Paul Lafargue e os inícios do movimento socialista em Portugal (*)

 

 

Piteira Santos idoso

Fernando Piteira Santos

 

 

 

Na correspondência dirigida por Paul e Laura Lafargue a Friedrich Engels, as referências aos socialistas portugueses são breves, mas significativas. Mais numerosas e mais extensas as referências aos «internacionalistas» espanhóis e ao período de permanência dos Lafargue em Espanha. Mas, umas e outras, as breves referências a Portugal e a portugueses em cartas escritas de Madrid, a carta escrita de Lisboa, e as diversas cartas sobre questões do movimento operário em Espanha, constituem uma base documental importante para o estudo dos primórdios da organização socialista na Península e da batalha de ideias que opõe discípulos de Proudhon a discípulos de Marx, os companheiros de Bakunine a partidários das posições defendidas por Marx e Engels.

 

A correspondência dos Lafargue para Friedrich Engels, na edição coligida, anotada e apresentada por Emile Bottigelli (1), constitui um conjunto de 606 cartas, fragmentos de cartas e telegramas, do qual só 25 cartas tinham sido publicadas. Dispomos, portanto, de uma vasta colecção da correspondência trocada entre Friedrich Engels e os seus jovens amigos e companheiros de combate, Laura Marx e Paul Lafargue, que abrange os anos de 1868 a 1895. A última carta de Engels, datada de 23 de Julho, escrita de Eastbourne a anunciar a partida para Londres, está ensombrada pela doença que o prostraria dias depois. Morreu, perdida a consciência, a 5 de Agosto de 1895.

 

Por sua morte os papéis pessoais, que não entraram na posse do Partido Social-Democrata da Alemanha, foram parar às mãos de duas das filhas de Marx: Laura Lafargue (1845-1911) e Eleanor Marx-Aveling (1855-1898). Jenny Marx (1844-1883), a segunda filha de Marx, que casara com o francês Charles Longuet, tinha já falecido. Encontravam-se, nesta parte do espólio de Engels, as cartas que Laura e Paul Lafargue lhe tinham endereçado e que este classificara e anotara. Com a morte de Laura e de Paul Lafargue em 1911, e porque não deixaram descendência, a correspondência passou para a posse dos descendentes de Charles Longuet, mas um núcleo, relativamente aos primórdios do movimento socialista na Península, o mais importante, no qual se encontravam as cartas dirigidas a Engels quando Laura e Paul estiveram em Espanha, durante alguns meses, e em Portugal, durante alguns dias, foi parar aos arquivos do Partido Social-Democrata alemão, onde, ainda em 1933, Gustav Meyer teve possibilidade de as consultar (2). O Partido Social-Democrata alemão sofreu as consequências da subida ao poder do nacional-socialismo. Os arquivos dispersaram-se. As 6 cartas de Engels e as 23 cartas de Lafargue estão em Amesterdão (IISG). O Instituto de Marxismo-Leninismo, em Moscovo, possui fotocópias. Na edição, organizada por Emile Bottigelli, constituem o suplemento do terceiro volume (3).

 

Sabemos, por uma carta de Engels, que em Fevereiro de 1871 ainda não existiam em Portugal secções da Associação Internacional dos Trabalhadores (4). Sabemos, por uma carta de Paul Lafargue, que, presumivelmente, em Abril de 1872 a Aliança de Democracia Socialista (5) se tinha constituído em Portugal, e que «os homens do pensamento Social» (6) eram «excelentes embora prudonianos» (7).

 

Designado, após o seu ingresso no Conselho Central da Associação Internacional dos Trabalhadores, correspondente para a Espanha (8), só durante a sua permanência na Península Paul Lafargue se envolverá, com o apaixonado empenho que o caracteriza, como militante do socialismo, na luta, no plano teórico e no plano da implantação organizativa, contra os partidários de Bakunine e os seguidores de Proudhon. Esta será a sua preocupação dominante de Outubro de 1871 a Agosto de 1872.

 

Paul Lafargue nasceu em Santiago de Cuba, era a ilha uma colónia espanhola, em 1842. Mas os pais, que acompanhou, instalaram-se em Bordéus, em 1851. A partir dos 9 anos, Paul Lafargue faz os seus estudos e a sua vida em França. Concluiu o curso secundário em Toulouse, em 1861, e seguirá em Paris o curso de Medicina, que será obrigado a interromper, em 1865, devido à sua participação no Congresso Internacional dos Estudantes, que teve lugar em Liège. O Congresso realizou-se de 29 de Outubro a 1 de Novembro de 1865 e a delegação francesa era constituída na sua maioria por «blanquistas». Em Bruxelas, Paul Lafargue e os seus companheiros puderam avistar-se com Louis-Auguste Blanqui, que somara ao seu renome de revolucionário radical um grande prestígio com a evasão, em 27 de Agosto de 1865, da prisão de Sainte-Pélagie, cerca do Jardin des Plantes, em Paris. Sobre Blanqui o jovem Paul Lafargue, em Abril de 1866, escreveu: «Foi, porque pude contemplar de perto esse terrível lutador que trinta anos de prisão ainda não tinham vencido e cujo coração e o espírito estão cheios do mais puro amor à revolução que sinto o meu ardor por ela aumentar e que estou decidido a servi-Ia toda a minha vida e por todos os meios» (9).

 

Integrado numa delegação constituída maioritariamente por blanquistas, Lafargue usou da palavra para pedir a supressão das fitas com as cores nacionais e a adopção de uma única cor, o vermelho. Esta proposta e ataques no Congresso à «ordem social» foram registados pelos serviços governamentais e policiais franceses (10), assim como o seu discurso no comício realizado no dia 3 de Novembro, em Bruxelas. No regresso a França, Lafargue, juntamente com quatro estudantes de Medicina e dois estudantes de Direito, foi expulso a 12 de Dezembro de 1865 da Universidade de Paris. Expulsão que, por decisão do Conselho de Instrução Pública, com data de 26 de Dezembro de 1865, se tornou extensiva, por um período de dois anos, a todas as universidades de França.

 

Paul Lafargue tinha 23 anos quando as universidades francesas lhe fecharam as portas. Em Fevereiro de 1866 encontra, em Londres, Charles Longuet (11), fala-lhe do desgosto da família, fortemente empenhada em que ele concluísse o curso de Medicina, e confessa ter sido a conclusão dos estudos a razão que o levara à capital inglesa. Mas Londres era, na época, a capital do movimento operário europeu, a sede do Conselho Central da Internacional. Lafargue, membro da «secção francesa» de Londres, como Longuet, entrou em contacto com Marx. Eram ambos fervorosos admiradores de Proudhon, o que Marx não deixou de notar. A sua filha Laura, futura esposa de Paul Lafargue, Marx fala, numa carta datada de 20 de Março de 1866 (12), com uma ponta de irritação, do prudonismo de Lafargue. E a Engels, numa carta de 7 de Junho desse ano, faz referência aos seus dois «muito bons amigos», Lafargue e Longuet, como «sectários de Proudhon» (13).

 

O encontro com Marx deixará a Paul Lafargue uma profunda impressão. Numa página de memórias registará: «Durante toda a minha vida, não esquecerei a impressão que me causou esta primeira visita» (14). Na sessão de 6 de Março do Conselho Central da Associação Internacional dos Trabalhadores o «cidadão» Dupont, apoiado por Jung, propõe «a eleição do cidadão Lafargue, um dos estudantes excluídos de Paris, como membro do Conselho Central». A acta da sessão dá-nos conhecimento de que o proposto obteve unanimidade na votação (15). Apesar do seu prudonismo, Lafargue será um dos foreign secretaries (secretários estrangeiros) convocados por Marx, para uma reunião que terá lugar em sua casa, no sábado, 10 de Março de 1866. Reunião na qual foi decidido que Karl Marx assistiria, na terça-feira, 13 de Março de 1866, à reunião do Conselho Central, na qual, em nome de todos os secretários estrangeiros, protestaria contra as decisões da anterior sessão do Conselho Central da Internacional (16). Travava-se então, no seio da Associação Internacional dos Trabalhadóres, a luta contra Mazzini, e ao seu correspondente Friedrich Engels Marx explica que o expediente do último Conselho Central da AlT está ferido de nulidade, porquanto Wolff (17), o porta-voz eventual de Mazzini, deixara de ser «membro do Conselho» e, dada essa circunstância, nenhuma resolução teria podido ser adoptada na sua presença. Marx considerou-se obrigado a explicar a «situação de Mazzini» em relação à AlT e aos «continental working's men parties» (18).

 

Em Junho desse mesmo ano de 1866, Marx escreve ao «querido Frederico» e lamenta a existência de uma «clique proudhonienne» entre os estudantes de Paris, organizada em torno de Le Courrier français (19). Com essa «dique proudhonienne» relaciona os seus «muito bons amigos de aqui [Londres] Lafargue e Longuet», que considera «sectários de Proudhon» (20). Mas dois dias depois, a 9 de Junho, Marx mostra-se impressionado com uma opinião de Lafargue, o que é indicativo de uma convivência que se ia estreitando, e consulta Engels: «A propósito, Lafargue diz-me que toda a nova escola de filosofia microscópica, com Robin (21) à cabeça, se pronuncia contra Pasteur (22), Huxley (23) etc., e pela generatio equivoca. Vai comunicar-me algumas publicações recentes sobre este assunto.» (24).

 

A convivência com Marx em Londres, a avaliarmos pela sua colaboração no jornal La Rive Gauche, vai exercendo no jovem Paul Lafargue uma influência doutrinária que o leva a distanciar-se de Proudhon. Como nota Jacques Girault, em Julho de 1866, num artigo intitulado «La Lutte sociale», pela primeira vez Lafargue se refere a Marx (25). Cita extractos de Miséria da Filosofia, texto polémico antiprudoniano, que encaminham à conclusão: «A luta de classe é, portanto, uma das condições do movimento histórico.» Na correspondência entre Marx e Engels encontramos eco dessas relações, que, tornando-se frequentes e amistosas, ganhando intimidade, se iniciam como um confronto de opiniões. O próprio Lafargue, em páginas de memórias, fixará as suas impressões desse convívio e deixará um directo testemunho da influência que sobre ele Marx exerceu (26). Passemos-lhe a palavra: «Durante anos, acompanhei-o nos seus passeios da tarde a Hampstead Heath; foi no decorrer dessas marchas através das pradarias que ele fez a minha educação económica [...] normalmente, quando regressava a casa, tomava nota, o melhor que me era possível, do que acabava de ouvir [...]. Infelizmente, perdi essas preciosas notas; após a Comuna, a polícia pilhou os meus papéis em Paris e em Bordéus.». E acrescenta: «Trabalhei com Marx; era apenas o secretário a quem ele ditava, mas nesse trabalho tive ocasião de observar a sua maneira de pensar e de escrever.»

 

Frequentador do domicílio londrino de Marx a curto prazo, e apesar do magistério intelectual do economista, do pensador e do dirigente do movimento operário, Lafargue encontra outros motivos de atracção. Laura, filha de Marx, passa a ser o objecto das suas visitas. A 7 de Agosto de 1866, ao amigo e confidente Friedrich Engels, Marx escreve: «Desde ontem Laura está quase noiva do sr. Lafargue [...].» (27) E reconhecia, com certa dose de ironia, que: «O jovem primeiro ligou-se a mim, mas depressa transferiu a atracção do pai para a filha.» Recordava a Engels a expulsão, por dois anos, da Universidade de Paris e informava-o da intenção de prestar provas em Estrasburgo, precisando: «Em minha opinião, ele tem um talento extraordinário para a Medicina [...].»

 

Marx interessa-se pela conclusão do curso de Paul Lafargue e faz diligências para que ele tenha acesso à prática nos hospitais de Londres (28), inquieta-se, todavia, com os aspectos sentimentais e materiais do noivado com sua filha Laura. Não vem a propósito referir aqui o teor da carta a Paul Lafargue de 13 de Agosto de 1866 (29). Ao amigo íntimo Engels, Marx escreve a 23 de Agosto: «O assunto Lafargue está arrumado na medida em que o seu velho me escreveu de Bordéus [...].» (30) Nesta arrumação do assunto, além de garantias económicas prestadas pelo pai Lafargue, estabelecia-se que o jovem faria exames finais em Londres e revalidaria o seu título em Paris, antes do casamento. À sua filha Jenny, então em Hastings, escreve Marx, tratando Lafargue com ironia e reprovando-lhe as maneiras, mas confessando: «Honestamente, devo dizer que gosto muito deste rapaz.» (31) Esta simpatia não exclui discussões, atritos, cóleras de Marx. A combatividade e propensão polémica de Lafargue parecem-lhe, por vezes, excessivas (32). A actividade política de Paul prossegue sob o olhar crítico de Karl Marx. O noivado com Laura, também. Cerca de dois anos depois de se terem conhecido, no dia 2 de Abril de 1868, casavam, e nessa mesma noite partiam para Paris. Regressam a Londres. Só em Julho de 1868, Paul Lafargue concluiu o curso de Medicina.

 

Desde Março de 1866, Lafargue é membro do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores (AlT). Admitido como membro do Conselho Geral na sessão de 6 de Março por proposta do cidadão DuPont (33), apoiada pelo cidadão Jung (34), designado por intervenção desses mesmos proponente e apoiante, na sessão de 27 de Março, secretário-correspondente para a Espanha. Mas, apesar de investido nessa qualidade, e da repartição geográfica que ela implicava, manter-se-á a par da situação e dos trabalhos da AlT em França e da secção francesa de Londres (35). As actas do Conselho Geral durante os anos de 1866, de 1867 e de 1868 não revelam a existência de relações seguidas e frutuosas com os operários espanhóis. Na sessão de 14 de Novembro de 1865, o  secretário para a França, Eugène Dupont, informara que «o centro de Paris» (sic) estava «em correspondência com os democratas espanhóis» (36). Não é certo que essas relações epistolares tenham sido transferidas para Londres, porquanto em 1866, na sessão de 20 de Março do Conselho Central (37), Jung comunicou que Cesare Orsini (38), antes de partir para a América, deixaria «cartas de recomendação para os líderes socialistas de Espanha, de Portugal e de Itália» (39). Na sessão seguinte do Conselho, Lafargue seria nomeado secretário para a Espanha. Nessa nomeação - diz Jacques Girault (40) - terá pesado o seu conhecimento do idioma espanhol. Mas detenhamo-nos na frase extractada das actas: é a primeira alusão a líderes socialistas de Espanha e de Portugal nos registos das sessões do Conselho Geral. Referente ao primeiro trimestre de 1866 e ao movimento operário sob a égide da AlT, que significado lhe devemos atribuir?

 

Segundo Anselmo Lorenzo (41), o militante operário espanhol, em 1866 leitor de Pi y Margall, Fourier e Proudhon, as primeiras reuniões em que se falou de organizar a Internacional teriam tido lugar em Madrid nos inícios do último trimestre de 1868 (42). O emissário José Fanelli, deputado italiano, era um colaborador de Bakunine, e, juntamente com o Manifesto de Marx e os estatutos da AlT, era portador dos estatutos da Aliança da Democracia Socialista. Como viria a suceder em Portugal, a Internacional dava os seus primeiros passos em Espanha, na confusão das duas intenções organizativas diferenciadas, mais tarde opostas e rivais.

 

E legítimo supor que durante o ano de 1869, quer os esforços do «secretário para a Espanha» quer qualquer outra iniciativa não terão atingido resultados positivos, porquanto em Dezembro de 1870, de Barcelona, uma comissão designada pelo Congresso da Região Espanhola envia um apelo «aos trabalhadores de Portugal» em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores (43). Nesse apelo faz-se alusão clara à circunstância de ainda não existir, em Portugal, uma organização paralela: «Em Espanha já temos algo adiantado, não deixeis vós outros de nos acompanhar, trabalhadores de Portugal.» O apelo visa uma participação dos trabalhadores portugueses no próximo congresso internacional operário. A linguagem deste «Llamamiento a los trabajadores de Portugal» reflecte, na interpretação histórica da diversidade e da unidade peninsulares, e nas alusões ao princípio associativo e à diligência federativa, a influência doutrinária de um Pi y Margall, de um Fourier, de um Proudhon. Os operários de Espanha e de Portugal não consta que tenham estreitado contactos à voz desta proclamação. Quando, em 1871, os membros do Conselho Geral espanhol se refugiam em Lisboa, durante algum tempo (44), é evidente que não existia uma relação orgânica entre os socialistas espanhóis e portugueses. Só então - das conversações de Fontana e Antero com os internacionalistas espanhóis (45) - a AlT surge em Portugal, e, com ela, a sua sombra bakuninista, a Aliança da Democracia Socialista (46). O testemunho de Anselmo Lorenzo (47) é categórico para concluirmos da inexistência em Portugal de organização da Aliança Internacional dos Trabalhadores - ou da Aliança da Democracia Socialista - em Junho de 1871. A corroborá-lo o depoimento de um socialista português: Nobre França (48).

 

Não se esqueça, por outro lado, que em 1867 e 1868, Paul Lafargue vai afirmar-se como dirigente da Internacional, e vai distanciar-se de Proudhon, daquele Proudhon a quem a um ano de distância da sua morte, ainda em Abril de 1866, num artigo de La Rive Gauche, chamaria de «nosso mestre bem amado». Para a evolução doutrinária de Lafargue, os anos de 1867 e de 1868 são decisivos. Nesses anos também, altera-se, em parte como consequência da repressão, a composição dos organismos franceses da Internacional. Aos prudonianos intransigentes (como Tolain) sucedem-se os prudonianos que não recusam a actividade internacionalista e as lutas de classe (um Varlin, um Bourdon, um Malon). O recuo da influência de Proudhon deixa um campo aberto à influência de Marx. Não é de excluir que tenha sido o próprio Karl Marx a sugerir ao genro, concluído o curso, que transferisse para França o seu campo de acção. Lafargue, em Dezembro de 1868, passa a residir em Paris. Envolve-se na polémica contra os prudonianos, reconhecendo a Varlin capacidade de organizador. Em Janeiro de 1870 é colaborador do jornal La Libre Pensée, dirigido por Henri Verlet (49), e participa no trabalho de rectificação da tradução francesa dos estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores, cuja versão primitiva tinha sido «adoçada» pelos tradutores prudonianos no que respeitava à luta política da classe operária (50). Em Maio de 1869, comunica a Marx que vai publicar um artigo contra Proudhon (51). Entrega-se ao trabalho político de organização e ao combate aos seguidores de Proudhon. A divulgação das posições de Bakunine preocupa-o. Reencontra Blanqui. Escreve, estuda Victor Hugo. Em Abril de 1870, a luta contra os prudonianos e contra a herança doutrinária de Proudhon está no auge. Por todas as razões, a ausência, o empenhamento na situação francesa, o lugar de «secretário para a Espanha» no Conselho Geral da Internacional estava vago. Em Outubro de 1870, Friedrich Engels foi eleito membro do Conselho Geral e designado «secretário correspondente» para a Bélgica, para a Espanha, para Portugal, para a Itália e para a Dinamarca (52).

 

 

Excede o nosso objecto acompanhar a actividade de Paul Lafargue em França e as circunstâncias da sua vida familiar. Razões familiares podem explicar que tenha trocado Paris por Bordéus; razões políticas vão converter a cidade que ele bem conhecia num palco de acção, sede, em virtude dos acontecimentos de Paris, do governo e da nova assembleia. Lafargue mergulha nos acontecimentos. Corresponde-se regularmente com Marx. Exerce (em Bordéus) o cargo de secretário da secção local da Associação Internacional dos Trabalhadores. No jornal La Tribune de Bordeaux, de que é o orientador, publica notícias de Paris, as decisões da Commune e os comunicados do governo de Versailles. Na realidade - como refere Jacques Girault (53) - nos editoriais define-se uma opção: «Les journaux monarchistes et même républicains calomnient le mouvement de Paris. Combattons l'erreur, pour ne pas avoir à combattre les hommes.»

 

Da sua participação nos acontecimentos, em Bordéus e em Paris, onde há notícia da sua presença em Abril, não nos propomos dar relato. Confundidas que andam a história e as interpretações, as notícias da imprensa, os ecos da tradição da luta operária, os elementos compilados na sua correspondência, os dados dos inquéritos policiais, sabemos que Lafargue esteve no centro dos acontecimentos ocorridos em Bordéus. Habilmente se adaptou ao ambiente prudoniano de Bordéus. Reorganiza a secção da Associação Internacional dos Trabalhadores. Jacques Girault observa que ele comporta-se mais como homem de acção do que como representante de uma tendência da Internacional (54). As autoridades policiais atribuem-lhe mais responsabilidades no recrutamento de aderentes para a Internacional do que na agitação concreta. Mas a sua correspondência é vigiada. O cerco aperta-se. Em Junho de 1871, sai de Bordéus, instala-se em Saint-Gaudens, depois em Bagnères-de-Luchon, nos Pirenéus, com a mulher, os dois filhos, as cunhadas. O prefeito de Haut-Garonne toma a decisão de o prender. Lafargue teve a intuição do perigo ou foi avisado. Na manhã de 4 de Agosto, com a família, atravessou a fronteira. No dia 11 de Agosto é preso em Huesca. Posto em liberdade, apesar de diligências do governo de Thiers, reúne-se à família em San Sebastian. E é da cidade da costa do Cantábrico que escreve a Engels, a 2 de Outubro de 1871, após ter estabelecido contactos com membros do Conselho Federal espanhol, em Madrid, e de se ter avistado com Pi y Margail (55).

 

Logo nesta carta, na qual confessa uma grande admiração pelos trabalhadores espanhóis («[...] je puis dire que jamais je n'avais rencontré une réunion d'ouvriers si intelligents et si instruits; leur instruction contrastait grandement avec l'ignorance de Ia bourgeoisie espanole [...]»), Lafargue considera que «le grand malheur de l'Espagne ce sont les sociétés secrétes. Lorenzo a dû vous en parler, c'est l'obstacle le plus sérieux que rencontre l'Internationale dans sa propagande». E Lafargue revelaria a Engels, ao distante «correspondente para a Espanha», que era «em Espanha que se podia constatar a influência de Bakunine». Referência que fundamentava, afirmando: «É ele que inoculou nos homens de aqui não se ocuparem com a política.»

 

Segundo Paul Lafargue (56), regressavam a Espanha trabalhadores vindos da Suíça, filiados na Aliança (57), e que estavam persuadidos de que fora Bakunine quem introduzira o «comunismo» na Internacional «sob o nome de colectivismo» (58).

 

Em Novembro (dia 24), Friedrich Engels agradece a Paul Lafargue a carta «de que fizera bom uso no Conselho» (59) e anunciava-lhe que enviara um ultimatum ao Conselho Federal de Madrid, «em carta registada», na qual lhe dizia que se prosseguisse o seu silêncio «debemos proceder como nos lo dictará el interés de Ia International» (60). No caso de a esta carta - apoiamo-nos no texto de Engels - não ser dada resposta satisfatória, Engels anuncia a Lafargue a intenção de lhe serem atribuídos «plenos poderes para toda a Espanha» (61). Mas - recorda Engels ao seu jovem amigo Lafargue - que enquanto o Conselho Federal de Madrid não respondesse, que ele «como qualquer outro membro [da Internacional] tinha direito, pelos nossos estatutos, de formar novas secções». Engels, alertado por Lafargue, ou informado em consequência da sua qualidade de secretário-correspondente para a Espanha e Portugal, admitia a eventualidade de uma cisão na Península e preocupava-se com a constituição de «secções» - seguidoras da orientação traçada por Marx - para que, «em caso de cisão, nós tenhamos sempre um pé implantado em Espanha, mesmo se toda a organização actual desertar com armas e bagagens para o campo bakuninista» (62). Para essa diligência, considerava Engels, em Novembro de 1871, que só poderiam contar com Lafargue. E na sua preocupação, pedindo-lhe que estabelecesse e mantivesse relações com a Espanha, Engels declarava: «Esses bakuninistas querem absolutamente transformar a Internacional numa sociedade abstencionista, mas não o conseguirão.» (63)

 

Esta questão do abstencionismo será, até à resolução tomada em Setembro de 1872, no Congresso de Haia, uma opção crucial. E subsistirá em Portugal até ao final do século XIX e nos primeiros anos do século XX, como uma linha divisória, a separar, profundamente, duas alas do movimento operário. Em Portugal o abstencionismo será a posição doutrinária adoptada, em 1871 - na versatilidade das opiniões é necessário datá-las e referi-Ias a um contexto epocal -, pelos aderentes da Internacional entre nós. No opúsculo O Que é a Internacional? (64), de que é autor Antero de Quental, afirma-se: «O programa político das classes trabalhadoras, segundo o Socialismo, cifra-se em uma só palavra: abstenção.»

 

Luta contra Mazzini, luta contra Proudhon, luta contra Bakunine em Espanha, como reflexo das batalhas que se travam na Inglaterra, na França, na Bélgica, na Suíça, em Itália. As repercussões dessas lutas chegam a Portugal e preocupam o «internacionalista» exilado Paul Lafargue, ex-secretário para a Espanha, e o secretário nomeado para a Espanha e para Portugal, Friedrich Engels. As questões organizativas e os problemas de influência pessoal radicam, na Península, por reflexo de uma luta que excede as fronteiras peninsulares, na disputa teórica que definirá duas estratégias opostas do socialismo e diferenciadoras de duas correntes do movimento operário.

 

Na segunda quinzena de Outubro de 1871, Laura e Paul Lafargue estão em Madrid. Na carta datada de 23 de Outubro, dirigida a Engels, Lafargue indica: «Escrevei para a federação»; na carta de 26 de Outubro, menciona: «Escrevei para casa de Mora» (65). A correspondência trocada com Friedrich Engels dá-nos conta dos progressos da Internacional e dos dissídios que a minam. Em particular, da luta, em Espanha, contra os aderentes da Aliança e a influência doutrinária de Bakunine. Na carta endereçada a Engels, de Madrid, a 7 de Janeiro de 1872, refere-se Lafargue aos três membros do «Conselho local madrileno» - e logo rectifica: «Conselho "regional”» - que, para escaparem a perseguições, tiveram que se refugiar em Lisboa: Morago, Mora e Lorenzo (66). Escreve Lafargue: «Estes três homens que estavam unidos pelos laços da mais estreita amizade trabalharam muito em Portugal, pode mesmo dizer-se que foram eles que lá fundaram a Internacional.» (67)

 

Propomo-nos reter esta primeira referência à constituição da Internacional no nosso país, e deixarmos, porque distintas do nosso presente objecto, as interessantes referências de Lafargue às querelas entre Mora e Morago, à acção de Lorenzo, e outras questões do movimento operário em Espanha. Não esqueçamos, porém, que Morago, «homem de muito talento e poderoso orador», na opinião de Lafargue, foi dos três «internacionalistas» espanhóis o que mais tempo permaneceu em Portugal e que ele era «membro da Aliança» (68). Mas não nos embrenhemos na floresta das questões relativas à Espanha se queremos alcançar o que se passava em Lisboa, nesses primeiros anos da década de 70, e procurar entender como os problemas do nosso incipiente movimento operário e os primeiros passos autónomos da organização socialista encontram reflexo e notícia na correspondência de Lafargue e Engels.

 

Permitimo-nos insistir: as cartas escritas de Madrid a Engels, por Paul Lafargue, versam predominantemente as questões da Internacional em Espanha. As referências a Portugal são acessórias. A luta no plano teórico, essa, sim, interessa ao conjunto peninsular. Pela correspondência publicada vemos Lafargue engajado na luta contra a Aliança, contra Bakunine, contra o abstencionismo político do movimento operário. Em Espanha, Lafargue não se limita a transmitir opiniões e a veicular uma orientação, tem uma atitude de militante, participa, intervém, colabora na imprensa operária. Essa colaboração na imprensa teria chegado a Portugal. Em Fevereiro de 1872, no primeiro número de O Pensamento Social, foi publicado um artigo atribuído por Nobre França a Lafargue (69), autoria esta que a correspondência do genro de Marx com Engels não permite confirmar como sendo, pelo menos, o «primeiro artigo». Numa carta escrita a 27 de Abril de 1872 encontramos a seguinte referência: «Parece que a Aliança se formou em Portugal, e que os homens do Pensamento Social, homens excelentes embora prudonianos, têm muita dificuldade em lutar contra. Estou em comunicação com eles, nas minhas cartas privadas ataquei Bakunine e Proudhon.» E socorrendo-se de uma tradução espanhola feita por José Mesa (70), de um capítulo, da Miséria da Filosofia (71) sobre a «teoria da luta de classes», escreve para Portugal uma «longa carta» e envia «um artigo sobre a luta de classes» (72).

 

No mês seguinte, Lafargue, de Madrid, volta a referir-se a Portugal numa carta para Friedrich Engels. A luta contra a Aliança passa da polémica doutrinária e de intriga organizativa para os ataques pessoais e as denúncias tendenciosas. Paul Lafargue transcreve uma carta dirigida a um jornal socialista na qual se queixa dos «homens que, pelas suas intrigas subterrâneas em Barcelona, em Madrid, e noutras cidades da Espanha e mesmo de Portugal, quiseram desorganizar a Internacional [...]» (73).

 

A 29 de Maio de 1872, numa carta para Engels, Lafargue faz referência à sua intenção de passar por Lisboa «antes de deixar o continente». Uma correspondência endereçada de Portugal - Lafargue não se refere por quem, por que organismo ou pessoa - ao «Conselho Federal» espanhol dava conta, em termos críticos, de dificuldades semelhantes às que se verificavam em Espanha nas relações entre a Internacional e a Aliança. Daí que Lafargue anunciasse o propósito de recolher, em Lisboa, «detalhes circunstanciados». E, nessa mesma carta, Lafargue adverte: «A propósito do Pensamento Social de Lisboa, esquecia-me de vos dizer que o primeiro artigo do primeiro número não é meu, mas de um chamado Tedeschi, ou Quintal (sic), um rapaz muito inteligente e muito dedicado. Em Portugal eles são muito inteligentes apesar do seu prudonismo.» (74)

 

Surpreender-se-á o leitor contemporâneo com esta identificação confusa do professor primário José Tedeschi e do poeta Antero de Quental, mas mesmo que, como informa Nobre França a Engels (75), um texto de Lafargue tenha sido publicado no primeiro número de O Pensamento Social, esse artigo não era o editorial, o «primeiro artigo». À fé da carta citada de Nobre França, tanto Quental como Tedeschi colaboraram no primeiro número. Lafargue teve colaboração sua publicada no jornal socialista português. E nessa colaboração, como no que escreve para os jornais operários de Espanha, preocupa-se com esclarecer e refutar pontos doutrinais concernentes a ideias de Proudhon e de Bakunine. A Engels escreve: «Tereis lido o curioso artigo de um dos números precedentes, no qual, a propósito dos impostos que pesam sobre a propriedade agrária, era exposta e explicada a luta de classes.» Referia-se ao artigo intitulado: «A propriedade agrícola e o imposto», publicado no número de O Pensamento Social de 11 de Maio de 1872. Na mesma carta recomenda a Engels a leitura do artigo «consagrado à organização», publicado no número 3 de O Pensamento Social.

 

A 2 de Junho, Lafargue comunica a Engels que, como lhe anunciava na carta de 29 de Maio, membros espanhóis da Aliança tinham redigido uma «circular» que punha termo à actividade da secção bakuninista de Madrid. À secção da Aliança de Lisboa é dirigida a «circular» que Lafargue transcreve. Não sabemos se outras foram enviadas e a que destinatários. Esta, dirigida à «Secção da A... de Lisboa», participa que: «La sección de Ia A... de Madrid ha resuelto disolverse y al proprio tiempo os aconseja que hajais vosotros lo mismo, porque en nuestro concepto asi conviene a Ia Causa del proletariado [...].» E da sua leitura poderá concluir-se que entre Madrid e Lisboa, e a propósito da Aliança, circulava correspondência. Com efeito, ao alegarem as razões que determinavam a sua atitude, os espanhóis, membros do anterior conselho regional (Angel Mora, Francisco Mora, Mesa, Calleja, Saenz, Pauly, Iglesias, Pagés) e o membro da federação madrilena (Castillon) referem que a Aliança, em Madrid, «deixara de ser um segredo como sabeis pela circular que vos dirigimos no mês de Fevereiro último».

 

Perdido o carácter secreto, batidos no Congresso de Saragoça, não tendo conseguido pôr em prática o esquema organizativo aprovado no Congresso de Valência, os partidários da Aliança atribuíam, numa parte importante, os seus desaires à «influência do genro de Karl Marx» (76). E os signatários da «Circular» esclareciam a sua posição: «Nós cremos que o pensamento revolucionário que nos levou a fazer parte da Aliança poderemos realizá-lo amplamente dentro da nossa grande organização operária.» Era uma vitória para Lafargue, uma vantagem para a Associação Internacional dos Trabalhadores. Mas a luta continuava, no plano da organização, no plano ideológico, seguindo um percurso tortuoso e contraditório de ataques, contra-ataques, denúncias, rupturas.

 

Numa carta sem data, que a anotação, da mão de Engels, situa em meados de Julho de 1872, Lafargue queixa-se das «proporções consideráveis» que a questão da Aliança atingia em Madrid, revela preocupações quanto à designação dos aliados como delegados ao Congresso (de Haia) e anuncia a próxima partida: «Nós partiremos para Lisboa esta semana; tomaremos o barco para o Norte, eu irei ao Congresso.» (77)

 

A carta seguinte é já escrita de Lisboa. Tem a data de 8 de Agosto de 1872 (78) e informa o «caro Engels» que: «Há oito dias, Laura e eu estamos em Portugal [...].» É uma carta convencional de viajantes que descobrem em Portugal, vencida a tórrida meseta, um país de suave clima e gentes amáveis, e é uma carta política.

 

Sob o ponto de vista linguístico, a comunicação é fácil: «Le Portugais se raprochant beaucoup de I'Espagnol, Laura et moi nous leur parlons espagnol, et ils nous parlent portugais [...].» Pelos portugueses eram acolhidos amistosamente e encontravam os seus interlocutores de Lisboa numa disposição favorável, hostis à Aliança. Escreve Lafargue: «Os internacionalistas portugueses principiaram por ser aliancistas antes de serem internacionais. Tedeschi dizia-me que tinham considerado a Aliança como um ponto para chegar à Internacional. Morago, para poder dominar em Portugal, tinha constituído aqui um grupo dos piores contra estes homens; daí vem o seu ódio contra a Aliança.» Mas, segundo Lafargue, os socialistas portugueses tinham tido clara consciência da intriga bakuninista e teriam resolvido «nada publicar contra o Conselho Geral» (da Internacional). Uma carta do próprio Miguel Bakunine tinha chegado a Lisboa, na qual o Conselho Geral da AlT era atacado; Paul Lafargue não a vira, mas garantia a Friedrich Engels que faria o possível para que a carta lhe fosse enviada, no conhecimento de que, por essa altura, ele estava a reunir documentação contra a Aliança para ser presente ao Congresso de Haia.

 

E é sobre o Congresso, para assistir ao qual fazia caminho por Lisboa com sua esposa Laura Marx, que Lafargue comunica a Engels: «De Portugal não poderão enviar um delegado; mas eu aconselhei-os a enviar uma aprovação do plano de organização publicado por La Emancipación e a enviar ao mesmo tempo um pedido de dissolução da Aliança, de expulsão de todos os seus membros; mas com a faculdade para todos os seus membros de reentrar na Internacional após terem feito uma declaração pública contra a Aliança e após terem prometido nunca mais fazerem parte de uma sociedade secreta. É a mesma proposta que La Emancipación (79) vai fazer [...].» Era uma saída astuciosa para o problema em Portugal e em Espanha, as estruturas secretas da Aliança duplicando, ou sendo subjacentes, às organizações da Internacional, o que criara casos múltiplos de dupla filiação sem uma clara consciência do antagonismo ideológico e da conflituosidade de dois distintos projectos de internacionalismo operário, a comum hostilidade à influência da Mazzini contribuindo para a não discriminação da diversidade dos propósitos.

 

Dos seus primeiros contactos em Lisboa, Lafargue anotava que a «questão política» - «uma política palaciana», segundo os socialistas portugueses - embaraçava o movimento operário. Era uma síntese da sua observação pessoal e das informações que recolhera que transmitia para Londres: «Na Internacional há alguns bem falantes que sonham com a deputação e a formação no Parlamento de um partido socialista e estes homens só quereriam utilizar a Internacional para os seus fins pessoais; por causa disso os melhores elementos de aqui opuseram-se a toda a acção política antes da constituição da classe operária. Não podendo a Internacional ser pública, eles ocuparam-se de organizar as sociedades de resistência, o que desagradou muito aos políticos, e por isso eu escrevi no Pensamento um artigo intitulado "A Solidariedade Operária" (80) que lhes agradou muito [...].»

 

A referência concreta a mais um artigo de Paul Lafargue que o semanário socialista português O Pensamento Social publicaria depara-se-nos antecedida de informações relevantes para a compreensão dos primeiros passos da organização socialista. Só da prática do movimento operário de classe poderia surgir a «constituição da classe operária» - o escrito de José Fontana O Quarto Estado, não está distante desta doutrina —; só da «constituição da classe operária» poderiam resultar as condições de afirmação e de desenvolvimento do movimento dos trabalhadores e o seu partido de classe. Esta concepção, que na crítica a um socialismo de matriz parlamentar encontrarmos implícita, só em parte explica a organização das «sociedades de resistência» porque estas, entre nós, surgiram como resposta a uma necessidade de solidariedade operária no caso de greves para as quais o Centro Promotor de Melhoramentos da Classe Laboriosa (81) não tinha capacidade de apoio. Há que admitir, porém, que este aspecto da necessidade de organizar uma solidariedade concreta aos trabalhadores em greve não invalida que a organização de «sociedades de resistência» se revestisse de outros objectivos e, entre eles, o de contrariar o «abstencionismo» que se pretendia incutir ao movimento operário. Este é um ponto importante e que pode constituir explicação para o facto de, apesar de prudonianos pela formação ideológica e de terem sido recrutados para as estruturas secretas da Aliança, os «internacionais» portugueses, ou deles uma parte, terem procurado outras formas de organização. Não se esqueça, por outro lado, que, em Portugal, não era legal a existência da Associação Internacional dos Trabalhadores e que as suas secções tinham de defender-se com o secretismo. «L'Internationale ne pouvant être publique [...]», recorda Lafargue na carta a Engels. Circunstância esta que, não só em Portugal como no âmbito peninsular, terá contribuído para a confusão de actividades e de intenções entre a AlT e a Aliança.

 

Da carta de Lafargue depreende-se, igualmente, que, mesmo antes da histórica resolução do Congresso de Haia, os «internacionais» portugueses propendiam para «constituir o seu partido político», apesar do prudonismo prevalecente. Não podemos interpretar de outro modo o pedido de Lafargue a Engels: «Le Parti démocrate-socialiste allemand les tracasse beaucoup ici, et les politiques, pour les combattre, leur citent toujours ce parti; je leur ai dit que je vous demanderais un historique de l'organisation de ce parti qui pourra leur servir d'exemple pour constituer leur parti politique; je dirai à Mesa de traduire ces articles pour La Emancipación, ce qui fait qu'avec eux on pourra donner une marche à l'Internationale de Ia Péninsule.» Voluntarioso e pragmático, Paul Lafargue concebe de imediato a divulgação pampeninsular do texto de Engels. Tratava-se, mesmo antes da resolução de Haia, de ganhar no espaço peninsular a batalha da constituição do «partido político». Em Portugal, à luz desta carta, parece não ser grande a resistência à ideia. Tenhamos presente, porém, que Lafargue é um voluntarioso, que algumas vezes, nas suas apreciações, confunde a realidade e os seus desejos. O opúsculo, redigido por Antero, O Que é a Internacional? fora publicado no ano anterior, a sua conclusão favorável ao abstencionismo político não estaria esquecida. A fundação do «partido político» vai arrastar-se durante três anos, até Janeiro de 1875. Mas, surpreendentemente, nela veremos interveniente e solidário, o teorizador da posição anti-partidária, o abstencionista Antero.

 

Vimos que foi breve a fase prudonista de Paul Lafargue, breve foi, também, no que ao rigor do abstencionismo político se refere o prudonismo do nosso Antero e o dos outros «homens excelentes embora prudonianos» de que Lafargue falava a Engels, na carta de 27 de Abril. A preocupação da acção política desenhava-se já, nítida, se tomarmos à letra o testemunho de Lafargue; não consideremos, todavia, este ponto arrumado. No mesmo ano (1875) em que dá a sua contribuição pessoal para a fundação do Partido Socialista, Antero abona com uma definição de Proudhon uma página crítica em defesa do seu entendimento da verdadeira Revolução. Citamos: «Por isso que a Revolução é uma grande realidade, é que se não é revolucionário senão no terreno das realidades, no terreno da observação e da ciência, naquele ponto de vista objectivo, que Proudhon tão bem definiu em duas palavras - des reformes toujours, des utopies jamais - e que ele (sempre que era verdadeiramente Proudhon) soube como ninguém pôr em prática. Fora de isto haverá mártires, das suas próprias ilusões, haverá tudo quanto quiserem - menos revolucionários.» (82) Esta teórica admiração que Antero dedica a Proudhon será recordada, com algum distanciamento crítico, na carta a Wilhelm Storck, doze anos depois, em Maio de 1887. Então Antero interroga-se: «Como acomodava eu este culto pelas doutrinas do apologista do Estado prussiano (Hegel), com o radicalismo e o socialismo de Michelet, Quinet e Proudhon? Mistérios da incoerência da mocidade!» (83) Não nos ocupemos em verificar essa «incoerência da mocidade», registemos, sim, a inconsistência do prudonismo de um Lafargue, de um Antero. O francês cairia facilmente sob a influência de Marx; o português do abstencionismo passará, sem dificuldade, à apologia da decisão de constituir o «partido político» da classe operária e participará nas diligências de Janeiro de 1875, com José Fontana (84), com Nobre França (85), com Azedo Gneco (86).

 

Como sabemos, Paul Lafargue está em Lisboa, no mês de Agosto de 1872, a caminho de Haia. Os aderentes portugueses não tinham possibilidade de enviar um delegado ao Congresso da Internacional. Lafargue confidencia a Engels que vai sugerir-lhes enviarem ao seu correspondente londrino «os poderes» para representar os portugueses no Congresso, adiantando, subtilmente, que mais valia Engels participar no Congresso «como delegado de Portugal do que como membro do Conselho». Nada acrescenta, porém, sobre o acolhimento que teve a sua proposta. No Congresso de Haia, Portugal estará representado por Paul Lafargue e este será portador de uma «Memória» descritiva da situação organizativa da «Associação Fraternidade Operária», firmada pelo secretário José Fontana (87).

 

Uma carta de Nobre França a Engels (88), com data de 23 de Agosto, faz referência à representação portuguesa no Congresso de Haia nos seguintes termos: «Comunicamos que aproveitámos a estada aqui de M. Lafargue para o convidar a representar a Internacional Portuguesa no Congresso Geral. Prestou-nos um excelente serviço aceitando.» E Nobre França vai adiantando a Engels, secretário-correspondente do Conselho Geral para Portugal, que: «As nossas opiniões sobre os efeitos gerais da Aliança vão expressas na proposta que vos remetemos, que é a substância do que se disse em sessão a seu respeito. Se entenderdes conveniente apresentar a proposta ao congresso ela poderia ser mais bem formulada e considerada.» E, noutro passo desta mesma carta, Nobre França alude a reuniões promovidas no seio das «associações de resistência» nas quais se tinham verificado «manifestações significativas a respeito do Congresso de Haia».

 

Na sessão de 5 de Setembro, do Congresso da Internacional, Paul Lafargue, na discussão geral, invocou «o seu mandato de Lisboa» (89) e na 12.ª sessão, a 7 de Setembro, apresentou uma proposta: «Em nome da Federação de Portugal e da nova Federação de Madrid», que será transcrita no número 26 de O Pensamento Social. A luta contra os aliancistas dominou as sessões do Congresso e nela o delegado de Portugal, instruído pela sua longa experiência madrilena e pela breve experiência lisboeta, se empenhou a fundo. E não deixou de comunicar ao Conselho da Federação local de Lisboa os resultados do Congresso. Com efeito, com a data de 17 de Setembro, Nobre França escreve ao «cidadão» Engels: «Pelo nosso delegado recebemos notícias do Congresso e sabemos com pesar que não fostes eleito.» (90)

 

Pesarosos pela não eleição de Friedrich Engels para o Conselho Geral da AlT, concordantes com as decisões de Haia, os socialistas portugueses vão, apoiados nas secções da Fraternidade Operária, ultrapassar o secretismo da Internacional e da Aliança. Luís de Figueiredo, citado por César Nogueira (91), sobre as relações internacionais dos socialistas portugueses, escreveu: «No Congresso de Haia, em 1872, já os operários socialistas portugueses se fizeram representar por Paul Lafargue, que, vindo a Lisboa, se relacionara com o conselho da Internacional, exercendo grande influência sobre os seus membros. Pela notável cultura que possuía, Lafargue votou com Marx contra os anarquistas das secções de Bakunine, os quais foram batidos, preparando-se a criação dos partidos políticos nacionais.»

 

E o prudoniano Antero de Quental, ele próprio filiado na Aliança bakuninista (92), tomaria a peito - contra a lição de Proudhon e a teoria de Bakunine - explicar aos operários socialistas, em O Pensamento Social, as decisões de «O Congresso Internacional de Haia».

 

 

 

 

 

(*) Este artigo, certamente produto de uma investigação de muitos anos, foi publicado no Liber amicorum de Vasco de Magalhães-Vilhena organizado por Eduardo Chitas e Hernâni A. Resende: Filosofia. História. Conhecimento. Homenagem a Vasco de Magalhães-Vilhena, Editorial Caminho, Lisboa, 1990.

 

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NOTAS:

 

(1) Friedrich Engels, Paul Lafargue et Laura Lafargue Correspondance - Textes recueillis, annotés et présentés par Emile Bottigelli. Tome premier (1865-1886) - 1956; Tome deuxième (1887-1890) - 1956; Tome troisième (1891-1895) - 1959. Editions Sociales, Paris. A correspondência é publicada na ordem cronológica. O tomo terceiro tem um «suplemento» com documentos que se encontravam no arquivo do Partido Social-Democrata da Alemanha e que respeitam aos anos de 1871 (4 cartas), 1872 (20 cartas), 1873 (2 cartas), 1874 (1 carta), 1883 (1 carta e 1 telegrama), 1885 (1 fragmento), 1887 (1 carta); 1888 (1 carta), 1890 (1 carta).

 

(2) Veja-se: Émile Bottigelli. Correspondance, Tomo I, «Introduction», pp. VII e VIII, Editions Sociales, Paris, 1956; Gustav Meyer, Friedrich Engels, Tomo II, p. 547, Berlin, 1933.

 

(3) Correspondance, Tomo III, «Supplément aux Tomes I et II», pp. 428 a 506.

 

(4) Carta de Friedrich Engels ao Conselho Federal da Região Espanhola da Associação Internacional dos Trabalhadores, datada de 13 de Fevereiro de 1871: «Ainda não temos secções em Portugal. Talvez fosse a vós outros mais fácil do que a nós entabular relações com os operários desse país.» Veja: Marx/Engels, La Revolución en España, Editorial Progresso, Moscú, 1980.

 

(5) Carta de Paul Lafargue a Friedrich Engels, escrita em Madrid, datada de 27 de Abril de 1872. Veja: Correspondance, Tomo III, pp. 459/462.

 

(6) Semanário socialista português: Fevereiro de 1872 a Abril de 1873.

 

(7) Prudonianos, aportuguesamento de proudhoniens, discípulos de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865).

 

(8) Sessão do Conselho Central da AlT de 27 de Março de 1866. Veja: Le Conseil Général de Ia Première Internationale (1864-1866), Procès-verbaux. Editions du Progrès, Moscou, 1972.

 

(9) Citado por J. Bruhat, J. Dautry, E. Tersen, La Commune de 1871, p. 30. Éditions Sociales, Paris, 1960. Louis-Auguste Blanqui (1805-1881) esteve longos anos encarcerado e participou nos acontecimentos da Comuna.

 

(10) Referido por Jacques Girault, Paul Lafargue, Éditions Sociales, Paris, 1970. No dossier Lafargue, dos Archives de Ia Préfecture de Police, de Paris, Ba/1135, podem ler-se extractos do Bulletin administratif - du ministère de l'Instruction publique, volume 19, 1865.

 

(11) Charles Longuet (1833-1903), jornalista, militante do movimento operário francês, discípulo de Proudhon; membro da secção francesa da AlT em Londres. Membro do Conselho Geral da Internacional (1866-67) e (1871-72) secretário correspondente para a Bélgica. Participou nas conferências e congressos de Lausanne (1867), Bruxelas (1868), Londres (1871), Haia (1872). Teve intervenção no Comuna de Paris. Fundador do jornal La Rive Gauche, que se publicou em Bruxelas (Outubro 1864/Agosto 1866) por iniciativa de emigrados franceses.

 

(12) Carta enviada por Karl Marx, de Margate para Londres. Veja-se: Marx-Engels, Correspondance, Tomo VIII, edição francesa. Editions Sociales, Paris, 1981, pp. 237/239. A referência a Paul Lafargue encontra-se na p. 239.

 

(13) Veja-se: Marx-Engels, Correspondance, Tomo VIII, edição francesa, Editions Sociales, Paris, 1981, pp. 277/279. A referência a Charles Longuet e Paul Lafargue encontra-se na p. 278. Não se estranhe que Marx os considere «muito bons amigos». Ambos se tinham tornado frequentadores da família Marx. Paul Lafargue casaria com Laura Marx; Charles Longuet, com Jenny Marx.

 

(14) Paul Lafargue, Souvenirs sur Marx, Paris, 1935.

 

(15) Le Conseil Général de la 1ère Internationale (1864-1866), Procès-Verbaux, Editions du Progrès, Moscou.

 

(16) Na carta de Marx a Engels datada de Margate, 24 de Março de 1866: «Sábado (10 de Março) os foreign secretaries reuniram-se em minha casa para um conselho de guerra (Dupont, Jung, Longuet, Lafargue, Bobszynski). Foi decidido que de qualquer modo eu assistiria na terça-feira (13) ao Conselho e que em nome de todos os foreign secretaries protestaria contra as decisões do último Conselho.»

 

(17) Luigi Wolff, militar italiano (major) adepto de Mazzini, membro da «Associação dos trabalhadores italianos de Londres». Participou, em 1864, na reunião de St. Martin's Hall, na qual foi fundada a AlT. Membro do Conselho Geral da AlT (1864-1865). Em 1871, foi afastado como «agente bonapartista».

 

(18) «Eu tive em seguida que explicar a situação de Mazzini em relação à nossa Associação e aos continental workingmen's parties, etc.» Conf. Marx-Engels, Correspondance, Carta de Marx a Engels de 24 de Março de 1866, Tomo VIII, p. 243.

 

(19) Dirigido pelo prudoniano Vermorel, Le Courrier français era o semanário da Associação Internacional dos Trabalhadores, em França. Na edição de 20 de Maio de 1866, publicou um apelo dos estudantes de Paris aos estudantes das universidades da Alemanha e da Itália, texto de inspiração prudoniana que mereceu a Marx uma crítica severa na sessão, de 19 de Junho de 1866, do Conselho Central da AlT.

 

(20) Carta de Marx a Engels, de 7 de Junho de 1866.

 

(21) Charles Robin (1821-1885), anatomista francês que a partir de 1862 se dedicou ao estudo e ensino da Fisiologia.

 

(22) Louis Pasteur (1822-1895), químico e biólogo francês.

 

(23) Thomas Henry Huxley (1825-1895), biólogo inglês, autor de On the Causes of the Phenomena of Organic Nature.

 

(24) Carta de Marx a Engels de 9 de Junho de 1866.

 

(25) Veja: Jacques Girault, Paul Lafargue, Textes Choisis, Col. Les Classiques du Peuple. Editions Sociales, Paris, 1970, p. 14.

 

(26) Veja: Paul Lafargue, Souvenirs sur Marx, Paris, 1935.

 

(27) Carta de Marx a Engels, de 7 de Março de 1866. In Marx-Engels, Correspondance, Tomo VIII, Editions Sociales, Paris, 1981.

 

(28) Carta de Marx a Engels, de 7 de Agosto de 1866, Correspondance, Tomo VIII, p. 304, Editions Sociales, Paris, 1981.

 

(29) Em Marx-Engels, Correspondance, Tomo VIII, pp. 308/309.

 

(30) Referência a uma carta de François Lafargue, pai de Paul Lafargue. Veja-se: Marx-Engels, Correspondance, Tomo VIII, p. 310.

 

(31) Carta de Karl Marx a Jenny Marx, datada de Londres, 5 de Setembro de 1866.

 

(32) Carta de Karl Marx a François Lafargue, pai de Paul Lafargue, datada de 12 de Novembro de 1866.

 

(33) Eugène Dupont (1831?-1881) operário francês, especializado em instrumentos musicais; tomou parte na insurreição de 1848; desde 1862 residente em Londres; membro do Conselho Geral da Internacional (Novembro de 1864-1872). Em 1874, fixou residência nos Estados Unidos.

 

(34) Hermann Jung (1830-1901), relojoeiro suíço, emigrado em Londres; membro do Conselho Geral da Internacional (Novembro 1864-1872).

 

(35) Consultem-se as actas do Conselho Geral da Primeira Internacional de Março de 1866 a Julho de 1868. Paul Lafargue concluiu em Londres, em Julho de 1868, os exames do curso de Medicina. Em Dezembro desse ano ingressa na secção de Vaugirard, da AlT, e reside no n.º 47 da rue du Cherche Midi, em Paris.

 

(36) Na acta, referente à sessão do Conselho Geral de 14 de Novembro de 1865, encontra-se registado que o «secretário para a França» (Eugène Dupont): «[...] declarou também que o centro de Paris está em correspondência com os democratas espanhóis a respeito dos quais dirigirá ulteriormente uma ampla comunicação ao Conselho.» Veja: Le Conseil Général de Ia Première Internationale (1864-1866), Procès-Verbaux, Editions du Progrès, Moscou, 1972.

 

(37) Nas actas da AlT são utilizadas tanto as designações Conselho Geral como Conselho Central, ou só Conselho.

 

(38) Cesare Orsini, emigrado político italiano em Londres; membro do Conselho Geral (1866-1867); propagandista da Internacional nos Estados Unidos.

 

(39) Veja: Le Conseil Général de la Première Internationale (1864-1866), Procès-Verbaux, Editions du Progrès, Moscou, 1972, p. 141.

 

(40) Veja: Jacques Girault, Paul Lafargue, Textes Choisis, Editions Sociales, Paris, 1970, p. 20.

 

(41) Anselmo Lorenzo, El Proletariado Militante, reedição de Alianza Universidad, Madrid, 1974.

 

(42) Ibidem, pp. 38/39.

 

(43) Ibidem, pp. 127 a 129.

 

(44) A reedição de El Proletariado Militante tem introdução e notas do Professor José Alvarez Junco, da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Madrid. Nas notas (pp. 452 e 453) refere-se que os membros do Conselho Federal Espanhol, Tomás González Morago, Francisco Mora e Anselmo Lorenzo, chegaram a Lisboa a 9 de Junho de 1871 e regressaram a Espanha, Mora e Lorenzo, no dia 21 de Agosto; a 23 estavam já em Madrid. Morago demorou-se mais algum tempo em Lisboa.

 

(45) São conhecidas as referências a este encontro de Jaime Batalha Reis, no In Memoriam de Antero de Quental (Porto, 1896), e de J. M. Nobre França, carta inserta no livro O Socialismo na Europa (1892), de Sebastião Magalhães de Lima. Versões confirmadas por Francisco Mora, Historia del Socialismo Obrero Español, Madrid, 1902; e principalmente por Anselmo Lorenzo, El Proletariado Militante, reedição de Alianza Universidad, Madrid, 1974, 1.º Tomo, capítulo 22.

 

(46) Veja: Anselmo Lorenzo, El Proletariado Militante: «Dos entidades surgieron alli: el núcleo organizador de La Internacional y el grupo de Ia Allianza de Ia Democracia Socialista; el primeiro, extendiéndose, associaria a los trabajadores; el segundo, en constante communicación con ellos por formar lo que en Ia Federación regional española representaban Ias secciones varias, seria como un grupo de estudios sociales que impulsaria Ias ciencias desligándolas de las torpes ataduras con que el dogma, el privilegio y la autoridad las sujetan en Ias universidades y daria a los trabajadores Ia verdad pura.» A reedição da Alianza Universidad, Madrid, 1974, pp. 164 e 165. Confira a versão das conversações entre os portugueses e os internacionalistas espanhóis de Jaime Batalha Reis, no texto de sua autoria «Anos de Lisboa», no In Memoriam de Antero de Quental (Porto, 1896) e a carta de Antero de Quental a Jaime Batalha Reis, escrita de Lisboa, em Novembro de 1871: «Da Aliança tenho a dar-lhe as melhores notícias. Está já definitivamente constituída, e com bons elementos. Vai publicar-se um jornal, que seja o órgão do programa da mesma, lá para Janeiro. Podemos contar com V.?» Carta publicada no volume Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, introdução, organização e notas de Maria Staack, Edições Assírio & Alvim, Lisboa, 1982, p. 62. Esta «integração» de Antero na Aliança da Democracia Socialista está referenciada na sua correspondência com Oliveira Martins, mas não o impedirá de escrever no número 25 (Outubro, 1872) de O Pensamento Social, um artigo intitulado «O Congresso Internacional de Haia», no qual defende a posição marxista favorável à constituição do partido político da classe operária. A atribuição do artigo a Antero deve-se a Nobre França (O Protesto Operário, n.º 485, Lisboa, 1891). Já César Nogueira notou que este artigo «denota a evolução do pensamento político de Antero de Quental para os princípios e doutrinas defendidos e aprovados no Congresso de Haia, que eram bem opostos aos da Aliança da Democracia Socialista», em Notas para a História do Socialismo em Portugal, p. 42, vol. I, Portugália Editora, Lisboa, 1964.

 

(47) Veja: El Proletariado Militante, reedição de Alianza Universidad, Madrid, 1974, Tomo I, Capítulo 22, pp. 161 a 170.

 

(48) Carta de Nobre França inserta no livro O Socialismo na Europa, de Sebastião Magalhães de Lima.

 

(49) Carta de Nobre França inserta no livro O Socialismo na Europa, de Sebastião Magalhães de Lima.

 

(50) Jacques Girault, ibidem, p. 22.

 

(51) Jacques Girault cita o microfilme IMT 65886 (Institut Maurice Thorez), microfilme transmitido pelo Instituto do Marxismo-Leninismo, de Moscovo.

 

(52) Veja: Emile Bottigelli, Correspondance de Friedrich Engels, Paul et Laura Lafargue, Editions Sociales, Paris, 1956, Introdução, p. XII.

 

(53) Obra citada, p. 27.

 

(54) Obra citada, p. 33.

 

(55) Francisco Pi y Margall (1824-1891). Político e intelectual espanhol. Foi ministro e chefe do governo (1873). Autor de obras como La reacción y Ia revolución (1854), que é uma defesa do princípio federativo, e Las Nacionalidades (1876). Positivista e admirador de Proudhon. Foi um dos defensores do projecto de Constituição Federal aprovado em Zaragoza, em 1883.

 

(56) Carta citada, a Engels, de São Sebastião, 2 de Abril de 1871.

 

(57) Aliança, ou, designação por extenso, Aliança da Democracia Socialista, organização bakuninista paralela e/ou subjacente à AlT.

 

(58) Carta citada de Lafargue a Engels, 2 de Abril de 1871.

 

(59) No Conselho Geral (ou Central) da Associação Internacional dos Trabalhadores.

 

(60) Carta de Engels a Paul Lafargue, de 24 de Novembro de 1871.

 

(61) Carta citada, de Engels a Paul Lafargue, de 24 de Novembro de 1871. Em Émile Bottigelli, Friedrich Engels/Paul et Laura Lafargue - Correspondance, Tomo III, p. 431, Editions Sociales, Paris, 1959.

  

(62) Carta citada.

 

(63) Carta citada.

 

(64) Antero de Quental, «O que é a Internacional», nas Prosas, vol. I, pp. 170/192, Ed. da Imprensa da Universidade, Coimbra, 1926. A citação encontra-se na p. 191.

 

(65) Francisco Mora, membro do Conselho Federal espanhol da AlT. Um dos três «internacionais» espanhóis que, durante algum tempo, estiveram refugiados em Portugal. Autor do livro História del Socialismo Obrero Español, Madrid, 1902.

 

(66) Sobre a permanência em Lisboa de três membros do Conselho Federal (ou Central) da AlT em Espanha, além do livro de Francisco Mora, História del Socialismo Obrero Español, Madrid, 1902, e do livro de Anselmo Lorenzo, El Proletariado Militante, reedição com prólogo e notas de José Alvarez Junco, Alianza Universidad, Madrid, 1974, veja-se a carta de José C. Nobre França, inserta no livro de Sebastião de Magalhães Lima, O Socialismo na Europa (1892), e o depoimento de Jaime Batalha Reis no In Memoriam de Antero de Quental, Porto, Tipografia Ocidental, 1896, intitulado «Anos de Lisboa, Algumas Lembranças», pp. 441/472.

 

(67) Carta de Paul Lafargue a Friedrich Engels, de Madrid, com data de 7 de Janeiro de 1872. Veja: Friedrich Engels/Paul et Laura Lafargue: Correspondance, Tomo III, pp. 439/441, Editions Sociales, Paris, 1959.

 

(68) Referido na carta de Lafargue a Engels. Aliança, a organização secreta bakunista «Aliança da Democracia Socialista».

 

(69) Carta de J. C. Nobre França («secretário do Comité Central») para Friedrich Engels («Cidadão do Conselho Geral») de 24 de Junho de 1872. Arquivo IISG, Amesterdão. Esta carta está publicada em 13 Cartas de Portugal para Engels e Marx, recolha, prefácio e notas de César Oliveira, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1978. Mas a informação de J. C. Nobre França é corrigida pelo próprio Lafargue em carta a Engels de 29 de Maio de 1872.

 

(70) José Mesa (1840-1904). Socialista espanhol, tipógrafo de profissão, membro da I Internacional, um dos fundadores do Partido Socialista espanhol. Tradutor da obra de Karl Marx Miséria da Filosofia.

 

(71) A obra de Karl Marx Miséria da Filosofia é uma réplica à Filosofia da Miséria de Proudhon.

 

(72) «J'ai écrit en (sic) Portugal une longue lettre pour appeler leur attention dessus; j'ai de plus envoyé un article sur Ia lutte des classes», em Friedrich Engels/Paul et Laura Lafargue - Correspondance, Tomo III, p. 462.

 

(73) Carta enviada ao jornal La Liberté, de Bruxelas, transcrita na carta de Lafargue a Engels, de 17 Maio de 1872. Obra citada, Tomo III, pp. 463/465.

 

(74) Obra citada, Tomo III, p. 460.

 

(75) Confira nota 69.

 

 (76) Carta de Lafargue a Engels, de Madrid, datada de 2 de Junho de 1872. Obra citada, Tomo III, p. 475.

 

(77) Carta de Lafargue a Engels, de Madrid, de meados de Julho. Obra citada, Tomo III, p. 489.

 

(78) Obra citada, Tomo III, pp. 490-491.

 

(79) La Emancipación. Órgão socialista, publicado em Madrid de 1871 a Junho de 1873. Defensor da Internacional a partir de 15 de Junho de 1872.

 

(80) Carta de Lafargue a Engels, de Lisboa, datada de 8 de Agosto de 1872. Obra citada, Tomo III, p. 491.

 

(81) Sobre o «Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas», veja: Costa Goodolphim, «A Associação», edição da Seara Nova, Lisboa, 1974, pp. 145-148.

 

(82) Antero de Quental, Prosas, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1926, vol. I, p. 282.

 

(83) Antero de Quental, Cartas, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1915, pp. 1/13.

 

(84) José Fontana (1840-1876). Suíço. Propagandista socialista e organizador do movimento operário em Portugal. Membro da secção portuguesa da AlT. Organizador da Fraternidade Operária. Fundador do Partido Socialista.

 

(85) José Correia Nobre França. Operário da Imprensa Nacional. Membro da AlT e da Fraternidade Operária. Fundador do Partido Socialista. Após a proclamação da República seguiu a orientação de Machado Santos.

 

(86) Eudóxio César Azedo Gneco (1849-1911). Operário gravador. Membro da AlT e da Fraternidade Operária. Fundador do Partido Socialista.

 

(87) O texto da «Memória» foi publicado em O Trabalho, n.º 40, Lisboa, 1872.

 

(88) No arquivo IISG, Amesterdão: Fotocópia no IML, Moscovo. Publicada em Portugal por César Oliveira, 13 Cartas de Portugal para Engels e Marx, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1978, pp. 39/42.

 

(89) Veja: Le Congrès de la Haye de Ia Première Internationale (Procès-Verbaux), Editions du Progrès, Moscou, 1972.

 

(90) Carta de J. C. Nobre França a Engels, de 17 de Setembro de 1872. No Arquivo IISG.

 

(91) César Nogueira, Notas para a História do Socialismo em Portugal, Portugália Editora, Lisboa, 1964, vol. I, pp. 40/41.

 

(92) Veja: Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, introdução, organização e notas de Maria Staack, Assírio e Alvim, Lisboa, 1982, p. 63. Antero escreve a Batalha Reis: «Da Aliança tenho a dar-lhe as melhores notícias. Está já definitivamente constituída, e com bons elementos.» Carta de Novembro de 1871.