sua corte mundial neofascista. Toda a elite político-financeira transatlântica (mais o seu apêndice nipónico) dá por adquirido, há já algum tempo, que as emissões de gases com efeito de estufa vão prosseguir a sua expansão imparável, sem qualquer obstáculo. É business as usual e o mais são tretas. Ou surgirá uma solução técnica milagrosa na 25.ª hora ou o desastre planetário é inevitável. Durante mais algum tempo continuaremos ainda a ouvir essas tretas, mas já ninguém sabedor as levará a sério. É mera conversa política para adormecer a opinião pública. Até mesmo o movimento de revolta juvenil estranhamente esmoreceu, agora que a duplicidade por ele denunciada na classe política se confirmou por inteiro.
A transição energética e a meta de carbono zero não eram pura encenação hipócrita. As coisas são mais complicadas do que isso. Muitos políticos burgueses ocidentais acreditaram sinceramente nesses objetivos e empenharam-se neles com todo o seu otimismo histórico-antropológico. Quando amadureceu neles, porém, a consciência de que essas metas eram inatingíveis dentro do balanço de poder e das regras de funcionamento da sociedade em que acreditavam, essa crença, entretanto, nem por isso sofreu o menor abalo. Muito pelo contrário. Quando se tornou evidente que só a República Popular da China tinha uma estratégia para combater a crise ecológica e os meios para a colocar efetivamente em prática, afastaram-na imediatamente, com horror. Solidificou-se neles ainda mais a convicção de que o modelo social ocidental é muito superior e deve prevalecer, custe o que custar (em primeiro lugar aos outros, naturalmente). Fez-se um silêncio profundo e resignado na sua consciência sobre a coisa pública planetária. Nem um sopro de inquietação ou de revolta se fez sentir neles. Só a preocupação de não dizer nada fora de tom nem dar qualquer passo em falso. Neste particular, António Guterres é, sem dúvida, uma figura paradigmática do naufrágio humanista ocidental.
Temos, pois, um sistema social e político que se proclama superior a todos os concorrentes (passados e futuros), enquanto se reconhece a si próprio incapaz de assegurar as condições mínimas para a sobrevivência e reprodução da humanidade no seu habitat natural. É, verdadeiramente, o fim da história, mas num sentido muito diverso daquele que confiadamente proclamava, há apenas umas décadas atrás. Pois bem, seria de esperar, porventura, um momento de contrição. Nem por sombras. A conclusão que aflora nas mentes decisoras ocidentais é que, sendo assim, é porque a humanidade (ao menos grande parte dela) deve perecer. O Ocidente aponta ao mundo o caminho para uma catástrofe inominável. Desafiado no seu domínio mundial indisputado, defenderá a todo o custo esse mesmo caminho, se necessário ao custo da antecipação dessa mesma catástrofe por meio da guerra nuclear. Os seus humanistas vão a bordo, vomitando talvez, na amurada, mas sem pensar, por um momento sequer, em desertar o seu campo. No imaginário artístico e filosófico das camadas burguesas ocidentais mais ilustradas começa a despertar uma consciência de fim do mundo, com sobrevivência dos mais aptos e merecedores. Não sem um secreto júbilo orgulhoso e impaciente.
A misantropia genocida esteve sempre inscrita, desde a primeira hora, no código-fonte do capitalismo. Elon Musk tem uma extensa progénie, que foi apenas ficando cada vez mais apurada e explícita. A indiscutível “superioridade” do Ocidente sempre foi construída por meio da agressão, do roubo, da exploração e do descarte. O universalismo sempre foi um mero engodo, para captar a adesão de certas elites clientelares. O progresso fez-se pela crescente rutura metabólica com a mãe natureza e a irreversível dissolução de todos os laços sociais. Desenraizar e dissocietar. Cada um por si e a mão invisível por todos. Como poderíamos ter chegado a outro resultado? Há milhares de anos que, em todo o mundo, os profetas nos alertam para que o caminho da soberba e da concupiscência nos levaria ao desastre, perante o escárnio dos poderosos. A catástrofe está agora aí, bem à vista de todos. Os escarnecedores calam-se, mas obstinam-se no mesmo caminho, de forma cada vez mais implacável, usando todos os formidáveis meios ao seu alcance.
O destino da humanidade está agora dependente da resistência (designadamente armada) que possa ser oposta aos desígnios terroristas, saqueadores, intimidatórios e extorsionistas do imperialismo norte-americano sob a idiossincrática (mas não tão arbitrária como nos fazem crer) direção de Donald J. Trump. Há uma guerra mundial larvar em curso, mas a resistência ao império exterminacionista é encarnada por muitas forças dispersas por todo o globo, de momento inconscientes umas das outras. A besta agonizante debate-se com fúria e algum propósito, na sua inescrupulosidade. Um desenlace catastrófico e irreversível pode surgir a qualquer momento ao virar da esquina, de natureza militar, económica, financeira ou político-diplomática. Informação e desinformação penetram-se mutuamente, de forma constante e quase inextricável. A longa insónia do mundo nunca foi tão imperscrutável e angustiante.
Em perpétua fuga para o mais longe possível do homem e das suas necessidades sociais, a última fantasia do capitalismo dá pelo nome de Inteligência Artificial Geral. Os grandes gigantes norte-americanos da tecnologia digital realizaram investimentos colossais, para descobrir agora que os seus objetivos eram inatingíveis e que, pelo caminho, não puderam encontrar pontos de apropriação que lhes permitissem extrair compulsivamente as rendas monopolistas a que aspiravam. Agora agitam fantasmas catastrofistas para criar um ambiente favorável à intervenção do Estado para socializar as perdas acumuladas. John Bellamy Foster traça-nos as linhas gerais desta nova corrida ao ouro e, apoiando-se fortemente na especialista crítica Kate Crawford, desmistifica a linguagem apologética “em nuvem” dos seus promotores, confrontando-a com as realidades bem materiais desta indústria. O académico chinês Te Li adota uma abordagem termodinâmica para expor a indústria capitalista da Inteligência Artificial (IA) como um sistema altamente dissipativo, no sentido proposto por Ilya Prigogine, com privatização dos ganhos e socialização dos custos em desperdícios de alta entropia. Martin Hart-Landsberg dá-nos a conhecer algumas das efabulações mais extraordinariamente ignorantes dos bilionários da IA, os impasses que têm encontrado os seus planos e a resistência que lhes tem sido colocada e é imprescindível continuar a opor-lhes, de forma contínua e denodada.
Com base nas teorias da Escola da Regulação, Quinn Slobodian e Ben Tarnoff, comparam os modelos industriais fordista e pós-fordista com o seu equivalente contemporâneo, que a seu ver é protagonizado pelo muskismo. Depois de exploraram algumas das caraterísticas peculiares deste modelo de acumulação, concluem que o seu projeto social é baseado na exclusão, no ódio e na bajulação organizada. Prabhat Patnaik entende que uma das fragilidades principais do sistema imperialista contemporâneo, de liderança norte-americana, reside no facto de os E.U.A. - ao contrário do que sucedia, no seu tempo, com a Grã-Bretanha - não poderem compensar o seu défice de transações correntes com a drenagem de riqueza das colónias, que não possuem. Por isso, a estratégia de Trump, a que atribui coerência de desígnio, é de recolonização do Terceiro Mundo e de exercício da coerção pura e da extorsão ilimitada sobre os seus protetorados. Jaime Osorio reflete sobre os limites da ação política no seio do Estado capitalista, mergulhado que este está num sistema de relações de poder que lhe é pré-existente e que, justamente, o definem. Vijay Prashad, a propósito de uma entrevista de Vivek Chiber, reflete sobre as principais teorias históricas marxistas sobre o nascimento do capitalismo, para concluir que este evento é inseparável da pilhagem e extorsão colonial, o que tem a sua importância para o debate atualmente em curso, sobretudo em África, sobre reparações.
O antropólogo marxista britânico Chris Knight reflete sobre algumas opiniões polémicas do seu malogrado colega e amigo norte-americano David Graeber, Conclui reafirmando as suas próprias posições, as quais, partindo das suas convicções científicas evolucionistas e sociobiológicas, sustentam que foi a necessidade, face às pressões ambientais, que criou a espécie humana em moldes cooperativos, comunistas e anti-hieráquicos, que conhecemos ainda hoje entre as comunidades subsistentes de caçadores-recolectores. O nosso companheiro Manuel Raposo fez uma viagem à República Popular da China e dá-nos as suas impressões, politicamente informadas, sobre a vida neste país, as expetativas dos seus cidadãos comuns, a realidade política e económica atual desta potência geopolítica e as perspetivas para a sua evolução futura. A propósito da uma virulenta e orquestrada campanha difamatória contra o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, Ângelo Novo faz uma extensa reflexão sobre a história portuguesa desde a revolução de abril de 1974. Pelo caminho, dá conta de algumas das misérias e acanhamentos mais constantes da vida social portuguesa, em contraponto à disponibilidade sempre generosa e à ocasional transcendência libertária e universalista do seu povo.
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Os Editores
Ângelo Novo
Ronaldo Fonseca
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