Introdução

 

 

 

Quem está vivo nestes dias tem o privilégio raro de assistir a uma época de bifurcação histórica, a partir da qual nada mais será como dantes. A violência é de novo a parteira. Uma das alternativas em disputa - precisamente aquela que nos é imposta como indiscutível e a única civilizada, por todos os grandes meios de comunicação social - conduz-nos para um declive sociopatológico, numa contínua escalada de horror e grotesca misantropia, que terminará, inevitavelmente, com a extinção em massa da humanidade. Não é, pois, despiciendo o que está em jogo. Para que a aventura humana possa ter alguma esperança de prosseguir, é indispensável enfrentar e desarticular todos os poderes fáticos que têm regido o mundo desde há tempos imemoriais. Donald J. Trump e o seu circo neofascista global são apenas o sintoma de uma degenerescência muito mais profunda, bem incrustada na própria tessitura de todo o sacro império ocidental. De geração em geração, a iniquidade e a anomia foram sendo sempre acrescidas e empurradas para a frente, como sendo um trilho natural expansionista e libertário, até que, finalmente, tomaram o feio nos dentes para atingir todo o paroxismo destruidor a que assistimos. É a dissociedade espetacular em ação. Podemos vê-la assomar, com a sua caraterística fúria acrata, parricida e niilista, em todas as tentativas de revolução colorida.

 

There is no such thing as a society, dizia Margaret Thatcher, com toda a sua autossuficiência ignorante. Há apenas indivíduos, com o seu interesse próprio bem compreendido e dispostos a bater-se por ele. É o bellum omnium contra omnes. A China, a Rússia, o Irão e uma grande maioria de outras formações sociais, no Sul global, porventura menos poderosas e desafiantes que estas, pretendem desmentir esta asserção, impermeáveis à estupidez suicidária dos ocidentais. É aqui que reside a última esperança da humanidade. Naquilo a que, no Ocidente, se chama de autocracias totalitárias. Ou seja, nas sociedades que ainda mantêm alguma coesão, solidariedade, capacidade de sacrifício, sentido de cuidado e de entreajuda; nas sociedades em que o poder político tem um rosto e não reside efetivamente em forças económicas difusas e espontâneas que se mantêm na sombra, dotadas de poderes sociais despóticos sem qualquer controlo; nas sociedades patrióticas, independentes e cultoras da autossuficiência produtiva; nas sociedades em que o povo ainda existe e tem uma palavra a dizer sobre o seu destino, não estando ainda transformado numa multidão inorgânica de consumidores, embrutecida pelas luzes do espetáculo, induzida a desprezar o próximo e, consequentemente, a votar contra si própria.

 

A luta contra o império ocidental é muito dura e sem quartel. O inimigo está debilitado, é certo, mas não pode nunca ser subestimado. Quando era forte, permitia-se alguma magnanimidade, que é uma forma um pouco mais distendida de desprezo. Isso acabou. Julgando-se ainda omnipotente, está em estado de perpétuo azedume, dissimulação e reserva mental. É pérfido e sem palavra, como sempre foi, mas agora com uma nota de destrambelho. Enquanto negoceia, tenta assassinar a contraparte, usando os contatos que esta lhe forneceu. De regresso a mais uma ronda negocial, dá instruções para bombardear e iniciar uma guerra total de extermínio. Mata crianças, sobretudo onde as conseguir encontrar reunidas em grande número, mulheres trabalhadoras, sobretudo em idade fértil, jornalistas, académicos, intelectuais públicos, agentes de segurança e profissionais de saúde. Destrói prioritariamente hospitais, clínicas, centros de assistência alimentar e médico-sanitária, ambulâncias, carros e quartéis de bombeiros, esquadras de polícia, edifícios administrativos, órgãos de comunicação social, escolas, universidades, salas de espetáculos, mesquitas, mercados, sem menosprezar mesmo singelas padarias de bairro. A lógica, assistida por inteligência artificial, é destruir todas as juntas da tessitura social e os esteios da reprodução vital. É uma dissociedade catastrófica, reservada aos outros. Para sua “segurança”, à sua volta só é possível haver ruínas, cadáveres, fome, guerra civil e desolação a perder de vista. Não estamos a falar apenas, nem sobretudo, de Israel, mas sim do conjunto do mundo ocidental.

 

Estamos em estado de grande inquietação e ansiedade com a situação política da América Latina, em particular com o muito difícil estado das revoluções cubana e venezuelana. A retração da besta imperialista sobre o seu próprio hemisfério e o estado já muito avançado da guerra mundial larvar em curso, com descarte de todos os pruridos remanescentes com a legalidade internacional e a liberdade de curso marítimo (o que nada tem a ver, em particular, com a personalidade atrabiliária de Trump) ditaram uma situação de grande alarme, seriedade e exigência. Estamos solidários com os nossos companheiros venezuelanos e cubanos, com quem partilhamos tantos momentos inesquecíveis de esperança e camaradagem. Devemos-lhes uma parte muito importante da nossa própria formação, que nunca renegaremos. Vamos ao combate em seu apoio, no que for preciso, sem ter nunca a pretensão de exigir deles sacrifícios impossíveis para os seus povos. Eles mesmos serão os únicos juízes sobre isso. A luta continua. Hasta la victoria, siempre! Em longitudes mais distantes, as dificuldades são muito maiores para os imperialistas, cegados pela própria soberba, iludidos pela própria propaganda. O sorriso da vitória está neste momento já a desenhar-se com nitidez, na sorte de armas da brava nação iraniana. A besta pode entrar em colapso financeiro em resultado disso, mas não é seguro que isso aconteça de imediato.

 

Arghiri Emmanuel foi um dos dois ou três grandes heróis do pensamento no século XX. Em muitos sentidos, um herói imprevisto e ocasional, mas decisivo. O homem estava lá e as circunstâncias que o enquadravam capricharam de forma a fazerem o resto. Uma ideia, perseguida de forma tenaz e sem compromissos, chegado o seu momento, pode ocasionar um súbito clarão partilhado, a partir do qual se torna uma força material transformadora. Torkil Lauesen conheceu bem Emmanuel e traça dele alguns preciosos apontamentos biográficos, antes de esquiçar algumas das razões que fazem com que as suas ideias sejam a apropriada medida do nosso tempo. John Bellamy Foster e Brett Clark, tomando algum balanço crítico, fazem a genealogia completa do conceito de troca desigual, situando nela o contributo de Emmanuel, nos seus limites, é certo, mas também em toda a sua decisiva ousadia pioneira.

 

Ndongo Samba-Sylla e Jason Hickel propõe uma estratégia concreta e detalhada para que os países do Terceiro Mundo declarem unilateralmente a sua efetiva descolonização, com independência económica. Pelo segundo autor, o conceito de desconexão, proposto por Samir Amin, é revisitado e sinteticamente desenvolvido para as circunstâncias contemporâneas. Vijay Prashad critica a social-democracia e o liberalismo (em sentido anglo-saxónico) revivescentes no mundo ocidental, como contraponto e suposta alternativa ao neofascismo triunfante. Não há caminho de regresso ao compromisso de classes da “era dourada” do capitalismo no pós-guerra. O mundo agora tem de avançar para o socialismo, sob a direção das classes laboriosas que se encontram, maioritariamente, nos países do Sul global. Chris Gilbert vai a encontro deste sujeito revolucionário contemporâneo. Este pode não corresponder por inteiro à definição clássica do proletariado, como trabalhador industrial assalariado. Essa definição é uma abstração, em grande parte resultante do facto de o estudo crítico do capitalismo, empreendido por Marx, se ter mantido, numa grande medida, unilateral. Como lembrou Michael Lebowitz, nos planos de Marx, O Capital deveria ter sido seguido de outras obras, uma delas se ocupando do mundo laboral. Cabe-nos a nós escrever essa obra de Marx que não chegou a ver a luz do dia, procurando no mundo real os efetivos nemesis coveiros do capitalismo.

 

Existem diversos perigos existenciais para a humanidade, muitos deles confluentes e articulados, com destaque para as armas nucleares, as alterações climáticas e a inteligência artificial. Por dois autores iranianos (naturalmente desconhecidos entre nós, que, deste país, só ouvimos falar dos dissidentes instruídos e estipendiados pela CIA), publicamos uma abordagem de grande lucidez sobre estas três ameaças. O artigo, na sua secura sintética, é de grande valia e discernimento crítico. A sua publicação aqui é também, nesta hora, uma homenagem à Dr.ª Zahra Mohebi-Pourkani, servidora pública de grande arrojo, altruísmo, abnegação e excelência científica, como exemplo cívico cimeiro da verdadeira mulher iraniana.

 

Temos mais três autoras oriundas do Sul global contribuindo para este número de O Comuneiro. A jovem chinesa Chen Renjiang desmonta com total desenvoltura a abundante literatura ocidental sobre uma aparente regressão ao feudalismo, na nossa época, explicando, pacientemente, que estamos apenas perante uma nova modalidade de capitalismo monopolista financeirizado, cada vez mais rentista e parasitário. A indiana Radhika Desai explica como Marx, longe de ser um teórico precursor da globalização, como muitas vezes tem sido apresentado, sempre esteve agudamente consciente de íntima e indissolúvel conexão entre a economia capitalista e o seu Estado-nação. Com base numa citação muito representativa do seu pensamento, extraída dos Grundrisse, Desai conclui que Marx foi um percursor, isso sim, da economia geopolítica, que em nada se surpreenderia com o desmantelamento em curso de todos os dogmas do livre-comércio.

 

Pela segunda vez consecutiva publicamos um artigo da académica chinesa Chen Yiven sobre a mundividência ecologista e materialista contemporânea, desta feita desdobrando-se numa exposição dos conceitos básicos da sua transposição prática numa civilização ecológica, tal como esta é entendida hoje na República Popular da China. A nossa primeira ideia foi colocar aqui o artigo de Chen Yiven em diálogo com Laudato Sí, do nosso falecido irmão Jorge Bergoglio. Não o fizemos por questões de direitos autorais, que estão retidos pela editora do Vaticano, entidade que não nos merece a mínima confiança. Mas vale a pena confrontar o materialismo dialético com a ontologia e a ética franciscana que enformam este notável documento, para ver aquilo em que coincidem, que é essencial, e aquilo em que divergem, que é, ainda assim, significativo. É também interessante esta leitura para medir a distância abissal que se cavou, no Ocidente, entre o que é, formalmente, a autoridade moral e espiritual e o que é a vivência prática. Não se deve acreditar em ninguém que diga que o Ocidente é judaico-cristão. Como diz o nosso companheiro Andrea Zhok “o Ocidente não é simplesmente secular ou ateu, mas fundamentalmente alheio a qualquer conceito que transcenda os cálculos de custo-benefício”. Individual e de curto prazo, acrescentaríamos nós.

 

Não bastará, contudo, extirpar do mundo o monstruoso abscesso ocidental. É agora cada vez mais evidente que o comunismo é o único futuro viável para a humanidade. Em última instância, só o comunismo garantirá uma sustentável harmonia entre o metabolismo do mundo natural e o do trabalho humano a ele sobreposto, que dele é parte integrante. É uma aspiração muito antiga. Teve inúmeros defensores, de grande valor e exemplo. Não queremos parecer escolásticos, mas o que Marx pensou sobre o comunismo, quando, porquê e com que bases, continua a interessar-nos sobremaneira. John Bellamy Foster é um guia seguro, sempre interessante e judicioso, nessa história intelectual. A mais valiosa e generosa parte da humanidade continuou sempre a manter uma ligação ao comunismo, ao longo de toda a história multimilenar das sociedades de classes. É uma linha de vida preciosa, que foi passando testemunho reforçado, de geração a geração, e que pode ainda vir a fazer a diferença entre ser e não ser para a espécie humana. Para quem isso possa interessar.

 

Destruída a humanidade, a vida no planeta (e, quem sabe, para lá dele) prosseguirá, sem dúvida. Do ideal ponto de vista do bioma terrestre no seu todo (que não seria obrigado a destrinçar entre humanidade boa e má), a eliminação desta espécie animal atrevida e dominadora, que se deixou dominar pelo génio satânico do modo de produção capitalista, será até um acontecimento auspicioso, proporcionador de um indispensável reequilíbrio homeostático. Para uma espécie futura capaz de vir a fazer esses julgamentos, tratar-se-á, sem dúvida, retrospetivamente, de um evento histórico marcado por uma certa justiça termodinâmica. Para os humanos contemporâneos que, bem prevenidos, por um alargado consenso científico, promoveram e conduziram, ainda assim, conscientemente, a destruição das condições de reprodução da vida humana, notoriamente, isso tanto se lhes faz. É que, entretanto, já tiraram da vida tudo o que dela queriam (em riqueza e outras glórias), para si próprios, naturalmente, antes de recolherem à terra saciados. Para os ocidentais, é isto tudo o que importa. Não querem saber, sequer, dos juízos da posteridade, assumindo, consciente ou inconscientemente, que já muito pouco haverá disso para os seus contemporâneos. Nenhuma história os julgará. Nisso podem bem estar enganados, como em tantas outras coisas.

 

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Os Editores

 

Ângelo Novo

 

Ronaldo Fonseca

 

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