Outubro e nós (Parte V)

 

 

Ângelo Novo (*)

 

 

 

O desvio irlandês

 

A revolução soviética foi firme e prontamente repudiada pelos estratos técnica e culturalmente mais evoluídos do movimento operário europeu. Não foi apenas questão das suas camadas dirigentes, epitomizadas pelo “renegado Kautsky”. Todas as hostes bem ordenadas da social-democracia reservaram apenas horror, alarme e desprezo pela violência “bárbara”, desorganização e penúria associadas à revolução russa. A ocidente, as luzes de outubro seduziram tão só, no ambiente pós-guerra e da crise de 1929, algumas franjas geralmente pouco qualificadas do proletariado e do exército industrial de reserva, as quais, por si sós, não se revelaram capazes de provocar a derrocada da ordem social capitalista. Nem mesmo pelo seu número. Depois, em vários países, foram duramente confrontadas nas ruas pela agressão sistemática dos bandos fascistas organizados. A ordem capitalista ocidental defendeu-se folgadamente, pesem embora variadas fantasias historiográficas que a retratam como tendo estado por um fio. O apelo do estandarte vermelho seguiu viagem para outras paragens.

 

Se a revolução russa foi “a revolução contra O Capital” (1), o ciclo revolucionário que se seguiria na sua esteira, ocupando uma grande parte do século XX, seria ainda muito mais marcadamente localizado na margem errada em relação às previsões iniciais dos fundadores do marxismo. Foi como se se transpusesse para o mundo inteiro, a opção de prioridade pela luta anticolonialista que Karl Marx expressou na sua famosa carta a Engels de 10 de dezembro de 1869:

 

“Durante muito tempo acreditei que seria possível derrubar o regime” [colonial] “irlandês por meio da ascensão da classe operária inglesa. Expressei sempre este ponto de vista no New York Tribune. Estudos mais aprofundados convenceram-me agora do contrário. A classe operária inglesa nunca alcançará nada enquanto não se vir livre da Irlanda. A alavanca tem de ser aplicada na Irlanda. É por isso que a questão irlandesa é tão importante para o movimento social em geral” (2).

 

A história do século XX foi, em grande medida, a história da colocação desta alavanca no patamar inferior do binómio colonial (3). Mas isso não se fez apenas num contexto europeu, como era aquele que, em grande medida, limitava ainda os horizontes dos fundadores do marxismo, senão do próprio Lenine até ao estalar da Grande Guerra. Fez-se à escala mundial. Eis como um jovem vietnamita expatriado em Paris relatou a sua descoberta das teses de Lenine sobre a nacionalidade e os povos coloniais, publicadas no jornal L’Humanité, enquanto se arrastavam as negociações de paz em Versalhes:

 

“Nessas teses havia termos políticos difíceis de compreender. No entanto, lendo-as e relendo-as muitas vezes, acabei por compreender o essencial. As teses de Lenine suscitaram em mim uma grande emoção, um grande entusiasmo, uma grande fé e ajudaram-me a ver claramente os problemas. A minha alegria era tão grande que cheguei a chorar. Sozinho no meu quarto, gritava, como se estivesse perante uma grande multidão: ‘Caros compatriotas, oprimidos e miseráveis! Eis o que nos é preciso, eis o caminho da nossa libertação!”

“Desde então, dediquei uma confiança total a Lenine, à Terceira Internacional” (4).

 

Este mesmo grito assomou então por todas as nações oprimidas, coloniais, semicoloniais ou dependentes. Numa primeira vaga de dirigentes e pensadores de povos não-ocidentais que, na sequência da revolução de outubro, abraçaram o marxismo como uma via para a libertação nacional, podemos citar o tártaro bashkir Mirsaid Sultan-Galiev (1892-1940), os turcos Mustafa Suphi (1883-1921) e Ethem Nejat (1883-1921), os iranianos Haydar Khan Amoughlu (1880-1921) e Avetis Sultan-Zade (1889-1938), o argelino Messali Hadj (1898-1974), os egípcios Joseph Rosenthal (1867-1927) e Salama Moussa (1887-1958), o libanês Yusuf Ibrahim Yazbik (1901-1982), os iraquianos Husain al-Rahhal (1900-1971) e Yusuf Salman Yusuf (1901-1949), os indianos Raja Mahendra Pratap Singh (1886-1979), Manabendra Nath Roy (1887-1954), Dada Amir Haidar Khan (este dir-se-ia hoje paquistanês) (1900-1989) e Muzaffar Ahmed (bangladeshi) (1889-1973), os chineses Chen Duxiu (1879-1942), Li Dazhao (1889-1927) e Mao Zedong (1893-1976), o vietnamita Ho Chi Minh (1890-1969), atràs citado, os indonésios Tan Malaka (1897-1949) e Semaun (1899-1971), os coreanos Lyuh Woon-hyung e (1886-1947) e Pak Hon-yong (1900-1955), o chileno Luis Emilio Recabarren (1876-1924), o brasileiro Astrojildo Pereira (1990-1965), o peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), o cubano Julio Antonio Mella (1903-1929), o italo-argentino Victorio Codovilla (1894-1970), o nicaraguense Augusto César Sandino (1895-1934), o salvadorenho Farabundo Martí (1893-1932), os negros norte-americanos William E. B. Du Bois (1868-1963), Cyril Briggs (1888-1966), Lovett Fort-Whiteman (1889-1939), Otto Huiswoud (Billings) (1893-1961) e Harry Haywood (1898-1985), os antilhanos Cyril Lionel Robert James (1901-1989) e George Padmore (1903-1959), o serra-leonês Isaac Teophilus Akunna Wallace-Johnson (1894-1965), o maliano Tiemoko Kouyaté (1902-1942), os sul-africanos Josiah Gumede (1867-1946) e James La Guma (1894-1961), entre muitíssimos outros. Foi um toque de clarim convocatório de ressonância global imediata. E todo esse círculo imenso de propagação da onda de choque da revolução de outubro traduziu-se numa enorme expansão nos estudos do marxismo e das iniciativas de organização política revolucionária.

 

Excetuado o caso especial da África do Sul, o nacionalismo da África negra passaria pela maturação no interior do movimento internacional panafricanista (1900-1945), antes de explodir, já após o final da II Guerra Mundial, numa forte onda de agitação laboral transcontinental e na formação das diversas organizações independentistas. Figuras charneira nesta transição foram os filossoviéticos Jomo Kenyatta (1897-1978) e Kwame Nkrumah (1909-1972), este último um grande teórico marxista. A presença do magistério leninista nas lutas nacionalistas africanas foi substancial, num grande número de países, pelo menos até ao começo dos anos 1980. Foi inoculado por via soviética, chinesa e, por fim, cubana. Países africanos onde se fez sentir fortemente a sua presença, na sua vida política pós-independência, incluem a Argélia, a Líbia, o Egito, o Sudão, a Somália, o Gana, a Libéria, a Serra Leoa, a Guiné-Conakri, o Mali, o Benin, Camarões, Madagáscar, a Tanzânia, os dois Congos, a Zâmbia, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, a Etiópia, o Burkina Faso, a Namíbia, o Zimbabwe, a África do Sul (5). O marxismo africano foi, contudo, sobretudo uma criação do exílio e da diáspora negra. Os seus valores mais proeminentes geraram-se ou formaram-se nos E. U. A., nas Antilhas ou de passagem na Europa.

 

O panislamismo e o indoamericanismo foram também movimentos de emancipação nacional transfronteiriços que mantiveram um diálogo, por vezes tenso, com a Internacional Comunista (IC, Comintern). O filão judaico desde sempre presente no marxismo sugere também uma ligação eletiva deste a zonas de fusão cultural e cosmopolitismo. O comunismo é o horizonte necessário das almas mais exigentes. O fio de prumo da procura infinita. Há aqui como que um movimento de sublimação do particular para o universal, similar ao que leva à grande criação artística. Entre figuras maiores das artes e das letras que ouviram, desde muito cedo, o apelo da revolução de outubro como farol de libertação para as classes e povos oprimidos, avultam os negros norte-americanos Paul Robeson (1898-1976) e Langston Hughes (1902-1967), o jamaicano Claude McKay (1889-1948), os mexicanos Diego Rivera (1886-1957), David Siqueiros (1896-1974) e Manuel Maples Arce (1898-1961), os brasileiros Graciliano Ramos (1892-1953) e Cândido Portinari (1903-1962), o chileno Pablo Neruda (1904-1973), o espanhol Pablo Picasso (1881-1973), o inglês Charles Chaplin (1889-1977), o francês Louis Aragon (1897-1982), o alemão Bertolt Brecht (1898-1956), o turco Nazim Hikmet (1901-1963), o bengali Kazi Nazrul Islam (1899-1976), o chinês Lu Xun (1881-1936), etc., etc..

 

Foi ainda antes da Grande Guerra que Lenine, impressionado pela sequência de revoluções na Pérsia (1905), Turquia (1908), Índias Orientais Holandesas (1908), Portugal (1910), México (1910) e China (1911-12), começou a esboçar a tese de uma aliança entre o proletariado dos países desenvolvidos e o movimento democrático de emancipação nacional nos países coloniais e semicoloniais, onde uma parte, pelo menos, das respetivas burguesias ainda desempenhava um papel progressivo (6). Em várias daquelas revoluções fez-se sentir um efeito de réplica da revolução russa de 1905 e agora Lenine, por sua vez, procurava assimilá-las para fazer avançar de forma multiplicada toda a sua nova energia percutora. Foi já com a guerra em curso, a partir do seu exílio suíço, que montaria de todas as peças a sua teoria do imperialismo, que convergiria logicamente com a doutrina já estabelecida sobre a autodeterminação das nações, a qual deixa de se entender como uma questão fundamentalmente europeia para passar a ser mundial. Lenine, de resto, tinha posições de princípio anticolonialistas que remontavam já, pelo menos, ao tempo da sua intervenção sobre o assunto no Congresso da Internacional Socialista de Estugarda de 1907 (7).

 

Mal consolidado ainda o poder revolucionário de outubro, entre os seus primeiros atos, logo emanou uma “Declaração do governo soviético sobre os direitos dos povos da Rússia” (8), um “Apelo aos muçulmanos da Rússia e do Oriente” (9) e a “Declaração dos direitos do povo trabalhador e explorado” (10). Em fevereiro de 1918 reuniu-se o primeiro Congresso Pan-Russo das Organizações Comunistas de Povos do Oriente, do qual surgiu um secretariado internacional de propaganda. Em novembro desse ano reuniu-se em Moscovo o primeiro Congresso das Organizações Comunistas Muçulmanas, no âmbito de trabalho do Comissariado do Povo para as Nacionalidades (Narkomnats) dirigido por Estaline. Foi aí criado um Secretariado Central das Organizações Muçulmanas do Partido Comunista Russo (Musburo). O Narkomnats criou ainda um Comissariado Central de Assuntos Muçulmanos (Muskom) onde se destacou a arrojada direção de Mirsaid Sultan-Galiev, socialista panislâmico, marxista, notável percursor de todo o pensamento terceiro-mundista e ainda pioneiro na reflexão epistemológica e político-revolucionária de questões como raça, etnia, religião e cultura (11). Entre 1918 e 1924 o Narkomnats publicou a revista Zhizn’ natsional’nostei (A Vida das Nacionalidades), que, sob a guarda e responsabilidade do georgiano - à altura ainda uma estrela em afirmação no universo bolchevique - chegou a dar abrigo a ideias bastante ousadas (12).

 

No quase abortado I Congresso da Internacional Comunista, foi unanimemente aprovado, em Moscovo, a 6 de março de 1919, o “Manifesto da Internacional Comunista aos Trabalhadores do Mundo”, redigido por Trotsky. Com todo o seu arrebatamento retórico e lustro literário, este notável documento proclama efetivamente a libertação das colónias, colocando-a, contudo, inteiramente na dependência da revolução proletária nos países metropolitanos. O compasso de espera na revolução europeia e a contínua efervescência no mundo colonial, conduziram Lenine a outras perspetivas. A 22 de novembro de 1919, proclamou ele no segundo Congresso Pan-Russo das Organizações Comunistas de Povos do Oriente:

 

“Assim, a revolução socialista não será apenas, nem principalmente, uma luta dos proletários revolucionários em cada país contra a sua burguesia; não, será a luta de todas as colónias e países oprimidos pelo imperialismo, de todos os países dependentes, contra o imperialismo internacional. (…) a guerra civil dos trabalhadores contra os imperialistas e os exploradores em todos os países avançados começa a fundir-se com a guerra nacional contra o imperialismo internacional” (13).

 

Com efeito, o ano de 1919 foi pontuado por diversas revoltas anticoloniais, que se inspiraram já claramente na revolução soviética e na mensagem que dela irradiou para o mundo. Foi o levantamento no Egito capitaneado por Saad Zaghloul, o movimento do primeiro de março na Coreia, o movimento cultural e político de 4 de maio na China, a agitação contra o Rowlatt Act na Índia. No ano seguinte foi a revolta antibritânica no Iraque. Em 1921 deu-se a revolução na Mongólia, que criou o segundo país socialista no mundo (14). Este país era de soberania formal chinesa mas viu-se envolvido em manobras militares da contrarrevolução “branca” e, por autodefesa popular, acabou por ser atraído para a área de influência soviética. No arrastado estertor final da revolução mexicana, Pancho Villa mantinha-se por então ainda ativo, no norte do país, desafiando os norte-americanos.

 

Foi no II Congresso da Internacional Comunista, em julho-agosto de 1920, que finalmente se definiu e formalizou por completo a política de apoio aos movimentos de libertação nacional nos países colonizados. As sessões 4 e 5 (entre 16), a 25 e 28 de julho respetivamente, foram exclusivamente dedicadas aos povos colonizados e oprimidos. As teses aí aprovadas sobre esse assunto ostentam a forte marca intelectual de Lenine, mas também a influência de experientes militantes anticolonialistas como o indiano M. N. Roy e o holandês das Índias Orientais Henk Sneevliet (Maring). Estiveram presentes pelo menos vinte e nove delegados da Ásia e da América Latina, representando onze países (15). “Pela primeira vez, homens castanhos e amarelos encontravam-se com homens brancos que não eram arrogantes imperialistas, mas sim amigos e camaradas”, recordaria mais tarde um proeminente delegado (16).

 

Roy era um revolucionário bengali ainda relativamente jovem, mas já muito rodado em extensas rotas e azaradas fortunas de exílio. Veio como representante do Partido Comunista Mexicano, de que fora fundador no ano anterior. Recomendado pelo agente cominterniano Mikhail Borodine, foi recebido calorosamente por Lenine, algumas semanas antes do congresso, tendo trocado impressões com ele em profundidade. Foi seguramente, em grande medida, como resultado destes conciliábulos prévios que no congresso surgiram duas propostas distintas de teses sobre a luta anticolonial. Depois de ambas serem objeto de emendas, viriam a ser aprovadas, por unanimidade, na respetiva comissão, como “Teses sobre as questões nacional e colonial” (as de Lenine) e “Teses suplementares sobre as questões nacional e colonial” (as de Roy) (17). Submetidas ao plenário, depois de uma breve exposição justificativa por parte dos respetivos autores, foram aprovadas conjuntamente, numa única votação, por unanimidade com três abstenções.

 

Lenine era muito adepto deste procedimento de associar publicamente outros na formação de conclusões em direção às quais ele próprio já se dirigia (18). Em todo este diálogo e composição, Lenine cedeu (de bom grado e perfeitamente convencido, sem dúvida) em dois pontos cruciais. Em primeiro lugar, o parceiro da revolução proletária nos países coloniais e semicoloniais não seriam movimentos de libertação “democrático-burgueses”, mas sim “nacional-revolucionários”. Teve-se em conta a existência, nos países dominados, de amplas e influentes camadas burguesas decidida e irrecuperavelmente reformistas. É claro que Lenine nunca contou para nada com uma burguesia bem estabelecida, fosse qual fosse o seu tom de pele. “Democrático-burguês” referia-se aqui à etapa histórica a cumprir, mas o ator privilegiado para a franquear, na sua mente, seria sempre uma burguesia ainda muito embrionária, essencialmente o campesinato, algum artesanato e pequeno comércio, gente plebeia, capaz de exprimir as suas aspirações pela via revolucionária, uma vez enquadrada por intelectuais radicalizados. A sua verdadeira evolução deu-se no outro ponto, conexo.

 

Em segundo lugar, concedeu-se que as massas laboriosas dos países “atrasados”, apesar do seu caráter não-proletário, poderiam também adotar, na sua luta, a avançada forma de organização soviética. Mais ainda, que, assim fazendo, contando com uma pronta assistência dos seus vitoriosos irmãos dos países “avançados”, poderiam prosseguir caminho para a imposição de relações de produção comunistas nas suas formações sociais, saltando por completo a etapa histórica capitalista. Se esse caminho haveria de fazer-se por etapas, ainda mal conhecidas, incluindo o cumprimento de tarefas democrático-burguesas (divisão de terras, etc.), não é certo nem sequer provável que o cumprimento dessas etapas se fizesse sob a direção da burguesia, nem mesmo que tivesse como resultado nalgum ponto estabilizado um regime social burguês. Ou seja, Lenine continuava formalmente comprometido com um esquema linear evolutivo e euro-referenciado da história, mas o seu apurado faro (e anseio) revolucionário conduzia-o já noutras direções, violentando por completo as pautas pré-assinaladas para o progresso histórico. Nada lhe importava agora ter já tomado a posição precisamente inversa, quando polemizara na sua juventude com os populistas russos.

 

Noutras questões Lenine não cedeu de todo. Roy quereria inverter por completo a fórmula do II Congresso e afirmar que a vanguarda da revolução mundial estava agora colocada no movimento de massas anticolonial. Por si só, o proletariado ocidental não seria nunca capaz de derrubar nos seus países a ordem capitalista, enquanto esta continuar a ser alimentada pelo fluxo contínuo dos superlucros da exploração colonial. Era ir longe demais e aqui acabou por ceder Roy (19). Por outro lado, as teses de Lenine continham e mantiveram uma condenação expressa do panislamismo que seria mais tarde muito contestada e recriminada. Esta condenação, conjugada com os obstáculos severos colocados a uma autodeterminação nacional efetiva dos povos muçulmanos do antigo império czarista, limitou enormemente a capacidade de influência do marxismo e da União Soviética sobre o movimento anticolonial numa grande parte do mundo, de Marrocos à Indonésia.

 

As “Teses suplementares” de Roy, mais especificamente a sua tese 6, é notável por ter aberto um caminho muito profícuo na teoria do imperialismo desenvolvida subsequentemente pelo Comintern e prosseguida, depois dele, por todo um escol de notáveis pensadores da segunda metade do século XX (20). O domínio imperialista, imposto pela violência, interrompe e bloqueia o desenvolvimento económico e social em curso nos países dominados, negando-lhes a oportunidade de alcançar o nível alcançado pelos países capitalistas mais prósperos. As indústrias locais são destruídas, o proletariado atrofiado e disperso. A maioria da população concentra-se na agricultura e na extração de matérias-primas para exportação, ou seja, ao serviço de estratégias produtivas impostas do exterior. É uma reviravolta total. Até aqui o marxismo considerara sempre que a dominação colonial – por odiosa e sangrenta que fosse, o que a tornava politicamente condenável - tinha um efeito histórico globalmente progressivo.

 

Entre as famosas 21 Condições, adotadas neste congresso, como de cumprimento obrigatório para a admissão de qualquer partido à Internacional Comunista, estava esta (condição 8) que causaria não poucos engulhos:

 

“Na questão colonial e das nações oprimidas, é indispensável que tenham uma linha particularmente clara e precisa os Partidos dos países cuja burguesia possui colónias e oprime outros povos. Os Partidos que desejam filiar-se à III Internacional devem denunciar implacavelmente as artimanhas de “seus” imperialistas nas colónias; apoiar os movimentos de libertação nas colónias não somente em palavras, mas também em atos; exigir a expulsão de seus compatriotas imperialistas das colónias; cultivar no coração dos operários de seus países um sentimento fraternal sincero para com a população trabalhadora das colónias e das nações oprimidas; e realizar entre as tropas da metrópole uma agitação sistemática contra todo tipo de opressão dos povos coloniais”.

 

Pouco após a abertura do II Congresso Mundial, o comité executivo da Internacional Comunista estava já a convocar o que viria a ser Congresso dos Povos do Oriente, para Baku, no Azerbaijão soviético. Este congresso abriu a 31 de agosto e prolongou-se até 7 de setembro de 1920, reunindo mais de dois mil delegados de uns trinta povos asiáticos. O bolchevique azeri Nariman Narimanov foi uma espécie de anfitrião, numa cidade ainda recentemente ganha para o poder soviético. As marcas profundas da guerra eram bem visíveis em toda a região. Embora originalmente destinado a persas (hoje dir-se-ia iranianos), arménios e turcos, acabou por se reunir gente um pouco de todo o Médio Oriente, de muitas nações coloniais russas sovietizadas, mas também da Índia, China, Coreia e Japão (21). Era uma iniciativa inédita e o seu anúncio não passou despercebido. A aviação britânica metralhou um barco que se dirigia a Baku com delegados persas ao congresso, matando dois deles e ferindo vários outros. Havia muito colorido étnico nas ruas da pioneira capital petrolífera e alguns dos delegados revelaram-se afinal mercadores, sempre em grande e prestimosa azáfama negocial. As sessões decorreram de uma forma um tanto desordenada, com procedimentos de contestável democraticidade. As traduções eram um processo árduo e moroso, que dava azo a constantes protestos.

 

Este congresso ficou, desde logo, memorável por um instante no discurso de abertura de Zinoviev, que foi assim captado nas minutas:

 

“Devemos agora dizer que a hora soou em que os trabalhadores de todo o mundo podem levantar-se e reunir dezenas e centenas de milhões de camponeses, podem formar um Exército Vermelho também no Oriente, podem organizar e armar uma revolta na retaguarda dos britânicos, podem arremessar fogo contra os bandidos, podem envenenar a existência de todo e qualquer insolente oficial britânico que esteja a pavonear-se senhorialmente na Turquia, na Pérsia, na Índia e na China.

Camaradas! Irmãos! O tempo chegou em que podeis dedicar-vos a organizar uma verdadeira e popular guerra santa contra os ladrões e opressores. A Internacional Comunista dirige-se hoje aos povos do Oriente e diz-lhes: «Irmãos, convocamos-vos para uma guerra santa, em primeiro lugar contra o imperialismo britânico!»

(Fortes aplausos, prolongados gritos de ‘Hurrah’, membros do congresso levantam-se brandindo as suas armas. O orador é incapaz de continuar durante algum tempo. Todos os delegados se levantam e aplaudem. Gritos de ‘Juramo-lo’.) (22)

 

Apesar do tom cultural predominantemente muçulmano, cinquenta e cinco mulheres estiveram presentes neste congresso e pelo menos três delas tomaram a palavra. A comunista turca Najiye Hanum, primeira fotógrafa profissional no seu país, fê-lo mesmo por duas vezes. A primeira vez ocorreu já na quinta sessão, por ocasião da inclusão de três mulheres (entre as quais ela própria) no presidium do congresso. Esse gesto tardio pretendeu promover simbolicamente a emancipação da mulher oriental e Najiye fez uma alocução sobre o tema, entusiasticamente aplaudida pelos presentes turcófonos mas que não mereceu tradução. Da sua segunda intervenção, na sétima sessão, chegou-nos apenas a captação feita pelo/a estenógrafo/a de um resumo feito pela sua tradutora azeri. Ainda assim, percebe-se que é um discurso notável, que pugna pela libertação da mulher oriental, na sua especificidade cultural própria, como parte indispensável de um processo harmónico de desenvolvimento laboral e intelectual do seu povo. Na sua visão, ao que parece, é a opressão particularmente violenta da mulher oriental que arrasta e aprisiona toda a sociedade no atraso, na ignorância e na tirania. Culmina com uma carta de cinco reivindicações concretas, incluindo a igualdade completa de direitos entre homens e mulheres, direito à educação geral e formação vocacional nas mesmas instituições criadas para o efeito para os homens, igualdade no casamento e abolição da poligamia, elegibilidade incondicional da mulher para cargos administrativos e legislativos e, finalmente, a organização, em todas as cidades e vilas, de comitês para defender e proteger os direitos das mulheres. Às mulheres, como a todos os oprimidos, avisa Najiye, pertencerá sempre a alternativa última de conquistar os seus direitos pela força, numa luta de vida ou de morte. No original ou em tradução, tudo isto deve ter causado uma viva impressão, por certo não unanimemente favorável. Mas o que as minutas registam são, novamente, fartos aplausos e gritos de apoio (23).

 

Delegados do Turquestão denunciaram vigorosamente práticas chauvinistas grão-russas de autoridades locais soviéticas, o que lhes valeu uma ida a Moscovo para apresentar em pessoa as suas queixas ao Politburo. Lenine participou diretamente na tomada de providências para corrigir abusos denunciados. Pereceriam quase todos, mais tarde, nas purgas estalinistas. Vale a pena citar alguns dos seus nomes, em representação das centenas de milhares de muçulmanos que, como eles, lutaram pelos vermelhos na guerra civil, sobretudo contra Koltchak na frente leste: Turar Ryskulov, Tashpolad Narbutabekov, Dadash Buniatzadeh, Jalalutdin Korkmasov, Khaver Shabanova-Karayeva. O primeiro – hoje um herói nacional de presença ubíqua no Cazaquistão – era então um jovem de vinte e seis anos, de grande audácia, argúcia e excelente domínio da teoria do imperialismo. Lenine deve ter ficado encantado com ele, o que terá constituído uma das suas raríssimas alegrias por esses tempos. A última foi a tradutora de Najiye Hanum e também ela membro do presidum do congresso de Baku. Pela sua parte, sofreria apenas prisão. Estaline não gostava muito da ideia de pena de morte aplicada a mulheres.

 

É curioso, ainda hoje, ler o enviado de Mustafá Kemal e mesmo um militarista imperial como o “jovem turco” Ismail Enver Pasha (cuja participação foi recusada mas ainda assim andou por lá e enviou um discurso que foi lido à assembleia) embrulharem-se literariamente em grandes e elaborados protestos de militância anti-imperialista e eterna fidelidade histórica às mais humildes classes laboriosas. Enfim, eram compromissos diplomáticos recentes do Estado soviético que não podiam ser repelidos com demasiada rispidez. Tiveram uma resposta crítica, é certo, mas sem repúdio (24). Poucos meses volvidos, a 28 de janeiro de 1921, esbirros do kemalismo assassinaram em viagem no Mar Negro toda a direção do recém-constituído Partido Comunista da Turquia (o “massacre dos quinze”, incluindo Mustafa Suphi e esposa), quando esta procurava apenas tomar o seu lugar na guerra de independência nacional em curso contra as conjugadas intervenções dos lobos imperialistas da entente. Em seguida, as relações de apoio mútuo turco-soviéticas prosseguiram como se nada fosse, porque tinha de ser. Logo a março de 1921 foi assinado um tratado entre a República Soviética Russa e a Grande Assembleia Nacional Turca, condutora da luta nacional. A política externa soviética passava então pelo estabelecimento de uma cintura de alianças no seu flanco sul, com a Turquia, a Pérsia e o Afeganistão, que era simultaneamente uma providência de autodefesa e também promoção ativa dos seus princípios revolucionários anti-imperialistas e anticoloniais.

 

O congresso de Baku aprovou teses sobre “a questão agrária” e “o poder soviético no Oriente”. Estes documentos caraterizam-se por um absoluto esquematismo. Todo este “oriente” (25) é reduzido a uma mesma realidade social uniforme, de dupla opressão camponesa, por classes senhoriais locais ociosas e por grandes predadores imperialistas sobrepostos a estas últimas. Logicamente, a libertação obedecerá também a um impulso único, com o levantamento geral das massas campesinas assistido por alguma esparsa intelectualidade patriótica. O objetivo último será o poder soviético, a distribuição da terra e a organização produtiva comunal, prontamente assistida pelo generoso proletariado ocidental vitorioso. O “Manifesto do Congresso aos Povos do Oriente” é apenas uma vigorosa peça panfletária. Zinoviev tinha muitas fragilidades como dirigente político, inclusivamente de caráter, mas era indubitavelmente um grande senhor da palavra, da ênfase, do pathos, dos ritmos oratórios.

 

Muitos delegados presentes em Baku regressaram aos seus países de origem para fundar partidos comunistas. Bastantes deles seriam também dizimados pelas purgas estalinistas. Presente aí esteve também Chang Tai-Lei, futuro fundador das Juventudes Comunistas Chinesas, que pereceria no desastre da Comuna de Cantão. Foi criado um Conselho de Propaganda e Ação, com 35 comunistas e 13 sem partido, para dar sequência às deliberações do congresso. Durou apenas até ao início de 1922, mas foi ainda assim responsável por uma “tempestade de agitação”, segundo relatório dos serviços de inteligência britânicos. Um filme em cinco partes sobre o congresso era exibido em Moscovo a visitantes estrangeiros, segundo as reminiscências de H. G. Wells. Houve também importantes opiniões negativas sobre o congresso. M. N. Roy recusou participar naquilo que apelidou de “Circo Zinoviev”. John Reed, que esteve lá e discursou (perecendo pouco depois de tifo, que terá contraído nessa viagem), recriminou “a demagogia e ostentação” aí exibidas, a acreditar no testemunho muito posterior de Angelica Balabanoff.

 

Ainda nesse ano de 1920, o Partido Comunista da Sibéria criou em Irkutsk um secretariado de propaganda para os povos do Extremo Oriente, que editaria um boletim próprio dirigido por Boris Shumiatsky. Este importante quadro comunista - que se notabilizaria nos anos 1930 como grande produtor do cinema soviético – esteve ainda envolvido, no ano seguinte, na criação da Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente. Com sede em Moscovo e filiais nem Baku, Irkutsk e Tashkent, por esta escola revolucionária passaram largas centenas de quadros chineses e de muitas outras nacionalidades periféricas, aliás não apenas orientais. Em novembro de 1925 a secção chinesa da Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente destacou-se para formar a chamada Universidade Sun Yat-Sen, em Moscovo, sob a presidência de Karl Radek. Trotsky e Estaline ambos deram palestras aqui.

 

O III Congresso da Internacional Comunista (Moscovo, junho-julho de 1921) passou em claro a questão colonial nas suas resoluções. A sessão prevista para a “questão oriental” foi cancelada e comprimida num pequeno período da sessão de encerramento. A M. N. Roy foram dados cinco minutos para apresentar o seu relatório, que ele usou exclusivamente para protestar energicamente contra essa limitação despropositada. O “manifesto” sobre a questão nunca foi publicado e o seu rascunho, mencionado nas minutas, desapareceu dos arquivos. Aí se encontram apenas três projetos de teses elaborados por M. N. Roy (26), Avetis Sultan-Zade e Chang Tai-Lei, os quais, todavia, nunca foram distribuídos nem discutidos. Todos eles se insurgiam contra o tratamento do “oriente” de uma forma uniforme. A este congresso estiveram presentes, pela primeira vez, três delegados africanos. A delegação sul-africana, constituída pelos brancos relativamente negrófilos David Ivon Jones e S. P. Bunting, propôs que o movimento proletário entre os negros fosse considerado como parte integrante da questão oriental. A comissão da “questão oriental” não apresentou qualquer relatório.

 

Este congresso teve procedimentos algo caóticos, com polémicas tanto surdas como tempestuosas, na sequência da desastrosa “ação de março” na Alemanha. Em pano de fundo, os começos da NEP e um violento surto de fome na Rússia (27). Mas à elipse feita sobre a questão “oriental” não seriam certamente alheios compromissos diplomáticos recentes do Estado soviético, designadamente com a Grã-Bretanha, com a qual havia sido firmado um acordo comercial que previa, precisamente, a obrigação de estrita abstenção mútua de toda a propaganda hostil (28). O grito dado por Zinoviev em Baku no ano transato tinha de ser colocado em surdina. No entanto, no seu relatório político em nome do Partido Comunista Russo, Lenine não deixa de sublinhar a extrema importância da questão colonial, afirmando que “nas iminentes batalhas decisivas da revolução mundial, o movimento da maioria da população do globo, inicialmente dirigido para a libertação nacional, virar-se-á contra o capitalismo e o imperialismo, desempenhando talvez um papel revolucionário muito maior do que o que temos esperado” (29).

 

Seis meses após o III Congresso da Internacional Comunista, reuniu-se o Primeiro Congresso dos Trabalhadores do Extremo Oriente, em Irkutsk, Moscovo e Leninegrado. Estiveram aí presentes apenas 150 delegados, quase todos da Coreia, da China (incluindo muita gente do Kuomintang), do Japão ou da Mongólia. Semaun também aí esteve, como único delegado das Índias Orientais, enquanto M. N. Roy representou a Índia com mais um colega. Zinoviev presidiu e ofereceu o discurso principal. O Japão participava enquanto país imperialista e opressor, naturalmente. Era também uma potência inimiga da União Soviética, ainda com tropas estacionadas no seu solo. Em sua representação veio (dos E. U. A.) o veterano socialista Sen Katayama, que fundaria em breve o Partido Comunista Japonês mas se manteria sobretudo agente do Comintern. Veio ainda o jovem marxista Kyuichi Tokuda, que seria secretário-geral do mesmo partido vinte e cinco anos depois (dezoito deles passados na cadeia). Para além destes dois, a delegação japonesa era constituída quase exclusivamente por anarquistas e anarco-sindicalistas.

 

Este congresso era uma sequela de Baku, mas também uma resposta à conferência naval interimperialista sobre o Extremo-Oriente, realizada pouco antes em Washington, para a qual não fora convidado o Estado soviético nem o sua subsidiária República do Extremo-Oriente. Os conciliábulos imperialistas deviam, naturalmente, ser denunciadas, mas sem deixar de tentar participar neles, quanto possível, neste caso aproveitando a margem criada pelo antagonismo crescente entre o Japão e os E. U. A.. O congresso serviu para reafirmar os princípios já estabelecidos anteriormente para a colaboração com os nacionalistas na luta anti-imperialista, bem realçados na intervenção do delegado soviético destacado ao evento, Georgy Safarov, mas também, senão sobretudo, como uma delicada e ardilosa manobra de política externa do jovem Estado soviético (30).

 

É ainda durante a primeira metade da década de 1920 que a influência comunista começa a fazer-se sentir em movimentos nacionalistas de massa em vários países asiáticos não-soviéticos. É o caso na Pérsia, onde chegou a ser proclamada uma efémera República Soviética em Gilan (1920-21), nas bordas do Mar Cáspio, fruto da colaboração entre comunistas e o movimento islâmico Jangal. Nas Índias Orientais Holandeses, o Partai Komunis Indonesia (PKI) dirigido por Tan Malaka, Semaun e Darsono, colaborava também com o movimento nacional islamita Sarekat Islam, ou com a sua dissidência de esquerda Sarekat Rayat (União Popular). Adquiriu dimensão de massas e grande implantação sindical, designadamente nos ferroviários, marítimos e trabalhadores das plantações. No campesinato era também muito atuante, através de organizações unitárias sob a sua influência. Por meados da década albergava já aspirações a fazer uma insurreição armada contra o poder colonial. Em 1926, na sequência de um levantamento mal definido – com revoltas esparsas em Batavia, Padang, Bantam e Surabaya - foi objeto de uma grande vaga repressiva, que o deixou na clandestinidade e praticamente inativo até ao pós-guerra.

 

No começo da década havia dois partidos comunistas coreanos rivais no exílio, que desenvolviam ambos, no interior, agitação clandestina e alguma luta armada contra a ocupação japonesa. Na China, o novel Partido Comunista Chinês fazia forte agitação estudantil e laboral anti-imperialista, em especial nas áreas urbanas concessionadas. As reivindicações económicas de marítimos, ferroviários, mineiros, metalúrgicos, têxteis, tabaqueiros e outros, facilmente trasbordavam aí para explosões de revolta nacional. Agitação revolucionária entre o campesinato, nesta altura, era feita apenas pelo jovem comunista Peng Pai, na costa sul junto a Haifeng. A revolução chinesa, porém, será objeto de um tratamento separado, mais detalhado, adiante neste ensaio.

 

Na Índia, o All India Trade Union Congress foi fundado em 1920 já com forte influência comunista. Núcleos de agitação de inspiração bolchevique existiam, por então, pelo menos, em Bombaim, Bengala, Madras, Punjab, Sindh e nas Províncias Unidas. Havia jornais e circulavam panfletos. Teve grande impacto um intitulado Gandhi vs. Lenine (1921), da autoria do jovem Shripad Amrit Dange. Mohandas Gandhi percorria então o interior rural do país pregando o amor, enquanto o Congresso Nacional Indiano o retratava como um messias e herói popular, em peças de teatro ambulantes. Entre 1921 e 1924 realizaram-se nada menos que três grandes julgamentos por “conspirações comunistas”. Num deles M. N. Roy foi condenado à revelia. O Partido Comunista da Índia é fundado em 1925, federando vários grupos regionais ativos desde já há alguns anos. No Vietname, a luta de massas teve um grande impulso a partir de 1924 e no ano seguinte era já dirigida pela Associação da Juventude Revolucionária fundada por Ho Chi-Mihn a partir do exterior. Nos anos seguintes, o movimento operário, camponês e da pequena-burguesia citadina engrossava ainda mais e passava já espontaneamente às reivindicações políticas, nacionais e democráticas (31). Na Malásia e Birmânia estava ativo desde 1925 o Partido Comunista dos Mares do Sul.

 

No mundo árabe, desde os alvores do Comintern, o comunismo lançou de imediato raízes no Iraque, no Líbano-Síria (o mandato francês), na Palestina, no Egipto, na Argélia e na Tunísia. O padrão geral nesses países foi o declínio do socialismo reformista - aculturado e comprometido com o colonialismo - e o ascenso do comunismo, bem imbricado no movimento sindical (onde o havia) e em diálogo ou aliança aberta com o movimento nacionalista. Na década seguinte as coisas complicar-se-iam porque uma parte substancial dos nacionalistas deixou-se seduzir pelo nazi-fascismo, estando os comunistas vinculados à estratégia da Frente Popular (32). Uma revolta nacional no Egipto, iniciada em 1919, colocara a suserania britânica em suspenso, até que, em 1923, um novo arranjo constitucional veio criar uma monarquia semifantoche, dirigida pelo partido liberal Wafd de Saad Zaghloul. Os comunistas foram reprimidos por este regime neocolonial, sujeitos a uma série de julgamentos. Pouco depois Zaghloul caiu, na sequência de um ultimato britânico, e o regime tornou-se totalmente fantoche, até à revolta dos oficiais livres de Gamal Abdel Nasser em 1952.

 

A grande gesta anticolonial desses tempos foi, sem dúvida, a república do Rif, de Abd-el-Krim (1921-26), quer pela sua administração moderna e progressiva, quer pela série de brilhantes vitórias militares conseguidas contra franceses e espanhóis. A participação comunista autóctone terá sido aí muito residual, se alguma. Marrocos sempre foi terreno sáfaro para a agitação e militância comunista. Mas há quem assegure que Abd-el-Krim tinha um conselheiro comunista francês que lhe assegurava ligações com a União Soviética, de onde lhe chegavam financiamentos (33). Esta foi, sem dúvida, por estes tempos, a causa internacional que criou maior mobilização anticolonialista a nível mundial, em especial nos países árabes. Na Síria de mandato francês houve também uma revolta de grande impacto, dirigida militarmente pelo druzo Sultan al-Atrash, entre 1925 e 1927. Esta revolta contou já com o apoio do então Partido Comunista da Síria e do Líbano, sendo, porém, a força política moderna dominante o nacionalista Partido do Povo. Na Tunísia, o partido nacional-constitucionalista Destour colaborava intimamente com os comunistas, ou pelo menos era disso acusado pelas autoridades coloniais francesas. Mas o máximo que conseguiu organizar, nestes anos, foi uma campanha continuada de demonstrações e boicotes.

 

Deve aqui referir-se, de passagem, que os comunistas entre os colonos franceses da Argélia tinham posições abertamente colonialistas e racistas, como foi denunciado no IV Congresso da Internacional Comunista, pelo tunisino Tahar Boudengha. Para maior clarificação, essas posições deram-se aliás a conhecer diretamente ao congresso, com escândalo, através de uma célebre carta da secção “comunista” francesa de Sidi-Bel-Abbès. Um problema de algum modo similar punha-se também na Palestina sujeita à colonização judaica. O Partido Comunista da Palestina foi fundado em 1923, por judeus, sendo progressivamente aberto a árabes sob instruções do Comintern. Leopold Trepper, o lendário espião, maestro da “orquestra vermelha”, foi dirigente deste partido (34). Em 1943 o partido cindiu-se pela costura étnica, tendo os comunistas árabes formado no ano seguinte a Liga de Libertação Nacional. Depois tornou a fundir-se, para finalmente se separar novamente.

 

Na África do Sul, o Partido Comunista foi fundado em 1921 e a partir do ano seguinte tinha já uma presença muito forte no movimento sindical branco. Designadamente nos mineiros, que em 1922 protagonizaram no Rand uma revolta armada antipatronal e anti-estatal mas de conteúdo marcadamente racista. A partir de 1924 o partido começa a africanizar-se e a ter uma palavra a dizer não só em questões sindicais mas também na questão da terra e na luta de emancipação nacional. Isso vai acentuar-se mais ainda a partir do momento em que Josiah Gumede, regressado de uma viagem à União Soviética, se torna presidente do African National Congress (ANC). O partido tem desde muito cedo uma ligação constante ao Comintern, que chegou a ser única no hemisfério sul. Ainda nesta década começa a captar alguns quadros importantes, negros e “coloridos”, que enviaria depois para formação no exterior, designadamente na União Soviética. É o caso de James La Guma, Moses Kotane, Yusuf Dadoo, J. B. Marks, Thabo Mafutsanyana, Albert Nzula e Gana Makabeni entre outros. A África do Sul começa a tornar-se como que um segundo polo de difusão do marxismo panafricanista, em alternativa ao eixo Caraíbas - E. U. A. - Londres.

 

Na África ocidental havia por este tempo grandes movimentações de protesto social. Estalaram grandes greves de mineiros, ferroviários e outros trabalhadores. Houve mesmo uma rebelião generalizada na África Equatorial Francesa que ficou conhecida como a guerra Gbaya. Mas a intelligentsia nacionalista estava ainda em formação, longe, na Europa. O senegalês Lamine Senghor (35) e o sudano-francês (maliano) Tiemoko Garan Kouyaté, juntamente com comunistas antilhanos, formaram o Comité de Défence de la Race Nègre. Militavam no Partido Comunista Francês (PCF) esforçando-se ingloriamente por fazê-lo respeitar as regras cominternianas quanto à questão colonial. Ainda assim, a comissão colonial do partido, dirigida por Jacques Doriot (que depois evoluiria para o fascismo), desempenhou algum papel na formação marxista de um certo número de quadros nacionalistas das colónias. Paul Vaillant-Couturier e Henri Barbusse eram também penas frequentemente solidárias com a causa, no L’Humanité ou na revista Clarté.

 

Foi na órbita do PCF que nasceu então a organização magrebina l’Étoile Nord-Africaine de Messali Hadj e Hadjali Abdelkader. Em 1927, a Étoile estabelecerá as bases de um programa, que pode ser resumido em: 1) A independência total dos três países do norte da África: Argélia, Tunísia e Marrocos; 2) A unidade do Magrebe; 3) A terra para os fellahs; 4) Criação de uma assembleia constituinte por sufrágio universal; 5) Nacionalização prioritária dos bancos, minas, caminhos-de-ferro, portos e todos os serviços públicos detidos pela França (36). Também com o apoio do PCF estabeleceu-se uma associação muito significativa que foi a Union Intercoloniale (UIC) que reunia sobretudo africanos, malgaxes, vietnamitas, argelinos e antilhanos. A UIC publicava um jornal intitulado Le Paria (fundado por Ho Chi Minh), que era levado clandestinamente para as diversas colónias. Na ilha de Martinica, nas Antilhas, foi publicado em 1932 o manifesto anticolonialista Légitime Défense, que daria origem à revista marxista e surrealista do mesmo nome, dirigida por René Ménil e pelos irmãos Thélus e Étienne Léro, todos comunistas.

 

A partir de 1935 as coisas mudaram para pior. Se até aqui o PCF se debatia desconfortavelmente com a condição 8 da IC, deixou então por completo de a considerar sequer. Na sequência do pacto de assistência franco-soviético, então assinado, o partido passou a adotar uma atitude francamente nacional-imperialista e cessou toda a assistência aos movimentos de emancipação colonial. Manteve-se assim na Frente Popular, opondo-se por completo à independência das colónias, sob pretexto de que elas poderiam cair nas garras das potências fascistas. Enquanto durou, depois, o pacto germano-soviético, esta justificação deixou de usar-se, naturalmente. Terminada a II Grande Guerra, porém, a sua atitude nesta questão em nada evoluiu, ou fê-lo apenas de forma muito lenta e penosa, perante os factos (37). Todavia, perdurou, até pelo menos os anos 1970, a tradição de Paris albergar e formar intelectualmente quadros para a luta anticolonial (e antifascista). Em 1934, um grupo de jovens, entre os quais o martiniquense Aimé Césaire e o senegalês Léopold Sédar Senghor, fundam o jornal L'Étudiant noir, onde se fizeram, pela primeira vez, reflexões sobre o conceito de “negritude”, como reação afirmativa contra a assimilação cultural promovida pelo colonialismo francês. No ano seguinte Césaire adere às Juventudes Comunistas. O seu amigo africano também foi comunista, no imediato pós-guerra, mas depois decidiu-se por uma carreira política de conciliação a la française (38).

 

O colonialismo anglo-saxónico em África não era certamente menos brutal ou explorador que o francês, mas tinha métodos mais relaxados, menos sufocante e tiranicamente patriarcais, que o francês (para não falar do belga ou do português). No seu espaço, merece referência um agudo conflito de terras que começava então a surgir com o povo Kikuyu, no atual Quénia. Na Kikuyu Central Association notabilizava-se um jovem que adotara o nome de Jomo Kenyatta, educado numa escola missionária. Em 1929 foi a Londres para fazer lobby pela sua causa, mas logo depois foi captado para ir para Moscovo estudar na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente. Na Gâmbia, Nigéria, Serra Leoa e Costa do Ouro fazia-se notar um vibrante movimento sindical no funcionalismo, transportes e minas.

 

O nacionalismo panafricanista burguês agrupara-se desde 1920, em plena legalidade, no National Congress of British West Africa. Tentaram mesmo ser recebidos pelo rei de Inglaterra, sem sucesso. Havia, entretanto, na costa ocidental africana, desde meados do século XIX, uma república negra formalmente independente, sob uma benévola tutela norte-americana: a Libéria. A sua classe dirigente era constituída por uma elite de colonos afro-americanos, que tomava muito a sério um papel de vanguarda histórica no processo de emancipação de África, designadamente participando em lugar de honra nos quatro congressos panafricanos realizados até então (1919, 1921, 1923, 1927).

 

Na América Latina os progressos do comunismo faziam-se mais lentamente, a partir de grupos de estudo com alguma atividade publicística esparsa. No entanto, havia movimentações políticas progressistas, tendencialmente anti-imperialistas, com as quais os comunistas dialogaram frutuosamente, a partir da sua embrionária fraqueza. Foi o caso do levantamento dos tenentes no Brasil em 1922, seguido das aventuras da coluna Prestes (39); as presidências de Hipólito Irigoyen na Argentina, Arturo Alessandri no Chile, José Battle Y Ordoñez no Uruguai, Plutarco Elías Calles no México; sobretudo a criação da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), uma organização internacional criada pelo peruano Victor Raul Haya de la Torre, que propugnava a luta contra o imperialismo estadunidense, a unidade política latino-americana, a nacionalização da terra e da indústria, a internacionalização do canal do Panamá e a solidariedade com todos os povos e classes oprimidas do mundo.

 

A Internacional Comunista pouca atenção deu a este continente (que demorou o seu tempo a ser considerado também “oriental”), até à realização da Primeira Conferência dos Partidos Comunistas Latino-Americanos, em 1929 (40). Entre os partidos comunistas criados nesta década, só o chileno, fundado pelo experiente militante operário Luis Emilio Recabarren, conheceria de imediato alguma expressão de massas. Julio Antonio Mella, participa na fundação do Partido Comunista Cubano em 1925, mas é logo obrigado a exilar-se no México, onde prossegue atividade conspirativa e doutrinal de algum relevo (41), até ser assassinado por esbirros da ditadura de Gerardo Machado. No Peru, em 1926, o marxista José Carlos Mariátegui, regressado de uma longa estadia na Europa, funda a revista Amauta. Dois anos depois rompe com a APRA e funda um Partido Socialista, afiliado na III Internacional. É ainda em 1928 que se publica o programa deste partido, da sua autoria, bem como a primeira edição dos seus Siete ensayos de interpretación de la realidade peruana, uma obra-prima até hoje insuperável no marxismo latino-americano (42).

 

Enquanto se começava assim a esboçar o enorme e global “desvio irlandês” na lua emancipatória do proletariado, a própria Irlanda ganhava finalmente a sua independência, ao custo de uma extrema violência à queima roupa e da aceitação da chaga viva da partição. Era a última colónia europeia, da mais destacada potência colonial mundial. Se a besta podia ser derrotada mesmo no seu flanco direito, tudo se tornava possível. Roddy Connolly - filho de James Connolly, o herói socialista do malogrado levantamento da páscoa de 1916 – deslocava-se frequentemente a Moscovo, onde privava com Lenine. Depois de ter sido delegado ao II Congresso da Internacional Comunista (pelos wobblies), fundou em 1921 o Partido Comunista da Irlanda (PCI). Os comunistas irlandeses participaram na guerra de independência (1919-1921) e, opondo-se ao tratado anglo-irlandês de partição (1921), alinharam na guerra civil irlandesa que se lhe seguiu pelo lado de Éamon de Valera. O Estado soviético mantinha outros contactos com nacionalistas irlandeses, nomeadamente, em permanência, com agentes do partido Sinn Féin em Nova Iorque.

 

Entretanto, há ainda um outro terreno em que se faz sentir uma influência muito precoce do bolchevismo e que viria a ter uma enorme repercussão internacional. Estamos a falar do movimento negro norte-americano. Podemos dizer que foi um caso de amor mútuo à primeira vista. Nos E. U. A., a prometida libertação da abolição da escravatura e da vitória nortista na guerra civil de 1861-1865 foi quase imediatamente afogada pelas leis segregacionistas conhecidas como de Jim Crow, que perdurariam por quase um século, até ao tempo de Martin Luther King. Uma combinação de regulamentos estaduais e terror de grupo organizado negava o exercício dos mais elementares direitos de cidadania à população de origem africana. O assédio e a humilhação eram experiência comum da vida negra na cintura de Estados sulistas, com massacres e linchamentos a pairar em fundo como ameaça permanente. Ficavam não só impunes, por regra, como eram até glorificados em filmes de grande sucesso como “O Nascimento de uma Nação” (1915) de David Griffith. Por sua vez, os negros que imigraram para o norte ou para a costa oeste experimentaram dificuldades de integração, inclusive na sua admissão a sindicatos. Só os desqualificados anarco-sindicalistas dos Industrial Workers of the World (os wobblies) os admitiam.

 

A resistência cívica, política e também cultural da comunidade negra era conduzida, nos inícios do século XX, numa grande parte, pela National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), uma organização frentista e multirracial onde pontificava o magistério do grande intelectual, académico e publicista William Edward Burghardt Du Bois. A revista desta associação era (como é ainda hoje) The Crisis. Por outra parte, esta “ressurgência negra” tinha também componentes mais radicalizados, como a African Blood Brotherhood (ABB), conduzida pelo jornalista de origem caribenha Cyril Briggs, ou o grupo reunido à volta da revista The Messenger de Asa Philip Randolph. Por esse tempo, também o jamaicano Marcus Garvey, feroz anticomunista, fazia apologia do regresso de todos os negros a África, onde se fundaria um Estado independente único sob a sua direção imperial. Os seus partidários reuniam-se na Universal Negro Improvement Association (UNIA), com muitas filiais por toda a América do Norte e Caraíbas e alguns pontos de contato em África.

 

Todos os nomes citados no parágrafo anterior (à exceção de Garvey) se inclinavam então para o socialismo e receberam com expetativa a revolução soviética. Mas a sua atenção foi definitivamente captada pelo Manifesto da Internacional Comunista, aprovado pelo seu I Congresso, onde se lia: “Na melhor das hipóteses, o programa de Wilson visa nada mais do que mudar o rótulo da escravidão colonial… Escravos coloniais da África e da Ásia: a hora da ditadura do proletariado na Europa será também a hora da vossa libertação.” E esta mensagem tornou-se ainda mais explícita e direta nas teses aprovadas no II Congresso: “Todos os partidos comunistas devem apoiar diretamente o movimento revolucionário entre as nações que são dependentes e não têm direitos iguais (por exemplo, a Irlanda, os negros na América entre outros) e nas colónias”. Ainda neste último congresso, enquanto se discutiam questões coloniais, o delegado norte-americano John Reed escreveu uma pequena nota a Lenine perguntando-lhe se seria oportuno falar nessa ocasião sobre os negros nos E. U. A.. A isto Lenine respondeu, numa nota escrita que está preservada: “Sim, absolutamente necessário” (43).

 

A ABB tornou-se o embrião do bolchevismo negro, agora sob a designação aumentada de African Blood Brotherhood for African Liberation and Redemption. Dois dos seus ativistas cimeiros, Otto Huiswoud e Claude McKay, participaram como delegados no IV Congresso da Internacional Comunista. O primeiro desempenharia ainda diversas missões pelo Comintern, designadamente na África do Sul. A organização acabaria por aderir ao Partido Comunista dos E. U. A., fundado por Rose Pastor Stokes, mas mantendo, no seio deste, muitas das suas conceções próprias, designadamente o panafricanismo. Este partido teve assim, como marca originária, um biface racial que o implicava diretamente nas lutas cívica negra, anti-imperialista e de emancipação colonial. Estávamos nos alvores da Harlem Renaissance e Duke Ellington em breve tornaria a sua formação banda residente do Cottom Club. Viera de Washington, onde o seu pai era mordomo na Casa Branca (bom emprego, para um house nigger).

 

W. E. B. Du Bois estava profundamente empenhado no movimento dos congressos panafricanos que arrancou em Paris em 1919, na sequência da já distante conferência londrina em que ele também já participara, em 1900. Du Bois era um socialista pragmatista, embora tenha estudado o marxismo e adotado já tardiamente algumas das suas proposições teóricas fundamentais. Visitou a União Soviética várias vezes, mas manteve-se afastado e por vezes até em desacordo e polémica com o P. C. dos E. U. A., até à adesão simbólica feita em idade já muito avançada. Contudo, assumiu muito frequentemente posições públicas próprias do frentismo cultural e político filocomunista, o que lhe valeu uma sistemática perseguição na época maccartista e para além dela. Por opção própria morreu na África independente, dividido entre os seus pupilos Nkrumah do Gana e Azikiwe da Nigéria, acarinhando ainda o projeto de promover a publicação de uma Encyclopedia Africana. Teve um papel destacadíssimo na transmissão do testemunho socialista para o nacionalismo africano e terceiromundista em geral.

 

O IV Congresso da Internacional Comunista realizou-se entre novembro e dezembro de 1922, em Petrogrado e Moscovo. Lenine, já numa fase adiantada da sua doença terminal, fez apenas uma aparição simbólica, para dirigir à assembleia uma breve alocução com reflexões soltas sobre experiências da revolução russa. Agora já havia partidos comunistas espalhados um pouco por todo o mundo. Por outro lado, a situação internacional já não requeria o mesmo comedimento. Pelo contrário, a aliada Turquia estava triunfante e iniciava-se em Lausanne uma conferência para discussões sobre a questão da navegação no estreito dos Dardanelos, em que o Estado soviético precisava de se afirmar com alguma assertividade. Era mais um palco para Georgy Chicherin brilhar. A imprensa soviética não se coibia de exibir até alguma retórica de grande potência, afirmando que “A Rússia está de volta” (Izvestia, 7 de dezembro de 1922). Mas as coisas acabaram por não correr nada bem. Os turcos revelaram-se aliados pouco fiáveis. Entretanto, as perseguições aos comunistas turcos continuavam, sem que estes pudessem arrancar do Comintern mais do que protestos inconsequentes (44).

 

Este congresso retomou a consideração especial da questão oriental, dedicando-lhe um conjunto de oito teses preparadas pela respetiva comissão (45). Houve agora a preocupação explícita de não amalgamar as diferentes realidades geográficas e sociais em consideração numa única análise uniforme, fazendo-se referência às diferentes condições de luta existentes. É realçado o progresso registado na organização social e política do proletariado nas nações coloniais, sublinhando-se a necessidade de manter a sua independência, ainda que no âmbito de uma “frente unida”, que era agora o novo lema tático do Comintern, também na luta anti-imperialista. Especial atenção é dedicada à questão agrária, fazendo-se um apelo à organização do campesinato com vista a garantir o seu acesso à terra, como meio de combater as classes dominantes retrógradas, pressionando do mesmo passo a burguesia ascendente a formar alianças de conteúdo anti-imperialista.

 

O reconhecimento da complexidade da questão oriental não se fez sem incorrer no custo do resvalamento para alguma ambiguidade ou incongruência histórico-sistémica. Para satisfazer os indonésios, admitiram-se as alianças circunstanciais com o panislamismo. De forma mais genérica, na luta anticolonial, admitia-se agora a aliança não só com a burguesia nacionalista ascendente, mas até com senhores patriarcais tradicionais (por vezes ditos “feudais”), desde que estes dessem provas de patriotismo. Ou seja, o proletariado e o campesinato “orientais”, na sua luta contra a opressão imperialista, podem buscar alianças de frente única com a burguesia contra os déspotas ancestrais, ou bem com ambos, no caso de velhas e novas elites lhes parecerem todas, na circunstância concreta, determinadas e fiáveis na luta de libertação nacional. Em qualquer destes casos, serão sempre as classes oprimidas as portadoras da seta do progresso, desde que em aliança sincrónica com o Estado soviético vitorioso e o proletariado revolucionário das nações mais avançadas. E o momento da libertação colonial será o momento de início da sua luta contra os aliados da véspera, a começar, naturalmente, pelos mais tirânicos e perimidos. Por explicar fica como é possível gerar confiança nesses aliados, com propósitos assim tão clara e antecipadamente estabelecidos. Estava aí já o caso da Turquia, como pronúncio do mais trágico ainda que seria o da China.

 

Uma das sensações do IV Congresso foi certamente a presença de dois delegados negros norte-americanos, com intervenções de grande qualidade e pertinência. Tratavam-se do poeta Claude MacCay e do tipógrafo e militante Otto Huiswoud, ambos de origem caribenha e residência novaiorquina, que representavam a African Blood Brotherhood. Desde logo, questionaram a representação da África do Sul por delegados de origem europeia, o que teve imediatamente consequências de tomo na vida do partido sul-africano. Por fim, conseguiram afirmar, dentro da questão colonial, a especificidade da questão negra, que teve a sua própria comissão. Esta apresentou um conjunto de teses, da lavra de Huiswoud, que seriam aprovadas por unanimidade (46). O congresso aprovou ainda um manifesto dirigido aos trabalhadores e camponeses da América do Sul (47).

 

No seu último escrito, ditado sofregamente às estenógrafas, Lenine mostra-se apreensivo com a situação económica soviética e desencantado com as perspetivas revolucionárias imediatas no Ocidente. A sua esperança, melhor, a sua certeza na vitória final do socialismo, repousava agora no Oriente – aí incluída também a Rússia, associada à Índia e à China -, onde vivia a imensa maioria da população mundial. Mas era preciso elevar o seu nível civilizacional e buscar as táticas adequada para suportar a próximas e previsíveis agressões imperialistas (48).

 

O V Congresso da Internacional Comunista, realizado em junho-julho de 1924, foi o primeiro após a morte de Lenine. Zinoviev estava no zénite do seu poder. Trotsky tomou ainda aí a palavra, com alguma autoridade. O relatório sobre as questões nacional e colonial foi apresentado por Ho Chi Minh (então Nguyen Ai Quoc). Foi um longo requisitório, recheado de estatísticas, contra a bestialidade do colonialismo e a indiferença demonstrada perante ele pela imprensa comunista ocidental (49). O Partido Comunista Francês esteve sob fogo cerrado pela sua passividade ou conivência na questão colonial, não só por delegados das nações oprimidas, mas também por uma estrela ascendente no Comintern como era então Dmitry Manuilsky.

 

Na primavera de 1927 constitui-se a Liga contra o Imperialismo e a Opressão Colonial, num congresso realizado no Palácio Egmont, em Bruxelas, com a presença de 175 delegados de todo o mundo. O objetivo era criar um grande movimento de massas anti-imperialista à escala mundial. A iniciativa e impulso organizativo inicial estiveram claramente situados do lado do Comintern, sendo a coordenação assegurada por dois dos seus agentes: Willi Münzenberg e o indiano Virendranath Chattopadhyaya. Todavia, a organização era de caráter frentista e tinha participação de um amplo leque político, entre comunistas, socialistas e liberais radicais. Bruxelas acabou por ser escolhida aproveitando-se ardilosamente o facto de Émil Vandervelde ser, nessa altura, simultaneamente, ministro dos negócios estrangeiros belga e presidente da Internacional Socialista. Quereria, certamente, afirmar os pergaminhos humanistas do socialismo, branqueando simultaneamente um pouco o horrível registo colonial do seu país, que aliás proibiu expressamente que fosse abordado durante os trabalhos. A denominação de “Liga” era um contraponto irónico e crítico à “Liga das Nações”. Seria a liga dos pardos, bastardos e excluídos.

 

O congresso não se repetiria, mas a organização manteve-se ativa durante alguns anos e deu origem a várias réplicas regionais. Pelas suas iniciativas passaram Albert Einstein, Jawaharlal Nehru, Mohamed Barakatullah, Sukarno, Mohammad Hatta, Josiah Gumede, Messali Hadj, Haya de la Torre, Henri Barbusse, Romain Rolland, Roger Baldwin, Gabrielle Duchêne, madame Sun Yat-Sen e muitos outros, entre intelectuais, gente mundana, políticos, ativistas e sindicalistas. A organização acabou por naufragar nos anos 1930. Após a ocupação japonesa da Manchúria, Münzenberg passou a dedicar o grosso da sua atenção e energia ao Comité Mundial contra a Guerra Imperialista e o Fascismo (o movimento Amsterdam-Pleyel), para cujas atividades mobilizou todos os seus contatos, a que juntou, entre outros, Maxim Gorky, Heinrich Mann, Bertrand Russell, Havelock Ellis, Theodore Dreiser, John Dos Passos, Upton Sinclair e Sherwood Anderson (50). Mas a Liga desempenhou bem o seu papel histórico como importante incubadora do nacionalismo terceiro-mundista, uma distante precursora do que viria a ser o “Movimento dos Não-Alinhados”.

 

VI Congresso do Comintern decorreu entre julho e setembro de 1928, em Moscovo, com 515 delegados vindos de 57 países. Foi o primeiro congresso da IC após a consolidação do poder por Estaline, embora não se possa ainda dizer que tivesse sido uma típica cerimónia estalinista. Já se notava, porém, alguma centralidade expressamente concedida no movimento à posição geopolítica da União Soviética e um condicionamento mais apertado dos debates. Foram aprovados um Programa e Estatutos para a Internacional Comunista (51). Entráramos numa era de grave crise capitalista mundial, que foi teorizada como sendo um “terceiro período” pós-guerra, de grande turbulência social. A ideia teve a sua origem em Bukharine, que fora eleito secretário-geral do comité executivo do Comintern em 1926. Em função dessa análise, a orientação tática aprovada neste congresso foi de “classe contra classe”, extremamente hostil para com o reformismo e a social-democracia. Bukharine seria alijado muito em breve de todas as suas funções.

 

A questão colonial foi abordada de forma muito detalhada e estruturada, num trabalho, certamente coletivo, coordenado pelo finlandês Otto-Wille Kuusinen (52). Acabaram-se aqui os amadorismos e a inspiração individual. Este documento, no seu capítulo económico (Parte II, pontos 9 a 15), é teoricamente muito rico e inovador. A relação de dominação colonial é examinada estruturalmente, como nunca o fora até então. Além de ser uma notável peça literária, tem brilho, originalidade e profundidade analítica, sendo um precursor direto da obra de Paul A. Baran e de toda a escola da Teoria da Dependência. Nota-se aqui a presença de um “autor”, que não se vê quem possa ser senão Bukharine, ou talvez Eugen Varga (ambos citados no relatório introdutório de Kuusinen). Comparativamente, a parte política do documento é prolixa e enfadonha, situando-se, para além disso, a um nível de generalidade que o torna imprestável na orientação concreta das lutas no terreno. Insiste-se muito na necessidade de preservação da independência do partido comunista, formado com base na aliança operário-camponesa, face ao traiçoeiro nacionalismo emancipatório burguês, com quem, no entanto, é indispensável procurar estabelecer um entendimento, até ao limite. A principal preocupação era então a China (depois das catástrofes de Xangai e Cantão) e esta serve então de padrão para todos os países coloniais e semicoloniais. São também abordados especificamente a Índia, a Indonésia, a Coreia, o Egipto, a África do Norte, a América Latina e a “Questão Negra”, nesta se incluindo a África colonial, a União Sul Africana e os E. U. A. e outros países americanos.

 

O congresso tratou também, numa resolução própria, da questão da África do Sul, que há tempos já vinha sendo acompanhada com preocupação no Comité Executivo da IC, onde existia uma Comissão Negra, formada sobretudo por norte-americanos. O partido sul-africano havia-se já africanizado (melhor, desracializado), sendo todavia ainda dirigido por brancos negrófilos como Sydney Bunting e Edward Roux. O que causava mau estar. Continuava, entretato, marcadamente obreirista. Pretendia alcançar o socialismo e o comunismo mediante o esforço militante de uma vanguarda operária pura. O Comintern queria encaminhá-lo para encarar a necessidade, historicamente intercalar, da instauração de uma “República Nativa”, com radical reversão das expropriações agrárias colonialistas. O que implicava uma especial atenção ao campesinato e um entendimento com as organizações nacionalistas clássicas como o Congresso Nacional Africano. Esta inflexão estratégica colocava delicadas questões histórico-filosóficas, para mais numa altura em que a tática política comunista imposta na Europa ia precisamente no sentido inverso. Mas lá acabou por ser aceite, depois de algumas escaramuças, acabando por marcar duradouramente a linha de intervenção e a política de alianças deste partido (53). Assim que, pelo menos esta interferência do Comintern acabou por ter bons resultados.

 

O Comintern, desde o seu início, começou a estabelecer uma rede de organizações associadas, umas mais bem sucedidas do que outras. Foram, nomeadamente, a Rede Internacional de Sindicatos Vermelhos (Profintern), a Internacional da Juventude Comunista, a Internacional Comunista das Mulheres, a Internacional Vermelha dos Camponeses (Krestintern), o Socorro Vermelho Internacional, a Internacional da Cultura (Kultintern) e a Rede Desportiva Internacional (Sportintern). Para a matéria em análise neste capítulo de Outubro e Nós, interessam-nos sobretudo as duas primeiras.

 

Um estudante de Medicina trinidadino, que aderira ao comunismo nos E. U. A., adotando o pseudónimo de George Padmore, viria a desempenhar um enorme papel na militância nacionalista negra. Enviado a Moscovo em 1929 para apresentar um relatório de atividade sindical ao Comintern, foi convidado a ficar. Foi mesmo eleito deputado ao soviete moscovita. Aceitou passar a dirigir o Secretariado Negro do Profintern, que se transformaria depois no International Trade Union Committee of Negro Workers (ITUCNW). No início da década de 1930 viveu em Hamburgo e Viena, editando a revista mensal da organização The Negro Worker, que era depois introduzido nas Américas e por toda a África (54). Em julho de 1930 realizou-se em Hamburgo uma extraordinária conferência da ITUCNW, com dezassete delegados representando seis organizações afro-americanas, a Guiana Britânica, Trinidad, Jamaica, vários países da África Ocidental e a África do Sul. Foi aí aprovada uma série de resoluções e eleito um comité executivo, secretariado pelo cominterniano norte-americano James W. Ford. A organização tinha efetiva influência doutrinal e tática na organização e agitação dos trabalhadores negros de ambos os lados do Atlântico.

 

Expulso dos países germânicos pela ascenção do nazismo, Padmore andou por França – onde privou com a extravagante mecenas antifascista e antirracista Nancy Cunard - acabando por fixar-se em Inglaterra. Afastou-se, por fim, do Comintern, onde se dera um notório esmorecimento do entusiasmo pela luta anticolonial com a adoção da nova política de Frente Popular. Esta política começou a desenhar-se no 13.º plenum do Comité Executivo do Comintern (dezembro de 1933) e conjugava-se com uma reaproximação diplomática da União Soviética com a França e a Grã-Bretanha que, novamente, não se coadunava com os ardores da agitação anticolonial.

 

Padmore foi um agitador extraordinário e tem de ser considerado um dos pais da África independente - ao mesmo nível que Du Bois e Garvey – para além de um prócere de todo o movimento de consciência negra. Em Londres, em 1934, com o seu conterrâneo C. L. R. James, o barbadino Chris Braithwaite, Jomo Kenyatta, Nnamdi Azikiwe, Amy Ashwood Garvey (ex-mulher de Garvey) o guianês Ras Makonnen e o sindicalista serra-leonês I. T. A. Wallace-Johnson, entre outros, fundou o International African Service Bureau (IASB)que editava um novo periódicoanticolonialista, o International African Opinion. Em 1945 organizou, em Manchester, o5.º Congresso Panafricano, que teve já uma acentuada marca marxista e marcou a agenda descolonizadora para o pós-guerra. Continuou sempre a publicar novos periódicos, livros e panfletos, correspondendo-se, conferenciando, inspirando, encorajando.

 

A Internacional da Juventude Comunista, fundada ainda em 1919, foi um veículo para o extraordinário ativismo de Willi Münzenberg, mas foi sobretudo importante pela rede universal de associações de estudantes que se criou mais ou menos na sua órbita. Estas associações foram ponto de encontro, apoio mútuo e formação doutrinal de muitos jovens de países coloniais, sobretudo quando residentes no estrangeiro, frequentemente nas próprias metrópoles imperialistas. Já após a dissolução do Comintern, este campo de ação política seria continuado em duas organizações surgidas no pós-guerra, a União Internacional de Estudantes e a Federação Mundial das Juventudes Democráticas.

 

Em 1925 foi fundada em Londres a West African Students' Union (WASU), que nas décadas seguintes se radicalizaria aproximando-se de um anti-imperialismo de matiz leninista, sob a direção de personalidades como Kwame Nkrumah e Joe Appiah. Na Costa do Ouro (Gana), I. T. A. Wallace-Johnson e Kweku Bankole Awoonor-Renner, militantes comunistas, tendo ambos estudado em Moscovo, criaram em 1934 a West African Youth League (WAYL). Chegou a ter perto de 40.000 aderentes e ganhou umas eleições para o conselho municipal de Freetown, capital da Serra Leoa. Esta vitória eleitoral custou a Wallace-Johnson uma pena de prisão na ilha de Sherbro. A WAYL foi a primeira organização na região a recrutar mulheres para a sua direção. Uma delas foi Mary Lokko, muito ativa nas campanhas de solidariedade com a Abissínia (Etiópia).

 

Awoonor-Renner apresentara, em abril de 1927, na Universidade dos Trabalhadores do Oriente, uma dissertação sobre a situação e as perspetivas estratégicas de luta na África Ocidental. O Comintern ficou impressionado com o trabalho e nomeou o autor seu enviado para a região. De regresso a África, Awoonor-Renner, correspondia-se com Padmore, fundou uma academia e dedicou-se sobretudo à poesia e ao jornalismo. Empenhou-se também na causa antimonárquica entre o povo ashanti, convertendo-se por fim ao islamismo. Presente no Congresso Panafricano de Manchester (1945), após a Grande Guerra virou mais à esquerda. Fundou o West African National Secretariat (WANS) e ajudou a definir a sua política através do panfleto The West African Soviet Union. Opôs-seà transição para a independência pactuada com as autoridades coloniais britânicas.

 

O italo-argentino Vittorio Codovilla, fundador do Partido Comunista Argentino, era secretário para a América do Sul no Comintern, de que foi aliás um agente muito ativo. Terá sido em boa parte por seu impulso que, em 1929, se realizou, em Buenos Aires, a I Conferência Comunista Latino-Americana. Foi um marco na imposição ao continente de uma certa ortodoxia “marxista-leninista”, nomeadamente a teoria dos estádios da revolução. Completamente alheia a estas congeminações foi a insurreição geral de El Salvador, em 1932. Trata-se de um evento sem paralelo na história latino-americana: uma revolução popular armada, dirigida por um partido comunista, com vista a instaurar um regime socialista soviético. Descoberta prematuramente a conjura, tudo decorreu precipitadamente, sem liderança, seguindo-se uma sanha repressora horrivelmente sanguinária (La Matanza), que engoliu à cabeça os seus dirigentes, entre os quais se contava Augustin Farabundo Martí (55). Martí era um militante bem formado, com experiência de trabalho no Comintern e no Socorro Vermelho Internacional, tendo participado já nas campanhas militares anti-imperialistas de Augusto César Sandino na vizinha Nicarágua (1926-1933).

 

Sandino não era um quadro político tão bem formado como Martí. Era um homem rebelde por temperamento, que foi sendo influenciado ao longo da vida por ideias anarquistas, espiritistas, indigenistas e comunistas. Sempre nutriu uma visceral animadversão pelo imperialisnmo norte-americano. Revelou-se um bom comandante guerrilheiro numa guerra civil nicaraguense entre liberais e conservadores, logo se envolvendo em luta contra as tropas de ocupação yankees enviadas em apoio destes últimos. Embora as forças em presença fossem extremamente desequilibradas em equipamento bélico, os marines norte-americanos nunca conseguiram capturar Sandino, que continuou, ao longo de três anos, a conduzir emboscadas e a publicar manifestos em nome da “raça indo-hispânica” e do federalismo latinoamericano. A certo ponto, a sua luta ganhou a atenção internacional, gerando manifestações de apoio por parte do Comintern. Acossado, Sandino refugiou-se no México, mas regressou ainda. Por fim, foram os norte-americanos que resolveram retirar, deixando, no entanto, os seus homens de confiança no poder. Em fevereiro de 1934 Sandino foi assassinado às ordens do general da Guardia Civil Anastasio Somoza. Este em breve tomaria o poder, que se manteria dinasticamete nesta família, com o apoio norte-amercicano, durante largas décadas.

 

No ano de 1932 dão-se na costa ocidental sul-americana dois eventos que merecem referência, ambos de algum modo induzidos pelos efeitos sociais da grande depressão. A 4 de junho dá-se um golpe militar que instaura no Chile uma efémera “república socialista”, que tomou medidas redistributivas radicais propondo-se estatizar a vida económica e reconhecer a União Soviética. Maugrado estas declarações de intrenções, este regime foi intensamente denunciado e combatido pelo Partido Comunista Chileno. De todo o modo não passou de um sonho de verão, dissolvendo-se em setembro com um contragolpe. Em julho, na cidade costeira nortenha peruana de Trujillo dá-se uma grande insurreição popular que derruba as autoridades locais, com a exigência da libertação do dirigente aprista Victor Raúl Haya de la Torre, que se encontrava detido em Lima. A revolta alastrou a algumas zonas cincunvizinhas. Oficiais da polícia e do exército detidos foram brutalmente massacrados pela turba. A cidade foi sitiada e bomabardeada por tropas governamentais, mas resistiu denodadamente. Acabou por ser tomada rua a rua, com cenas extraordinariamente sangrentas. Este incidente gerou uma inimizade profunda entre o exército e o partido APRA, que perduraria por várias décadas. As forças armadas peruanas nunca permitiram que Haya de la Torre chegasse ao poder.

 

O Brasil conheceria também o seu momento insurrecional, em novembro de 1935. Foi fruto de uma iniciativa urdida e bem maturada no Comintern, mas não visava uma revolução socialista. Conforme à ortodoxia estalinista, almejava-se apenas uma revolução nacional-democrática (com o seu bloco de quatro classes: proletariado, campesinato, pequena-burguesia e burguesia nacional), que era o que corresponderia à fase de maturação atingida pela formação social brasileira. O levantamento militar nacional, dirigido por Luís Carlos Prestes, em nome da Aliança Nacional Libertadora, fracassou em toda a linha, tendo apenas conseguido tomar o poder, muito precariamente, na cidade de Natal. Na terrível onda repressiva que se seguiu, Prestes mergulhou na clandestinidade. Capturado, foi condenado a uma longa pena de prisão. Sua esposa, a revolucionária comunista alemã Olga Benario, foi entregue grávida à Gestapo, sendo executada, alguns anos depois, numa câmara de gás no campo de concentração de Bernburg (56).

 

O legado mais coerente e duradouro da revolução mexicana seria construído, mais de vinte anos depois, durante a presidência de Lázaro Cárdenas del Rio (1934-1940). Cárdenas era um veterano militar das campanhas constitucionalistas. Serviu sob Pancho Villa, Álvaro Obregón e, sobretudo, Plutarco Calles. O seu mentor, porém, foi o radical e socialista general Francisco Múgica, que escolheu para seu secretário da indústria. O seu primeiro secretário da finanças e crédito público foi o marxista Narciso Bassols. Repetindo a nível nacional a experiência que já tinha levado a cabo, como governador, no estado de Michoacán, Cárdenas conduziu uma reforma agrária profunda, criando e apoiando um sistema de coletivos rurais de base (os ejidos). Poderosas associações camponesas e sindicais foram incrustadas no aparelho do partido político dominante, o Partido da Revolução Mexicana. Na presidência de Cárdenas nacionalizou-se o sistema ferroviário nacional; expropriaram-se as reservas e as instalações das companhias petrolíferas multinacionais para criar um monopólio estatal do setor, a Petróleos Mexicanos (Pemex), o que serviria de modelo para muitas experiências posteriores similares; criou-se um banco estatal de desenvolvimento; expandiu-se e reformou-se o sistema público de ensino, dando-lhe um conteúdo socialista; concedeu-se o direito de voto às mulheres; defendeu-se e promoveu-se mundialmente a cultura indígena; concedeu-se liberalmente asilo a democratas e revolucionários socialistas perseguidos. Seguindo as instruções do Comintern, o Partido Comunista Mexicano deu apoio e participou em muitas das mobilizações de massa que suportaram as principais realizações deste governo, de mandato único. Breve mas intensa, esta experiência governativa democrática seria imensamente influente na política latino-americana do século XX.

 

Em janeiro de 1937 l’Étoile Nord-Africaine é dissolvido pelo governo de Frente Popular de Léon Blum. Em março é criado o Partido Popular Argelino, tendo Messali Hadj como presidente. Regresso deste à Argélia, onde o novo partido obtém ainda nesse verão os seus primeiros sucessos eleitorais municipais. Há desfiles, comícios e tournées de propaganda. A esposa de Hadj, Émilie Busquant, confeciona a primeira bandeira nacional argelina, que é desfraldada nas ruas de Argel numa parada organizada pelo Partido Comunista Argelino. Nova prisão de Hadj. Uma greve de fome garante-lhe a obtenção do estatuto de preso político. Na Tunísia, o jovem advogado e jornalista Habib Bourguiba funda o Partido Neo-Destour em 1934. Na sua formação em França adquirira ideias próximas da SFIO e admiração por Gandhi. Este partido tem uma atitude nova, enraíza-se nas massas populares por todo o país e reivindica bem alto a soberania nacional. O Partido Comunista está implicado na luta. Bourguiba é preso e deportado internamente. Estalam motins por todo o país. Repressão. Estabelece-se um diálogo. Bourguiba vai a Paris, uma e outra vez. Impasse negocial. Bourguiba opta pelo confronto (“É preciso que o sangue corra”). A 9 de abril de 1938 uma manifestação em Tunis desemboca em intensas cenas de guerrilha urbana, com dezenas de mortos. É imposto o estado de sítio. Nova prisão de Bourguiba, que passará a guerra exilado em Marselha.

 

Em 1930, Ho Chi Minh convoca os seus discípulos para uma conferência perto de Hong Kong onde se fundou o Partido Comunista do Vietname (depois também designado, por vezes, Indochinês). O partido adotou as mais ortodoxas teses estratégicas cominternianas e criou imediatamente organizações de massas, sindicais, camponesas, de mulheres, juventude, socorro vermelho, etc.. No país, às exações coloniais juntavam-se as calamidades naturais. Estalaram grandes greves em todos os setores, comícios, demonstrações. Instauraram-se sovietes em Nghe-Tinh. O poder colonial e dos mandarins tradicionais colaboracionistas colapsou em vastas regiões. Depois o movimento esmoreceu. O partido consolidou-se no terreno e realizou o seu primeiro congresso, em Macau, em março de 1935. Chegou, entretanto, ao poder em França o governo da Frente Popular. O partido procurou então animar uma Frente Democrática Indochinesa (1936-39), conjugando todo o tipo de ações legais, semilegais e ilegais. Assistia-se, novamente, a um ascenso do movimento de massas quando estalou a II Guerra Mundial (57).

 

Na Índia o palco central era quase todo ocupado por Mohandas Karamchand Gandhi e as suas campanhas de desobediência civil não-violenta, a via satyagraha. Em 1930 foi a campanha contra o monopólio e a taxa sobre o sal, com grandes marchas e discursos a multidões. A polícia espancou inúmera gente, encarcerou umas 90.000 pessoas e começava verdadeiramente a perder a cabeça. As autoridades coloniais promoveram então umas conferências sobre reforma constitucional. Conversa de surdos. Gandhi desfiliou-se e tornou a juntar-se ao Congresso Nacional Indiano. Em 1934 uma fação de esquerda deste cindiu para formar o Partido Socialista do Congresso, que era permeável à infiltração ou entendimentos com os comunistas. O Partido Comunista da Índia sofrera nova onda repressiva em 1929, conseguindo refazer-se e reorganizar-se apenas a partir de 1933. No ano seguinte seria finalmente reconhecido como membro pelo Comintern. Os seus centros principais de atividade eram Bombaim, Calcutá, Madras e o Punjab. Mas foi ainda nesta década que se implantou fortemente também em Kerala.

 

Por meados dos anos 1930, Aung San e o seu amigo U Nu estavam ambos muito ativos na União dos Estudantes da Universidade de Rangum. Eram ambos nacionalistas convictos e seriam expulsos da academia pelas suas atividades político-literárias. O primeiro fundou em agosto de 1939 o Partido Comunista da Birmânia, tornando-se o seu primeiro secretário-geral. Dirigia também a Dobama Asiayone (Associação Nós os Birmaneses) que promoveu uma grande onda de greves que ficou conhecida como a Revolução ME 1300 (uma referência do calendário birmanês). Em 1930 criam-se partidos comunistas nas Filipinas e na Malásia, fruto de trabalho cominterniano coordenado por Ho Chi Minh. Nas Filipinas, sob ocupação colonial dos E. U. A., estalam revoltas camponesas de conteúdo mais ou menos milenarista (Tayug, 1931; Sakdal, 1935). Prestava-se um culto fervoroso ao herói nacional José Rizal (1861-1896), fuzilado pelos espanhóis já muito perto do final do seu domínio nestas paragens. O Partido Komunista ng Pilipinas é fundado por Crisanto Evangelista, um sindicalista com ligações ao Profintern. Em 1935 adere ao Comintern e pouco depois é até legalizado, no âmbito das políticas frentistas da época. Na Malásia, os mineiros de Batu Arang fizeram uma greve insurrecional e proclamaram um governo soviético, em março de 1937, que resistiu por vários dias ao assalto das tropas coloniais britânicas (58).

 

O VII (e último) Congresso da IC realizou-se, novamente em Moscovo, em julho-agosto de 1935. Foi o congresso que consagrou a política de Frente Popular contra o fascismo teorizada pelo novo presidente do comité executivo, o búlgaro Georgi Dimitrov (59), muito prestigiado pelo seu porte nas prisões e tribunais nazis. Por um novo movimento do pêndulo da história, a ocasião era de novo desfavorável para que a União Soviética e os partidos comunistas dos países imperialistas mostrassem grande empenho na luta anticolonial.

 

De outubro de 1935 a fevereiro de 1937 deu-se a brutal agressão fascista italiana ao Reino da Abissínia, que era então uma entidade mítica para as comunidades negras em todo o mundo. Os comités "Hands off Abyssinia” (Mãos Fora da Abissínia), assim como as ações de solidariedade com os Scottsboro Boys (um julgamento famoso nos E. U. A., tingido de racismo, por uma pretensa violação), foram importantes demonstrações da capacidade do movimento comunista de organizar campanhas verdadeiramente globais com base no antirracismo e na solidariedade panafricana, na década de 1930.

 

A grande tragédia que se seguiria, para o comunismo internacional, foi a Guerra Civil de Espanha, inserida aliás num fenómeno mais geral, já em curso, da ascenção do fascismo e das ameaças de guerra generalizada. Subitamente, as goelas do terror absoluto abriram-se de par em par.

 

O oriente é vermelho

 

A resistência à ocupação nazi decorreu, em grande parte, sob o signo comunista em diversos países da Europa (França, Itália, Checoslováquia, Polónia, Jugoslávia, Albânia, Grécia, Bulgária, nas repúblicas soviéticas ocupadas, etc.), dando origem a uma rica literatura e a uma mística duradoura (60). Novamente, tropas coloniais foram usadas nas guerras entre potências imperialistas, sobretudo europeias. Mas, desta feita, os próprios povos coloniais participaram também do esforço de guerra e foram chamados a partilhar as suas agruras e os seus sacrifícios. No fim de tudo, levantada a cortina sobre o longo pesadelo nazifascista, era forçoso que o mundo havia de mudar. Tinha-se passado por muito. O pacto social nos países vencedores alterou-se marcadamente a favor das classes populares. E era impensável que a opressão colonial – que mais não era do que um nazismo dirigido contra povos de pigmentação cutânea diferente - se mantivesse de forma inalterada. Sopravam ventos de liberdade e universalismo.

 

O princípio da autodeterminação dos povos teve até uma expressão inequívoca na ‘Carta do Atlântico’, firmada por Roosevelt e Churchill em 1941, embora este último emitisse depois a opinião de que ele era apenas aplicável às colónias alemãs. Na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) a autodeterminação foi consignada como direito fundamental. A Organização das Nações Unidas (ONU) atribuíu às potências coloniais a obrigação de prepararem os territórios sob sua administração para a independência. Os dois polos vencedores opostos – União Soviética e E. U. A. – exigiam a descolonização, cada um pelas suas próprias razões ideológicas e cálculos geoestratégicos. Mas por detrás disso tudo estava o marco incontornável da revolução de outubro. Sem ela não teria havido fascismo, nem New Deal, nem descolonização, pelo menos no tempo e modo em que os conhecemos.

 

Já nos referimos atrás ao papel desempenhado pela Internacional Comunista no despertar da consciência nacional nos países coloniais e semicoloniais. O Comintern foi dissolvido em 1943, como medida criadora de confiança entre aliados da guerra então em curso contra as potências do Eixo. Em 1947 foi criado um sucedâneo, um mero gabinete internacional de troca de informações entre partidos comunistas, conhecido por Cominform. Teria uma vida breve, sem grande expressão. Nunca se expandiu para lá da Europa, pelo que não nos vamos ocupar dele neste ensaio. A União Soviética, alguns países da Europe de Leste e, de forma ainda mais limitada, alguns partidos comunistas de países imperialistas, continuaram a desempenhar algum papel na luta anticolonial. Eram meros receptáculos inertes onde arrefecia, já quase irreconhecível, o magma incandescente de outubro. Mas esse magma continuava ainda a jorrar diretamente da fonte – pelo exemplo e pela doutrina legada - para todo o globo, causando novas réplicas.

 

A história do segundo pós-guerra do século XX foi, numa grande medida, a história das revoltas emancipadoras dos povos coloniais e semicoloniais, muitas delas diretamente inspiradas pela grande dupla revolução russa de 1917. Merecem uma especial referência a libertação nacional jugoslava (e albanesa), a libertação nacional e revolução chinesa (1949), os processos independentistas por toda a África, Ásia meridional, Magrebe e Médio Oriente, as guerras libertadoras da Coreia, do Vietname e da Argélia, a revolução egípcia de 1952 e a revolução cubana de 1959, que impactou fortemente em toda a América Latina e em África. Vamos fazer uma breve visita panorâmica sobre estes complexos processos políticos, guardando a China para um tratamento à parte. Consideramos, assim, que a revolução chinesa – pela sua natureza e, sobretudo, pelas suas consequências - é uma réplica de uma dimensão tal que adquire o estatuto de gémea da revolução russa. São as duas folhas daquilo que poderá ser o portão do futuro, se o quisermos e pudermos franquear.

 

A descolonização era historicamente inevitável. É, no fundo, o resultado final da igualdade de base existente nas potencialidades inatas do ser humano, qualquer que seja a sua origem étnica ou social. Deixando agora de parte fatores puramente militares (de temperamento e organização), quando se dá um afrontamento agressivo entre duas organizações sociais desconhecidas uma da outra, com níveis diferentes de complexidade e desenvolvimento técnico, dá-se um efeito de choque e pavor, que leva, no imediato, à submissão de uma delas perante as arremetidas conquistadoras da outra. Depois, com a continuidade desta relação de domínio e exploração, dá-se uma certa aculturação geral e logo o desnível começa a esbater-se. O racismo é sempre vesgo e estúpido (61). O dominado não se conforma mais com a sua situação. O dominante vai perdendo aos poucos a segurança na superioridade da sua força. Mas este processo não é uniforme e gradual. No caso da grande vaga colonizadora europeia, culminante na época novecentista, o processo que levou à sua degradação e retrocesso, no século seguinte, com continuação no presente, foi grandemente acelerado pelas duas grandes guerras e, em especial, pela revolução soviética.

 

Em grande parte da Ásia, a descolonização tinha sido feita já na prática pelas conquistas dos imperialistas japoneses. Derrotados estes pelo superior poderio industrial e bélico norte-americano, muito mal avisadas andaram as potências coloniais europeias (designadamente a França e a Holanda, saídas elas próprias da derrota e da ocupação) em tentarem ainda restabelecer os seus domínios coloniais em tão longínquas paragens. Mas as bestas predadoras são assim mesmo: sem emenda, senão pela força. Farejada a presa, não a largam nunca voluntariamente. É uma questão “de princípios". Sabem perfeitamente embrulhar a sua volúpia cúpida em retórica humanitária, santimonial e moralmente sobranceira. Só largam a vítima, enfim, quando fraquejam, perante a própria ou perante um predador mais poderoso.

 

Na Indonésia, a administração colonial holandesa rendeu-se praticamente sem luta ao invasor japonês, em março de 1942. Na retirada, forças holandesas ainda quiseram levar consigo para a Austrália, como prisioneiro, o nacionalista Sukarno, mas acabaram por abandoná-lo, precipitadamente, para salvar a pele. Juntamente com Mohammad Hatta e outros nacionalistas, Sukarno montou uma administração nacional colaboradora com o esforço de guerra japonês, visando por este modo obter mais tarde a independência. Sentindo os ventos da guerra desfavoráveis, os japoneses ordenaram efetivamente a aceleração dos preparativos para a independência.

 

Sukarno proclamou então a sua famosa carta de cinco princípio nacionais, a Pancasila, normalmente definida como uma fusão de elementos de marxismo, nacionalismo e islão. Após a rendição japonesa, vencendo algumas hesitações, Sukarno proclamou a República da Indonésia, a 17 de agosto de 1945. Sutan Sjahrir, vindo da resistência aos japoneses, seria nomeado primeiro-ministro. A força política dominante era o Partido Nacional Indonésio (PNI), de Sukarno e Hatta. A doutrina social e política autóctone criada pelo fundador da república tomou o nome de Marhaenismo. Dá ênfase à unidade nacional e ao coletivismo, opondo-se ao individualismo liberal. Entretanto, chegam as tropas britânicas, australianas e norte-americanas. O comando aliado decide-se pela restauração da autoridade colonial holandesa. Seguiu-se uma guerra que durou ainda quatro anos.

 

A Holanda embarcou 150.000 soldados, mas foi incapaz de ocupar mais do que algumas cidades em Java e Sumatra, dirigir algumas ofensivas sangrentas e fomentar intrigas tribais. Sukarno dispôs-se ao compromisso. O comunista Tan Malaka organizou as forças da recusa na frente Persatoean Perdjoangan (PP), com vista à independência total. O PKI ressurgia. Forças comunistas em armas, sob o comando de Musso - um veterano da revolta de 1926 que, entretanto, fizera longa formação na União Soviética - rebelaram-se em Madiun, Java Oriental. Novamente vítimas da sua impulsividade, foram esmagadas pelo partido-Estado PNI, sedeado em Yogyakarta. Os E. U. A. tomaram nota, agradados. Para além de infrutíferas, as campanhas militares holandesas começaram a ter má imprensa internacional. Os norte-americanos fizeram menção de excluir a Holanda do Plano Marshall se elas prosseguissem. Em dezembro de 1949 a rainha Juliana transferiu a completa soberania das ilhas para a república. Um velho pirata tomava enfim o caminho da reforma. Sukarno regressou a Jakarta triunfante.

 

A nova república, sob a direção carismática de Sukarno proclamava ideiais anti-imperialistas, mas sem descurar a manutenção de boas relações com os E. U. A.. Tornou-se hóspede da fundação do Movimento dos Não Alinhados. Na sequência da aventura de Madiun, o comunismo indonésio voltou brevemente à clandestinidade. Um dos seus refugiados internos de então, com passagem pelo exílio, foi o jovem Dipa Nusantara Aidit, um antigo pupilo de Sukarno. É sob a sua direção que, a partir de 1951, o PKI vai se reorganizar e expandir até se tornar o terceiro maior partido comunista do mundo, após o russo e o chinês. Por volta de 1965, chegou a ter três milhões e meio de membros diretos, mais vinte milhões de afiliados nos movimentos unitários por si influenciados. A sua força maior estava agora nas organizações de massas camponesas. Aidit era, por então, visita frequente da República Popular da China, tendo tomado claramente o seu partido na cisão sino-soviética. O PKI aproximou-se também da área do poder, tendo alguma participação governamental.

 

No começo dos anos 1960 houve uma crise económica grave, com alguns surtos de fome. Em 1964 Sukarno impulsionou campanhas político-culturais e de boicote económico antibritânicas e anti-americanas. Retirou a Indonésia das Nações Unidas. Mandou Lyndon Johnson “ir para o inferno com a sua ajuda” (da USAID). Na sequência de um confronto armado mantido com a Malásia da Commonwealth, os militares indonésios vão então dividir-se profundamente. Há, por um lado, uma ala direitista, corrompida e endoutrinada pelos E. U. A., cada vez mais abertamente hostil ao presidente. Por outro lado, uma ala esquerdista onde a influência do PKI era marcante, mas que estava longe de obedecer às suas diretivas. O choque era inevitável e o primeiro movimento pertenceu à ala esquerda, que tentou um golpe de mão a 30 de setembro de 1965.

 

A resposta da direita, com ilimitado apoio norte-americano, foi sangrenta para lá de toda a medida. Desencadeou-se uma vaga nacional de morticínio sem precedentes sobre gente de origem chinesa e ativistas da esquerda, em especial do PKI, que foi dizimado. Os cadáveres amontoaram-se em número de largas centenas de milhares (62). Aidit foi logo incluído nas primeiras levas. A CIA assistiu diretamente no massacre, fornecendo listas de “suspeitos” aos militares seus apaniguados, que prontamente as transmitiam às milícias e bandos do submundo criminal que fizeram a maior parte do trabalho sujo. Sukarno foi isolado e circunscrito, politicamente, acabando por ser finalmente deposto, instaurando-se uma ditadura militar pró-americana dita de “Nova Ordem”. Com uma sequência de três derrotas catastróficas seguidas (1926, 1948 e 1965), a história do PKI é uma ilustração extrema daquilo que más opções tático-estratégicas (ou má coordenação na direção) podem fazer a um bom movimento. A selvajaria homicida da burguesia é um fator com que sempre temos de contar, seja qual for o seu grau de “desenvolvimento”. Pode acontecer aqui (em qualquer aqui), sem qualquer dúvida.

 

Na Birmânia (Myanmar), os nacionalistas também optaram inicialmente pela colaboração com os japoneses durante a guerra. Aung San tornou-se general de um exército independentista treinado pelos japoneses, que invadiu o país conjuntamente com estes, a partir da Tailândia. Distanciou-se então um pouco dos comunistas. Mas não tanto que o seu grupo de correligionários políticos mais próximos de então não ficasse conhecido como os “trinta camaradas”. O seu exército entrou em ação e contribuiu decisivamente para a expulsão dos britânicos, com pesadas baixas para estes. Os japoneses concederam então uma independência formal ao país. Comunistas participaram desse governo. Mas as promessas dos ocupantes não foram, em geral, cumpridas. Aung San e seus companheiros concluíram que, nesta guerra mundial, o seu alinhamento tinha que ser outro, tendo fundado a Liga Antifascista da Liberdade Popular (LALP), em que participava o partido comunista, com dirigentes como Thakin Than Tun, Thakin Thein Pe e Thakin Soe. (Thakin é apenas um prenome indicativo de pertença ao movimento patriótico antifascista.) Depois de buscarem contato com os aliados, rebelaram-se contra a ocupação, conseguindo derrotá-la essencialmente com os seus próprios esforços.

 

Ainda regressou brevemente ao país um governador britânico, mas o governo trabalhista de Clement Attlee, após conversações, fez reconhecer no parlamento a independência plena da Birmânia, perante os protestos furiosos do líder da oposição, o irremissível imperialista Winston Churchill. Também do lado birmanês houve descontentes com este acordo, do que resultou o assassinato à metralhadora de Aung San e outros companheiros, nesse mesmo ano de 1947. A nova república buscou um caminho democrático e internacionalmente não alinhado, sob a direção da LALP. U Nu foi primeiro-ministro por duas vezes, enquanto o seu amigo U Thant se fez eleger secretário-geral das Nações Unidas, com apoio da União Soviética e do terceiro mundo emergente. Os comunistas cindiram-se, com uma fação (“Bandeira Vermelha”, de Thakin Soe) optando pela luta armada, enquanto outra (“Bandeira Branca”, de Thakin Than Tun) colaborava com o regime. O país conheceu então ainda diversas revoltas armadas de etnias periféricas. Um golpe militar em 1962 pôs fim à vida democrática no país por várias décadas. A filha mais nova de Aung San destacou-se na luta pelo seu restabelecimento.

 

A independência formal das Filipinas, em julho de 1946, foi concedida pelos norte-americanos, de forma pacífica e controlada. O país sofrera enormemente sob a ocupação japonesa, que não deixara boas recordações. Os E. U. A. deram alguma assistência na reconstrução, mantendo importantes bases militares no arquipélago e garantindo estatuto especial para os seus cidadãos. A guerrilha comunista Hukbalahap estivera ativa a combater a ocupação japonesa em Luzón e foi reativada para combater o novo regime neocolonialista pró-americano, a partir de 1950. Era o braço armado do Partido Komunista ng Pilipinas, que fora banido dois anos antes. Os seus dirigentes desta época foram os irmãos Vicente, José e Jesus Lava. Esta guerrilha foi estrangulada por volta de 1954. Em 1968 surgiu um novo partido comunista, de orientação maoista, dirigido por Jose Maria Sison. Também ele se embrenhou de imediato na luta armada. O Novo Exército do Povo (Bagong Hukbong Bayan) chegou a ser uma organização muito poderosa e prestigiada. No período final da ditadura de Ferdinando Marcos (1965-1986) tinha mais de sessenta frentes ativas e os seus órgãos de poder popular abrangiam milhões de pessoas. Walden Bello era membro do partido nessa época. A atividade guerrilheira comunista sobrevive ainda hoje, mas está estagnada. Sison vive exilado na Holanda há várias décadas, mantendo aí copiosa atividade de agitação e doutrina (63).

 

Na Malásia, os britânicos optaram também por uma fórmula neocolonial, integrada na sua Commonwealth. Estalou então uma poderosa insurreição dirigida pelo Partido Comunista Malaio (PCM). A guerra que se lhe seguiu ficou conhecida como a Emergência Malaia (1948-1960). Foi uma guerra anti-subversiva clássica que em muitos aspetos prefigurou a “guerra americana” do Vietname. O PCM, dirigido por Chin Peng, tinha algumas importantes fragilidades, entre as quais estava o facto de, muito conspicuamente, se apoiar sobretudo na minoria da população de origem chinesa. A guerrilha não teve sucesso, mas tão pouco o tiveram os planos neocoloniais britânicos. Ganha a guerra, tiveram que fazer as malas. A insurreição renovou-se depois contra o regime burguês malaio, mas novamente se malogrou.

 

Na Índia, também, como se adivinhava, a situação complicou-se irremediavelmente para o império britânico no pós-guerra. O Congresso Nacional Indiano recusara qualquer apoio ao esforço de guerra britânico e, a partir de agosto de 1942, iniciou mesmo a campanha “Quit India”, com vista a impor uma “retirada ordeira” das autoridades coloniais do país. Embora, sem dúvida, também independentista, o Partido Comunista Indiano (PCI) não apoiou a campanha “Quit India” e estava empenhado na guerra. O partido foi mesmo legalizado, em resultado de a Grã-Bretanha e a União Soviética se terem tornado aliadas contra a Alemanha nazi e o Japão imperial. Os comunistas fortaleceram então o seu controle sobre o All India Trade Union Congress.

 

Terminada a guerra, ocorreu uma longa série de motins de pessoal militar indiano, designadamente da Marinha. Nos inícios de 1946, o governo trabalhista britânico decidiu encarar o inevitável, iniciando preparativos com vista à completa independência da Índia. A Liga Muçulmana de Muhammad Ali Jinnah (que participara no esforço de guerra) exigia um lar nacional para os indianos de fé islâmica. Isto levou à necessidade de se encarar a partição do British Raj, à qual o PCI se opôs. Rebentarem, entretanto, grandes ondas de violência comunitarista de motivação religiosa, que deixaram perto de meio milhão de vítimas mortais. A partição tornou-se inevitável, sendo criada a União Indiana e o Domínio do Paquistão, este por sua vez dividido em duas entidades geograficamente separadas, incluindo o atual Bangla Desh. À meia-noite de 14 para 15 de agosto de 1947, entre gemidos e lágrimas pelos mortos e deslocados, terminou enfim o maior e mais proveitoso domínio colonial de todos os tempos.

 

Após a independência, sob a direção de Bhalchandra Trimbak Ranadive, o PCI optou pela luta armada contra senhores locais em vários estados, com particular relevo para Telangana. Depois depuseram-se as armas e o partido passou a ser a principal oposição parlamentar aos governos do Congresso. Estava muito ativo nas lutas agrárias, como em Bihar. Em 1957 o partido ganha, pela primeira vez, o governo no estado de Kerala. Dois anos depois, esse governo é dissolvido pela administração central, sob pressão norte-americana. Enquanto Nehru manteve relações de certa proximidade com a União Soviética, a posição do partido foi também de apaziguamento interno. Shripad Dange foi um dos expoentes desta linha conciliatória e nacionalista. O comunismo indiano sofreria depois duas grandes cisões nos anos sessenta. Em 1964, sobre o pano de fundo do dissídio sino-soviético, fundou-se o Partido Comunista da Índia (Marxista), com a ala anti-revisionista (não apenas maoista) do PCI. Em pouco tempo, porém, sob a direção de Puchalapalli Sundarayya, este partido reaproximou-se da União Soviética, tornando-se internamente mais institucional. Conheceu um certo êxito eleitoral localizado, estabelecendo-se, por algumas décadas, no governo de Kerala (onde se mantém) e de vários estados na região de Bengala. Foi mais ou menos na sua órbita que se formou uma das escolas de pensamento marxista mais criativas e sofisticadas do mundo, sobretudo desde que o partido passou pela direção de Elamkulam Manakkal Sankaran (E. M. S.) Namboodiripad. PCI (M) e PCI (este de muito menor dimensão) passaram a encontrar-se normalmente como aliados em frentes de esquerda.

 

Em 1967 dá-se uma grande insurreição camponesa em Naxalbari, ao norte do Bengala Ocidental. O PCI (M) fazia então parte da coligação no poder nesse estado. Esta circunstância vai dar origem a uma nova cisão, de que surgirá o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista), sob a direção de Charu Majumdar. O PCI (M-L) não participava em pleitos eleitorais, adotando uma estratégia de guerra popular prolongada. Ficou intimamente ligado às diversas revoltas camponesas, de castas baixas e, sobretudo, de povos originários (os avidasi) que têm vindo a deflagrar um pouco por todo o país, ganhando expressão político-militar organizada em diversas bolsas situadas na sua metade leste, sobretudo nos estados de Bihar, Jharkhand, Orissa e Chhattisgarh. É a “gente sem valor”, rebotalho do rebotalho, atravessada no caminho do progresso. Estes movimentos tomaram o nome genérico de “naxalitas” ou “maoistas” (64). Na verdade, o PCI (M-L), depois de se cindir em múltiplas fações, viu algumas delas reunirem-se com a nova denominação de Partido Comunista da Índia (Maoista). No Nepal, a norte, movimentos com denominações, ideologias e modos de atuação similares adquiriram também grande expressão de massas. Hoje em dia constituem até o partido no poder, conquistado por via eleitoral.

 

Pelo final da Grande Guerra, a Coreia foi ocupada, até ao paralelo 38.º, por um grande assalto anfíbio de tropas da União Soviética. Os E. U. A. largaram então bombas atómicas em Hiroxima e Nagasaki, para apressar a rendição do Japão e intimidar os soviéticos. Logo passaram a controlar a metade sul da península coreana. Nunca foi possível levar à prática o acordado em Yalta sobre uma tutela quadripartida (E. U. A., República da China, Reino Unido e União Soviética). O governo provisório existente no exílio em Xangai foi ignorado pelos E. U. A., que o consideravam demasiado filocomunista. No norte estabeleceu-se um regime pró-comunista, para presidir ao qual foi chamado, não um dos dirigentes históricos do comunismo coreano, mas um antigo condutor de guerrilha comunista antijaponesa, de nome Kim Il-Sung. No sul, o poder foi entregue a um agente dos norte-americanos e extremo facínora anticomunista, de nome Syngman Rhee. Múltiplas guerrilhas comunistas estalaram no sul, ferozmente perseguidas, dando origem a terríveis massacres de civis (1948-50).

 

O impasse político manteve-se até que, com o assentimento de Estaline, o Exército Popular da Coreia invadiu subitamente o sul, em junho de 1950. A ofensiva teve pleno êxito, chegando a ocupar quase a totalidade da península. Depois, as forças sulistas e norte-americanas contra-atacaram, escudadas por um mandato legal das Nações Unidas, atingindo por fim a fronteira chinesa no rio Yalu. Dão-se novamente terríveis massacres de guerra, que inspiraram o protesto artístico de Picasso (65). Estaline decidira desde o início deixar as despesas deste conflito internacional inteiramente por conta da recém-proclamada República Popular da China. E esta não se acobardou. O Exército Vermelho chinês entrou massivamente na disputa. Sofrendo pesadas baixas, conseguiu estabilizar a frente novamente em torno do paralelo 38.º. Foi nessa situação de empate que se assinou o armistício de julho de 1953. Vingando humilhações passadas, a China provou enfim ser capaz de enfrentar, não duas ou três canhoneiras, mas o grosso do poder bélico, testado e provado, da maior potência ocidental, no ápice da sua afirmação mundial.

 

Na Coreia do Norte estabeleceu-se um regime de forte dirigismo estatal, que se proclamou socialista e integrado no respetivo campo mundial. Esquivando-se, porém, à hegemonia soviética ou chinesa, promoveu um culto feroz da autossuficiência, que foi teorizado como a ideia de juche (66). A República Democrática Popular da Coreia promoveu também uma forma extrema de culto da personalidade do seu dirigente máximo, que, de forma insólita, se prolongaria depois dinasticamente para os seus descendentes diretos (filho e neto). A industrialização pós-guerra foi um sucesso e o país atingiu um bom nível de desenvolvimento, até ao final dos anos 1970. Depois a economia do país conheceu uma certa estagnação, a qual, face ao isolacionismo auto-imposto, resultou em algumas crises alimentares. A prioridade dada às forças armadas implicou sacrifícios acrescidos para a sua população, mas por fim resultou na garantia da sobrevivência do regime, face a um assédio constante e muito agressivo por parte do imperialismo norte-americano.

 

Pelos finais do século XIX, a União Indochinesa (compreendendo os atuais Vietname, Laos e Cambodja) era uma das joias coloniais francesas mais valiosas. Durante a Grande Guerra sofreu ocupação japonesa mas continuou sob administração francesa leal ao regime de Vichy. Os comunistas vietnamitas, entretanto, formaram desde 1941 uma coligação independentista, conhecida pelo acrónimo Vietminh, que combatia franceses e japoneses. Em março de 1945, os japoneses, temendo uma invasão aliada, resolveram subitamente depor a administração colonial através de um golpe de Estado desbaratando as tropas francesas. No seu lugar proclamaram uma série de monarquias fantoches. Após a capitulação japonesa, o Vietminh lança uma insurreição geral, conhecida como a Revolução de Agosto (67). O levantamento teve sucesso um pouco por todo o país, mas consolidou-se melhor no norte (Tonquim), tendo-se então proclamado em Hanói a República Democrática do Vietname. A declaração de independência parafraseia a norte-americana de 1776. Ho Chi Minh procurou em vão um reconhecimento dos E. U. A.. Britânicos e chineses nacionalistas entram no país para desarmar os japoneses. O corpo expedicionário francês desembarca em força em outubro, trazendo consigo uma nova administração francesa “livre”. Apodera-se facilmente do Cambodja e da Cochinchina, a região em torno de Saigão. A guerrilha comunista vai continuar ativa aí. Apesar das negociações em curso, o desembarque francês em Haifong e a sua entrada em Hanói vão causar atritos insuportáveis que acabam por desencadear uma guerra aberta generalizada.

 

Ho Chi Minh não era um pensador político profundo ou de grande originalidade. Onde ele era único era na sua vontade indómita e incansável, servida por recursos inesgotáveis de imaginação prática. Foi graças a essas qualidades que construiu a aura profética que fez dele um dos construtores do século XX (68). Na parte especificamente militar, a luta vietnamita pôde também contar com o concurso de uma mente superior, na pessoa de Vo Nguyen Giap (69). Entretanto, o fator de desequilibrou definitivamente a contenda foi, sem dúvida, a paciência perseverante do povo na sua luta (70). Escassamente armado com algumas sobras japonesas, o Vietminh começa por retirar-se para as montanhas. Vai conduzir a partir daí uma guerra de atrito, mobilidade e desgaste, dita de tigre contra elefante. O caráter da guerra vai mudar, porém, com o triunfo comunista na China, em 1949. A partir daí chegam ao Vietminh abastecimentos regulares de armas modernas e aconselhamento. Formam-se unidades de infantaria bem enquadradas, capazes de conduzir grandes ofensivas estratégicas. Mas ganhou-se também um inimigo poderoso. Se a atitude dos norte-americanos quanto à guerra no Vietname era de uma certa expetativa desprendida, ela vai mudar radicalmente a partir da proclamação da República Popular da China. Surge a “teoria do dominó”, que alertava contra uma queda para o comunismo atingindo sucessivamente a China, a Coreia, o Vietname, a Birmânia, a Tailândia, a Malásia, a Indonésia, as Filipinas e finalmente a Índia. Os E. U. A. começam a dar forte apoio à guerra francesa na Indochina, para suster aí queda de todas estas peças.

 

As ofensivas do Vietminh em direção a Hanói chegaram a um impasse, que o levou a tomar antes um desvio pelo Laos. Para contrariar essa rota, os franceses resolveram então instalar uma grande fortificação na cidade noroestina de Diên Biên Phu. Este aquartelamento foi cercado pelas forças nacionalistas e começou a ser bombardeada em janeiro de 1954. Em março começou a ofensiva sobre os diversos postos periféricos. Seguiram-se assaltos cruzados e uma guerra de trincheiras até à aniquilação total, a 7 de maio. A arrogância francesa foi castigada com uma derrota absolutamente irrecuperável. Toda a sua posição no norte se tornou militarmente indefensável. Os acordos de Genebra, assinados em julho de 1954, previam a partição do Vietname pelo paralelo 17º, no coração do Annan, não longe da capital histórica de Hué. O Laos e o Cambodja seriam independentes. Em outubro o Vietminh entrou triunfante em Hanói. Para Paris já chegava de guerra. Mas os E. U. A. não se conformavam com mais esta meia vitória comunista e julgaram-se capazes de fazer melhor.

 

Para sul do paralelo 17º, sob protetorado norte-americano, estabeleceu-se então a monarquia constitucional do ex-imperador Bao Dai, que logo foi deposto pelo seu primeiro-ministro Ngo Dình Diem. Iniciou-se uma era de terror e repressão. A guerrilha comunista e seus aliados formaram uma Frente de Libertação Nacional do Vietname do Sul, que ficou conhecida como Vietcong. O dirigente comunista do sul Le Duan apresentou um plano para completar a libertação do país. Após alguma hesitação inicial, Ho Chi Minh aprovou o plano e foi a Moscovo com o seu autor apadrinhá-lo. O abastecimento dos guerrilheiros no sul era assegurado por um longo e intricado conjunto de trilhos montanhosos no Laos que foi crismado com o seu nome. Um conflito agrário muito aceso favorecia a popularidade dos insurretos. Diem é derrubado por um golpe militar e assassinado, com cumplicidade norte-americana. Em 1964 os E. U. A. fabricaram um incidente naval no golfo de Tonquim para justificar uma dramática escalada no seu envolvimento militar na região. Começava uma nova guerra (71).

 

Mais de sete milhões de toneladas de explosivos foram despejados pelos E. U. A. no Vietname (norte e sul), Laos e Cambodja. Algo de nunca visto em qualquer guerra. O uso de 400.000 toneladas de napalm produziu horrores pessoais indizíveis. O arremesso de 43 milhões de litros de agente laranja em florestas e campos de cultivo produziu profundas cicatrizes na paisagem, que perdurarão por cem anos, além de 400.000 mortes diretas e meio milhão de crianças nascidas com deficiências várias. A presença de tropas norte-americanas no terreno atingiu um pico de 553.000 em 1969. Desempenhavam sobretudo missões de busca e destruição. Mas nunca conseguiram sequer arrancar ao Vietcong a iniciativa estratégica no confronto. Em janeiro de 1968 foi lançada a ofensiva de Tet, com ataques simultâneos a cem cidades, quartéis, instalações militares, edifícios governamentais e até à embaixada norte-americana em Saigão. Seguir-se-iam ainda duas outras ofensivas de menores dimensões. As ofensivas fracassaram nos seus objetivos (que eram provocar uma insurreição popular e a desagregação do exército sulista), com tremendos custos para os efetivos envolvidos. Em contrapartida, mudaram completamente a perceção da guerra no público ocidental. A oposição à intervenção cresceu exponencialmente, moldando política e culturalmente toda uma geração contestatária.

 

O presidente Richard Nixon foi eleito com a promessa de solucionar esta guerra. Depois de empossado, revelou-se enfim que o seu plano era retirar progressivamente as tropas e vietnamizar o conflito. Declarar vitória e partir. Em setembro de 1969 faleceu Ho Chi Minh. O falhanço de Tet levou a uma mudança de estratégia, com maior ênfase a ser agora colocada em operações de pequenas unidades sapadoras do exército nortista. A campanha antiguerra nos E. U. A. cresceu, com a divulgação dos Pentagon Papers e a denúncia do massacre da My Lai. O moral combativo das tropas norte-americanas entrou em colapso. Cresceram as deserções. As operações eram abortadas e sabotadas pelos soldados. A indisciplina, o uso de drogas e o crime campeavam. Entre 1970 e 1972 o grosso das tropas norte-americanas foi retirado do Vietname. Enquanto decorriam conversações de paz em Paris, o exército nortista atravessou a zona desmilitarizada para uma grande ofensiva convencional de conquista, na páscoa de 1972. Os E. U. A. respondiam agora só com apoio aéreo e bombardeamentos. Em abril-maio, Giap sofre uma gravíssima derrota na batalha de An Loc e é afastado do comando do Exército Popular do Vietname. Ninguém era indiscutível nem insubstituível (72).

 

É finalmente assinado um acordo de paz, em janeiro de 1973. Há troca de prisioneiros. Em março, as últimas tropas norte-americanas retiram-se do país. A ofensiva final do norte ficou apenas a aguardar a época seca e o esmorecimento das ameaças norte-americanas de um regresso. Apalpou-se o terreno, com algumas pequenas ofensivas. Sem o apoio aéreo dos seus patronos, o exército do sul colapsava, malgrado ter uma superioridade teórica de 2 ou 3 para 1, em efetivos e material. O Congresso norte-americano repetidamente negou novos fundos de ajuda militar ao Vietname do Sul, atraiçoando as promessas de Kissinger. Em março-abril de 1975 caíram Hué e Da Nang, rendendo-se ou fugindo mais de 100.000 soldados sulistas. Pânico total. Centenas de soldados e civis morrem afogados tentando ser resgatados por navios ao largo. A nova ofensiva denominada Ho Chi Minh rapidamente chegou ao delta do rio Mekong. A 30 de abril Saigão é finalmente tomada. Oficiais do regime sulista e suas famílias esgadanham-se por um lugar nos helicópteros que partem da cobertura da embaixada dos todo-poderosos E. U. A.. Embora este desenlace não fosse já inesperado, o mundo inteiro parou para um momento de estupefação.

 

Não foi fácil a vida após a vitória. A integração das duas metades do país na nova República Socialista do Vietname foi uma operação bastante complexa, dada a existência de enormes chagas na paisagem, grandes massas de refugiados e uma extensa corrupção de hábitos sociais intruduzida pela guerra e a ocupação estrangeira no sul. A nova república unificada começou a sua existência sob o signo de grandes deslocações populacionais internas, sobretudo de norte para sul. Grupos numerosos de pessoas partiram também do país por mar, em embarcações precárias. Não houve ajusticiamentos revolucionários, mas umas 300.000 pessoas terão passado por campos de reeducação. O primeiro responsável político no país era então Le Duan, enquanto Pham Van Dong exercia o cargo de primeiro-ministro e um importante papel moderador no partido. Os vietnamitas nunca perdoaram a viragem política representada pela visita de Richard Nixon à China em 1972. A nova república adotou um alinhamento muito marcadamente pró-soviético, o que a isolou no contexto regional. Recebendo assistência longínqua do COMECOM, o país ficou sujeito a uma hostilização crescente por parte do Cambodja e da República Popular da China. Em consequência disso conheceria novamente a guerra, em duas frentes, a partir de 1978.

 

O chamado “Segundo Plano Quinquenal” de 1976-80 (o primeiro abrangera os anos de 1961-65 dizendo respeito apenas ao Norte) fazia uma aposta no desenvolvimento simultâneo da indústria ligeira e pesada, acabando por falhar em ambas. Foi feito um grande esforço de promoção do cooperativismo na agricultura, mas os resultados produtivos foram dececionantes. A partir do V Congresso Nacional do Partido Comunista do Vietname, em 1982, foi admitido um papel para a iniciativa privada e adotadas algumas medidas liberalizadoras na economia. Essa tendência intensificou-se após a morte de Le Duan, sob a direção de Nguyen Van Linh. Em dezembro de 1986, no VI Congresso Nacional do partido, sempre em alinhamento com a União Soviética, adotou-se formalmente uma verdadeira perestroika indochinesa que tomou o nome de Doi Moi (Renovação). Era a vez do socialismo de mercado.

 

Depois de uma longa guerra civil, a guerrilha comunista Pathet Lao tomou o poder, forçando o monarca laociano a abdicar, em dezembro de 1975. Foi então proclamada a República Democrática Popular do Laos, sob a direção de Kaysone Phomvihane. Este foi o aliado próximo de que o Vietname pôde sempre dispor na região. Nesse mesmo ano, a guerrilha dos Khmer Vermelhos derrubou a ditadura do general Lon Nol no Cambodja, para estabelecer o controvertido regime do Kampuchea Democrático, dirigido por intelectuais maoistas como Pol Pot e Khieu Samphan. Em parte para corrigir os deslocamentos provocados pelos maciços bombardeamentos norte-americanos, em parte por fanatismo ideológico, este regime impôs pela força grandes movimentações de populações e o internamento em campos penais de supostos opositores, com resultados trágicos. Em 1978 os Khmer Vermelhos seriam derrubados por uma invasão vietnamita, mas continuaram a lutar a partir do exterior, agora com o apoio de Washington. O novo regime adotou a denominação de República Popular do Kampuchea / Estado do Cambodja. Nele começou a emergir para posição de proeminência o jovem Hun Sen, um oficial khmer vermelho dissidente. A ocupação por tropas vietnamitas foi-se aligeirando, mas manteve-se ainda até 1991. Foi só depois disso que se começou a falar no Ocidente, com os joelhos no chão, olhos lacrimosos e extáticos, das extraordinárias atrocidades dos Khmers Vermelhos, o zénite para que tenderia toda a barbárie comunista. Obliterando-se completamente que quem pôs cobro a tais atrocidades foram os vietnamitas e quem continuou ainda, depois, a dar todo o apoio político, diplomático e militar aos perpetradores foram os E. U. A..

 

O sempre independente mas marcadamente reacionário Reino do Sião manteve uma política pró-japonesa durante a guerra, buscando depois o agrado dos novos senhores, os E. U. A.. O Partido Comunista da Tailândia estava ativo desde 1930, em pequenos círculos. Na cisão sino-soviética adotou as teses maoistas e a partir de 1968 dirigiu uma insurreição armada, ativa sobretudo nas montanhas do norte e na fronteira com a Malásia. Por cada insurreição comunista vitoriosa, há pelo menos três ou quatro que se malograram e logo mergulharam no esquecimento.

 

Em agosto de 1941 operou-se uma invasão anglo-soviética da Pérsia, que pôs termo ao reinado de Reza Shah Pahlavi, conivente com os alemães. A dinastia prosseguiria ainda, até 1979, com uma história infeliz de traição nacional e repressão impiedosa. Mas o ambiente político, naquela altura, alterou-se radicalmente. Instaurou-se uma democracia parlamentar. Libertaram-se prisioneiros políticos e formaram-se novas organizações nacionalistas e socialistas. Uma delas, de presença marcante nas próximas décadas, foi um novo partido comunista, designado Partido das Massas (Tudeh), sob a direção intelectual de Iraj Iskandari. O partido rapidamente ganhou grande influência social e política, bem como autoridade na vida cultural do país, aproveitando-se do prestígio da vitoriosa União Soviética. Tinha um bom aparelho de imprensa, frentes unitárias cívicas e até uma organização militar.

 

Em 1951, o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, eleito pela Frente Nacional, resolveu levar à prática uma insistente proposta do Tudeh, que era a nacionalização da gigante Anglo Iranian Oil Company. Isto abriu uma era tumultuosa na vida do país, conhecida como a Crise de Abadan. Os britânicos impuseram um bloqueio naval. Mossadegh demitiu-se do governo, em choque com o monarca, para aí ser reinstalado, após um grande levantamento popular. O primeiro-ministro dotou-se de poderes de emergência aprovados pelo parlamento (o Majlis). É aí aprovada também uma profunda reforma agrária. Cansado de conspirar infrutiferamente, o Xá foge para o exílio. O Tudeh estava na crista desta onda revolucionária, pugnando pela declaração de uma república popular. Finalmente, em agosto de 1953, a CIA e o MI6 orquestraram um golpe militar que derrubou Mossadegh e restaurou os poderes autocráticos do Xá. O Tudeh e a Frente Nacional foram banidos e perseguidos, sob lei marcial. Churchill teve, sem dúvida, a sorte pelo seu lado para prevalecer neste conflito. A sorte de ter Eisenhower e Foster Dulles recém-empossados na administração norte-americana e a sorte de a liderança da União Soviética estar então ainda em estado de estupor e desorientação, com a morte de Estaline. De outro modo, o Irão aqui, mais tarde o Iraque e a Síria, poderiam muito naturalmente ter caído para o campo socialista. A história mundial poderia (como sempre pode) ter sido outra.

 

O mandato britânico sobre a Mesopotâmia, sancionado pela Ligas das Nações, terminou oficialmente em 1932. O país tornou-se independente, sob a designação de Iraque, com a mesma monarquia hashemita que lhe fora imposta pelo colonizador, juntamente com as suas fronteiras arbitrárias. Com raízes nos círculos de estudantes marxistas e jovens militantes anti-imperialistas dos anos 1920, o Partido Comunista do Iraque começou a ganhar expressão de massas nas grandes vagas de contestação social do pós-guerra. O secretário-geral do partido era Yusuf Salman Yusuf, o “camarada Fahd”. Trabalhadores portuários, ferroviários e petrolíferos estavam organizados em poderosos sindicatos de influência comunista. Greves e demonstrações sucediam-se. Uma menção especial deve ser dada ao chamado levantamento de Al-Wathbah, que começou em Bagdad em janeiro de 1948, prolongando-se pela primavera, até ser interrompido pela imposição de lei marcial. O partido prestou todo o apoio ao golpe de 1958 do brigadeiro Abdel Karim Qasim, que derrubou os hashemitas, instaurando a República do Iraque. Deteve então bastante influência no poder, que perdeu depois com o golpe militar contrarrevolucionário de 1963.

 

O final da II Grande Guerra trouxe finalmente o cumprimento tardio das promessas atraiçoadas por ocasião da revolta árabe antiturca de 1916-18, talentosamente romanceada por T. E. Lawrence. O mandato francês sobre a Síria e o Líbano caducou naturalmente, sem honra nem glória, por falta de recursos e de desplante da potência colonial para renovar a ocupação. Ainda durante a guerra, os ex-comunistas sírios Michel Aflaq e Salah al-Bitar formularam uma doutrina eclética de socialismo panárabe. Com base nela, fundaram, em 1945, o movimento árabe socialista Baath (Renascença), que se expandiria também para os países vizinhos. A Jordânia ganhou a sua independência formal, sob dinastia hashemita, mediante tratado com os protetores britânicos em 1946. O grosso da Península Arábica fora já unificado sob a dinastia rival dos Saud. Mas a colónia britânica de Aden só seria libertada, bem avançada ia já a década de 1960, pela então proclamada República Popular do Iémen. Neste país empobrecido se firmou então um projeto socialista, de expressa inspiração marxista-leninista, que perduraria ainda por cerca de década e meia. Também a Síria conheceu uma certa deriva socializante, após firmar um tratado com a União Soviética em 1956. O Partido Comunista da Síria de Khalid Bakdash (73) dispunha de grande influência social e nas próprias forças armadas. Depois tudo isso se perdeu com a miragem da República Árabe Unida e ao sabor dos encontros/desencontros de Nasser com o Baath.

 

Ainda antes de investidos com o mandato sobre a Palestina, já os britânicos se haviam comprometido, com a célebre declaração Balfour (1917), em destinar esta terra a um lar nacional judaico, encorajando assim a colonização sionista agressiva que já estava aí em curso desde 1881 (74). Face à desordem e à violência intestina assim geradas, finda a II Grande Guerra, o governo inglês resolveu salomonicamente depositar o mandato da Liga das Nações na recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU). Esta decidiu-se pela partição, passando uma resolução recomendando a criação de um Estado árabe e outro judaico. David Ben-Gurion, presidente da Agência Judaica da Palestina, proclamou então o Estado de Israel, em maio de 1948, com efeito imediato nas fronteiras definidas pela ONU mas sem qualquer comprometimento para com elas. Os limites nacionais seriam decididos depois, pela força das armas. Assim se manteve a questão até aos dias de hoje. Israel é um Estado colonial e de guerra permanente, por desígnio genético. A primeira guerra convencional de Israel deflagrou de imediato, tendo-lhe sido favorável. Outras se lhe seguiriam, enquanto as fronteiras se expandiam e se ia praticando, no seu interior, a limpeza étnica pelo terror, primeiro, depois uma implacável política de opressão e discriminação racial. O Estado palestiniano árabe nunca pôde ser criado.

 

O sionismo tinha uma importante corrente socialista, até comunista, cujas origens intelectuais remontavam até Moses Hess, um companheiro mais velho de Marx e Engels. A colonização sionista era feita em fazendas coletivas (kibutz) e enquadrada por poderosas organizações sindicais. Não faltou quem visse nela uma componente progressista, face ao atraso feudalizante dos árabes. A União Soviética foi assim um dos primeiros países a reconhecer o novo Estado de Israel. Estaline, afinal, praticava essa mesma política de dirigismo neocolonial socializante, nas repúblicas muçulmanas herdadas do império czarista. Mas bem depressa se arrependeu desse reconhecimento, quando se apercebeu de que, face aos E. U. A., a feia e suja União Soviética não estava em condições de competir pela palma de ouro mundial no apelo progressista e cosmopolita. Pelo contrário, tinha é que se defender desse agressivo brilho futurista. A política externa soviética tornou-se pró-árabe e, concomitantemente, a sua política interna tomou contornos indisfarçavelmente antissemitas. O Estado de Israel tornou-se, afinal, representação, símbolo e ferro de lança mundial do capital-imperialismo ocidental. A invencibilidade de um e do outro equivalem-se. Tudo indica que os seus destinos ficarão para sempre intimamente ligados. Até ao fim, porque tudo tem um fim e este já se vislumbra.

 

A partição da Palestina, proposta pela ONU, foi inicialmente aceite tanto pelo partido comunista predominantemente judeu como pela árabe Liga de Libertação Nacional (LLN). Era essa então a posição da União Soviética. Depois da proclamação do Estado de Israel, formou-se o Partido Comunista de Eretz Yisrael, conhecido como Maki, queintegrou os militantesdo LLN que ficaram residentes nesse espaço. Mas as componentes árabe e judaica deste partido acabaram por separar-se definitivamente em 1965. O comunismo israelita sobrevivente passou a ser marcadamente árabe, integrando-se na coligação de esquerda Hadash. Na Palestina árabeoprimida, os militantes do LLN seriam perseguidos e dispersos pelos egípcios em Gaza, enquanto que os residentes na Cisjordânia acabaram por aderir ao Partido Comunista da Jordânia. Uma nova organização política marxista influente seria formada apenas em 1967, pelo médico cristão George Habash, designando-se Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). É claro que também a Fatah de Yasser Arafat e outras fações palestinianas em armas usaram e abusaram de abundante retórica leninista e guevarista.

 

No pós-guerra, os franceses conseguiram ainda restabelecer o seu protetorado de Marrocos, contra os desígnios independentistas do Partido Istiqlal, apoiado pelos E. U. A.. Em março de 1956, porém, tiveram de reconhecer a sua independência, sob o reinado de Mohammed V. (Este monarca, contrariamente aos seus sucessores, manteve sempre importantes posições de solidariedade anticolonial.) Nesse mesmo mês e ano, depois de suportar uma guerra de baixa intensidade (1952-54), reconheceram também a independência da Tunísia. As condições pactuadas para a autodeterminação levaram aí a uma cisão violenta no partido nacionalista Neo-Destour, com Habib Bourguiba a afrontar-se então com a fação mais radical de Salah Ben Youssef, que teve de partir para o exílio, onde seria aliás assassinado. O Partido Comunista Tunisino, dirigido então por Mohamed Ennafaa, apoiou as posições panárabes e nasseristas de Youssef e, em breve, seria interdito e objeto de forte repressão.

 

Libertos os seus recursos pelas sucessivas derrotas (que incluíam também Diên Biên Phu e o Suez), os franceses podiam agora concentrar esforços na defesa do seu domínio sobre a Argélia, onde a sua presença remontava a 1830, sendo a sua colónia muitíssimo mais numerosa e enraizada. Os domínios italianos da Tripolitânia e Cirenaica ficaram sob ocupação aliada até que, em dezembro de1951, se declarou a sua independência, como Reino Unido da Líbia. Em 1969, um grupo de oficiais rebeldes liderado por Muammar Gaddafi depôs esta monarquia constitucional, estabelecendo uma república. Mais tarde seria proclamada a Grande Jamahiriya Popular Socialista Árabe da Líbia, sob preceitos autóctones muito idiossincráticos codificados no seu “Livro Verde” (75).

 

Na Argélia, o final da Grande Guerra foi assinalado com manifestações, das quais de imediato resultaram confrontos sangrentos entre argelinos e colonos franceses. Seguiram-se grandes massacres de civis pelas forças armadas ocupantes (Sétif, Guelma e Kherrata). Em 1954 são fundadas duas organizações rivais: a Frente de Libertação Nacional (FLN) e o Movimento Nacional Argelino (MNA). Este último agrupava os partidários de Messali Hadj, que continuava aprisionado, sendo depois colocado com residência fixa em França, a partir de 1958. A FLN, de Ferhat Abbas, toma o caminho das armas, no 1º de novembro de 1954, com um ataque ao quartel de Batna, nas montanhas de Aurès, e diversos atentados por todo o país. Muitos messalistas mergulham também na luta armada. Os propósitos reformistas do primeiro-ministro Pierre Mendès France esbarram na intransigência dos colonos. Em 1955 dão-se massacres de uma parte e outra na região de Constantina. Em 1956 o Partido Comunista Argelino, de Sadek Hadjerès e Bachir Hadj Ali, pactua com a FLN a adesão dos seus militantes à luta armada. A colaboração não será fácil, mas os comunistas chegam ao fim da guerra entre as fileiras dos vencedores.

 

Em outubro de 1956 é desviado pelos franceses um avião marroquino com altos quadros do FLN, entre os quais Ahmed Ben Bella. Esta ação cria uma crise internacional de grandes proporções e extrema as posições, impedindo uma solução diplomática. Na cidade de Argel, há atentados bombistas constantes, perpetrados por mulheres caraterizadas à ocidental. Está em ação uma guerrilha urbana impiedosa, com origem na Casbah. Os paraquedistas do general Massu conseguem estrangulá-la. Nas prisões tortura-se, viola-se e mata-se sem cessar, dia e noite (76). No interior do país, a guerra é suja e sem quartel. Há campos minados, barreiras eletrificadas, arame farpado, bombardeamentos maciços, assaltos aerotransportados, extermínios de povoados inteiros. Em 1957 dão-se também afrontamentos entre a FLN e o MLN, inclusive em França. Messali Hadj verá chegar o fim da guerra completamente marginalizado no campo nacionalista. Os demónios do sectarismo conseguiram empurrar, na hora decisiva, um velho patriota até às águas torpes do colaboracionismo. Entretanto, De Gaulle regressa à presidência, proclamando a V República. A contra-insurgência francesa conseguiu alguns êxitos importantes, mas sem pacificação civil a guerra estava perdida, tanto política como militarmente. Neste particular, os colonos franceses – cujo comportamento foi evoluindo do terrorismo privado até verdadeiras insurreições racistas – foram os piores inimigos de si próprios. Não houve outra solução para Paris que não fosse o reconhecimento da independência, nos acordos de Evian, em março de 1962. As forças armadas organizaram o repatriamento de mais de um milhão de ressentidos pieds-noirs.

 

Por altura da independência, os corpos regionais de insurreição no interior argelino estavam de rastos. A única força da FLN bem armada e organizada era o seu chamado “exército de fronteira”, instalado em Marrocos (em Oujda) e na Tunísia e que se manteve aí durante todo o conflito, bloqueado pelas formidáveis defesas francesas. Dirigido então pelo coronel Houari Boumédiène, é este exército que está na base do aparelho militarista que logo se apossou do poder estatal profundo da jovem nação, não o largando mais até aos dias de hoje. Na altura, porém, teve de escolher um representante civil mais conhecido e prestigiado. A sua opção recaiu então sobre o jovem radical ex-messalista, marxista e panarabista, Ahmed Ben Bella. Foi esta circunstância que deu à revolução argelina a sua grande radicalidade inicial. Ben Bella era aconselhado pelo trotskista grego mais conhecido pelo cognome Michel Pablo. Fez aprovar uma constituição política socialista e uma reforma agrária profunda. Deu amplo apoio às lutas anticoloniais em todo o continente, bem como à causa mundial do Terceiro Mundo. Alinhou internacionalmente com o nacionalismo árabe mais radical e com os países socialistas. Em junho de 1965 foi facilmente derrubado por Boumédiène, quando este entendeu ter chegado enfim a sua hora.

 

Gamal Abdel Nasser foi imbuído na sua juventude de sentimentos nacionalistas antibritânicos e de uma aversão profunda pela oligarquia latifundiária nativa. Foi com eles que resolveu fazer carreira no exército egípcio e aí começou a animar um grupo informal de jovens inconformistas, que se denominaram a si próprios de “oficiais livres” (77). Um deles era o marxista Khaled Mohieddin, que o acompanharia sempre, embora com vários acidentes graves de percurso. Nasser, porém, era um devoto muçulmano, solidário com os pobres, sim, mas marcadamente anticomunista. Reprimiu e serviu-se dos comunistas, alternadamente, sempre conforme seu superior alvedrio. Os desígnios dos oficiais livres concretizaram-se finalmente com um golpe militar perfeito, em julho de 1952, depondo o rei Farouk. Foi instaurado um Conselho de Comando Revolucionário (CCR) e aprovada, logo em setembro, uma lei de reforma agrária. Em 1954, os britânicos retiram as suas tropas do país. Nasser alcandora-se à presidência do CCR, instituindo um regime de partido único. Inicia-se o seu culto popular. No ano seguinte o presidente egípcio participa destacadamente na cimeira de Bandung e adquire armamento checoslovaco para modernizar o seu exército.

 

Em julho de 1956, Nasser toma e anuncia a decisão que marcaria para sempre a sua carreira política: a nacionalização do Canal do Suez. Foi uma aposta de alto risco, plenamente recompensada. Israel, França e o Reino Unido intervieram militarmente, mas foram forçados a retirar pela pressão internacional. A diferença no desenlace desta crise, em relação à da Anglo Iranian Oil Company, três anos antes, esteve em que, aqui, Nikita Khrustchev entrou com tudo o que tinha, enquanto que os imperialistas norte-americanos ficaram a ver, senão a gozar escarninhamente com os seus pares europeus. Não sentiam que houvesse qualquer perigo comunista com Nasser. Triunfante, este passou então a ser um herói aclamado em todo o mundo árabe, que reclamava a sua liderança. A revolução egípcia começou verdadeiramente aqui, com a subsequente nacionalização de todo o capital inglês e francês. Estabeleceu-se uma cooperação em larga escala com a União Soviética com vista à construção da gigante barragem de Assuão. Em 1961, também a burguesia nacional é expropriada, é imposta uma segunda reforma agrária e a Carta Nacional torna expressa a opção socialista (78). O Egipto é membro fundador do Movimento dos Não-Alinhados criado nesse ano em Belgrado. Pelo meio deu-se o fiasco na união com a Síria na República Árabe Unida (1958-61). Entretanto, já a partir de 1966 são tomadas medidas liberalizadoras na economia. Com a derrota catastrófica na guerra dita dos “seis dias”, em junho de 1967, terminou de facto a revolução nasserista, que seria totalmente liquidada pelo seu sucessor.

 

O Partido Comunista do Sudão foi fundado em 1948, com raízes anteriores no movimento comunista egípcio. É um dos mais poderosos e influentes partidos comunistas, tanto no mundo árabe como em África. Em 1956 foi finalmente dissolvido o Condomínio Anglo-Egípcio do Sudão, o que significou a independência efetiva do país em relação à dominação britânica. A transição foi pacífica, mas deu de imediato lugar a problemas no sul, com a substituição da administração civil anglo-saxónica por uma outra nortista e arabizante. O inicial regime parlamentar sediado em Khartoum foi derrubado por um golpe militar em 1958. A ditadura do conselho das forças armadas agudizou ainda mais o conflito com o sul. Em revolta contra a repressão militar, em especial nos meios universitários, deu-se então a grande revolução popular de outubro de 1964, com ampla participação comunista, carreada por intermédio da Frente de União Nacional.

 

Hasta la vitória, siempre!

 

Na América Latina, o evento que dominou por completo a segunda metade do século XX foi a revolução cubana de 1959 e suas sequelas por todo o continente e para além dele. Antes disso, porém, merecem referência os dez anos da chamada Revolução Guatemalteca (1944-54). Na sequência de movimentações pró-democracia de estudantes e sindicatos, o coronel Jacobo Árbenz derrubou pelas armas o regime militar existente, em outubro de 1944. Isso deu origem a um breve regime democrático, que conheceu um primeiro governo eleito de Juan José Arévalo e um segundo do próprio Árbenz. Se o primeiro se notabilizou por algumas reformas sociais e uma grande campanha de alfabetização, o segundo levou a cabo uma arrojada reforma agrária. Foram expropriadas com indemnização terras não cultivadas, que foram distribuídas a 500.000 camponeses indígenas. Marginalmente afetada foi a multinacional norte-americana United Fruit, que, no entanto, não gostou. Sob o pretexto de infiltrações comunistas, a CIA orquestrou em 1954 o derrube de Árbenz, por um complexo golpe militar, que englobou uma invasão mercenária, ameaças de intervenção e operações especiais de guerra psicológica (79). Isso daria origem a várias décadas de regime militar e uma terrível guerra civil genocida.

 

No ano de 1948 deram-se dois episódios muito marcantes, na Colômbia e na Venezuela, respetivamente. Na primeira foi o assassinato do populista de esquerda Jorge Eliecer Gaitán, que deu origem a enormes tumultos (o Bogotazo) que abriram todo um período histórico de guerra civil larvar designado por La Violencia. A guerrilha nunca mais deixou de existir neste país, até hoje. Na terra natal de Bolívar, no final desse ano, o derrube militar do presidente eleito Rómulo Gallegos pôs fim a uma breve era democrática e progressiva na vida do país. A revolução de 1952 na Bolívia, que deu posse aos governos do Movimiento Nacionalista Revolucionario (MNR) de Víctor Paz Estenssoro, permitiu uma ampla reforma agrária e a nacionalização da exploração do estanho. Entretanto, no Brasil e na Argentina, as presidências dos nacionalistas Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón, evoluíram paralelamente para um certo populismo de esquerda, com políticas fortes de dirigismo industrial, promoção do emprego e alargamento do mercado interno, com redistribuição de riqueza e defesa dos rendimentos do trabalho. Em ambos os casos, os comunistas estiveram sempre muito afastados da área do poder. Mas estas políticas só eram possíveis porque, face à aliança triunfadora na Grande Guerra, se abrira no mundo um leque de opções políticas que ia até ao socialismo. Esta política desenvolvimentista criou a sua própria escola de pensamento económico, com expoentes como Raúl Prebisch e Celso Furtado. No âmbito das Nações Unidas criou-se mesmo uma agência denominada Comissão Económica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), que difundia estas ideias e promovia estas políticas.

 

Cuba é uma dessas típicas “ilhas bastardas”, produzidas pela expansão europeia. É especial pela sua dimensão e por ter conhecido praticamente tudo aquilo de que o género humano é capaz, em termos de infâmia e cobiça assassina. Desde logo a conquista, escravização e pronto extermínio da sua população autóctone (80). Dizimados os índios taínos, ou em vias disso, começaram a importar-se escravos africanos, para serem explorados nas fazendas ganadeiras, nas vegas de tabaco e nos ingenios açucareiros (81). Começou o célebre comércio triangular. Os corsários infestavam as costas. Chegaram imigrantes que se internavam pelo interior, fixando-se como camponeses. A nobreza espanhola e os grandes latifundiários locais assediavam-nos e expropriavam-nos, dando início a séculos de conflitos agrários mortíferos. Importaram-se ainda novas levas de trabalhadores forçados. Quando as revoltas dos escravos começaram a confluir com os levantamentos camponeses, educando-se ambos mutuamente com as luzes humanistas do jacobinismo, começou a luta revolucionária nacional, que preencheu quase todo o século XIX (82), prolongando-se pelo seguinte. Na viragem entre estes dois séculos entrou em cena um novo e terrível inimigo (já bem presente nos escritos de José Martí), que é o capital-imperialismo norte-americano. Arrancando a vitória das mãos dos independentistas, os norte-americanos, para todos os efeitos práticos, assenhorearam-se da ilha (juntamente com as Filipinas e Porto Rico) a partir da sua “splendid little war” de 1898 contra o decrépito reino de Espanha.

 

À saída da II Grande Guerra, o títere de serviço aos norte-americanos como “homem forte” de Cuba, dentro ou fora da presidência, era o aventureiro Fulgencio Batista. O movimento estudantil constituía uma oposição muito aguerrida a este regime corrupto, vassalo e indigno. E dele começou a emergir um dirigente muito audaz, de nome Fidel Castro. O ativismo estudantil em Cuba implicava então boa oratória, mas também corrida ágil, boa esquiva e dedo pronto no gatilho, contra a polícia e os gangues da máfia, que eram essencialmente a mesma coisa (83). Em 1952, evitando uma disputa eleitoral que se antevia difícil para si, Batista deu mais um golpe de Estado militar, com pronto apoio norte-americano. Por essa altura, Fidel era um jovem advogado e político do partido regeneracionista burguês dito “ortodoxo”. Secretamente, porém, era já um marxista formado e convicto (84). Logo entendeu que era necessário um contragolpe, que viria a materializar-se numa tentativa de assalto ao quartel de Moncada, em Santiago de Cuba. O assalto falhou, com pesadas baixas. O subcomandante Abel Santamaría e muitos outros insurretos foram mortos já na prisão, sob tortura. Fidel e outros companheiros foram detidos, julgados e condenados (85). Cumpriram pena de prisão, mas passados apenas vinte e dois meses seriam amnistiados, partindo para o exílio no México. Batista não sabia avaliar os seus inimigos.

 

Estes exilados conheceram então no México o médico argentino Ernesto Guevara, a quem cognominaram de “Che”, convencendo-o a participar na luta revolucionária cubana. Intitularam-se Movimento 26 de julho (M-26-7), data do assalto ao Moncada. Fizeram todos algum treino militar e compraram um iate de recreio, de nome Granma, com o qual pretenderam introduzir oitenta e dois revolucionários armados na parte oriental da ilha. O plano era tomar Santiago de Cuba numa ação coordenada com um grupo revolucionário local comandado por Frank País. O desembarque corre catastroficamente. Apenas alguns pequenos grupos dispersos de expedicionários conseguem subir à Sierra Maestra, para aí tentarem se reagrupar. Os guerrilheiros vão deambular por estas montanhas durante cerca de dois anos, escapando aos cercos e bombardeamentos, até se sentirem suficientemente fortes para a guerra de movimento (86). Vão então intentar o clássico movimento revolucionário cubano que é a invasão a partir do oriente.

 

Che Guevara avança com uma pequena coluna de 350 homens para tomar Santa Clara, no coração da ilha. O exército de Batista, com uma superioridade esmagadora no campo de batalha, de dez para um, esboroa-se por completo. Estavam ali as melhores tropas de que dispunha a ditadura, bem descansadas, com o melhor equipamento, sob o comando mais seguro. O objetivo militar central, um comboio blindado estacionado na cidade, é tomado pelos guerrilheiros a 29 de dezembro. Sem apoio claro e pronto dos E. U. A., o ditador foge de avião, de La Habana para a República Dominicana, com as malas cheias de dinheiro, pouco após a passagem para o novo ano de 1959. Tiveram medo, sim. Muito medo. Mas não era medo do Che e da sua rapaziada esfarrapada e faminta. Nah. Era medo do povo cubano, em revolta uníssona e ubíqua. Medo de Fidel Castro Ruz. Um medo que os paralisava por dentro, os revolvia, os amesquinhava, lhes fazia vomitar remorsos e os transformava em vermes. Começava a lenda.

 

O M-26-7 está vitorioso em todo o país e as colunas revolucionárias entram triunfalmente em La Habana, entre 2 e 8 de janeiro. Em fevereiro de 1959 Fidel Castro tomou posse como primeiro-ministro de Cuba. Em abril visitou os E. U. A., sendo recebido apenas pelo vice-presidente, Richard Nixon, que detestou, mas a quem conseguiu convencer de que não era comunista. Em maio foi decretada uma primeira reforma agrária, estabelecendo um limite à extensão das herdades e dando títulos de propriedade novos a 200.000 camponeses. No verão foram expropriadas plantações de estrangeiros e cubanos ausentes. Começou um jogo de retaliações com os E. U. A. que, por fim, levaria à nacionalização de quase todos os interesses norte-americanos, em especial bancos, unidades produtoras de açúcar e refinarias de petróleo. Osvaldo Dórticos foi nomeado presidente, sendo agora a república dirigida dominantemente por marxistas, continuando, porém, a protestar não ser comunista. Che Guevara, depois de ter dirigido a justiça revolucionária, era agora governador do banco central e ministro da Indústria. Para além disso, desempenhou inúmeras missões ao estrangeiro (87).

 

Anastas Mikoyan visita Cuba e celebra, em nome da União Soviética, um importante acordo económico, prevendo trocas comerciais e assistência. Entretanto, as negociações com os E. U. A. arrastavam-se (88). Em março de 1960 explodiu no porto de Havana um navio francês que transportava armas para a nova república, causando perto de cem mortes e estragos importantes no cais (89). Fosse ou não sabotagem, este incidente cortou definitivamente as pontes. Pouco depois a CIA tinha já efetivamente instruções presidenciais para depor ou neutralizar Castro por quaisquer meios. Foi concedido um amplo orçamento para esse efeito, com permissão para organizar e armar grupos anticomunistas e atuar conjuntamente com o crime organizado (que havia sido também afrontado com o encerramento dos casinos e bordéis cubanos). Em setembro de 1960 são organizados em todo o país os Comités de Defesa da Revolução (CDR). No final desse ano, os E. U. A. cessaram todas as importações de Cuba. Pouco depois, as relações diplomáticas entre os dois países foram cortadas.

 

Logo nesses primeiros anos são estabelecidas as bases de sistemas de saúde e de educação com cobertura universal, gratuita e participada. A revolução cubana desde sempre teve a consciência de ser portadora de uma mensagem dirigida a toda a América Latina e, por fim, ao mundo. Em setembro de 1960, Fidel Castro faz aprovar, em Assembleia Geral Nacional do Povo de Cuba (um gigantesco comício na Praça da Revolução), uma ‘Declaração de Havana’ (90). É uma exposição de princípios políticos em tudo socialista, mas ainda sem esse nome. Pouco depois Fidel vai a Nova Iorque, participar em trabalhos da ONU. Discursou aí por cinco horas seguidas. Aloja-se num hotel barato do Harlem, encontrando-se com Malcolm X. Conhece então também Nikita Khrustchev estabelecendo com ele uma boa relação pessoal. Se o derrube de Batista foi praticamente consensual nas classes médias ilustradas cubanas, a constante inflexão para a esquerda do novo regime provocou profundas divisões. Muita gente (de que só uma minoria eram batististas) partia para o exílio, praticava atentados, sabotagem e rebelião armada nas montanhas. Com assistência e enquadramento da CIA, um exército contra-revolucionário estava em formação e treino na Guatemala, preparando uma invasão. Treinava também em Porto Rico, Panamá, na Flórida, Kentucky e Georgia, sempre mantido, alojado e transportado pelo Tio Sam. O novo presidente, J. F. Kennedy, recebeu da anterior administração Eisenhower esse programa secreto já muito avançado e não podia recusá-lo, uma vez que a recriminação pela “perda” de Cuba fora, precisamente, um dos seus temas eleitorais favoritos. Durante o debate televisivo decisivo, sobre o tema Cuba, ele fizera de falcão e Nixon de pomba, este, no entanto, apenas para assim continuar a ocultar os planos que estavam em curso.

 

A 17 de abril de 1961, depois de bombardeamentos e algumas manobras diversionárias, uma força mecanizada (dispondo de tanques M41) de 1.400 expedicionários parte da Nicarágua para desembarcar em Bahía de los Cochinos, costa sul, não muito longe de Cienfuegos. A equipa invasora incluía um esquadrão da morte para abater dirigentes políticos comunistas. Tudo transportado em navios fretados pela CIA, sob escolta da Marinha e com apoio da Força Aérea norte-americana. Na verdade, todo este plano só fazia sentido militarmente dando origem a uma escalada que levasse ao confronto direto entre as forças armadas dos dois países. Mas Kennedy, apesar de ter averbado então vários mortos entre o seu pessoal militar, agarrou-se com unhas e dentes à treta da “negação plausível” do envolvimento norte-americano, não se decidindo a ir até ao fim. Na burguesia – quando se quer afirmar como dotada de “consciência” - a hipocrisia é como uma segunda pele. O resultado previsível foi um completo fiasco. Em dois dias todos os invasores sobreviventes tinham sido capturados. Excluídos alguns responsáveis por crimes cometidos antes da revolução, os restantes foram objeto de troca com os seus patronos, por bens médicos e alimentares no valor de $53 milhões de dólares. O presidente norte-americano e sua esposa foram dar-lhes as boas vindas, numa cerimónia pública em Miami.

 

A vitória em Playa Girón enfunou por completo as velas da revolução cubana. O MR-26-7 fusionou-se com o Partido Socialista Popular (assim se chamava o partido comunista) e com o Directorio Revolucionario 13 de Marzo para formar as Organizaciones Revolucionarias Integradas, depois renomeadas Partido Unido de la Revolución Socialista de Cuba (PURSC). Pois é certo: a revolução cubana era afinal socialista. Isso mesmo foi proclamado, pela primeira vez, num discurso de Fidel, de abril de 1961, relacionado com os enfrentamentos armados que então se viviam (91). O Kremlin não ficou de todo agradado com este anúncio. Preferia encarar o barbudo surgido da Sierra Maestra como um segundo Nasser do que como uma nova luminária marxista, possivelmente heresiarca. Mas não objetou. Concedeu a Fidel o Prémio Lenine da Paz e aprofundou os laços económicos com Cuba. Kennedy, por sua vez, decretou um embargo total a Cuba - que subsiste até aos dias de hoje – e intensificou as operações secretas, incluindo sabotagens e assassinatos. Na “Segunda Declaração de Havana”, em fevereiro de 1962, a Assembleia Geral Nacional do Povo de Cuba apelou ao levantamento revolucionário de toda a América Latina (92). Em resposta, a ilha viu-se expulsa da Organização dos Estados Americanos, o que também subsiste ainda, aliás sem grande lástima.

 

Os E. U. A. começaram então a arquitetar planos para uma invasão militar convencional de Cuba, como era inevitável que fizessem. Se Kennedy alguma vez daria sinal para avançar é toda uma outra história. Os soviéticos dão notícia aos cubanos deses planos no começo do verão, conseguindo extrair-lhes, com basse nisso, o consentimento para a instalação em Cuba de uma série de rampas de lançamento de mísseis balísticos de médio alcance, com capacidade nuclear, apontados para os E. U. A.. Era uma iniciativa de altíssimo risco, por meio da qual Krustchev entendeu que podia tentar extrair alguns rendimentos geoestratégicos do investimento já feito (e ainda a fazer) na ilha revolucionária. Serviria de moeda de troca por mísseis norte-americanos equivalentes recentemente instalados na Turquia e em Itália. A defesa de Cuba era um mero pretexto. Isso mesmo ficou evidente quando, instado epistolarmente por Fidel, Krustchev se recusou perentoriamente a admitir o uso desses mísseis em caso de invasão norte-americana da ilha (93). Ou seja, não tinha afinal nada a ver uma coisa com a outra.

 

Confirmando os rumores que já circulavam, aviões norte-americanos U2, que as antiaéreas soviéticas deixaram sobrevoar Cuba à vontade, captaram fotografias nítidas das instalações de lançamento de mísseis, em outubro de 1962. Kennedy sabia que uma nova humilhação em Cuba sinalizaria, seguramente, o fim da sua carreira política. Reuniu o conselho de segurança nacional e fez uso da política-espetáculo mediática, que era o seu forte. Numa alocução televisiva anunciou um bloqueio naval a Cuba, exigindo à União Soviética a retirada imediata dos mísseis instalados, sob ameaça de bombardeamento e invasão. Iniciou-se então um período de intensas negociações, sob grande tensão, das quais os cubanos nem espetadores foram. Mas tinham o dedo no gatilho e derrubaram um U2 matando o seu piloto norte-americano. Os E. U. A. não responderam.

 

O acordo chegou, finalmente. Os mísseis contenciosos seriam retirados, sob inspeção da ONU. Em contrapartida, Kennedy aquiesceu secretamente na retirada dos seus mísseis da Turquia e de Itália, comprometendo-se publicamente apenas a não invadir ou dar apoio a uma invasão a Cuba. Salvou a face e declarou vitória, satisfazendo simultaneamente, por completo, os soviéticos, que não fizeram grande questão de ficar com os louros públicos. Os falcões do militarismo anticomunista norte-americano ficaram apopléticos de raiva. Marginalizados e ofendidos, os cubanos fizeram saber que não permitiriam inspeções algumas em seu solo. Uma espécie de inspeção foi então arranjada para se fazer aos navios soviéticos já em alto mar. O bloqueio naval a Cuba foi levantado. Para tentar limpar a impressão de que era um presidente “fraco”, Kennedy escalou um pouco a presença de conselheiros e instrutores militares no Vietname. Depois hesitou novamente. E foi abatido a tiro em passeio automóvel pelas ruas de Dallas.

 

A crise dos mísseis causou danos nas relações cubano-soviéticas, mas não havia alternativa à sua manutenção e até aprofundamento. Em maio de 1963 Fidel faz uma demorada e cerimoniosa visita de estado à União Soviética. No ano seguinte voltou a Moscovo para assinar um acordo quinquenal de comércio de açúcar. Começaram a desembarcar em Cuba centenas de cooperantes soviéticos, com milhares de toneladas de maquinaria e equipamentos, nem sempre ajustáveis às necessidades do país. A 3 de outubro de 1965, é criado o Partido Comunista de Cuba (PCC), guia da revolução. Todavia, o desencanto com os soviéticos estava instalado, num ambiente de fundo em que avultava já a cisão chinesa no movimento comunista internacional, que a própria crise dos mísseis contribuiu aliás para consolidar (94). A isso acresceu o surgimento de verdadeiras divergências de política económica, tanto práticas como teóricas. Che Guevara, adorado embora pelo povo cubano, começou a experimentar fortes resistências e rejeições nas suas camadas dirigentes. A sua intransigência, rispidez e falta de tato criavam atritos constantes. Havia ainda muita desorganização, improviso, disfunções e desperdício na produção industrial por ele tutelada (95).

 

O Che propugnava um planeamento económico totalmente centralizado, sem qualquer intervenção de preços mercantis nas trocas dentro do setor estatal. Propôs-se abolir o funcionamento da lei do valor, por meio de sucessivos desvios voluntaristas, desde o início da transição socialista. Desconsiderou a política de concessão de estímulos materiais aos trabalhadores, em prol de estímulos puramente morais. Sobre estes temas entrou em polémica pública com Alberto Mora, ministro do comércio externo (96), que depois se estendeu a diversos outros participantes. Sendo ele próprio pró-chinês, viu-se contrariado teoricamente pelo maoisante Charles Bettelheim, acabando por ter de ir buscar apoio, surpreendentemente, no trotskista Ernest Mandel (97). Por fim, num seminário económico de solidariedade afroasiática, realizado em Argel, em março de 1965, levou até ao limite suportável a tensão mantida com a União Soviética da coexistência pacífica e do socialismo realmente existente (98). Duas semanas depois deste discurso, desapareceu completamente da vida pública. Soube-se depois que renunciou a todos os seus cargos oficiais ao serviço da revolução cubana e resolveu partir pelo mundo fora para espalhar a revolução. A república cubana deu-lhe todo o apoio possível. O seu projeto mais ansiado passava pela Bolívia, concebida como placa giratória de contágio revolucionário dispersor para toda a América do sul, inclusive a sua Argentina natalícia. Parcialmente, pelo menos, em resultado da sua tempestuosa impaciência, a aventura boliviana, nas selvas de Ñancahuazú, saldar-se-ia por um fracasso total, que lhe custaria a vida (99).

 

A direção a tomar pela economia cubana foi sempre uma questão mal resolvida. A diversificação produtiva e a autonomia eram os objetivos declarados, mas a necessidade de compensar de algum modo a ajuda soviética pressionou sempre no sentido do reforço da monocultura açucareira. Havia quotas a cumprir. Os soviéticos queriam boas contas e aborreciam-se com as constantes iniciativas de encorajamento à revolução promovidas pelos cubanos. Havia uma certa desconfiança mútua. Em 1967 houve mesmo uma micropurga e prisões por uma suposta conjura pró-soviética (caso Anibal Escalante). Em 1966, numa conferência tricontinental realizada em La Habana, foi criada a Organización de Solidaridad con los Pueblos de Asia, África y América Latina (OSPAAL). No ano seguinte, criar-se-ia a Organización Latinoamericana de Solidaridad (OLAS), sob o lema “o dever de todo o revolucionário é fazer a revolução”. Havia então (ou tinha já perecido) gente em armas numa boa dúzia de países latino-americanos, a partir do exemplo cubano, com o seu incentivo e apoio efetivo.

 

Nos anos 1960, mesmo após a saída e desaparecimento do Che, Cuba continuava a manter uma grande autonomia doutrinal e estratégica. Recusou aderir ao tratado de não-proliferação de armas nucleares. Achava-se capaz de atingir o comunismo sem passar por demoradas fases de transição que implicassem compromissos semelhantes aos do modelo soviético. Em 1968 foi decretada uma “ofensiva revolucionária”, com a nacionalização de todos os pequenos negócios e a proibição do auto-emprego. O trabalho foi militarizado e os costumes julgados desviantes ferozmente reprimidos. O objetivo central era atingir uma colheita de 10 milhões de toneladas de açúcar em 1970, para isso se tendo mobilizado toda a sociedade numa gigantesca campanha de emulação. Seguindo a injunção guevarista, nenhuns estímulos materiais eram concedidos ao trabalhador. Em frente, pelo homem novo. Helas, no ano fixado, o objetivo projetado falhou rotundamente. Fidel faz uma autocrítica pública, em que chega a oferecer a sua demissão (100). A partir daqui, Cuba passou a ser muito mais submissa aos ditames políticos do Kremlin e a seguir, sem grandes reservas aparentes, o modelo económico soviético. Continuou apenas a manter o seu próprio modelo de organização política e de sociabilidade, bem como as suas arrojadas iniciativas de solidariedade internacionalista. Houve muito sofrimento e expetativas frustradas, em Cuba. Mas também houve felicidade pura, sobretudo na infância e juventude. Para quem é frugal, modesto, solidário e fraterno, nunca faltaram os motivos de festa e alegria. Para quem tiver ambições pessoais desabridas, a vida pode se tornar-lhe lá insuportável. A revolução cubana foi de falhanço em falhanço, arrostando com um isolamento quase total, até lograr uma sobrevivência espantosa, que a mantém ainda hoje, em contracorrente, na expetativa de uma nova aurora.

 

Em julho de 1972, Cuba adere ao Conselho de Ajuda Económica Mútua (Comecom), que agrupa as economias socialistas do campo centrado na União Soviética. Para além disso, é formalizado um órgão específico de colaboração económica, científica e técnica cubano-soviética. Os métodos de organização e gestão adotados na ilha são os soviéticos. Aos quais acresce uma especificidade própria que poderá ser descrita assim: Fidel chega ao local, inspeciona, escuta, revê as suas notas estatísticas, manda vir especialistas e material, dá instruções, definem-se objetivos, depois o comandante segue para outro sítio onde o processo se repete, e assim por diante, em círculos um pouco aleatórios que vão percorrendo todo o país, uma e outra vez. Podemos talvez chamar-lhe o método do turbilhão decisório (101). Em 1975 dá-se início ao que seria o maior compromisso cubano de ajuda militar internacional em larga escala, com a Operação Carlota, em Angola (102). Seguir-se-iam outros, sobretudo em África. Mais tarde, a cooperação cubana fixar-se-ia sobretudo no campo médico. No ano de 1976, a República de Cuba adota finalmente uma nova Constituição, para refletir o seu caráter socialista. É instituído o Poder Popular, que consagra e formaliza um conjunto de práticas de organização vicinal que já vinham sendo usadas desde o início da revolução. Existe, em todo o país, uma rede de assembleias populares de base, que elegem o seu Conselho Local, bem como os seus delegados à Circunscrição, ao Município e à Província e os seus deputados à Assembleia Nacional do Poder Popular, o máximo órgão do poder estatal. Todos os representantes prestam contas, sendo os seus cargos revogáveis (103).

 

A revolução dos barbudos na ilha em forma de aligátor situou-se na encruzilhada de todos os debates do marxismo e do leninismo, criando também alguns novos. De particular relevância, entre as novidades, foi a teoria do “foco revolucionário”, que seria formulada modularmente por Régis Debray, em diálogo e consulta muito diretos com Fidel Castro (104). Segundo esta teoria, baseada de muito perto na experiência da Sierra Maestra, um pequeno grupo de quadros revolucionários, bem treinados e superiormente moralizados, poderá sempre atuar com uma espécie de dínamo, reunindo em volta de si e potencializando o descontentamento popular difuso, até o transformar numa força revolucionária invencível. Primeiro como guerrilha, logo como um exército convencional, mas também apoiado por um movimento civil de massas. As condições subjetivas são o mais importante, pois que são já um começo de realização das condições objetivas da revolução. O que importa é que o “foco” possa atuar em zonas protegidas da repressão (por dificilmente acessíveis) pelo tempo necessário a poder ganhar a confiança das massas, endoutrinando-as e organizando-as para a vitória.

 

Esta teoria ficaria identificada sobretudo com a figura do Che, sendo denominada normalmente como guevarismo (105). Formando palavra composta com mao-, trostsko- ou mesmo anarco-, o guevarismo foi uma das componentes mais marcantes da “nova esquerda” surgida nos anos 1960. Serviu para dissolver o esquema estratégico dos estágios da revolução, adotado pelos partidos comunistas de obediência estalinista e pós-estalinista, que, particularmente na América Latina, levava a impasses e dava pretexto a oportunismos caricatos (106). Isso foi, sem dúvida, positivo. Em contrapartida, o voluntarismo extremo teve também custos tremendos. Como diria aqui Lenine, para corrigir a sua posição inicial, dobrou-se a vara demasiadamente para o outro lado. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

 

O militantismo armado tornou-se uma vaga incontrolável que percorreu todo o mundo, fundindo-se com a justa luta palestiniana, sob um pano de fundo internacional em que avultavam também a ofensiva de Tet e a revolução cultural chinesa (107). A passagem do ativismo estudantil para a guerrilha nas montanhas ou nas caves citadinas passou a ser encarada como natural, de forma totalmente independente das condições de desenvolvimento do movimento social. Na América Latina, a luta armada de inspiração cubana, guevarista ou foquista deflagrou em praticamente todos os países. Na Colômbia já existia, mas tomou novas formas a partir do exemplo cubano. Em muitos desses países houve, em ação simultânea ou sucessiva, diversas organizações revolucionárias em armas rivais entre si. É manifestamente impossível descrever aqui, mesmo sumariamente, todas essas experiências. Mencionaremos apenas as mais relevantes, devendo ter-se em conta que este capítulo se ocupa só de acontecimentos até ao final dos anos 1970.

 

No Brasil tivemos as Ligas Camponesas (segunda fase) de Francisco Julião (108), a Ação Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Mariguella (109), a Vanguarda Popular Revolucionária de Carlos Lamarca, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e a guerrilha do Araguaia do P. C. do B. sob a direção de Maurício Grabois; no Uruguai, os Tupamaros de Raúl Sendic (110), onde militaram Eleuterio Huidobro e Pepe Mujica; na Argentina, o Ejército Guerrillero del Pueblo de Jorge Ricardo Masetti, os Montoneros (onde estiveram Esther Arrostito, Paco Urondo, Rodolfo Walsh, Juan Gelman, entre muitos outros) e o Ejército Revolucionario del Pueblo (PRT-ERP) de Mario Roberto Santucho (111); no Chile, o Movimiento de Izquierda Revolucionario (MIR) de Miguel Enríquez e Andrés Pascal Allende (112); no Paraguai, o Movimiento 14 de mayo de Benjamín Vargas Peña; na Bolívia, o Ejército de Liberación Nacional (ELN) criado pelo Che e reativado depois dele por Osvaldo Peredo; no Peru, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria de Luis de la Puente Uceda e o Ejército de Liberación Nacional de Héctor Béjar e Javier Heraud, para além das insurreições camponesas capitaneadas por Hugo Blanco; no Equador, a Unión Revolucionaria de la Juventud Ecuatoriana; na Colômbia, o Ejército de Liberación Nacional (ELN) (113), o Movimiento 19 de abril (M-19), o Ejército Popular de Liberación (EPL) e as Fuerzas Armadas Revolucionárias de Colombia (FARC), da Manuel Marulanda; na Venezuela, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) de Domingo Alberto Rangel e Gumersindo Rodríguezas e as Fuerzas Armadas de Liberación Nacional (FALN) de Argimiro Gabaldón, Douglas Bravo e Teodoro Petkoff; na Nicarágua, a Frente Sandinista de Liberación Nacional (FSLN), de que adiante trataremos um pouco mais; em El Salvador, as Fuerzas Populares de Liberación "Farabundo Martí" (FPL), de Salvador Cayetano Carpio e Mélida Anaya Montes e o Ejército Revolucionario del Pueblo de Rafael Arce Zablah (onde militou Roque Dalton); na Guatemala, as Fuerzas Armadas Rebeldes (FAR) de Luis Turcios Lima e o Ejército Guerrillero de los Pobres (EGP); no México, o Partido de los Pobres e a Asociación Cívica Nacional Revolucionaria; na República Dominicana, o Movimiento Revolucionario 14 de Junio (1J4) de Manolo Tavárez Justo e as guerrilhas constitucionalistas de Francisco Caamaño; em Porto Rico o Ejército Popular Boricua (EPB - los "macheteros") de Filiberto Ojeda Ríos e as Fuerzas Armadas de Liberación Nacional (com ação nos E. U. A.).

 

A luta de guerrilhas é extremamente desigual, à partida. Se possível mais desigual ainda do que a luta de classes na vida civil. Só terá sucesso em condições muito excecionais, normalmente em países com um fraco travejamento institucional. É certo que o confronto armado está sujeito a uma maior álea, o que pode beneficiar a parte mais fraca. Mas os riscos são enormes e as perdas devastadoras. Muitas das pessoas que citamos no parágrafo anterior e tantas outras, da nossa “melhor juventude”, tiveram mortes violentas na flor da idade. Nos anos 1960-70 houve um novo ciclo de imposição de ditaduras militares pró-imperialistas, emanadas da doutrina de segurança nacional, que atingiu o Brasil (1964), a Bolívia (1964), a Argentina (1966 e novamente em 1976), o Chile (1973) e o Uruguai (1973), a acrescer àquelas que se mantinham já de longa data.

 

Mais perigosa ficou ainda a situação quando o inimigo resolveu coordenar as suas atividades de repressão e terrorismo na denominada Operação Condor, com toda a incomparável superioridade de meios possibilitada pelo ilimitado apoio do imperialismo norte-americano. Verificou-se então que essas oligarquias traidoras fascistizadas podiam matar, um a um, os nossos melhores valores, sem colocar minimamente em risco os seus próprios. Entretanto, a vida democrática e as liberdades públicas foram cerceadas ou cortadas rente em grande parte do continente. Ficamos sem meios para mobilizar a luta social, para fazer agitação, propaganda, educação e esclarecimento. A burguesia impõe o seu poder nu e sem peias, alegando o estado de exceção. Em 1974 Régis Debray já tinha revisto por completo as suas ideias (114). É preciso ponderar bem, dosear e articular muito sólida e criteriosamente a passagem à luta armada com o movimento social, arrepiando algum caminho que se tenha feito às pressas, sem atraiçoar as lutas que estejam já em curso auspiciosamente.

 

Que Fidel Castro não era uma pessoa comum não escapava a quenquer que contatasse com ele. Este homem era realmente colossal. Não fosse ele, uma aventura tão inverosímil como a do Granma estaria inevitavelmente votada ao fracasso. A suprema arte que ele soube desenvolver e apurar, ao longo de vida, foi a de lidar com essa impressão que sabia causar nos outros, dirigindo-a sempre, com desenvoltura e uma certa argúcia maliciosa, para a consecussão dos seus intentos. Com isso desafiando inclusivamente a morte, constantemente no limite. Fidel atuou sempre com base na convicção de que a mão que se levantasse para lhe dar a morte iria tremer na última hora. Por alguma razão, isso de facto aconteceu sempre. Muitos revolucionários antes dele foram temerários, mas não da mesma forma selvática e intransigente. Dele se pode dizer que fez recuar de pavor a própria morte com a sua audácia. Mas a sua fúria era sempre bem temperada de paciência, astúcia e cálculo bem medido. Sabendo, se fosse caso disso, conquistar os inimigos (muitos deles sempre estiveram mortinhos por ser conquistados por ele) pelas boas palavras e pela lisonja inteligente. É isso, também, que faz um verdadeiro herói. Na época em que me foi dado viver, não houve herói algum que se lhe comparasse (115). A partir da posição mais fraca, ele foi sempre um vulto medonho de encarar por qualquer inimigo. Medonho. Revelando-se, por fim, imbatível. Muitos desses inimigos resolveram então antes cortejá-lo, o que ele aceitava de uma forma calculadamente sardónica. Ora, isto não é acessível a qualquer um. Quem não for Aquiles, não deve tentar imitá-lo. Não vale a pena teorizar a partir de uma experiência sem levar em linha de conta o que nela houve de excecional. O “foco” em Cuba foi Fidel. Não tendo Fidel (ou um equivalente) dificilmente se vai criar um foco revolucionário a partir de um puro modelo abstrato. É duro e amesquinhante. Vai um pouco ao arrepio das nossas convicções igualitárias. Mas é assim.

 

A segunda experiência revolucionária latino-americana mais marcante desta época não se expressou pela via armada. Foi protagonizada no Chile por um político de carreira, já bastante experiente, oriundo de uma família tradicional. À quarta tentativa, em setembro de 1970, Salvador Allende Gossens, conseguiu finalmente a vitória na eleição presidencial, apoiado pela coligação de esquerda Unidad Popular, que incluía o seu Partido Socialista (PS) e o Partido Comunista do Chile (PCC), para além de mais quatro parceiros menores. Allende era um apoiante convicto da revolução cubana e um ativista de primeira linha da OLAS. Em 1967 estivera na fronteira boliviana para receber os cincos únicos sobreviventes da guerrilha do Che (Pombo, Benigno, Urbano, Inti e Darío). A sua vitória eleitoral foi de maioria relativa (36%), com uma margem muito estreita sobre o adversário da direita. Mas Allende tinha grandes planos e os seus inimigos, desde a primeira hora, uma determinação absoluta, tenaz e radical em contrariá-los por todos os meios. Richard Nixon ordenou que fosse impedida a sua tomada de posse. Das manobras terroristas empreendidas nesse sentido (em apoio às manigâncias legais), pela CIA e pela direita chilena, civil e militar, resultou o assassinato do comandante do exército, o constitucionalista general René Schneider.

 

A 3 de novembro Allende tomou efetivamente posse, ouvindo depois um Te Deum na catedral de Santiago. Para a pasta da economia nomeou Pedro Vuskovic, um professor de estatística que trabalhara no CEPAL. O objetivo do governo era, muito claramente, empreender uma transição ao socialismo dentro da institucionalidade democrática vigente (116). O plano imediato consistia em: estatizar todas as áreas-chave da economia, pela compra de ações, em especial as indústrias monopolísticas, as relacionadas com a produção de bens de consumo corrente (têxteis, pescas e outros), bem como a banca; nacionalizar as grandes indústrias de mineração; acelerar a reforma agrária, com base na lei feita aprovar pelo governo anterior; congelar os preços das mercadorias de consumo popular; aumentar substancialmente os salários de todos os trabalhadores, pagando-os com emissão de moeda; reformar a constitução com criação de uma câmara única (117). A nacionalização das minas foi aprovada por unanimidade no Congresso, com algumas alterações ao projeto de lei. A direita não quis assumir a responsabilidade nacional de se lhe opor. Esta medida afetava as multinacionais norte-americanas do cobre Anaconda e Kennecott, que seriam expropriadas sem indemnização, como compensação pelos lucros excessivos auferidos ao logo da sua exploração. As companhias visadas não gostaram nada disto, naturalmente. Procuraram organizar um boicote ao cobre chileno. Kissinger, pela sua parte, promoveu um bloqueio internacional de créditos ao Chile, que se viu obrigado a buscar financiamento na União Soviética. A resposta do Kremlin foi dececionante, mesmo após uma visita de estado de Allende.

 

Nas eleições municipais de abril de 1971, a Unidad Popular consegue já perto de 50% dos votos. A política monetária expansionista resultou, tendo o PIB crescido 8% nesse ano. O consumo privado expandiu-se. A pequena indústria e comércio tiveram excelentes lucros. O desemprego baixou. Havia otimismo, alegria e mobilização laboral. Até Pablo Neruda ganhou então o Prémio Nobel da Literatura. Tudo parecia ir muitíssimo bem, apesar do legado económico desastroso do último governo e da guerra económica implacável movida ao país. Em finais de 1971, Fidel Castro faz uma demorada e triunfal visita de norte a sul do Chile. Em privado, porém, expressou ceticismo quanto a uma transição pacífica ao socialismo. Expropriaram-se, por então, mais de dois milhões de hectares de terras, dando-se ocupações desordenadas com alguma violência. Começa a notar-se uma aguda polarização social. Embora a falta de géneros no mercado fosse esporádica e pontual, a imprensa burguesa começou a fazer uma grande campanha sobre isso. Mulheres de classe média saem à rua batendo em tachos. A oposição - Democracia Cristiana (DC), centrista, e o Partido Nacional (PN), de direita extremista - que estivera até então desunida, começou a atuar concertada contra o governo de Allende. O Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), não integrado na UP, mas apoiante crítico do processo político desencadeado pela coligação no poder, promovia ações diretas de âmbito social, que o governo se recusava a reprimir. Surgem ações terroristas de direita e afrontamentos constantes nas ruas. Uma organização terrorista esquerdista, a Vanguardia Organizada del Pueblo (VOP), possivelmente infiltrada, promovia ações provocatórias.

 

1972 e 1973 foram anos de contração económica e inflação. O preço internacional do cobre desceu, enquanto aumentaram enormemente os encargos com a importação de bens alimentares. O défice público disparou. Ao sistema de preços controlados, a burguesia reagia gerando escassez no abastecimento e promovendo o mercado negro. Em outubro de 1972 começa, apoiada pela CIA, uma paralisação de camionistas que levou o caos ao abastecimento público. Ao lock-out, a classe operária respondia com as ocupações de empresas. As conquistas revolucionárias eram defendidas por organizações populares de base, como os cordones industriales e os comandos comunales, que constutuiam embriões de um poder paralelo (118). Surgiram também profusamente armazéns populares e comandos de abastecimento para fazer frente na guerra económica movida pela burguesia e o imperialismo.

 

Em novembro várias altas patentes militares acedem ao governo, num gesto de apaziguamento social, pactuado entre a UP e a DC. Os camiões voltam à estrada. Nas eleições parlamentares de março de 1973, a oposição unida ganha a maioria, mas longe dos 2/3 que pretendia para destituir Allende da presidência. A UP consegue 40% dos votos. Seguem-se negociações infrutíferas. As classes médias incitam provocatoriamente os militares a intervir. Uma proposta de reforma do sistema educativo causava polémica e afrontamentos de rua entre associações de estudantes. A 29 de junho há uma primeira tentativa de golpe militar (o tanquetazo), que causou dezenas de mortes e feridos, sendo debelada com a intervenção pessoal do comandante do exército, general Carlos Prats. A derrota deste golpe militar causou um novo ascenso do movimento popular. Há uma greve geral e novas ocupações de empresas. Dirigentes fascistas procuraram refúgio em embaixadas estrangeiras. Mas este momento de iniciativa política perdeu-se, para a esquerda, devido à insistência do governo (em concreto o setor allendista do PS e o PCC de Luis Corvalán) em procurar, a todo o custo, uma saída constitucional pactuada com a DC. Foi aqui que a revolução se perdeu e o processo chileno entrou no declive que o levaria, finalmente, ao horror militaro-fascista. Como dizia Napoleão Bonaparte, “o desastre pode ser o resultado de uma oportunidade perdida”.

 

O governo enfrentava-se agora com o poder judicial, recusando meios policiais e administrativos para permitir o cumprimento de sentenças que determinavam a devolução de terras a proprietários expropriados. O Congresso, por sua parte, declarou também o governo em rebeldia contra a ordem constitucional, apelando às forças armadas. Os militares exigiam o desarmamento das organizações populares e faziam menção de o começar a executar. Era uma crise constitucional. Em agosto os militares voltam ao governo e os camionistas estão novamente paralisados. O general Prats é apupado por manifestantes contrarrevolucionários. Pede confiança aos seus pares. Perante uma resposta escassa e dúbia, apresenta a sua renúncia. Allende nomeia em sua substituição o general Augusto Pinochet. Ingenuamente, o governo pretendeu preservar a unidade das forças armadas às custas dos setores lealistas e constitucionalistas, que se viram marginalizados. Os militares abertamente golpistas asseguraram para si a unidade da cadeia de comando. Seguros da sua hegemonia, conspiravam agora com pleno à vontade, em contato permanente com os norte-americanos (119).

 

O presidente queria convocar um plebiscito para ultrapassar o impasse político e constitucional. Confidenciou isso mesmo a Pinochet, que lhe garantiu toda a sua lealdade. Com esta iniciativa, Allende mostrava-se disponível para deixar o poder, fazendo-o pousar suavemente no colo do anterior presidente, o democrata-cristão Eduardo Frei, mediante eleições antecipadas. Perante a constatação irrecusável da sua incompatibilidade (mas porque não viu ele isto antes?), foi mais forte nele o continuísmo institucional democrático do que o tão apregoado socialismo revolucionário. Para o MIR e a esquerda socialista (Carlos Altamirano) isto era pura traição. Era abandonar o projeto político da UP, deixando desamparado e entregue à repressão todo o movimento popular. Miguel Enríquez deixou então de tratar Allende por companheiro, passando a chamar-lhe “senhor”. Para a direita político-militar e para os E. U. A., porém, isto era já demasiado pouco, demasiado tarde. Estes agora já só se davam por satisfeitos com uma solução do “tipo indonésio”. Havia que dizimar e exterminar por completo a esquerda e o movimento popular, por várias gerações.

 

No dia 11 de setembro, a armada chilena abandona as manobras conjuntas em que estava envolvida com os E. U. A., acostando em Valparaíso. O exército tem já grandes divisões mecanizadas em manobra nas ruas desde a madrugada. É divulgada uma proclamação que contém uma intimação para que o presidente entregue o poder a uma junta militar. Depois fazem-lhe chegar propostas no sentido de o conduzir para o estrangeiro, firmemente recusadas. O palácio presidencial de La Moneda é cercado por tanques. Dá-se uma primeira troca de tiros com franco-atiradores postados na sua defesa. Às 10h15 Allende faz a sua última comunicação radiofónica ao país. Os tanques abrem fogo sobre o palácio, que logo de seguida é bombardeado pela aviação. São arremessados gases lacrimogéneos para o seu interior. Os sitiados põem máscaras antigás. O assalto começa, sendo tomado o piso térreo. Gritos exigem rendição. Allende tem uma metralhadora A-47 a tiracolo e dispara sobre si próprio, no queixo, para cima, desfazendo por completo a caixa craniana. Foi uma decisão corajosa, lúcida e honrada, nas circunstâncias dadas, para um homem sem treino nem vocação militar. Era assim mesmo que se fazia na Antiguidade Clássica, em circunstâncias equiparáveis. Tivesse ele entrado em combate (para quê?), teria provavelmente acabado ferido e capturado, que foi o que ele quis evitar a todo o custo.

 

Foi decretado recolher obrigatório em todo o país. A mobilização de meios e homens feita pelos golpistas, a coberto da coação própria da instituição militar, era maciça e bem coordenada. A execução foi de uma brutalidade incansável. A resistência oferecida ao golpe foi dispersa e esporádica, na capital e em Valparaíso (120). Fizeram-se muitos milhares de detenções e largas centenas de execuções sumárias. Bairros operários foram arrasados. Instalações universitárias atacadas a tiro de canhão. O crepitar surdo das metralhas ouviu-se constantemente na cidade durante toda a tarde e noite. E não eram combates. No dia seguinte declarou-se o “estado de guerra interno”. Dezenas de milhares de detidos foram concentrados em várias instalações públicas, onde se praticaram inúmeros espancamentos, torturas e execuções sumárias, como a do genial músico, dramaturgo e pedagogo Victor Jara (121). Depois, grande parte dos prisioneiros feitos na capital confluiu para o Estádio Nacional. Aí se mantiveram durante cerca de dois meses, entre interrogatórios, torturas, e fuzilamentos, simulados e reais. Esvaziou-se, enfim, o estádio, quando já estavam prontos os novos campos de concentração.

 

Por todo o país partiram várias “caravanas de morte” para espalhar o terror e a repressão. Foram detidas cerca de 250.000 pessoas ao todo, com milhares destas a serem mortas ou desaparecidas. Os partidos de esquerda foram ilegalizados e proscritos, enquanto os de direita foram meramente “suspensos”. A Dirección de Inteligencia Nacional (DINA) continuou durante anos a praticar o assassinato à discrição, no país ou no estrangeiro. Estava restaurada a ordem. O país tornou-se um paraíso do investimento, vanguarda do novo modelo de acumulação neoliberal, sob as sábias orientações das luminárias da Escola de Chicago, emanação da ainda mais sábia e exclusiva sociedade de Mont Pelerin. O ditador fartou-se de encher os bolsos. Além de assassino era ladrão. Parvo é que não. Pois bem, esta candeia precursora iluminaria o caminho percorrido depois, em termos de modelo social, por todo o mundo ocidental, pelo próximo meio século. Honra lhe seja feita, nesse particular, Margaret Thatcher fez sempre questão de exteriorizar muito claramente a admiração e amizade que sempre lhe devotou.

 

Se as sucessivas derrotas guerrilheiras mostravam os limites da estratégia foquista, o desastre chileno punha a nu, de forma cruel e eloquente, a impossibilidade de prosseguir uma estratégia de transição ao socialismo dentro das margens da institucionalidade burguesa. Esta podia bem ser um ponto de entrada, mas tinha de ser transcendida pelo caminho. Novas pistas práticas para a resolução deste problema só seriam fornecidas, muitos anos mais tarde, pela revolução bolivariana na Venezuela, no complexo processo político iniciado pela eleição para a presidência da república do tenente-coronel Hugo Chávez, em 6 de dezembro de 1998.

 

Deixando momentaneamente de lado a figura trágica de Allende, o processo chileno pôs em confronto duas estratégias de transição ao socialismo, que podemos identificar com o PCC e o MIR (122). Fiel à conceção ortodoxa da revolução por etapas, o PCC entendia estar-se agora apenas perante a tarefa de completar a revolução burguesa, reformando as estruturas socio-económicas da nação e reforçando o papel do Estado na economia. Nesse sentido, dever-se-ia procurar uma aliança estável com a média burguesia nacional contra o setor imperialista. Mesmo quanto ao capital imperialista, deveriam aproveitar-se as rivalidades existentes entre ele, privilegiando o capital não norte-americano. O socialismo seria um empreendimento para o futuro, tratando-se agora apenas de lançar alguns alicerces que o viessem a tornar possível, sempre dentro da institucionalidade estabelecida. Este rígido escorço estratégico e o seu próprio monolitismo organizativo colocavam frequentemente o PCC à direita do PS. Neste último partido havia muito mais divergência e debate interno, estando presentes setores que encaravam uma transição imediata ao socialismo, sendo, em geral, muito maior a atenção dispensada à iniciativa espontânea do movimento popular.

 

Quanto ao MIR, tratava-se de um partido revolucionário de formação relativamente recente, cultor de um marxismo clássico. Tinha muitos quadros intelectuais e uma boa rede de informações. Não participava no processo eleitoral para os órgãos constitucionais, nesta fase. Acreditava no uso da violência armada, mas não a praticava ao modo foquista, em bandos guerrilheiros isolados, mas sim integrada na vida social quotidiana. Saudava as nacionalizações, expropriações e estatizações, mas queria o controlo pelos produtores associados. Encorajava e participava na auto-organização popular em poderes paralelos, num arco de alianças de classe que incluía apenas o proletariado e semiproletariado rural e urbano, o campesinato pobre, a pequena burguesia rebelde e os povos indígenas. Havia lugar para o pequeno e médio empresariado, mas englobados nas cadeias de produção e distribuição democraticamente regidas. O MIR via na vitória eleitoral da UP e na ascenção do movimento de massas, por ela ocasionada, uma oportunidade histórica que poderia levar, por impulsos sucessivos, a uma crise geral revolucionária, com derrocada simultânea do Estado burguês e da dominação imperialista (123). Aí, sim, poderíamos falar de construção do socialismo, que não será nunca algo concebido e concedido a partir dos gabinetes tecnocráticos do poder burguês estabelecido. Miguel Enríquez, com muitos companheiros, recusou o exílio e procurou resisitir à ditadura a partir da clandestinidade. Foi morto a tiro pela DINA no bairro de lata santiaguenho onde estava instalado, em outubro de 1974. Tinha trinta anos. O partido prosseguiu valentemente a sua atividade de oposição armada, propagandística e de mobilização social, no interior do país, que se manteve constante durante toda a ditadura. A certo ponto tentaram também a guerrilha montanhosa, mas sem sucesso.

 

Juan Bosch foi o primeiro presidente democráticamete eleito na República Dominicana, em dezembro de 1962. Este intelectual e escritor consagrado passara décadas no exílio em Cuba, conspirando constantemente contra a sinistra ditadura de Rafael Trujillo. Era um velho conhecido de Fidel Castro, que participara com ele numa tentativa de ação militar contra o ditador, em 1947. Sete meses após tomar posse é derrubado pelos militares ao serviço da oligarquia trujillista. Quando esta se viu confrontada com uma insurreição popular triunfante, em defesa da democracia, apoiada por algumas unidades das forças armadas, deu-se nova invasão norte-americana. Era a segunda a este país, agora secundada por alguns países lacaios da OEA (124). Lyndon Johnson estava preocupado com a teoria do dominó comunista, agora em versão antilhense.

 

A prosidência de Omar Torrijos no Panamá (1968-1981) merece uma referência, tendo-se notabilizado pelo seu populismo de esquerda e suas tomadas de posição anti-imperialistas. O mesmo pode dizer-se da primeira presidência de Michael Manley na Jamaica (1972-1980). Aderente das teses do socialismo democrático, Manley empreendeu então uma série importante de reformas socialmente inclusivas, mantendo boas relações com a revolução cubana. Em 1979, um golpe militar sem efusão de sangue levou ao poder em Granada, outra ilha antilhana anglófona, o Movimento Nova Jóia de Maurice Bishop, um marxista panafricanista. Em 1983, Bishop foi deposto por membros do seu próprio movimento e acabaria por ser fuzilado no decurso dessa ação. Aproveitando o ensejo, marines norte-americanos às ordens de Ronald Reagan invadiram a ilha, vencendo a resistência de algumas dezenas de cooperantes cubanos que os receberam a tiro.

 

No Peru, ao que parece para evitar uma vitória eleitoral iminente de Haya de la Torre, o general Juan Velasco Alvarado, postado no topo da hierarquia militar, dá um golpe de estado em outubro de 1968. O Governo Revolucionário das Forças Armadas, sem que nada o fizesse prever, opta por políticas claramente socialistas. São nacionalizadas a banca, grandes companhias e inteiros setores da atividade. Promove-se a substituição de importações. Criou-se uma série de monopólios públicos industriais, nas pescas e nos serviços. É expandido e democratizado o sistema de ensino, com admissão da cidadania das línguas indígenas. É realizada uma reforma agrária muito profunda e radical. Todas estas políticas eram executadas de forma paternalista e autoritária, num ambiente de escassez de liberdades públicas (125). Em política externa cultivam-se relações com Cuba e a União Soviética. Reequipou-se completamente as forças armadas com vastas quantidades de armamento soviético. Depois da nacionalização da American International Petroleum Company (IPC), a CIA começou a urdir planos para desestabilizar e derrubar Alvarado. Há atritos militares com o Chile de Pinochet. Num ambiente de crise económica e com a sua saúde bastante degradada, o general amigo dos pobres acaba por ser efetivamente deposto pelos seus pares, em agosto de 1975.

 

O único triunfo claro da estratégia foquista na América Latina foi o derrube da ditadura de Anastasio Somoza na Nicarágua, pela revolução sandinista de 1979. No ano seguinte, com intenso apadrinhamento cubano, formou-se a Frente Farabundo Marti de Liberación Nacional (FFMLN) em El Salvador, a partir de cinco organizações pré-existentes. Uma delas era o Partido Comunista de El Salvador, que forma então a sua própria organização guerrilheira, dirigida por Schafik Hándal. A luta armada conduzida por esta frente foi dura, inteligente, tenaz e bem articulada, mas não se concluiu de forma vitoriosa. Conduziu apenas à conclusão dos acordos de paz de 1991, que fundaram um regime democrático burguês. A própria FFMLN, transformada agora em partido político, tem alternado no governo com a direita a partir daí.

 

A Frente Sandinista de Liberación Nacional (FSLN) foi fundada em 1961 por Carlos Fonseca Amador, um intelectual marxista que já passara por Moscovo (126), La Habana e pela guerrilha hondurenha. Inspirava-se na luta nacional argelina, mas sobretudo na revolução cubana. Alguns militantes fazem treino militar em Cuba. Buscaram uma base montanhosa próximo da fronteira hondurenha, mas a implantação aí fracassou. Os camponeses pobres da zona não se interessaram minimamente. Amador é detido e julgado em 1964, cumprindo prisão em Manágua. As bases do movimento estabelecem-se finalmente nas montanhas do departamento central de Matagalpa. Tinham aí muito melhores linhas de comunicação e abastecimento. Logo sofrem, porém, uma derrota catastrófica numa emboscada em Pancasán. Não seria a única.

 

Em 1969 a FSLN publica o seu programa em quinze pontos, estatutos e estratégia. Passa-se a uma fase de “acumulação de forças em silêncio” até dezembro de 1974. A partir dessa data fazem-se alguns golpes de mão de propaganda e exemplo. Tomam-se reféns para resgate de prisioneiros, publicação de comunicados e, sim, dinheiro. A guerrilha cinde-se então em três tendências. O fundador cai em combate contra a Guardia Nacional em novembro de 1976. Em outubro de 1977 a FSLN lança uma grande ofensiva urbana, tomando temporariamente vários quartéis. No ano seguinte dá-se a célebre tomada do Palácio Nacional do Congresso por um comando capitaneado por Eden Pastora. As ações armadas são agora secundadas por verdadeiras insurreições populares, que engrossam as fileiras combatentes. Em 1979 estabelece-se um acordo entre as várias fações e abrem-se sete frentes sob uma direção nacional conjunta. Várias cidades são libertadas pelas colunas sandinistas enquanto a Guardia as bombardeia cegamente. O estertor da velha ditadura de Somoza não gera muita simpatia solidária nos países vizinhos. A ofensiva final converge, enfim, sobre Manágua, em julho de 1979, sem que os E. U. A. tivessem tido tempo de arquitetar uma intervenção internacional (127).

 

O governo de reconstrução nacional formado pela FSLN – composto por marxistas, liberais e católicos - nacionaliza a banca, expropria todos os bens da família Somoza, reparte as terras dos grandes latifundiários. Começa-se uma grande campanha de alfabetização popular, que em poucos anos dá resultados maciços. Cria-se uma rede de saúde de cobertura universal, alarga-se o acesso ao ensino superior, promove-se a cultura. O objetivo é uma economia mista e socialmente inclusiva. Ninguém falava de construir o socialismo ou de empreender uma transição ao comunismo. Nesse sentido, eram menos radicais do que Allende. A teologia da libertação desempenhou um papel relevante no travejamento ideológico desta revolução. Tomás Borge, líder da fação da guerra popular prolongada, era, na hora do triunfo, dos poucos comandantes sandinistas com uma formação marxista mais apurada e consistente.

 

Logo em 1981, os E. U. A. promovem um embargo económico e começam a organizar e a abastecer a luta contrarrevolucionária, sob a forma de infiltrações de ex-somozistas e outros mercenários a partir das Honduras. São minados portos e feitas diversas sabotagens de grande crueldade. Os índios miskitos são instrumentalizados para a rebelião. Estala, enfim, uma verdadeira guerra civil. A FSLN ganha ainda as eleições nacionais de 1984 e de 1987, sob a direção de Daniel Ortega. Em fevereiro de 1990, o cansaço da guerra leva a uma vitória eleitoral da coligação opositora, que agregava, com o apoio dos E. U. A., os tradicionais setores da oposição liberal ao somozismo. Efetuou-se então uma transição pacífica, mantendo-se o regime democrático. Aparentemente, a vitória da guerrilha sandinista não levou a um desfecho estratégico, de médio prazo, muito distinto daquele que produziu o impasse da luta revolucionária no vizinho El Salvador. Mas essa é uma impressão superficial. Onde o povo chegou a tocar o poder com os seus dedos, fica sempre uma marca que perdura para lá de todo o desencanto. Só um novo corte traumático a pode apagar e isso mesmo é o que os imperialistas ainda procuram na Nicarágua, hoje mesmo.

 

Luiz Carlos Prestes saiu da prisão, amnistiado, em abril de 1945, numa altura em que o ditador Vargas estava em busca desesperada de aliados para uma reinvenção política democrática para o pós-guerra (128). Estabeleceram-se então também relações diplomáticas com a União Soviética. Pouco depois o presidente vê-se forçado à renúncia por um golpe militar, mas sobrevive politicamente. Os seus numerosos e encarniçados adversários políticos começaram por então a reunir-se num grande partido denominado União Democrática Nacional (UDN), que se distinguia pelo liberalismo político-económico e pela extrema subserviência para com os E. U. A.. Quando o general Eisenhower, ainda um simples militar veterano da Grande Guerra, visitou o Brasil, em agosto de 1946, o deputado UDN Otávio Mangabeira beijou-lhe servilmente a mão, com espetáculo (129). Os adeptos mais entusiastas de Vargas criaram o movimento queremista (que “Queremos Getúlio”). Regressado à legalidade, o PCB tornou-se um grande partido de massas, chegando a ter 200.000 filiados. Tinha uma grande rede de imprensa. Garantiu também a adesão pública de intelectuais de prestígio, como os escritores Jorge Amado, Graciliano Ramos e Monteiro Lobato, o poeta Carlos Drummond de Andrade, o historiador Caio Prado Júnior, o pintor Cândido Portinari, o arquiteto Oscar Niemeyer, o físico Mário Schemberg e o jornalista e humorista Aparício Torelly (o “Barão de Itararé”). Nas eleições para a Assembleia Constituinte teve cerca de 10% dos votos. Eram inícios bem auspiciosos. Mantinha algumas relações com o queremismo, numa ótica de união nacional. Em 1947, já em plena guerra fria, o PCB seria novamente ilegalizado, por decisão judicial, sob um pretexto fútil.

 

Quando Getúlio Vargas regressa à presidência, em 1950, por sufrágio popular, era já considerado um baluarte da independência nacional em grande parte da opinião pública. No entanto, o PCB não o apoiou então, considerando-o como mais um “agente do imperialismo”. Passou então por uma fase de sectarismo, sob a égide do seu radical mas inconsequente “Manifesto de Agosto” (1950) (130). Usava-se e abusava-se de uma retória de luta armada revolucionária sem nenhuma tradução prática. Em março-abril de 1953, o baiano Carlos Mariguella dirige, com sucesso, a partir da clandestinidade, uma grande onda de greves em São Paulo (131). Em 1954, quando Vargas se viu, uma vez mais, assediado pelos seus inimigos, o PCB continuou a insultá-lo na sua imprensa. No entanto, sob a pressão da comoção popular causada pelo suicídio do velho estadista, o partido reviu por completo a sua posição. Apoiou a eleição de Juscelino Kubitschek e alinhou pela defesa da Constituição contra o golpismo da direita. Sob o impacto da desestalinização encetada pelo XX Congresso do PCUS, o partido dá então uma completa reviravolta programática, com a sua “Declaração sobre política” de março de 1958 (132). Agora, era tudo pela coexistência pacífica internacional e pelo desenvolvimento capitalista do país, com base numa frente única englobando a burguesia nacional e até setores latifundiários. O PCB é então premiado com o regresso a uma semilegalidade, começando a tomar posições fortes no movimento sindical corporatista de estado.

 

Com a chegada de João Goulart (Jango) à presidência, sob ameaças golpistas cada vez mais furiosas, podia dizer-se que o partidão fazia já, de algum modo, parte do arco de alianças no poder. Celso Furtado tomou posse como o primeiro ministro do planeamento do Brasil, idealizando um Plano Trienal de Desenvolvimento Económico e Social. Mas as hesitações e incongruências do presidente fizeram com que as coisas não avançassem e as relações dos comunistas com ele se tornassem tensas. O maior motivo de discórdia era a reforma agrária, sempre adiada. As Ligas Camponesas, com encorajamento cubano, encetaram uma luta armada de baixa intensidade, no Nordeste. Em 1962, Maurício Grabois, João Amazonas e Pedro Pomar concretizam a cisão que já há muito se esperava da ala esquerda inconformista, criando o Partido Comunista do Brasil (PC do B) (133). Retomava-se uma designação histórica, que já tinha sido condenada judicialmente como antipatriótica, ou seja, internacionalista. O novo partido estava, precisamente, em revolta contra as concessões feitas ao nacional-desenvolvimentismo e à colaboração de classes.

 

Em 1965 haveria eleições, anunciando-se dois fortes candidatos da esquerda: Miguel Arraes e Leonel Brizola. Fosse ou não por isso, na primavera de 1964 Jango parece finalmente tomar balanço. Anuncia medidas reformistas fortes e propõe-se promovê-las numa série de grandes comícios populares. O primeiro realiza-se no Rio, junto à Estação Central do Brasil e é um enorme sucesso. A direita entra em completa histeria anticomunista. A 31 de março dá-se um movimento de tropas a partir de Minas Gerais que, em menos de 24 horas, sem encontrar qualquer resistência pelo caminho, põe o presidente em pranto e em fuga. Sem que disso se suspeitasse à altura, a democracia brasileira fora golpeada de morte e não regressaria em mais de duas décadas. O PCB não foi capaz de prever este golpe nem de lhe organizar qualquer resistência. Depois disso vai entrar numa espiral de dissenções internas da qual nunca mais recuperará. A luta contra a ditadura militar vai passar-lhe quase totalmente ao lado, sendo levada a cabo por ex-militantes seus em dissídio ou por gente da “nova esquerda”, numa grande parte saída diretamente do movimento estudantil. Prestes já não foi capaz de ser o “cavaleiro da esperança” nestes tempos de chumbo.

 

Em terras de Caliban

 

O final da Grande Guerra trouxe expetativas de independência para todas as nações negras colonizadas, vítimas do Scramble for Africa do século passado. Era a reivindicação central do V Congresso Panafricano de Manchester (1945). Mas as coisas não se passariam aqui com a mesma prontidão e radicalidade que se verificou na Ásia e na generalidade do mundo árabe. Iniciou-se então, apenas, um processo que levaria ainda algumas décadas a completar-se. Quando as potências coloniais europeias mais poderosas se convenceram, enfim, que a concessão da independência política era inevitável, começaram a arquitetar os seus diversos esquemas de domínio neocolonial. O jogo passou então a ser ensaiar saídas políticas pactuadas com as elites locais aculturadas e fiéis ao colonizador, sem as deixar ir longe demais e sem permitir que elas fossem submergidas por uma maré incontrolávelde revanchismo libertador popular. Haveria sempre meios de reserva, estatais ou para-estatais, de violência organizada para corrigir esses “excessos”. Algo tinha de mudar para que tudo pudesse ficar aproximadamente na mesma. Por fim, na viragem para a década de 1960, a situação foi julgada suficientemente madura para se poder dar um grande impulso decisivo e simultâneo para as independências africanas. Só ficaram então por resolver alguns casos recalcitrantes especiais. Mas nem tudo correu como o previsto para os neocolonialistas. Tiveram que fazer face a um inimigo principal, que foi, ainda e sempre, a enorme sombra projetada sobre o futuro pelo leninismo.

 

No ano de 1947, em Paris, Aimé Césaire e Alioune Diop criaram a revista (depois também editora) Présence Africaine, que seria, durante as próximas décadas, um firme estandarte anticolonial de pendor marxizante. No ano seguinte é publicada a Antologia da Nova Poesia Negra e Malgaxe, prefaciada por Jean-Paul Sartre, consagrando a "negritude" como movimento cultural de combate (que também a houve depois meramente folclórica ou essencialista). É um grito de revolta contra a política assimilacionista específica do colonialismo francês. Em 1950 é publicado o seminal ensaio Discours sur le colonialisme, de Césaire. Pouco depois, um outro martiniquense, formado em Psiquiatria, publica um ensaio antirracista intitulado Peau noire, masques blancs (1952). O seu nome era Frantz Fanon e a sua vida breve seria uma fonte de inspiração muito marcante e duradoura para a luta emancipatória na Argélia, em África e em toda a diáspora negra, bem como no Terceiro Mundo em geral. Antes da sua morte precoce, teria ainda tempo de lançar uma última e terrível pedrada ao imperialismo com o seu Les damnés de la Terre (1961) (134).

 

Em outubro de 1946, foi criado, em Bamako, o Rassemblement Démocratique Africain (RDA), que federaria todas as organizações políticas da África Ocidental e Equatorial Francesa próximas do PCF e, consequentemente, da União Soviética. Era uma organização concebida num contexto colonial, como caixa de visita para canalizar a participação de elites africanas na política francesa. Desempenhou o seu papel na obtenção de algumas reformas, como a conquista de direitos sindicais, a abolição do trabalho forçado e do estatuto do indigenato, ou a igualdade nos vencimentos dos funcionários. Quanto à relação entre colónias e metrópole, pronunciou-se por uma “união livremente consentida baseada na igualdade de direitos e deveres”. O RDA acabou, ainda assim, por se tornar num espaço de formação marxista e nacionalista, de onde saíram dirigentes políticos como Gabriel d’Arboussier, Modibo Keita, Fily Dabo Sissoko, Jean Félix-Tchicaya, Djibo Bakary, Seydou Traoré, Ruben Um Nyobe e Ahmed Sékou Touré. Félix Houphouët-Boigny também por lá andou uns tempos, por puro oportunismo.

 

Face às ambiguidades e aos interditos do RDA, a reivindicação clara da independência das colónias africanas será formulada, pela primeira vez no espaço francófono, por alguns estudantes marxistas em Paris, com destaque para Majhemout Diop. Surge em letra impressa na recolha Les étudiants noirs parlent (1953) (135). Regressado ao Senegal, Majhemout Diop funda em 1957 o Parti Africain de l’Indépendence, marxista-leninista, panafricanista e pan-negrista, que numa primeira fase deveria operar no âmbito de uma federação compreendendo o atual Mali (então Sudão Francês), o Alto Volta (atual Burkina Faso) e o Daomé (atual Benin). Entretanto, pelos finais desta década, a palavra de ordem independentista já ganhara uma aceitação muito mais generalizada. E vai ser lançada à cara do general De Gaulle, na sua visita a Conakry, em agosto de 1958.

 

No espaço da anglofonia, foi ainda no decurso da Grande Guerra que Nnamdi Azikiwe, aproveitando o ensejo da assinatura da ‘Carta do Atlântico’, publica em resposta a sua brochura The Atlantic Charter and British West Africa (1943), reivindicando a autodeterminação. Em 1944 fundou, com o veterano Herbert Macaulay, o National Council of Nigeria and the Cameroons, juntando diversos partidos, associações culturais e sindicatos. No Congresso Panafricano de Manchester, de que foi co-secretário, Kwame Nkrumah fez aprovar um ‘Apelo aos povos colonizados’ que, na sua defesa da autodeterminação imediata, ia um pouco mais longe que o tom geral do próprio congresso. Em 1947 surge a sua brochura Towards Colonial Freedom, que expõe com maior detalhe analítico a sua posição, direta e explicitamente apoiada em Lenine. No fim desse ano regressou ao seu país, onde se viu envolvido num processo político muito mais arrastado e conciliatório do que o que previra.

 

O atual Quénia possui alguns dos melhores terrenos agrícolas do mundo, em altitudes que tornam o seu clima apetecível para serem habitados por europeus. Por essas razões, houve desde finais do século XIX violentos movimentos expropriadores com vista à colonização por fazendeiros súbditos de sua majestade britânica (136), que se iniciou maciçamente em 1902. As expropriações eram completadas por medidas legislativas e administrativas de compulsão ao trabalho assalariado. Era, enfim, toda a panóplia dos enclosures, recriada no coração da terra africana. A principal vítima foi o povo kikuyo, habitante dos planaltos nas cercanias do Monte Quénia. Mas também foram afetados os Masai e os Nandi. Aqui residiam os agravos mais pungentes entre os colonizados. Entretanto, havia também nas cidades um movimento social poderoso, tendo-se registado greves sucessivas em Nairobi e no porto de Mombaça.

 

A denominada rebelião Mau Mau iniciou-se em outubro de 1952, com algumas execuções de colonos e oficiais colaboracionistas. Muito dos rebeldes eram veteranos kikuyo da Grande Guerra e estavam unidos por um juramento. O seu objetivo último era a independência nacional, propugnada desde a década passada pela Kenya African Union (137). Na verdade, os guerrilheiros eram apenas a ala mais radical dentro do nacionalismo queniano, defensora da luta armada. Esta, na altura, não era propugnada por Jomo Kenyatta, que no entanto foi também detido, julgado e encarcerado por longos anos. Não faltou quem tenha visto múltiplas ligações dos Mau Mau ao comunismo internacional (138).

 

A resposta britânica a este levantamento foi um dos episódios mais brutais de toda a história colonial. Bombardeamentos aéreos massivos foram feitos sobre as florestas para onde se tinham refugiado os guerrilheiros. Nairobi foi passada a pente fino, bairro por bairro, sendo dezenas de milhares de suspeitos internados em campos de concentração. Aí se praticou rotineiramente tortura, espancamento, mutilação e assassinato em massa, durante os quatro anos que durou esta guerra. Aldeias foram massacradas. Mais de um milhão de pessoas (sobretudo kikuyos) foram deslocados à força para aldeamentos cercados por fossas e arame farpado. Algo entre 50.000 e 300.000 mortes diretas resultaram destas medidas de “estado de emergência”, em grande parte óbitos por malnutrição de crianças e idosos. Já um tanto decrépito, mas igual a si próprio, Winston Churchill, o grande herói da liberdade e democracia ocidentais, presidiu e verificou pessoalmente, como primeiro-ministro, a tomada de todas estas providências genocidas. A independência do Quénia veio em 1964, mas já o presidente Kenyatta esquecera por completo tudo o que tinha aprendido sobre socialismo. O seu vice-presidente, Oginga Odinga, tentou relembrar-lho, mas só conseguiu causar com isso a sua própria desgraça. Not Yet Uhuru (Ainda não é a liberdade)foi como ele intitulou a sua autobiografia.

 

Uma segunda guerra independentista africana, muito menos conhecida, rebentou nos Camarões, em 1955. Este país foi uma colónia alemã, que, em 1919, foi dividida em dois mandatos da Liga das Nações, um confiado à França e outro, mais reduzido, ao Reino Unido. A questão da independência punha-se, legal e politicamente, de forma diferente do que nas restantes possessões francesas ou britânicas. Em setembro de 1945 houve motins populares reprimidos à metralha pela aviação, com dezenas de mortos. Com génese no movimento sindical, forma-se em 1947 o partido nacionalista Union des Populations du Cameroun (UPC), aderente do RDA. No ano seguinte, o seu secretário-geral era já Ruben Um Nyobe (139), um sindicalista formado no Círculo de Estudos Marxistas de Yaoundé.

 

Em 1948 Um Nyobe apresenta, na comissão de tutela da ONU, uma demanda visando a reunificação do país e a sua independência a prazo. Com isso se iniciou um processo de averiguações que se arrastou por vários anos, deixando os colonialistas franceses absolutamente furiosos. Um Nyobe discursou por três vezes perante a Assembleia Geral da ONU. Uma série de ações judiciais persecutórias foram movidas contra todos os dirigentes da UPC. Os juízes que não se prestaram a este “serviço da pátria” foram afastados e substituídos. Em maio de 1955 há novos motins e massacres, em Douala e Yaoundé. A UPC é interdita, passando à clandestinidade e daí à luta armada. Um Nyobe é assassinado numa emboscada do exército francês, na sua região natal, em setembro de 1958. Em 1960, a França concede a independência aos Camarões, sob um regime fantoche neocolonial. A guerra prossegue no país, sempre dirigida pelo mesmo exército francês. São massacrados em especial os povos Bamiléké e Bassa. As vítimas contam-se pelas centenas de milhares. No interior ou no exílio, os dirigentes da UPC são assassinados uns após outros. O médico comunista Félix-Roland Moumié, por exemplo, é envenenado com tálio, em Genebra, pelos serviços secretos franceses, em novembro de 1960. A grande pátria das luzes comportou-se como um vulgar capo mafioso, só que com resultados incomparavelmente mais mortíferos.

 

A nação africana que mais precocemente deu início ao processo de descolonização foi a Costa do Ouro, atual Gana. Aí se formou em 1947 a United Gold Coast Convention (UGCC) que reivindicavaa autodeterminação no mais curto prazo possível. Reunia os chamados “seis grandes” do nacionalismo ganês, que incluíam figuras moderadas e conciliadoras. Um desses grandes era o recém-regressado Kwame Nkrumah. Radicalizando os objetivos da UGCC na fórmula “autogoverno já”, este criou, em 1949 o Convention People's Party (CPP), reunindo as hostes mais intransigentes do independentismo. Pelo meio houve motins populares, em 1948, em Accra e outras cidades, reprimidos a tiro pelas tropas britânicas. Declarado o estado de emergência, os “seis grandes” foram todos presos. Em 1950 houve uma greve geral, novo estado de emergência e forte repressão. Depois, a abordagem da autoridade colonial mudou por completo. Durante esses anos Nkrumah conheceria as prisões, mas também vitórias eleitorais e até o exercício do cargo de primeiro-ministro numa administração colonial, de composição mista. A partir de 1952 o CPP governou e implementou políticas desenvolvimentistas para o país, enquanto defendia a sua independência. Esta seria concedida apenas em 1957, numa cerimónia amplamente mediatizada. O vice-presidente Richard Nixon representou os E. U. A.. A representação soviética apresentou convite para uma visita de Estado. No baile de gala, o marxista negro Nkrumah, impecavelmente encasacado, dançou com a duquesa de Kent, ambos muitíssimo bem dispostos. Em julho de 1960, o Gana proclamou-se república, cortando com a soberania nominal de Isabel II.

 

A independência do Gana foi a primeira da África colonial negra. O país era rico em recursos. O seu presidente era uma estrela no firmamento intelectual do nacionalismo africano. As expetativas eram elevadas. Os primeiros anos foram dedicados a consolidar a nação, combatendo o tribalismo e as chefias tradicionais rebeldes. Promoveu-se a educação nacional e a afirmação internacional da cultura africana. Na economia propôs-se uma industrialização acelerada de iniciativa pública, por meio de planos septenais. Inicialmente bem sucedida, esta estratégia deparou-se por fim com um certo impasse. O objetivo proclamado de vencer o ciclo vicioso da dependência não foi conseguido. Fiel à lição do panafricanismo, bebida nos seus anos de estudante nas universidades negras norte-americanas, Nkrumah pugnou incessantemente, com zelo missionário, pela unidade política do continente (140). Foi um dos fundadores da Organização de Unidade Africana, antecessora da atual União Africana. Deu ampla assistência aos movimentos independentistas africanos e foi protagonista no Movimento dos Não-Alinhados. A Conferência dos Povos Africanos realizada em Accra, em dezembro de 1958, foi um marco histórico para a libertação do continente. No plano interno teve atitudes autocráticas e promoveu o culto da sua pessoa de uma forma bastante questionável. Homem de reflexão, deixou uma obra teórica importante para a luta de emancipação africana (141). Em fevereiro de 1966, Nkrumah foi deposto por um golpe militar orquestrado pela CIA, quando se encontrava em visita de Estado ao Vietname do Norte e à República Popular da China. A experiência socialista ganesa interrompeu-se então, para não mais ser retomada.

 

Isaac Wallace-Johnson era origem krio, descendente de escravos libertos e depositados em Freetown pelas campanhas abolicionistas britânicas. Não podia aspirar a um papel político cimeiro na Serra Leoa independente, face aos interesses representativos dos povos do interior. Quem se movia à vontade nesses meios era Milton Margai, que encabeçou a delegação a Londres para acertar a independência do país, em abril de 1960. Wallace-Johnson esteve lá e assinou o acordo. Pouco depois faleceria num acidente automóvel. Quem não assinou foi um outro sindicalista, Siaka Stevens, que fundou o All People's Congress (APC), com uma plataforma mais intransigente para com o neocolonialismo. Em 1967 venceu as eleições e alcançaria o poder no ano seguinte, depois de vencer um golpe de estado militar. Em 1971 aprovou-se uma constituição republicana. O novo regime tinha apoios da República Democrática Alemã e da China. Mas as sucessivas presidências de Stevens não puderam apresentar, por fim, resultados de que um socialista se pudesse orgulhar. O vizinho Benin, sob a presidência do excêntrico Mathieu Kérékou, também se declarou uma República Popular marxista-leninista, entre 1974 e 1989.

 

A segunda independência africana negra foi um processo mais radical, agora no espaço francófono. Charles De Gaulle retornou ao poder em França em 1958. No seu estilo grandiloquente, fundou a V República, prometendo que todas as colónias francesas poderiam, em referendo popular a realizar ainda nesse ano, tomar a opção entre uma autonomia progressiva ou a independência imediata. Depois fez uma tournée triunfal para recolher os devidos apoios e aclamações. Mas as coisas não lhe correram como o previsto em Conakry. Aí a receção popular foi hostil e o presidente do município, Ahmed Sékou Touré (142), disse-lhe na cara, no discurso de receção, que os guineenses preferiam “a liberdade na pobreza, do que a riqueza na servidão”. O que se confirmou, esmagadoramente, depois de abertas as urnas. Os franceses retiraram-se de imediato do país, em dois meses, levando consigo tudo o que consideraram suas posses (incluindo os arquivos políticos, comerciais e administrativos) e destruindo o que não puderam ou não quiseram transportar. Mesmo lâmpadas e medicamentos foram retirados dos seus sítios, amontoados em pilhas nas ruas e queimados. A República da Guiné foi proclamada a 2 de outubro de 1958, sem qualquer violência, no meio da desolação geral.

 

A nova república nacionaliza todas as empresas estrangeiras e adota uma política económica fortemente planificada, com monopólio estatal do comércio externo. Entretanto, os serviços secretos franceses continuavam a conspirar implacavelmente contra ela, organizando golpes sucessivos, executando sabotagens, urdindo conspirações, instruindo e armando guerrilhas, tudo com a cumplicidade ativa de Portugal e depois também, infelizmente, do Senegal e da Costa do Marfim. Chegaram a invadir o país militarmente, desembarcando na sua capital. Inclusivamente espalharam pelo país francos guineenses falsos para desestabilizar a sua moeda. Tudo em vão. Não puderam com Sékou Touré nem com o povo guineense. Nestas circunstâncias, era impossível manter um clima impecável de tolerância e liberdades públicas. Mas o país ergueu-se, com a ajuda da cooperação soviética e checoslovaca, depois chinesa. (Estiveram em campo também os economistas Charles Bettelheim e Jacques Charrière.) Pôde ainda dar o seu apoio à luta libertadora em todo o continente. Mesmo militantes afro-americanos como Malcolm X e Stokely Carmichael encontraram aí abrigo e apoio. Como aliados regionais tinha apenas o Gana de Nkrumah e o Mali de Modibo Keita. As relações com a França foram completamente interrompidas entre 1965 e 1975. Com os E. U. A. e algum capital privado norte-americano, os contatos nunca foram completamente cortados. A partir de 1978-80 dá-se, finalmente, em consonância com o ar dos tempos, uma certa liberalização da economia e abertura em direção ao ocidente.

 

O Senegal e a República Sudanesa acederam conjuntamente à independência como federação do Mali, em junho de 1960. Dois meses depois, o Senegal retira-se unilateralmente da federação. Em setembro de 1960, a parte remanescente da federação proclama a sua independência mantendo o nome de Mali. O partido dirigente é a Union Sudanaise, membro integrante do RDA. O presidente da novel república será Modibo Keita, que já fora vice-presidente da Assembleia Nacional francesa e, inclusive, secretário de Estado em dois governos franceses presididos pelo Partido Radical. No seu país natal vai imprimir uma orientação marcadamente socialista. Samir Amin faz parte da sua equipa de planificação económica. É criada a Société Malienne d’Importation et d’Exportation (SOMIEX), com o monopólio das exportações e da importação e distribuição de produtos manufaturados e bens alimentares. A agricultura é coletivizada, segundo linhas que procuram adaptar instituições comunitárias tradicionais. A revolução dispõe de grande apoio popular, sempre muito crítico e participativo. Mas a inflação, as dificuldades de abastecimento e alguns privilégios aparentes, acabam por gerar descontentamento. Em novembro de 1969, os militares dão um golpe de estado interrompendo brutalmente esta experiência socialista.

 

A mais célebre tragédia do socialismo africano foi, sem dúvida, a de Patrice Lumumba, que não era, contudo, ele próprio, socialista. O Congo Belga começou por ser uma possessão colonial pessoal do rei Leopoldo II, antes de ser nacionalizado pelo parlamento, em 1908. Em qualquer destes regimes, foi um empreendimento extractivista e genocida de um horror sem paralelo. O verdadeiro “coração das trevas”, como bem intuiu, pelas razões erradas, Joseph Conrad. Em meados dos anos 1950 começaram a surgir aí as primeiras organizações nacionalistas. Por um lado, de tendência regional, tribal ou federalista; por outro lado, republicanas, unitárias e progressistas. Lumumba – empregado de 2.ª classe nos correios, tendo tido a sorte de aceder a alguma educação ministrada nas missões, o que lhe conferia o estatuto de évolué – alinha com esta última tendência, sendo um dos fundadores e o principal dirigente do Mouvement National Congolais (MNC). Era então considerado próximo dos liberais belgas. Mas as suas convicções jacobinas e o seu universalismo humanista vão aproximá-lo da corrente radical do panafricanismo, com cujos expoentes (Nkrumah, Sékou Touré, Fanon, etc.) vai firmar relações pessoais de confiança durante a Conferência dos Povos Africanos, realizada em Accra, em dezembro de 1958.

 

O projeto nacionalista congolês era temerário, face à imensidão do país e à falta de estruturas e quadros africanos formados, legados pelo colonialismo (143). Mas Lumumba não era um homem que se desencorajasse facilmente. E estava disposto a percorrer o caminho político que fosse necessário percorrer, norteado pelo seu ideal nacional. Buscou auxílios nas nações africanas já existentes, que lhos prometeram, dentro das suas possibilidades. Face aos seus extensos recursos e à localização geográfica privilegiada do país, esta era uma aposta decisiva para a emancipação de todo o continente. Mas também as potências imperialistas não largariam facilmente a presa, sem primeiro despejarem sobre ela todos os seus recursos em poder nu, hipocrisia e cinismo.

 

O ano de 1959 conheceu manifestações, repressão e massacres, que assinalaram a inviabilidade da manutenção da relação colonial. Uma mesa redonda em Bruxelas fixa a data da independência para 30 de junho de 1960. Nas eleições gerais de maio de 1960, o MNC ganha com uma ampla maioria. A data da independência chegou e tudo estava ainda por fazer, porque no fundo nada se queria fazer. Lumumba toma posse como primeiro-ministro, sem poder de facto. Até a força militar colonial pretendia manter-se inalterada, com a sua doutrina e o seu quadro de oficiais exclusivamente belga. Dão-se motins generalizados nas forças armadas. Os 100.000 residentes europeus, alegadamente, temeram então pela sua segurança. A Bélgica invade a sua ex-colónia com diversas forças para-quedistas. A província do Catanga, rica em explorações mineiras, decreta a secessão, com apoio militar belga. A ONU põe em campo os seus capacetes azuis, com critérios de intervenção escandalosamente pró-colonialistas. Lumumba pede apoio aos E. U. A., sem resultado. Depois vira-se para a União Soviética, que lhe envia alguns aviões com armamento e conselheiros. Ofensa imperdoável. Joseph-Desiré Mobutu dá um golpe de Estado em Léopoldville (Kinshasa), com apoio ocidental. Os soviéticos são expulsos. Lumumba fica sob residência vigiada. Depois movimenta-se em direção a Stanleyville (Kisangani) onde pretende reunir-se com os seus apoiantes regionais. É capturado pelas forças mobutistas, entregue amarrado aos secessionistas do Catanga e fuzilado às ordens de oficiais belgas aí em serviço. A própria CIA, sob ordens de Eisenhower, tinha já planos para o assassinar (144). A nação congolesa íntegra era impossível sem um corte radical com as teias urdidas pelo capitalismo neocolonial, que não houve força suficiente para levar a cabo.

 

As forças nacionalistas remanescentes reúnem-se no centro e leste do país, proclamando, em dezembro de 1960, a República Livre do Congo, dirigida por Antoine Gizenga. Esta república é reconhecida como legítima pela União Soviética, República Popular da China e a generalidade dos países não-alinhados, recebendo deles apoio económico, diplomático e militar. Depois de se ter expandido e consolidado durante o ano seguinte, a república acaba por soçobrar em 1962. Nos anos seguintes (1963-65), vai ainda grassar na região a revolta Simba, com dirigentes militares como Pierre Mulele (formado na China), Gaston Soumialot (que passou por Cuba) e, por fim, Laurent-Desiré Kabila. Para a combater dá-se uma nova intervenção militar belga e norte-americana, com unidades mecanizadas apoiada por largas centenas de mercenários. Uma pequena força expedicionária cubana, dirigida por Che Guevara, dará, em rigoroso segredo, algum apoio militar no terreno à rebelião, já no seu estertor final (145). Mais de trinta anos depois, Kabila derruba finalmente Mobutu, fundando a atual República Democrática do Congo.

 

Alphonse Massamba-Débat assume a chefia do governo provisório na República do Congo-Brazzaville, em agosto de 1963, a convite dos militares. O primeiro presidente deste país saído de colonização francesa caíra em merecida desgraça. Pouco depois é adotada uma nova constituição por referendo e instituído um Conselho da Revolução Nacional. Massamba-Débat assume ele próprio a presidência. O partido do poder é o Mouvement National de la Révolution (MNR), de orientação socialista. Proclama-se, por vezes, o socialismo “científico”, por vezes um socialismo “bantu”. O primeiro-secretário do partido é Ambroise Noumazalaye, de formação marxista adquirida em França, antigo militante do Parti africain de l'indépendance. O país aproxima-se diplomaticamente de China e de Cuba. Recebe a visita de Che Guevara em janeiro de 1965. Massamba-Débat é um homem honesto e um administrador capaz. Pratica uma política económica realista que dá resultados efetivos na melhoria das condições de vida das populações (146). Dá apoio à luta do MPLA em Angola e da UPC nos Camarões. A jovem guarda do regime pratica, por vezes, algumas exações violentas. 1968 é um ano nocivo, que vê estalarem dissensões abertas entre o presidente e o seu primeiro-ministro, que é agora Noumazalaye. Massamba-Débat tenta um golpe institucional, mas acaba por ser forçado a demitir-se. O capitão Marien Ngouabi é o novo presidente. A orientação ideológica do regime mantém-se, radicaliza-se mesmo. É proclamada a República Popular do Congo em 1970. Mas entra-se num período de grande instabilidade que apenas prolonga a agonia desta experiência socialista, que acaba finalmente por soçobrar em 1977.

 

A República da Zâmbia, proclamada por Kenneth Kaunda em outubro de 1964, teve também as suas pretensões socialistas. Bem mais interessante, porém, foi a experiência política conduzida pelo seu amigo Julius Nyerere, também ele um socialista sem qualquer formação marxista, com alinhamentos internacionais pragmáticos e moderados. Fundador da Tanganyika African National Union (TANU), em 1954, católico e gandhista, Nyerere conduziu este partido nacionalista até à independência deste território continental, em dezembro de 1961. Em janeiro de 1964, dá-se uma revolução no fronteiro arquipélago suaíli de Zanzibar, sendo expulso o seu sultão árabe. A nova república, de convicções e alinhamento internacional socialistas, acaba por optar por solicitar uma união federal com o Tanganica. É assim criada a República Unida da Tanzânia, que começa então a estreitar as suas relações com a República Popular da China. Em janeiro de 1967, numa reunião do executivo nacional do partido dirigente desta república federada – agora renomeado Chama Cha Mapinduzi (Partido da Revolução em suaíli)é aprovada a ‘Declaração de Arusha’ (147), com os novos princípios partidários. Virou-se aí uma página na história do país.

 

O ponto de partida do socialismo tanzaniano é a necessidade de autonomia económica, pessoal e nacional, sem a qual toda a independência é ilusória. Para buscar essa autossuficiência é necessário partir da agricultura camponesa comunitária, organizada e modernizada num sistema de cooperativas aldeãs. É este o sentido da política Ujamaa (uma expressão suaíli que significa família extensa). É preferível um crescimento mais lento, mas seguro e sustentado, sem recurso a empréstimos e doações do exterior. Nos dias seguintes ao anúncio da ‘Declaração de Arusha’ (que foi propagada de aldeia em aldeia por equipas dinamizadoras), foram nacionalizados ou intervencionados bancos, seguradoras, empresas de comércio externo, fazendas de sisal e um grande número de unidades industriais. O socialismo requeria participação popular. Nyerere era adepto do regime de partido único, mas concedendo liberdade de escolha entre diversos candidatos propostos por esse partido (148). O país manteve sempre um apoio sem falhas à luta libertadora de todo o cone sul do continente, submetido ainda ao colonialismo e à opressão racial.

 

Ao longo da década de 1970, com alguma coação envolvida, o processo de novos aldeamentos abrangeu treze milhões de camponeses. O programa teve sucesso no que respeita à expansão da cobertura nacional de serviços sociais como a educação e a saúde, mas não aumentou a produtividade agrícola como se esperava. Antes pelo contrário. As importações alimentares cresceram e surgiu uma inflação preocupante. Em 1980 o analfabetismo tinha sido praticamente eliminado. O Estado promovia muito ativamente a cultura nacional e censurava hábitos e produtos culturais importados, julgados decadentes. Em 1979, o país viu-se envolvido numa guerra imposta pelo vizinho Uganda, dominado por Idi Amin. A guerra foi vitoriosa, culminando na deposição de Amin, mas veio agravar muito os problemas económicos já existentes. Negociou-se um acordo com o FMI, mas o presidente rejeitou-o firmemente. Em 1980-85, Nyerere cumpriu um último mandato como presidente, não restando já então muito das promessas socialistas de Arusha. Salvo que, temperada por todas provas e desilusões passadas, surgiu efetivamente uma nação nova orgulhosa de si própria.

 

A República da Somália fora constutuída em julho de 1960, reunindo as Somalilândia britânica e italiana, ao longo de todo o contorno costeiro do Corno de África. Em outubro de 1969 dá-se o magnicídio do presidente Abdirashid Ali Shermarke, logo seguido de um golpe militar. O poder ficou nas mãos do comandante do exército, major-general Mohamed Siad Barre, e um Supremo Conselho Revolucionário. A Constituição foi suspensa e proclamou-se uma República Democrática da Somália. O novo regime manteve-se sempre de dominante militar. Foram feitas nacionalizações de terras e indústrias, empreendendo-se um largo programa de trabalhos públicos. Uma grande campanha de alfabetização urbana e rural deu bons resultados. O marxismo era temperado com o islão. Progresso social, igualdade e justiça eram considerados tanto princípios muçulmanos como preceitos do socialismo científico. O país aderiu à Liga Árabe, mantendo-se na Organização de Unidade Africana, à qual Siad Barre chegou a presidir. O guia político da revolução intitulou-se Partido Revolucionário Socialista Somali. Em julho de 1977, o país iniciou uma guerra à Etiópia invadindo a sua região de Ogaden. Tendo Cuba e a União Soviética oferecido ambos o seu apoio à Etiópia, Siad Barre buscou e obteve auxílio dos E. U. A., prontamente abandonando o socialismo.

 

O longo reinado do imperador Haile Selassié na Etiópia – herdeiro de uma dinastia que, a acreditar na sua lenda salomónica, seria três vezes milenar – foi sacudido por uma revolução popular, em fevereiro de 1974. O poder de facto foi assumido por um comando coordenador das forças armadas e policiais, o Derg. Em setembro, o imperador foi finalmente deposto e encarcerado. No ano seguinte a monarquia foi abolida e o Derg anunciou para o país uma orientação marxista-leninista. É realizada uma reforma agrária radical, com a nacionalização total da terra e sua entrega aos camponeses. São nacionalizados a banca, as seguradoras, os grandes retalhistas e uma grande parte da indústria. Passa-se a uma economia planificada de comando central. A rede de ensino público foi enormemente expandida, tendo em dez anos a taxa de alfabetização disparado de 10 para 63%. Depois de algumas indefinições e lutas internas, emergiu no vértice do poder o tenente-coronel Mengistu Haile Mariam. O país mergulhou em guerra civil, a que acresceram uma invasão da Somália e as lutas separatistas da Eritreia e do Tigré. Importante ajuda militar e técnica foi fornecida pela União Soviética (que mantinha relações de proximidade com este país constantes desde o tempo do czarismo), Cuba, República Democrática Alemã e Coreia do Norte. Por meados dos anos 1980, a seca e a fome vieram completar o rol das desgraças. Em 1987 é dissolvido o Derg e proclamada a República Popular Democrática da Etiópia (RPDE), com uma nova Constituição. O partido dominante, constituído já alguns anos antes, era o Partido dos Trabalhadores da Etiópia. Mikhail Gorbatchov cortou totalmente a ajuda soviética à RPDE. Estava esta a dar início a um programa de reformas liberais, em 1991, quando os seus inimigos internos conseguiram romper militarmente e confluir sobre Addis Abeba.

 

Logo após o termo da Grande Guerra, formou-se o Mouvement démocratique de la rénovation malgaxe, portador da reivindicação da independência política para a ilha de Madagáscar. A associação foi formada em Paris por intelectuais como Joseph Raseta, Joseph Ravoahangy e Jacques Rabemananjara. O primeiro era um médico e jornalista já maduro, aderente do Socorro Vermelho Internacional e do Partido Comunista - Região Madagáscar. No próprio país, existiam sociedades secretas de independentistas. E é pela confluência da atuação destas que se dá a insurreição geral de 1947. Armados de armas tradicionais, grandes multidões atacam postos administrativos e residências de colonos. As autoridades coloniais (como todas as suas congéneres em situações similares) logo toparam aqui uma terrível ameaça comunista. E não se enganavam. Seguiu-se uma terrível repressão que fez largas dezenas de milhares de vítimas mortais, por fuzilamentos arbitrários, bem como por doenças e malnutrição de populares em fuga.

 

Os principais dirigentes nacionalistas, apesar de alheios ao levantamento, foram condenados à morte. Comutada esta pena, ficaram internados em colónias penais por longos anos. A independência seria reconhecida apenas em 1960, sob a direção de políticos colaboracionistas. O partido nacionalista radical é marginalizado. “Uns abanam a árvore, outros apanham os frutos”, diz o ditado. Em 1975, porém, é proclamada a República Democrática de Madagáscar, sendo aprovada por referendo uma nova constituição e uma ‘Carta da Revolução Socialista’. Esta experiência política pouco conhecida dura aproximadamente década e meia, sendo assim paralela e exatamente contemporânea da do seu vizinho Moçambique.

 

O Partido Comunista da África do Sul participou na greve geral declarada em 1946. Pouco depois, ameaçado pela Lei da Supressão do Comunismo, decidiu dissolver-se, passando os seus militantes a atuar individualmente no seio do Congresso Nacional Africano (ANC). O partido foi efetivamente declarado ilegal em 1950. Mas a citada lei (renomeada em 1976), na verdade, serviu para reprimir qualquer tipo de atividade julgada subversiva até ao fim do regime do Apartheid. Uma nova geração de militantes comunistas, em que se destacaram Chris Hani e Ronnie Kasrils, foi sendo formada na Liga Juvenil ou na ala armada do (ANC), a Umkhonto we Sizwe (MK).

 

As tardias descolonizações das colónias portuguesas, a partir de 1974, vão dar lugar a novos processos de construção socialista (149). As lutas de libertação no Zimbabwe e na Namíbia (150) foram também conduzidas sob a direção de um ideário socialista de inspiração marxista. Quando foi aí conseguida a independência, muito tardiamente, já não se concretizaram esses projetos. Por então, os tempos começaram a ficar muito adversos às experiências de transição ao socialismo. Não abordaremos esses processos, por respeito à sequência de exposição que vimos seguindo. Entretanto, uma vez que este escrito é também sobre santos, profetas e heróis, é preciso falar brevemente de um, surgido já um tanto intempestivamente, em contracorrente, na remota e interior República do Alto Volta.

 

O Alto Volta acedera à independência em agosto de 1960, num arranjo neocolonial no seio da Françafrique, mergulhando pouco depois num regime militar de grande instabilidade. O jovem Thomas Sankara optara pela carreira das armas, matriculando-se na academia militar de Ouagadougou. Foi aí e num curso complementar no Madagascar que entrou em contato com o marxismo. Disse ter lido todo o Lenine. Era também bom guitarrista de jazz, tendo com isso ganho a amizade e a cumplicidade de Fela Kuti. No exército formou um grupo secreto de oficiais comunistas. Foi nomeado para funções governativas. Depois foi preso, por instigação francesa. A revolta gerada por esta prisão deu aso a um golpe de Estado que o catapultou para a presidência da república, em agosto de 1983. Promoveu então uma “revolução democrática e popular”. O nome do país foi mudado para Burkina Faso (terra de gente íntegra). As suas preocupações centrais foram a alimentação, o alojamento, a saúde, a educação, a luta contra a corrupção, a reflorestação e os direitos das mulheres (151). Em todos estes campos, o país conheceu avanços importantes e indiscutíveis nesses anos. Promoveu muita construção de ferrovias, barragens e irrigação. Foi criada uma justiça revolucionária e comités de defesa da revolução, de inspiração cubana. O lema da revolução era: La patrie ou la mort, nous vaincrons! Fidel Castro agraciou-o com a ordem de José Martí, a mais alta honra do seu país. Em outubro de 1987 Sankara foi assassinado num golpe orquestrado pelo seu companheiro Blaise Compaoré. Este acedeu ao poder como ditador desfazendo por completo as conquistas revolucionárias, retomando a submissão ao FMI e às potências neocoloniais, com a França à cabeça naturalmente.

 

Contra o que lhe aconselhavam então, lealmente, os setores mais amistosos da oposição “democrática” (152), o regime ditatorial fascista de Oliveira Salazar pretendeu, até ao fim, manter Portugal completamente alheado aos ventos históricos da descolonização africana. Não foi por falta de avisos, nem de tempo ou soluções para buscar um modo de adaptação (153). Como sustentação para a sua teimosia, invocou a sua excecionalidade histórica, não hesitando em recorrer serodiamente às teses lusotropicalistas de Gilberto Freyre, que antes havia rejeitado, pelo seu elogio intrínseco da mestiçagem (154). Na verdade, em tudo aquilo que tinha de específico, o colonialismo português nada tinha que o recomendasse ao escrutínio da história. Bem pelo contrário. Nenhum colonizador (salvo talvez o belga, na sua primeira fase) foi tão longe no amesquinhamento da dignidade humana do colonizado, por meio do trabalho forçado e de todo o tipo de práticas administrativas degradantes (155). Perante as primeiras manifestações de rebeldia autonomista, a resposta das autoridades coloniais roçou logo o ódio genocida, como se verificou nos massacres de Batepá, na ilha de São Tomé (velho reduto esclavagista), em fevereiro de 1953, ou na descarga de fuzilaria sobre os marinheiros e estivadores do porto de Bissau (Pidjiguiti), em agosto de 1959.

 

O colonialismo português tinha de peculiar ser bastante antigo, tendo criado comunidades crioulas de alguma extensão em Cabo Verde, Bissau, São Tomé, no eixo de Luanda-Malanje, em Benguela, Moçâmedes, na Baía de Delagoa, na ilha de Moçambique, até em Lisboa. Há séculos já que as camadas sociais ilustradas africanas submetidas ao despotismo português conspiravam contra ele e o escarneciam em segredo (156). Por outro lado, estas elites locais negras ou mestiças chegaram a ter algum poder, sobretudo em Angola. Foram, contudo, marginalizadas e viram o seu estatuto social ser substancialmente degradado com a chegada das grandes vagas de colonização branca de meados do século XX, que tornaram a sociedade colonial muito mais racializada, bem ao arrepio do lusotropicalismo. Quando começaram a soprar pelo mundo os ventos do renascimento negro norte-americano e da negritude francófona, encontraram um público muito recetivo (ou até precursor ignorado) entre os “assimilados” nas colónias africanas portuguesas (157). Daí foi apenas um pequeno passo para a reivindicação da independência nacional (158). Como é sabido, o núcleo central dos mais destacados militantes nacionalistas africanos de língua portuguesa da primeira geração foi constituído em Lisboa, em pleno fascismo, por estudantes que se alojavam na célebre Casa dos Estudantes do Império (159) e aí fundaram um Centro de Estudos Africanos. O Partido Comunista Português (PCP), no seu V Congresso, realizado clandestinamente em 1957, aprovou o apoio à autodeterminação imediata dos povos das colónias portuguesas, passando a dar um apoio efetivo, por vezes precioso, aos militantes nacionalistas africanos em Portugal.

 

Em 1955 é fundado o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), por Amílcar Cabral, Luís Cabral e Aristides Pereira, entre outros. No ano seguinte funda-se o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), com Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Mário de Andrade. Partindo da fusão de três movimentos independentistas pré-existentes, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) seria fundada apenas em 1962, por Eduardo Mondlane, Uria Simango e Marcelino dos Santos. Todos estes movimentos são dominantemente marxistas e mantiveram sempre contato estreito entre si, nos seus périplos e campanhas internacionais. Formaram mesmo uma Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), com sede em Argel. O intelectual marxista goês Aquino de Bragança foi um elemento importante na articulação e formalização das suas aspirações conjuntas (160). Em julho de 1970, num grande triunfo diplomático, representantes cimeiros destes três movimentos foram recebidos em audiência pelo papa Paulo VI, para desespero do governo português.

 

Desde o início, estes movimentos independentistas elaboraram e divulgaram devidamente as suas declarações de intenções. Procuram, com base nelas, encetar um diálogo sério e responsável com as autoridades portuguesas, que estas logo repudiaram por completo, visceralmente, com escândalo e horror. Seria a guerra, pois. Há que buscar a explicação para semelhante desatino, antes do mais, na fragilidade do capital português, que não se sentia suficientemente seguro para entrar no jogo neocolonial, com derrube das barreiras alfandegárias e dispensa da proteção da coação armada fornecida pelo seu próprio Estado. Era essa mesma fragilidade, aliás, que já estava na base de muitas das suas feições “ultra-colonialistas”. Jogou aqui também o seu papel, sem dúvida, a rigidez ideológica própria do fascismo, com todo o seu desprezo racista. Fascismo e guerra são inseparáveis. Mais cedo ou mais tarde, encontram-se necessariamente. O fascismo português começou pacifista, para com os mais fortes, afastando Portugal dos teatros de guerra europeus, para terminar belicoso para com aqueles que julgou serem mais fracos.

 

A guerra em Angola teve início a 4 de fevereiro de 1961, com uma desordenada e fracassada rebelião armada em Luanda. Há represálias sangrentas. Depois entra em cena brutalmente um outro ator. A União dos Povos de Angola (UPA), uma organização tribalista exclusiva do povo bacongo, faz incursões no norte massacrando fazendeiros brancos e trabalhadores imigrados. Grande histeria de patrioteirismo luso. A questão de Angola é debatida na ONU. Salazar manda embarcar tropas, “rapidamente e em força”. Feitas as movimentações iniciais, estabilizam-se as frentes de combate. A UPA, que se renomeará Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), atua na fronteira norte, a partir do Zaire de Mobutu, com apoio norte-americano. O MPLA tinha bases na Zâmbia e no Congo-Brazzaville. Recebia armamento soviético e mantinha seis frentes ativas, inclusive no interior, na floresta dos Dembos, com ligação aos musseques de Luanda. Para combater as infiltrações do MPLA a partir do leste, o exército português e a PIDE criam (ou aliciam e adaptam) uma nova organização nacionalista, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) do caudilho aventureiro ovimbundo Jonas Savimbi. Devido à divisão entre os nacionalistas (que a certa altura atingiu o próprio MPLA) e a algumas táticas astutas seguidas pela contra-insurgência, a guerra independentista em Angola estava numa fase muito indefinida, em abril de 1974, quando se dá a queda do regime fascista português.

 

A retirada do exército português vai colocar em campo, em guerra aberta, os três movimentos rivais. Em apoio da UNITA surge ainda o exército sul-africano, que invade o país para proteção avançada da sua ilegal ocupação da Namíbia. Os colonos brancos embarcam desesperadamente para Lisboa. Quando se proclama, a 11 de novembro de 1975, a independência da República Popular de Angola, esta estava totalmente sitiada em Luanda. Em seu socorro chegam ao porto navios com tropas cubanas, que mal desembarcam partem logo para combate ali perto. O país só conheceria a paz quase trinta anos depois. Nesses anos, o governo do MPLA foi quase sempre de estado de emergência. A 27 de maio de 1977, a ala de esquerda militante do movimento, que estava a ser marginalizada e designada como “fraccionista”, confrontada com a prisão dos seus dirigentes (Nito Alves e José Van Dunen), esboça um movimento insurreicional popular em Luanda, com apoio ou neutralidade simpatizante de pelo menos algum pessoal militar soviético. São derrotados pela intervenção de um corpo expedicionário cubano, desencadeando-se depois uma onda de repressão interna tremendamente mortífera sobre todos os setores basistas e de esquerda (161). Fizeram-se rusgas assassinas nos musseques, exatamente como nos tempos da guerra colonial.

 

A enorme desproporção e o desvio arbítrário desta vaga punitiva indiciam claramente que o que sempre se pretendeu, na luta contra o “fraccionismo”, foi um reequilíbrio do poder social, com emasculação das massas e degradação do seu poder organizado. Com o pretexto da guerra em curso, operava-se um certo Thermidor à africana. Agostinho Neto nunca apreciou o poder popular e sempre teve muita dificuldade, aliás, em lidar com opiniões dissonantes da sua. No seu primeiro congresso, em dezembro de 1977, o MPLA constitui-se em partido político (acrescentando à sua designação “Partido do Trabalho”), proclamando-se marxista-leninista. O presidente da república e do partido, com um grande busto de Lenine à sua ilharga, chega a falar aí em instaurar uma “ditadura do proletariado”.

 

Falhadas as insistentes tentativas de reconciliação com os E. U. A. (162), Angola alinha-se incondicionalmente no campo socialista, mas sem nunca conduzir qualquer política interna revolucionária memorável. Praticou sempre uma economia extrativista, deixando multinacionais de países que lhe faziam a guerra explorar à vontade os seus recursos nacionais – a Gulf Oil norte-americana no petróleo, a infame Diamang da Bélgica-França-E. U. A.-África do Sul nos diamantes -, enquanto o cidadão comum laborioso era deixado inteiramente à sua sorte. Fez-se um planeamento económico anual frustre, que oscilava e soçobrava ao sabor das cotações internacionais do petróleo. Quanto ao sistema de preços controlados, serviu sobretudo para alimentar um mercado paralelo, onde medrou o embrião de uma burguesia nacional, logo se congraçando cumplicemente com a burocracia estatal. Foi esta a “ditadura do proletariado” a que Angola foi então sujeita. Ainda hoje existe, aliás, nos seus traços mais gerais. No começo dos anos 1990, com a liquidação do seu patrono soviético, o MPLA-PT abjurou prontamente das suas profissões de fé ideológicas, aderindo abertamente ao liberalismo económico.

 

A guerra na Guiné começou em janeiro de 1963 e desde muito cedo deixou o exército português em grandes dificuldades. Com uma retaguarda segura na Guiné-Conaky, bem abastecidos em armamento soviético, não inferior ao de que dispunham as tropas portuguesas, o PAIGC dispôs sempre da iniciativa neste conflito. Os guerrilheiros internavam-se à vontade pelo interior do país, doutrinando e organizando o abastecimento das populações. Che Guevara andou também por estes trilhos. Em novembro de 1970, comandos portugueses tentaram uma invasão anfíbia a Conakry para destruir as bases do PAIGC e derrubar ou matar Ahmed Sékou Touré, o que não conseguiram. Em janeiro de 1973, Amílcar Cabral foi tragicamente assassinado nesta cidade, numa operação que teve provavelmente instigação da polícia política portuguesa (163). Por esta altura, entretanto, a superioridade militar, tática e estratégica, do PAIGC era já muito marcada. Rompeu-se o equilíbrio. A aviação portuguesa foi neutralizada, com a entrada no teatro de operações dos mísseis Strella 2. Alguns aquartelamentos da quadrícula colonial foram cercados e fustigados com mísseis GRAD e morteiros de 120 mm, tendo chegado a ser tomado um, em Guileje (164). A qualquer altura podia precipitar-se uma espiral catastrófica para as tropas ocupantes. A 24 de setembro de 1973 foi proclamada unilateralmente a independência da República da Guiné-Bissau, em Madina do Boé, prontamente reconhecida por vários países africanos, não alinhados e do campo socialista. Após a revolução de abril de 1974 em Portugal, as negociações que se encetaram e o cessar fogo firmado foram já de Estado a Estado. A 10 de setembro, Portugal reconheceu a independência da Guiné-Bissau, tendo de seguida as suas tropas e o grosso dos seus colonos retirado do país

 

Em cumprimento do projeto idealizado por Amílcar Cabral, Guiné-Bissau e Cabo Verde acederam à independência política guiados pelo mesmo partido, o PAIGC (165). A tendência seria para federar depois os dois países. A Guiné é um território continental povoado por vários povos bantus, alguns deles islamizados. Cabo Verde era um arquipélgo deserto, antes de ser, aqui sim, verdadeiramente “descoberto” pelos portugueses. Foi depois um entreposto do tráfico de escravos, povoado por africanos de várias origens, europeus e judeus sefarditas que ali se miscigenaram ao longo de séculos. A associação entre os dois países não era óbvia e apenas o respeito pela memória de Amílcar Cabral permitiu mantê-la viva durante uns anos. No fundo, era apenas uma profissão de fé panafricanista, porque também havia (como ainda hoje há) quem defendesse que Cabo Verde não pertence a África.

 

O primeiro presidente da Guiné-Bissau foi Luís Cabral, irmão de Amílcar, de raízes cabo-verdianas embora nascido em Bissau. Deu início a um programa de reconstrução nacional e desenvolvimento com apoio de alguns países socialistas mas também europeus nórdicos. Em novembro de 1980 foi derrubado e encarcerado por um golpe militar dirigido pelo cabo de guerra, guineense de gema, João Bernardo (Nino) Vieira. O pretexto para o golpe foi o justiciamento sumário efetuado, cinco anos antes, de alguns guineenses apoiantes do colonialismo português. É implausível, contudo, que Nino fosse alheio a esses eventos. Depois de libertado, Luis Cabral partiu para o exílio em Cuba. A partir desta viragem política nativista, o país afastou-se cada vez mais do socialismo, seguindo um caminho autocrático. Com a transição para o multipartidarismo, na década de 1990, passou-se, por fim, ao arbítrio militarista e à instabilidade permanente (166).

 

Na sequência do golpe de Nino, Cabo Verde desvinculou o seu partido do projeto federativo. O PAIGC (depois PAICV) de Cabo Verde conduziu este país à independência, a 5 de julho de 1975, optando por um rumo socialista, com ampla participação cidadã canalizada pelos comités locais. O presidente da república foi Aristides Pereira e o primeiro-ministro Pedro Pires, dois importantes quadros da luta anticolonial. O arquipélago, de origem vulcânica, tem solos pobres para a agricultura, causando problemas no abastecimento alimentar que, nesta época, foram superados com a mobilização e solidariedade populares. Foram concebidos e executados dois planos plurianuais de desenvolvimento. O alinhamento internacional do país foi com o campo socialista, enquanto este existiu. Em 1992 houve uma revisão constitucional e alteração dos símbolos nacionais, seguindo o país, a partir daí, a via liberal e o multipartidarismo.

 

O arquipélago de São Tomé e Príncipe acedeu também à independência em 1975, em processo conduzido pelo Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP), de orientação marxista, em atividade desde 1960 (primeiro como “Comité”), embora nunca tenha praticado a luta armada. O partido designa Manuel Pinto da Costa como presidente e Miguel Trovoada primeiro-ministro. É aprovada uma constituição política socialista, de pendor presidencialista. As roças de café e cacau foram nacionalizadas, passando a ser geridas pelo Estado. O país estreita laços de cooperação com Cuba, República Popular da China, República Democrática Alemã e União Soviética. Em agosto de 1990 é aprovada em referendo uma nova constituição política, de caráter demoliberal (167).

 

Em Moçambique os tiros inaugurais da guerra de independência foram disparados em setembro de 1964, com um ataque ao posto administrativo de Chai, na provícia nortenha de Cabo Delgado. A FRELIMO teve a boa fortuna de encontrar um apoio constante e sem falhas para a sua luta na Tanzânia, que tem uma longa fronteira com o norte de Moçambique, justamente numa área geográfica onde vive um povo guerreiro, os Maconde, que tinha sofrido recentemente agravos imperdoáveis das autoridades coloniais portuguesas. Foi assim facilitado o recrutamento de pessoal militar com grande motivação, abnegado, conhecedor do terreno, capaz de marchar enormes distâncias, durante semanas, sem qualquer apoio logístico. E que, para além do mais, se deslocava à vontade entre um lado e outro da fronteira (onde as populações eram aparentadas), passando o Rio Rovuma. Muito rapidamente, a FRELIMO tinha o controlo total das duas províncias mais a norte, onde começou a estabelecer os rudimentos da sua ordem social revolucionária. Os camponeses eram encorajados a estudar, a associarem-se cooperativamente e a deliberarem os seus assuntos de forma coletiva, marginalizando os curandeiros e as chefias tradicionais. O papel social da mulher foi promovido com grande insistência (168). Era essa a situação quando se realizou o histórico II Congresso da FRELIMO, no interior, em julho de 1968 (169). Pouco depois, a polícia política portuguesa, com o concurso de cumplicidades internas, consegue assassinar Eduardo Mondlane, em Dar-es-Salam, com uma encomenda postal armadilhada. A FRELIMO passou então por um período de grande instabilidade, até que a sua presidência foi confiada a um azougado dirigente militar treinado na Argélia, de nome Samora Machel.

 

Na sua progressão mais para sul, a guerrilha nacionalista encontrou alguns obstáculos e resistências, com o povo macua, nas províncias de Nampula e Zambézia. Mas eis que a altaneira estupidez de um ambicioso general fascista lhe veio dar uma preciosa ajuda. Com a dispendiosa operação “Nó Górdio”, o exército português pretendeu destruir sistematicamente as bases guerrilheiras nas provícias nortenhas, por meio de assaltos aerotransportados. Os resultados militares foram escassos e efémeros. Mas foi um incentivo precioso para que os guerrilheiros se internassem em grande profundidade no território, para sul do Rio Zambeze, nas provícias de Tete e Manica e Sofala. Por volta de 1972 já apareciam nos arredores da cidade da Beira, causando enorme pânico entre os colonos. O regime racista da Rodésia ficou também alarmado com a presença de guerrilheiros comunistas nas suas fronteiras, pedindo contas ao Estado português (170). Os comandos portugueses começaram então a fazer uma série de operações de extermínio de aldeias civis no interior. Testemunhados e denunciados por missionários estrangeiros, estes desmandos causaram grande escândalo internacional (171). Os colonos, por sua vez, fizeram manifestações em que se insultava o exército português, propugnando abertamente miríficas soluções político-militares de supremacismo branco sem ligação à metrópole europeia. Organizaram grupos de vigilantes que faziam batidas provocatórias e violentas aos bairros negros. A paz civil estava toldada. Sem ela, a manutenção da ordem colonial tornava-se, a prazo, impossível. A guerra estava assim a entrar numa espiral muito comprometedora para a autoridade colonial, que podia conduzir rapidamente ao descalabro.

 

Derrubado o regime fascista em Lisboa, iniciaram-se conversações entre o governo português e a FRELIMO, em Lusaka, apadrinhadas por Kenneth Kaunda, para regular o exercício do direito à autodeterminação do povo moçambicano. O lado português insistia em soluções de recorte neocolonial, com intermediação internacional, pluralismo e referendos deliberativos. A FRELIMO fez valer a sua legitimidade revolucionária e a força das suas armas firmemente empunhadas. Avança no terreno e abre novas frentes. Do lado português ninguém mais quer combater, como é evidente. Acertou-se que haveria um governo de transição misto, com vista a preparar a entrega do poder à FRELIMO na data fixada para a independência, 25 de junho de 1975. Divulgadas estas conclusões, os colonos revoltaram-se, ocupando o Rádio Clube de Moçambique, na capital, que então se designava Lourenço Marques. Alguns setores anticomunistas moçambicanos aderiram também a este pronunciamento informe, prontamente debelado pelas forças armadas portuguesas fiéis ao seu levantamento democrático. O governo provisório tomou posse, com Joaquim Chissano como primeiro-ministro (172). Samora Machel fez uma longa e demorada viagem de norte a sul do país, saudando e mobilizando as populações (173).

 

As tarefas que aguardavam o novo poder eram imensas e os seus recursos escassíssimos, exceto em arrojo. A FRELIMO dava subitamente um salto de mais de dois mil quilómetros, para instalar a capital do novo país numa cidade completamente ao alcance de uma grande potência hostil, que era a África do Sul racista. Em quase toda a imensa extensão da sua fronteira oeste, a nova nação, ainda inteiramente por construir, estava à mercê de implacáveis inimigos prontos a estrangulá-la. No seu território de 801 590 km² vivia uma população de cerca de dez milhões de pessoas, dividida em dezasseis grupos étnicos diferentes, dominantemente horticultores, deixados em estado de total isolamento, embrutecidos pela opressão colonial e pelos trabalhos forçados. A luta de libertação tinha tocado apenas cerca de 1/5 do país. A taxa de analfabetismo andava pelos 95%. A mortalidade infantil era de 15%. Havia apenas um punhado de médicos disponíveis. Não chegavam a mil os moçambicanos negros que haviam completado estudos secundários, entre os quais se contavam seis economistas, quatro arquitectos, dois agrónomos, nenhum geólogo. A independência era uma vitória-relâmpago com o seu quê de esmagadoramente intimidante. Mas não para a FRELIMO desses tempos. Não para Samora Machel (174).

 

Na data aprazada os portugueses recolheram a bandeira, dobraram-na e retiraram-se. A esmagadora maioria dos 250.000 colonos debandou em tropel, nesse ano e no seguinte, indisponível para ficar num país em que “mandam os pretos”. O novo poder, desde a fase de transição, apoiou-se na auto-organização das massas populares por intermédio dos chamados “grupos dinamizadores”, nos locais de trabalho e de residência. Sem isso teria sido a catástrofe. O Estado formal, erguido sobre as ruínas da administração colonial cessante, articulou-se depois criativamente com este poder de base assembleária. Chegou, enfim, a solidariedade internacional. Vieram cooperantes curiosos e solidários de muitas partes do mundo. Veio ainda ajuda oficial, material e técnica, de vários países socialistas, em especial Cuba e a União Soviética. Em 1977, o III Congresso da FRELIMO afirmou muito vincadamente o caráter marxista-leninista do partido. Desde o momento da independência começou uma nova guerra, movida, a partir do centro do país, por bandos armados organizados sob a denominação de Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO). Era uma guerra cruel, indiscriminada e caótica, de sabotagem, terror e morticínio generalizado de populações civis. Como era previsível, tratava-se de uma ação organizada e municiada pelos inimigos externos do novo Estado, Rodésia e África do Sul (175). Mas não era um fenómeno artificial, de pura intervenção estrangeira. Como se veio a perceber melhor mais tarde, tinha fortes raízes endógenas. Era uma reação visceral de setores tradicionais da sociedade moçambicana contra o que era por eles percebido como uma agressão modernizadora levada a cabo pelos novos poderes (176). Tinha-se querido ir longe demais, depressa demais, de forma impositiva, com o modelo pré-estabelecido das aldeias comunais (177), sem auscultar devidamente as populações e tomar em conta os seus anseios.

 

De início tudo pareceia possível. Sacudido o jugo colonialista e imperialista, com uma organização de base comunal, mobilização popular contínua e a solidariedade de países irmãos, chegou a pensar-se numa industrialização acelerada que fizesse Moçambique chegar aos níveis de desenvolvimento mais avançados numa única geração. Em pouco tempo, a realidade começou a impor-se de uma forma devastadora. As grandes herdades coletivas foram um fracasso produtivo. As indústrias nacionalizadas que se mantiveram em laboração funcionavam abaixo das suas possibilidades. Os equipamentos importados eram, em grande parte, deficientes ou inapropriados. Transportes e comunicações falhavam (178). A paz era uma necessidade vital aflitiva. Com o apoio constante de Moçambique, foi possível conduzir à vitória a luta contra o regime racista da Rodésia. Em abril de 1980, este país vizinho acedeu finalmente à verdadeira independência e ao governo pela maioria, sob a designação de Zimbabwe. Por aí cessaram as agressões.

 

Com a África do Sul, Samora Machel teve de empenhar-se pessoalmente a fundo num doloroso processo de negociações, que desembocou nos acordos de Nkomati (1984). Tratava-se de um inimigo traiçoeiro e não confiável, que nunca negociou de boa-fé. De todo o modo, o aparato de segurança sul-africano atuava, por essa altura, em roda livre, podendo bem ter sido responsável pelo assassinato do chefe de Estado moçambicano, mesmo sem ordem ou aval ao mais alto nível (179). De todo o modo, a paz não foi imediata em Moçambique após Nkomati. A partir de 1986, sob a presidência do astuto e taciturno Joaquim Chissano, iniciou-se um processo de reformas económicas e políticas de sentido liberalizante (180) e procurou negociar-se o fim do conflito interno diretamente com a RENAMO. Por fim, a própria África do Sul acabaria por aceder ao governo democrático. A FRELIMO fracassou clamorosamente nos seus sonhos mais ambiciosos, mas não deixa de ser espantoso tudo aquilo que cumpriu historicamente, face ao ponto de partida. Em todas as tremendas dificuldades e inflexões por que passou, o partido não se dividiu, conseguindo manter a sua cultura própria de heroísmo e integridade, até que ela se foi afogando inevitavelmente nas águas correntes do cálculo mercantil, quando este passou a ser o único jogo permitido no mundo.

 

Na viragem para a década de 1980, absorvidos os choques gémeos petrolífero e do Vietname, o imperialismo ocidental vai refazer-se e passar a uma dura ofensiva. O socialismo deixou de estar no horizonte para todo o Terceiro Mundo e aquilo que se arrastava penosamente com o seu nome acabaria por desabar fragorosamente, na União Soviética e Europa de Leste. O que procuramos evidenciar neste capítulo - correndo o risco de parecer demasiado exaustivos com episódios históricos que alguns considerarão menores - foi que, sendo África o continente mais pobre (com as forças produtivas mais atrasadas), foi precisamente aquele que mais foi tentado pela opção socialista no século passado. Onde o sinal emitido pela revolução de outubro melhor ecoou e teve mais réplicas, quando lá pôde finalmente chegar, foi no continente negro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(*) Ângelo Novo (n. 1961) é um pesquisador e ensaísta independente português, editor da revista eletrónica ‘O Comuneiro. Foi advogado, jornalista, cineclubista e tradutor. Foi ainda redator ou colaborador permanente em diversas revistas culturais, literárias e de intervenção política, designadamente ‘Vértice’, ‘Última Geração’ e ‘Política Operária’. É autor de O estranho caso da morte de Karl Marx, Edições Mortas, Porto, 2000 e Outro Mundo, Estratégias Criativas, Porto, 2019 e Lutas Anticapital, Marília (SP), 2021, para além de outras obras publicadas em poesia e ficção. Os seus escritos principais podem ler-se em linha na sua página pessoal na rede.

 

 

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NOTAS:

 

(1) Cf. Antonio Gramsci, Escritos Políticos, Vol. 1, Seara Nova, Lisboa, 1976, p. 161-165. Este famoso artigo de juventude de Gramsci é sobretudo uma afirmação da descontinuidade dos tempos históricos sujeitos ao imprevisível aguilhão do voluntarismo humano.

 

(2) Cf. Marx / Engels, Selected Correspondence, Progress Publishers, Moscow, 1982, p. 218. Sobre o lugar do nacionalismo emancipador, da etnicidade e das sociedades não-ocidentais no pensamento de Marx, leia-se o indispensável Kevin B. Anderson, Marx at the Margins, The University of Chicago Press, Chicago, 2010.

 

(3) Cf. Tom Thomas, A propos des révolutions du XXème siècle ou le détour irlandais, Albatroz, Paris, 1991.

 

(4) Cf. Ho Chi Minh, “O caminho que me conduziu ao leninismo”, in Escritos, Vol. II 1954-1969, Edições Maria da Fonte, Lisboa, 1976, p. 71-73. Trata-se de um artigo escrito em 1960 para a revista soviética Questões do Oriente, por ocasião do 90.º aniversário de Lenine. Sobre esta época da vida do grande revolucionário indochinês, em que ele adere ao Partido Comunista Francês, leia-se Jean Lacouture, Ho Chi Minh, Publicações Europa-América, Lisboa, 1968, pp. 21-35. Entre outros incidentes curiosos, revela-se que foi maltratado pelos seguranças do presidente norte-americano Woodrow Wilson, quando o pretendeu abordar, em Versalhes, de supetão, com algumas reivindicações autonómicas para o povo vietnamita. A questão, como se sabe, não ficaria por aqui. A 25 de maio de 1922 já seria o próprio Ho Chi Minh (então Nguyen Ai Quoc) a publicar em L’Humanité um artigo com “Algumas reflexões sobre a questão colonial”. Cf. Ho Chi Minh, Textos Escolhidos, Estampa, Lisboa, 1975, p. 9-11.

 

(5) Na Nigéria, de longe o maior país africano, o marxismo nunca teve uma expressão política organizada muito forte, mas deu origem, ainda assim, a uma rica tradição intelectual, em que se incluem pensadores como Eskor Toyo, Ola Oni e Edwin Madunagu.

 

(6) Cf. V. I. Lenin, “Material Inflamável na Política Mundial, original publicado em Proletary, N.º 33, 23 de julho (5 de agosto) de 1908 e V . I. Lenin, “Backward Europe and Advanced Asia, original publicado em Pravda, n.º 13, 13 de maio de 1913.

 

(7) Como é bem salientado em Carlos Rafael Rodriguez, Lenine e a questão colonial, Iniciativas Editoriais, Lisboa, S/d, pp. 18-22. Leia-se V. I. Lenin, “The International Socialist Congress in Stuttgart, publicado em Proletary, n.º 17, 20 de outubro de 1907.

 

(8) Cf. “Declaration of the Rights of the Peoples of Russia”, 2 (15) de novembro de 1917.

 

(9) Cf. “Appeal to the Moslems of Russia and the East, Izvestia, 25 de novembro (7 de dezembro) de 1917.

 

(10) “Declaration Of Rights Of The Working And Exploited People, aprovada pelo Conselho Executivo Central dos Sovietes de toda a Rússia e publicado, no dia seguinte, pelo Izvestia de 4 (17) de janeiro de 1918. Colocada logo de seguida perante a Assembleia Constituinte, na sua única sessão, seria rejeitada pela maioria contrarrevolucionária aí formada. Dissolvida a Assembleia Constituinte, o documento foi aprovado pelo III Congresso dos Sovietes de toda a Rússia e integrado na Constituição da República Socialista Federativa Soviética da Rússia.

 

(11) Cf. Vanja Hamzić, “Mir-Said Sultan-Galiev and the Idea of Muslim Marxism: Empire, Third World(s) and Praxis. Por entre os assistentes às aulas de “Oriente Colonial e Revolução Mundial” que Sultan-Galiev deu na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente, passaram Tan Malaka, Ho Chi Minh, Liu Shaoqi, Magomet Mamakaev, Khalid Bakdash, Manabendra Nath Roy e Nazim Hikmet. Gamal Abdel Nasser e Ben Bella tinham ambos fotografias suas sobre a secretária.

 

(12) Leia-se, como exemplo, Mirsaid Khaidargalievich Sultan-Galiev, “A Revolução Social e o Oriente.

 

(13) Cf. “Relatório no II Congresso de Toda a Rússia das Organizações Comunistas dos Povos do Oriente. V. I. Lenin, Obras Escolhidas em três tomos, Edições "Avante!", 1977, tomo 3, pp. 210-218.

 

(14) Cf. Vijay Prashad, Red star over the Third World, Left Word, New Delhi, 2017, pp. 41-42.

 

(15) Cf. John Riddell, Vijay Prashad e Nazeef Molla (eds.), Liberate the Colonies! Communism and Colonial Freedom 1917-1924, LeftWord Books, New Delhi, 2019, p. 38.

 

(16) Cf. John Riddell, “The Comintern’s Second Congress: A Centennial Introduction”.

 

(17) Pode comparar-se o rascunho (impresso e distribuído aos delegados) das teses de Lenine e as teses finais aprovadas em “Comintern and National & Colonial Questions, Documents of Congresses, Second Congress 1920. Para mais detalhes, o recurso indispensável é John Riddell (ed.), Workers of the World and Oppressed Peoples, Unite! Proceedings and Documents of the Second Congress of the Communist International, 1920, 2 Vols., Pathfinder Books, New York, 1991. No segundo volume desta recolha documental exaustiva pode ler-se uma transcrição do rascunho original (manuscrito) das teses de Roy. Está disponível em linha uma edição anterior, com diversas falhas, com tradução inglesa de Bob Archer, das Minutas do II Congresso da Internacional Comunista.

 

(18) No entanto, no ambiente semi-hagiográfico criado após a morte de Lenine, não deixaria de pesar fortemente sobre os destinos de Roy o facto de ter polemizado publicamente com ele, apesar de não ser muito facilmente enquadrável em qualquer das diversas oposições e supostos complots contrarrevolucionários. Em 1929, após uma missão à China, de cujo fracasso não foi minimamente responsável, seria expulso do Comintern, acusado de conluio com… Heinrich Brandler. De regresso à Índia, logo seria capturado para cumprir uma longa pena de prisão (1931-1936), da qual saiu convertido a um humanismo não-marxista, aderindo ao Congresso Nacional Indiano. Cf. Manbendra Nath Roy, Internet Encyclopedia of Philosophy.

 

(19) As emendas que sofreram as teses iniciais de Roy estão devidamente assinaladas em Hélène Carrère d’Encausse e Stuart Schram, Le Marxisme et l’Asie 1853-1964, Armand Colin, Paris, 1965, pp. 212-215.

 

(20) A importância das teorizações do Comintern como precursoras do que viria a ser a escola da Teoria da Dependência é justamente realçada por Research Unit for Political Economy, “On the History of Imperialism Theory, Monthly Review, Volume 59, N.º 7, dezembro de 2007.

 

(21) Cf. Edith Chabrier, “Les délégués au Premier Congrès des peuples d'Orient (Bakou, 1er-8 septembre 1920).

 

(22) Cf. Liberate the Colonies!, ob. cit., p. 106.

 

(23) Está disponível em linha uma tradução inglesa do registo estenográfico do congresso de Baku, da responsabilidade de Brian Pearce, Congress of the Peoples of the East, Baku, September 1920 New Park Publications Ltd., 1977, onde o discurso de Najiye Hanum consta a pp. 148-150. Uma fotografia extraordinária da leitura deste discurso pode ser vista em John Riddell, “Should Communists ally with revolutionary nationalism?”. Uma versão em francês está parcialmente transcrita em Ian Birchall, “Un moment d’espoir: le congrès de Bakou en 1920, Contretemps, colhida a partir da obra L’Internationale communiste et la libération de l’Orient. Le premier Congrès des peuples de l’orient, Milano, Feltrinelli, 1967.

 

(24) Cf. Liberate the Colonies!, ob. cit., p. 119-126. A melhor publicação documental sobre este congresso é, sem dúvida, John Riddell (ed.), To See the Dawn: Baku, 1920 - First Congress of the Peoples of the East, Pathfinder Books, New York, 1993.

 

(25) Embora, por então, esta consciência ainda fosse algo embrionária, no final de 1921, o primeiro número da revista Novyi Vostok, ofereceria já uma definição mais abrangente para este referente geográfico: “O oriente não é apenas o continente asiático oprimido; o oriente também significa todo o mundo colonial, o mundo dos povos oprimidos da Ásia, da África e da América do Sul, isto é, daquele setor do mundo cuja exploração permite à sociedade capitalista da Europa e da América do Norte manter o seu poder.” In E. H. Carr, Socialism in one Country 1924-1926, Volume Three – Part II, Palgrave Macmillan, New York, 1994, p. 613.

 

(26) Cf. M. N. Roy, 1921, “Theses on the Eastern Question.

 

(27) Cf. John Riddell, “The Comintern’s Great Turn of 1920-21.

 

(28) Cf. Fernando Claudin, La crise du mouvement communiste, Vol. 1, Maspero, Paris, 1972, p. 296.

 

(29) Cf. Liberate the Colonies! ob. cit., p. 176. Sobre este congresso, a leitura a fazer, por todas, é John Riddell, To the Masses: Proceedings of the Third Congress of the Communist International, 1921, Haymarket Books, Chicago, 2016.

 

(30) Cf. John Sexton, “The Congress of the Toilers of the Far East, Historical Materialism. O discurso de Safarov pode ler-se em Liberate the Colonies!, ob. cit., p. 183-185. Este homem, zinovievista aderente à “oposição unificada”, conheceria a extrema desgraça de ser perseguido pelo estalinismo, colaborar depois com a sua polícia e ser, enfim, executado pela mesma. Nunca foi reabilitado na União Soviética e hoje está esquecido. Era, contudo, um pensador interessante e deixou alguma obra que valia a pena republicar.

 

(31) Cf. História do Partido dos Trabalhadores do Vietname, Edições Maria da Fonte, Lisboa, 1975, p. 12.

 

(32) Cf. René Galissot, “O socialismo no domínio árabe: Síria, Líbano, Iraque, Palestina, Egipto, Magrebe”, in História Geral do Socialismo, Vol. 9, Livros Horizonte, Lisboa, 1984, p. 701-702.

 

(33) Cf. Alejandro Botzàris, África e o Comunismo, Vol. 1, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1959, p. 218.

 

(34) Sobre os feitos sobre-humanos deste “grande chefe” da sombra, leia-se Gilles Perrault, A Orquestra Vermelha, Inova, Porto, 1976, com tradução de Egito Gonçalves. Ou ainda, Vitor Alexandrov, OS1 (Serviços secretos soviéticos contra Hitler), Inova, Porto, S/d.

 

(35) Lamine Senghor (1889-1927) era um veterano da I Grande Guerra, gravemente ferido em ação pela inalação de gás de mostarda alemão. Participou num motim militar. As autoridades francesas interditaram o seu regresso ao Senegal, receosas que ele aí espalhasse as suas ideias bolchevistas. Era um homem alto, de pose muito orgulhosa e aprumada, que faleceria ainda jovem vítima das suas enfermidades pulmonares. Teve apenas três anos de vida política, mas ainda assim de presença marcante. Excelente orador, deixou alguma obra de reflexão política, que está recolhida no volume La Violation d’un pays et autres écrits anticolonialistes, L’Harmattan, Paris, 2012. Não tem nenhuma relação familiar com o seu compatriota Leopold Sedar. Senghor é um nome relativamente comum nesta zona africana, sendo aliás uma corruptela do português Senhor. E Lamine foi um verdadeiro senhor, no seu exílio crepuscular. Foi uma daquelas pessoas que, com dois ou três apontamentos sumários, engrandeceram a humanidade. Cf. David Murphy, “When Communism Met Black Anti-Colonialism in Interwar France, Jacobin Magazine.

 

(36) Cf. Messali Hadj, Wikipedia. As informações que recolhi na Wikipedia, ou em percursos a partir dela, para este ensaio, são demasiado numerosas para poderem ser assinaladas todas nos devidos lugares. Viva a Wikipedia! Imperfeita, indispensável, nossa.

 

(37) Cf. Jean-Pierre Vernant, “Le PCF et la question algérienne (1959) Vacarme. O caminho mais fácil, aqui, é atribuir essa traição aos princípios comunistas à real politik do Estado soviético ou a compromissos políticos com a burguesia nacional. O que não deixa de ser absolutamente verdadeiro. Por esclarecer fica assim saber se a obediência a esses mesmos princípios era compatível com o nível de consciência das grandes massas proletárias francesas. Para muitos intelectuais ditos marxistas o proletariado é um conceito demasiado abstrato, ou uma folha em branco onde se pode inscrever qualquer consciência, em prol da unidade lógica do “sistema”.

 

(38) Como testemunho do seu excelente domínio do marxismo, numa altura em que já não o praticava, leia-se Léopold Sedar Senghor, Um Caminho do Socialismo, Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 1965 [1959].

 

(39) Leia-se “Encontro com Luiz Carlos Prestes”, in Astrojildo Pereira, Ensaios históricos e políticos, Editora Alfa-Omega, São Paulo, 1979, pp. 127-130. Terá sido a partir desse encontro realizado na Bolívia, na segunda quinzena de dezembro de 1927, que Prestes começou a estudar o marxismo, lendo uma carga de livros que Astrojildo e um outro companheiro, por essa ocasião, lhe fizeram chegar para o efeito. No seu exílio posterior na Argentina continuou esses estudos, conheceu Victorio Codovilla e já estaria em contato regular com emissários do PCB. Cf. Anita Leocádio Prestes, Luis Carlos Prestes, um comunista brasileiro, Boitempo, São Paulo, 2015, pp. 101-116. Contudo, quando, em maio de 1930, publicou um manifesto, este foi ainda recebido com desconfiança pelo que viria a ser o seu partido. Cf. Edgar Carone, O P. C. B. 1922 a 1943, Vol. 1, Difel, São Paulo, 1982, pp. 83-87. Sobre a lendária aventura militar de Prestes pelo interior do país (1924-1927), leia-se Neill Macaulay, A Coluna Prestes, Difel, Rio de Janeiro – São Paulo, S/d.

 

(40) Cf. José Aricó, “O marxismo latino-americano nos anos da Terceira Internacional”, in Eric Hobsbawn (org.), História do Marxismo, volume 8, Paz e Terrra, Rio de Janeiro, 1987, pp. 419 e ss..

 

(41) Leia-se Julio Antonio Mella, Textos escogidos, Vols. 1 e 2, Ediciones La Memoria, La Habana, 2017.

 

(42) Leia-se Leila Escorsim, Mariátegui - Vida e obra, Expressão Popular, São Paulo, 2007 e José Carlos Mariátegui, 7 Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana. O excelente Arquivo Mariátegui existente em Marxists.org inclui ainda o Programa do Partido Socialista e diversas outras obras fundamentais.

 

(43) Cf. John Riddell, “Black liberation and the Communist International. O discurso então pronunciado por Reed está também disponível em linha, sob o título “The Negro Question in America.

 

(44) Cf. Edward Hallett Carr, The Bolshevik Revolution 1917-1923, Volume Three, W. W. Norton & Company, New York – London, 1981, pp. 473 e ss..

 

(45) Cf. Fourth Congress of the Communist International, “Theses on the Eastern Question, 5 de dezembro de 1922.

 

(46) Cf. Fourth Congress of the Communist International, “The Black Question, 30 de novembro de 1922. As intervenções de MacCay e Huiswoud estão reproduzidas em Liberate the Colonies!, ob. cit., pp. 246-254. MacKay citou uma passagem da carta escrita por Marx a Lincoln, em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores.

 

(47) Cf. Manifesto of the Communist International “To the Workers and Peasants of South America. Quem preferir, pode lê-lo na versão impressa original, no vol. 3, n.º 3 de International Press Corrrespondence, 26 de janeiro de 1923 (p. 48 e última). Este é o primeiro documento do Comintern dirigido especificamente à América do Sul. Antes dele, porém, em janeiro de 1921, houve um curioso documento do Comité Executivo intitulado “Sobre a revolução na América. Apelo à classe operária das duas Américas”. A abordagem manteve-se sensivelmente a mesma, fazendo-se nos dois documentos apelo a uma união fraternal entre trabalhadores nortenhos e sulistas, contra as respetivas burguesias e contra o imperialismo yankee. Deste último documento só conheço a versão oferecida, em extratos, por Michael Löwy, em Le marxisme en Amérique Latine, Maspero, Paris, 1980, pp. 80-87.

 

(48) V. I. Lénine, “É Melhor Menos, Mas Melhor, 4 de março de 1923, Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, 1977, tomo 3, pp. 670-681.

 

(49) Cf. Ho Chi Minh, “Report on the National and Colonial Questions at the Fifth Congress of the Communist International".

 

(50) Cf. E. H. Carr, Twilight of the Comintern 1930-1935, Pantheon Books, New York, 1983, pp. 385-399.

 

(51) Cf. The Programme of the Communist International together with the Statutes of the Communist International.

 

(52) Cf. “Theses on the Revolutionary Movement in the Colonies and Semi-Colonies. É possível lê-las também, nas suas 64 páginas, num panfleto da época. Estas longas teses foram aprovadas, após um também extenso relatório apresentado por Otto Kuusinen, onde se polemiza (com razão) com M. N. Roy sobre a Índia e, em tom já abertamente hostil, com Trotsky sobre a China.

 

(53) Cf. “The South African Question, South African Communist Party Documents, 1928. Sobre esta polémica nos comunistas sul-africanos, e destes com o Comintern, a propósito da palavra de ordem “República Nativa”, leia-se Doreen Musson, “The Black Republic Question and the Third Period, South African History Online.

 

(54) Está disponível em linha, em format PDF, uma coleção quase completa de The Negro Worker.

 

(55) Cf. Michael Löwy, Le marxisme en Amérique Latine, ob. cit., pp. 23-26.

 

(56) Cf. Fernando Morais, Olga. A vida de Olga Benário Prestes, Pergaminho, Lisboa, 1991. Leia-se também Daniel Aarão Reis, Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos, Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

 

(57) Cf. História do Partido dos Trabalhadores do Vietname, ob. cit., pp. 13-24.

 

(58) Cf. Le Thanh Khoi, “Algumas caraterísticas históricas dos movimentos nacionais no Sudeste Asiático 1900-1945”, in Theo Santiago (org.), Decolonização, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1977, pp. 61-74.

 

(59) Cf. G. Dimitrov, A Frente Única contra o Fascismo e a Guerra, Germinal, Lisboa, 1976.

 

(60) Leiam-se, por exemplo, de entre as obras que se publicaram em Portugal, Charles Tillon, A Guerrilha em França, Inova, Porto, S/d; Paul Gilet e Claude Angeli, A Resistência Comunista em França, Inova, Porto, 1975; André Kedros, A Resistência Grega (1940-1944), Inova, Porto, S/d; André Kedros, Charles Tillon, Christian Bernadac e outros, Histórias da Resistência, Inova, Porto, 1973; AAVV, Cartas de Fuzilados, Edições AOV, Porto, S/D; Jean Sanitas, Um dia e uma noite, Avante, Lisboa, 1979; Roger Vailland, Jogo Curioso, Livros do Brasil, Lisboa, 2007; Giovanni Pesce, Sem tréguas, Avante, Lisboa, 1982; Ignazio Silone, Vinho e Pão, Europa-América, Lisboa, 1976; Julius Fucik, Reportagem sob a Forca, Avante, Lisboa, 1975 (3ª edição); Wanda Wassilewska, Arco Íris, Avante, Lisboa, 1985; Vercors, A Batalha do Silêncio, Europa-América, Lisboa, 1970; Alexandre Fadéiev, A Jovem Guarda, Caminho, Lisboa, 1984 (2ª edição); Vassil Bíkov, Ascenção, Avante, Lisboa, 1983; Mikail Cholokov, Morreram pela pátria, Europa-América, Lisboa, 1972; Ismail Kadaré, O general do exército fantasma, Ispagal, Lisboa, S/d.

 

(61) Sobre a “ciência” do racismo e o determinismo biológico da desigualdade, leia-se, por todos, Stephen Jay Gould, A Falsa Medida do Homem, Quasi, V. N. Famalicão, 2004 [1996, 2ª edição]. Mais recentemente, com o mapeamento do genoma humano, descobriu-se que há efetivamente variações genéticas nas populações humanas, que acompanham (e ajudam a estabelecer) a sua deriva migratória histórica pela superfície terrestre. Estas variações refletem-se em diferenças em certas caraterísticas morfológicas superficiais, bem como na suscetibilidade a certas doenças ou na reação a certos fármacos, não na capacidade geral de aprendizagem e desempenho de funções sociais.

 

(62) As estimativas para o número total de mortos variam entre os cem mil e os três milhões. Quinhentos mil é um valor seguro e conservador, mas o mais provável andará um pouco para cima de um milhão. É um dos maiores massacres à mão armada de todos os tempos. Um impressionante filme documentário relativamente recente de Joshua Oppenheimer, intitulado “O Acto de Matar (2013), recria este evento, por meio de espantosos testemunhos, reconstituições e reflexões contemporâneos de alguns dos seus perpetradores. Pramoedya Ananta Toer, já então considerado um escritor de prestígio internacional, conseguiu escapar ao morticínio, mas não a onze anos de internamento na colónia penal da ilha de Buru, onde aliás criaria as suas maiores obras. Apontamentos autobiográficos seus dessa época constituem o seu Solilóquio Mudo, Quetzal, Lisboa, 2001.

 

(63) Cf. Jose Maria Sison Filipino patriot, Proletarian revolutionary, Internationalist.

 

(64) Para um vívido e esclarecedor mergulho no mundo dos naxalitas, com todo o talento da autora no seu melhor, leia-se Arundhati Roy, Walking with the comrades (2010), Kasama Project.

 

(65) Ver “Massacre in Korea, 1951 by Pablo Picasso, Pablo Picasso: Paintings, Quotes, & Biography.

 

(66) Cf. Kim Jong Il, A ideia de juche, Edições Nova Cultura, 2018 (2ª edição).

 

(67) Leia-se História da Revolução de Agosto, Maria da Fonte, Lisboa, 1976.

 

(68) Uma parte, apenas, desse legado histórico é devidamente assinalada em Johann-Nepomuk Servert, A sombra de Ho Chi Minh, Liber, Lisboa, S/d.

 

(69) O essencial da sua doutrina político-militar pode ser estudado em General Vo Nguyen Giap, Armamento das massas revolucionárias, edificação do exército do povo, Ulmeiro, Lisboa, 1976. Leia-se também, numa perspetiva de puro academismo militar, Carlos Manuel Mendes Dias e Alexandre Carriço, Vo Nguyen Giap. O homem que derrotou os franceses e os americanos, Prefácio, Lisboa, 2009.

 

(70) Cf. Wilfred Burchett, Catapulta para a liberdade. Como sobreviveram os vietnamitas, Caminho, Lisboa, 1979.

 

(71) Uma interessante visão dos começos da “guerra americana” (como ela ficou conhecida no país), mais de reportagem do que propriamente de historiador, pode ser colhida em Wilfred Burchett, Vietnam. Segunda resistência, Seara Nova, Lisboa, 1966.

 

(72) É claro que, para os comentadores ocidentais, tratou-se de uma purga estalinista, resultado de subterrâneas e sinistras “lutas pelo poder” na época pós-Ho. Mas Giap nunca foi perseguido nem ostracizado. Continuou ministro da Defesa, posto que acumulou com o de vice-primeiro-ministro na nova República Socialista do Vietname. Dirigiu a invasão ao Cambodja dilacerado pelos Khmers Vermelhos e a defesa contra a invasão punitiva chinesa que se lhe seguiu pouco depois. Desempenhou sempre altos cargos políticos e militares até uma bem avançada idade. Morreu aos 102 anos, coberto com todas as honras que lhe eram devidas. A explicação mais simples para o seu afastamento em 1972, é que ele era um homem demasiado impulsivo e teimoso. Os riscos de o ter à frente do exército, naquela altura precisa, foram julgados inaceitáveis. E não foi ele que conduziu o avanço vitorioso sobre Saigão. Não deixou de rejubilar, certamente. Mas nessa altura estava a refletir sobre os seus erros, cumprindo um merecido castigo.

 

(73) Khalid Bakdash (1912-1995) fez a sua formação política na agitação estudantil contra a ocupação francesa, aderindo ao comunismo pelos dezoito anos. Cursou na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente, em Moscovo, tendo aí feito a primeira tradução para árabe do Manifesto do Partido Comunista. Regressando ao país em 1936, tomou o cargo de secretário-geral do Partido Comunista da Síria e do Líbano e depois do seu sucessor exclusivamente sírio, até ao final da sua vida. Durante a Grande Guerra dirigiu a luta contra a ocupação francesa leal a Vichy. É geralmente considerado como o decano do comunismo árabe.

 

(74) A literatura sobre o conflito israelo-palestiniano é muito extensa, mas uma exposição muito clara, informada e equilibrada pode ser encontrada em Ilan Pappe, História da Palestina Moderna, Caminho, Lisboa, 2007. Leia-se também Dominique Vidal, O pecado original de Israel, Campo da Comunicação, Lisboa, 2002.

 

(75) Cf. Muammar Gaddafi, The Green Book.

 

(76) Magistralmente retratada no filme de Gillo Pontecorvo “A Batalha de Argel (1966).

 

(77) Para a sua história pessoal e a definição do seu projeto político, até 1965, leia-se Peter Mansfield, Nasser e a revolução egípcia, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1967. Alguns importantes documentos representativos do pensamento político de Nasser podem ser encontrados em J. Daumal e M. Leroy, Gamal Abd-el-Nasser, Paisagem, Porto, 1971.

 

(78) Cf. Samir Amin, Re-reading the postwar period, Monthly Review Press, New York, 1994, p. 110. O jovem Samir Amin, que acabara de defender em Paris a sua tese de doutoramento sobre A Acumulação à Escala Mundial, regressou à sua pátria em 1957, para desempenhar três anos de trabalho no Instituto de Planeamento Económico, no Cairo. Desiludiu-se, porém, com a estratégia “não-capitalista” de desenvolvimento seguida então no país, partindo para desempenhar funções similares no Mali e depois noutros países na África Central.

 

(79) Cf. Hilda Gadea, Os meus anos com o Che: Da Guatemala ao México, Dinossauro, Lisboa, 1996. Estas memórias da primeira mulher de Che Guevara, revolucionária peruana então em rotura com o aprismo, dão um vívido retrato desta revolução guatemalteca, ao serviço da qual ela esteve, enquanto exilada. Para as andanças de Che antes do encontro com Hilda na Guatemala, em seu próprio relato, leiam-se Ernesto Che Guevara, Diários de Motocicleta, Objectiva, Lisboa, 2011 e Ernesto Che Guevara, Outra Vez: Diário inédito da segunda viagem pela América Latina, Editora Ausência, Vila Nova de Gaia, 2003.

 

(80) Bartolomé de Las Casas, Brevíssima relação da destruição das Índias, Antígona, Lisboa, 1997, pp. 57-60. Las Casas é um autor atualíssimo, que vale sempre a pena ler e reler.

 

(81) Cf. Jules Le Riverand, Breve historia de Cuba, Editorial de Ciencias Sociales, La Habana, 1992, pp. 10-14.

 

(82) Cf. Joaquim Palminha Silva, O nosso cônsul em Havana: Eça de Queiroz, A Regra do Jogo, Lisboa, 1981, pp. 17-35 e 113-151.

 

(83) Claudia Furiati, Fidel Castro: Uma biografia,Tomo I, Avante, Lisboa, 2003, pp. 106-169.

 

(84) Cf. Ignacio Ramonet, Fidel Castro: Biografia a duas vozes, Campo das Letras, Porto, 2006, pp. 117-118.

 

(85) Foi nas alegações finais desse julgamento que pronunciou o seu célebre repto: “Condenai-me, não importa. A história me absolverá”. Cf. Fidel Castro, “La Historia me absolverá.

 

(86) O relato clássico da guerrilha da Sierra Maestra é Che Guevara, Episódios da Guerra Revolucionária, Vols. I e II, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975. Leia-se também, Che Guevara e Raúl Castro, Diários Inéditos da Guerrilha Cubana (Dezembro 1956 – Fevereiro 1957), Editorial Notícias, Lisboa, 1996 ou Enrique Acevedo, Descamisado: Memória da guerrilha na Sierra Maestra, Campo das Letras, Porto, 1998.

 

(87) Para as viagens do Che, incluindo a sua diplomacia ao serviço da revolução cubana, leia-se Adys Cupull e Froilán González, Che Guevara, cidadão do mundo, Campo das Letras, Porto, 1998. A págs. 105, os autores mencionam telegraficamente duas passagens técnicas por Madrid, em agosto-setembro de 1959. Na verdade, está bem documentado, fotográfica e testemunhalmente, que, um mês antes, isso sim, o Che, com o seu camuflado e boina, deu demorados e descontraídos passeios turísticos pela capital espanhola, em pleno franquismo. Foi ao Prado, à Cidade Universitária, à Livraria Cuesta Moyano, às galerias Preciados, comeu pulpo a feira, assistiu a uma corrida de touros em Las Ventas (porventura influenciado por Hemingway). E aquando da segunda passagem, na viagem de regresso a Cuba, saíu mesmo da cidade, para visitar o mosteiro de El Escorial (sem que ele, possivelmernte, o soubesse, ali mesmo ao lado tinha sido inaugurado, dois meses antes, o infame Vale dos Caídos, com trabalho forçado de milhares presos políticos republicanos) Sevilha e Toledo, onde posou para uma fotografia rodeado por duas mulheres, a pedido destas, que o terão reconhecido. V. David González, “Cuando el Che Guevara se paseó por el Madrid franquista, El Cierre Digital ou V. Elisa Silió, “Tras las huellas del Che en Madrid, El País. O Che sempre teve também esta faceta boémia, mundana e de bon vivant. Era um revolucionário acima de tudo. Mas era também um homem da viagem e da experiência, sempre em busca do momento irrepetível e sublime. Em que medida e conjugação cada uma dessas dimensões da sua personalidade pesou nas suas decisões pessoais mais importantes é uma questão em aberto. Voltou a Madrid ainda, pelo menos, mais duas vezes. Numa delas ter-se-á encontrado com Juan Domingo Perón, na sua casa de exílio, o que dificilmente poderia ter sido feito sem o consentimento das autoridades fascistas espanholas. Falaram do projeto guerrilheiro da Bolívia, que Perón desaconselhou, recusando-lhe o seu apoio, embora estivesse recetivo a apoiar o plano revolucionário global, assim que ele transpusesse as fronteiras da Argentina e apenas dentro destas. Segundo alguns testemunhos, o Che terá ainda sido então portador de dinheiro cubano, que foi aceite, destinado a facilitar um regresso do general ao seu país. V. Pacho O’Donnell, “Opiniones de Perón sobre el Che, Pagina 12. Tal regresso, porém, só se concretizaria bastantes anos mais tarde, em junho de 1973. E então, muito rapidamente as expetativas dos peronistas de esquerda seriam completamente traídas. O general regressou mentalmente diminuído e rodeado de um entorno fascizante que se consolidara à sua volta, precisamente, durante os anos de Madrid.

 

(88) Cf. Hugh Thomas, Cuba ou os caminhos da liberdade, Bertrand, Lisboa, 1974, pp. 482-497.

 

(89) A expressão de Che Guevara enquanto participava nas cerimóneas fúnebres pelas vítimas foi captada pelo fotógrafo Alberto “Korda”, numa imagem que, divulgada pelo editor Giacomo Feltrinelli, correu o mundo e se tornou depois uma espécie de cliché cultural pop. Cf. Paco Ignacio Taibo II, Ernesto Guevara, también conocido como el Che, Editorial Planeta, Barcelona, 1997, pp. 385-386.

 

(90) Leia-se Discursos de Fidel Castro: Una selección, Fundación Editorial El perro y la rana, Caracas, 2017, pp. 13-51. A declaração apenas, sem o discurso introdutório de Fidel, está publicada em Documentos de Cuba – 1, Ulmeiro, Lisboa, 1975, pp. 7-14.

 

(91) Cf. “Discurso pronunciado por Fidel Castro Ruz, Presidente de la República de Cuba, en las honras fúnebres de las víctimas del bombardeo a distintos puntos de la república, efectuado en 23 y 12, frente al cementerio de Colón, el día 16 de abril de 1961 in Discursos e intervenciones del Comandante en Jefe Fidel Castro Ruz, Presidente del Consejo de Estado de la República de Cuba.

 

(92) Cf. Discursos de Fidel Castro: Una selección, ob. cit., pp. 53-92. A declaração apenas, sem o discurso introdutório de Fidel, está publicada em Documentos de Cuba – 1, ob. cit., pp. 15-51. Este documento ganhou o direito a ser considerado um dos clássicos do panfletarismo marxista.

 

(93) Cf. Ignacio Ramonet, Fidel Castro: Biografia a duas vozes, ob. cit., pp. 241-257. A pp. 247-248 é transcrita, na íntegra, a famosa “carta do apocalipse”, dirigida por Fidel a Krustchev, a 26 de outubro, em que se defende o contrataque nuclear a uma invasão convencional de Cuba pelos E. U. A..

 

(94) Cf. François Fetjö, Chine/URSS: De l’alliance au conflit 1950-1972, Seuil, Paris, 1973, pp. 262-264.

 

(95) Cf. Pierre Kalfon, Che: Ernesto Guevara, uma lenda do século, Terramar, Lisboa, 1998 (2ª edição), pp. 337-352.

 

(96) Leia-se Che Guevara, “Sobre a concepção do valor em resposta a certas afirmações” in Obras de Che Guevara – 2 Textos Económicos, Ulmeiro, Lisboa, 1975, pp. 73-82.

 

(97) Sobre toda esta polémica, o que estava em causa e as convicções económicas essenciais de Che, leia-se, por todos, Michael Löwy, O pensamento de Che Guevara, Bertrand, Lisboa, 1976, pp. 51-95. Algumas peças essenciais da polémica podem ser lidas no Apêndice a Che Guevara, Textos Econômicos: Para a transformação do socialismo, Edições Populares, São Paulo, 1987, pp. 165-267.

 

(98) Leia-se Che Guevara, “Discurso de Argel”, in Obras de Che Guevara - 1, Ulmeiro, Lisboa, 1975, pp. 71-86.

 

(99) Leia-se Che Guevara, Fidel Castro e outros, Dossier da guerrilha boliviana, Limiar, Porto, 1975, incluindo o “Diário” mantido pelo Che. Para uma reflexão teórica sobre o significado deste projeto revolucionário e as razões do seu fracasso, leia-se Régis Debray, A guerrilha do Che, Assírio & Alvim, Lisboa, 1975. Para avaliar algumas declarações e depoimentos curiosas da época, leia-se AAVV, Bolívia – um segundo Vietname?, Cadernos Dom Quixote, Lisboa, 1967.

 

(100) Leia-se Fidel Castro “Autocrítica”, in AAVV, Cuba e o Socialismo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1971, pp. 121-183.

 

(101) Para o seu ponto da situação nacional, à data de dezembro de 1975, leia-se Fidel Castro, Relatório ao 1º Congresso do Partido Comunista de Cuba, Avante, Lisboa, 1976.

 

(102) Leia-se Gabriel García Márquez, “Operación Carlota, Cuba Debate.

 

(103) Para uma descrição detalhada, enriquecida com o colorido da observação local, leia-se Marta Harnecker, Cuba: democracia ou ditadura?, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1976.

 

(104) Régis Debray, Révolution dans la révolution?, François Maspero, Paris, 1967. Leia-se também, Régis Debray, Révolution dans la révolution? & autres essais, Maspero, Paris, 1969, com o conjunto dos textos do autor relativos a esta época do seu pensamento.

 

(105) O Che tem, aliás, uma obra de doutrina militar que pertence, por direito próprio, à primeira linha da literatura foquista. Leia-se Ernesto “Che” Guevara, Guerra de guerrillas (1960), Proyecto Espartaco.

 

(106) Para um estudo de caso exemplar, leia-se Carlos Zacarias de Sena Junior, Os impasses da estratégia. Os comunistas, o antifascismo e a revolução burguesa no Brasil 1936-1948, Annablume, São Paulo, 2006.

 

(107) Para o panorama geral em Portugal, Europa e E. U. A., com algumas reflexões gerais de caráter histórico e teórico, leia-se Isabel do Carmo, Luta Armada, Dom Quixote, Lisboa, 2017. Um caso curioso foi o do Exército Vermelho Japonês (Nihon Sekigun), de Fusako Shigenobu, sobre o qual Masao Adachi e Kôji Wakamatsu realizaram o filme documentário “A Declaração de Guerra Mundial do Exército Vermelho Japonês / FPLP. Wakamatsu realizou também um impressionante filme sobre um outro caso japonês, do início dos anos 1970, já em declive acentuado para a degenerescência patológica, que foi “O Exército Vermelho Unido (só o trailer).

 

(108) Leia-se Francisco Julião, Cambão. As ligas camponesas, Centelha, Coimbra, 1975. Nesta organização militou Alípio de Freitas, muito justamente cantado por Zeca Afonso pela sua bravura ímpar. Veja-se “Testemunhos de uma vida.

 

(109) Leia-se a apaixonante biografia que é Mário Magalhães, Mariguella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, Companhia das Letras, São Paulo, 2012. A rica personalidade histórica de Mariguella não se limita, de forma alguma, ao seu ocasionalmente indeclinável papel como guerrilheiro. Deixou, contudo, dessa experiência um manual que foi bastante traduzido e se tornou influente, inclusive nas escolas de contra-insurreição: Carlos Mariguella, Manual do Guerrilheiro Urbano.

 

(110) Leia-se Alain Labrousse, Os Tupamaros. A guerrilha urbana no Uruguai, Dom Quixote, Lisboa, 1971. Veja-se também o filme de Costa-Gravas “Estado de Sítio (1972), com música de Mikis Theodorakis.

 

(111) Um apaixonante retrato dos anos de brasa da luta revolucionária no país das pampas é Marcelo Dias, A Guerra da Argentina, A Regra do Jogo, Lisboa, 1978.

 

(112) Leia-se MIR – Movimiento de Izquierda Revolucionario Chileno. Dos años en la lucha de la resistencia popular del pueblo chileno 1973-1975, Zero, Bilbao, 1976.

 

(113) Ao serviço desta guerrilha, ainda hoje ativa, morreu o padre Camilo Torres, no primeiro enfrentamento armado em que participou, a 15 de fevereiro de 1966. Nunca aprendeu a usar devidamente uma arma. O seu corpo foi enterrado em lugar secreto para impedir que lhe fosse prestado culto.

 

(114) Leia-se Régis Debray, A crítica das armas, Seara Nova, Lisboa, 1977 [1974]. Debray esteve na guerrilha da Bolívia, foi detido, julgado e cumpriu aí prisão. Sentiu o medo na pele. Mas a evolução do seu pensamento não tem necessariamente a ver com isso.

 

(115) Em contrapartida, há que dizer que Fidel Castro foi essencialmente um homem de ação. Não foi um investigador, um teórico, um decantador de conceitos. Ninguém espere dele descobertas ou formulações científicas revolucionárias. No entanto, como profeta, tinha suficiente elevação de visão histórica para ver que o mundo capitalista conduzia (e conduz) a humanidade para o abismo, não se cansando de alertar para isso, com argumentação detalhada. Escrevia bem, mas a sua vasta cultura expressava-se preferencialmente no modo oral. Está no seu melhor na grande oratória. Folheie-se, tão só, por exemplo, as 14.238 páginas de En Eso Llegó Fidel. 55 Años de Historia: Discursos, Intervenciones y Reflexiones de Fidel Castro Ruz. Como conversador, também, é extraordinário. Leiam-se, por exemplo, Frei Betto, Fidel e a religião, Caminho, Lisboa, 1986, Gianni Minà, Um encontro com Fidel, Caminho, Lisboa, 1989 ou Fidel Castro, Um grão de milho: uma conversa com Tomás Borge, Caminho, Lisboa, 1993.

 

(116) Leia-se, Salvador Allende, “A via chilena para o socialismo” in Rui Namorado (seleção, introdução e tradução), Socialismo no Chile?, Centelha, Coimbra, 1972, pp. 105-142. Este mesmo discurso, pronunciado no Congresso chileno a 21.5.1971, está disponível em linha, na sua língua original, no Arquivo de Salvador Allende Gossens alojado em Marxists.org. Allende acreditava que caberia ao Chile, por ser um país periférico e dependente (novamente a história do “elo mais fraco da cadeia”), inaugurar a via da transição ao socialismo pela democracia parlamentar e pluralista burguesa, supostamente entrevista por Engels. Ora, Engels nunca expressou convicção numa tal via, que lhe é geralmente atribuída por uma leitura muito equivocada da sua Introdução à edição de 1895 de As Lutas de Classes em França. Para esclarecimento sumário da questão, leia-se, por exemplo, Paul d’Amato, “Marxists and Elections”, International Socialist Review.

 

(117) Sobre o plano económico da Unidad Popular,suas implicações e coerência, leia-se Alain Labrousse, A Expeiência Chilena. Reformismo ou Revolução?, Sá da Costa, Lisboa, 1978, pp. 311-372.

 

(118) Cf. Alain Touraine, Vida e morte do Chile popular, Bertrand, Lisboa, 1977, pp. 22-29.

 

(119) Sobre a multímoda e incansável atividade dos E. U. A., aberta e oculta, pública e privada, contra o governo de Allende, leia-se Pedro Vuskovic, Acusação ao imperialismo, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975, que constitui o texto de um líbelo apresentado perante o Tribunal Russell.

 

(120) Sobre as movimentações militares que levaram ao golpe de 11 de setembro e a resistência a ele oferecida nesse dia e nos seguintes, leia-se Marcelo Dias, Chile / Setembro, Diabril, Lisboa, 1976, pp. 59-107. Pode também ver-se o filme “Chove sobre Santiago (1976) de Helvio Soto, que é uma obra de arte respeitável, contendo algumas inexactidões históricas, nomeadamente a respeito das circunstâncias da morte de Allende. Quanto à afirmação, feita no filme por um personagem presente no velório de Neruda, de que nunca ninguém alguma vez conheceu um poeta fascista, também não é verdadeira. Houve excelentes poetas fascistas no passado e havê-los-á também, sem dúvida, no futuro.

 

(121) Cf. “La muerte lenta de Víctor Jara, El País.

 

(122) Em muito do que expomos neste parágrafo, seguimos de perto a análise feita em Ruy Mauro Marini, Duas estratégias no processo chileno, Centelha, Coimbra, 1976.

 

(123) Cf. “O MIR e os resultados eleitorais”, in Rui Namorado, Socialismo no Chile?, ob. cit., pp. 27-56. Leia-se também, “Que és el MIR?” in MIR – Movimiento de Izquierda Revolucionario Chileno. Dos años en la lucha de la resistencia popular del pueblo chileno 1973-1975, ob. cit., pp.13-44.

 

(124) As reflexões, de caráter mais geral, suscitadas ao presidente deposto por esta experiência podem ler-se em Juan Bosch, O pentagonismo, substituto do imperialismo, Moraes, Lisboa, 1970.

 

(125) Em Juan Velasco Alvarado, A revolução peruana, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975, pode ler-se uma série de intervenções públicas do general que sistematizam o seu ideário político. Em linha e no idioma original, leia-se o seu arquivo disponibilizado em Marxists.org.

 

(126) Leia-se Carlos Fonseca, Un Nicaragüense En Moscu, Secretaría Nacional de Propaganda y Educación Política del F.S.L.N., Managua, Febrero de 1980 (Año de la Alfabetización).

 

(127) Sobre a luta guerrilheira sandinista, leia-se Omar Cabezas, La montaña es algo más que una inmensa estepa verde, vencedor do prémio Casa de las Americas de 1982, na categoria testemunho.

 

(128) Cf. John D. F. Dulles, Getúlio Vargas: Biografia política, Editora Renes, Rio de Janeiro, 1967, pp. 267-280.

 

(129) Moniz Bandeira, Presença dos Estados Unidos no Brasil (Dois séculos de história), Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1978, p. 311.

 

(130) Cf. “O Manifesto de Agosto de 1950.

 

(131) Cf. Mário Magalhães, Mariguella, ob. cit., pp. 207-211. Foi certamente inspirado por estes acontecimentos que Gianfrancesco Guarnieri escreveria a sua peça de teatro Eles não usam black-tie, estreada em 1958. Com base nela, Leon Hirszman realizaria em 1981 um excelente filme, atualizando os cenários e os adereços de época. É um pouco como se Mariguella passasse testemunho a Lula.

 

(132) Daniel Aarão Reis, Luís Carlos Prestes: Um revolucionáriuo entre dois mundos, Companhia das Letras, São Paulo, 2014, pp. 277-298.

 

(133) O seu “Manifesto-Programa” só seria aprovado e publicado no verão do ano seguinte. Leia-se Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro: Documentos do PC do Brasil de 1960 a 2000, Anita Garibaldi, São Paulo, 2000, pp. 31-54.

 

(134) Aimé Césaire, Discurso sobre o Colonialismo, Sá da Costa, Lisboa, 1978, com tradução de Noémia de Sousa e um prefácio de Mário de Andrade; Frantz Fanon, Pele Negra, Máscaras Brancas, Paisagem, Porto, 1975; Frantz Fanon, Os condenados da Terra, Ulmeiro, Lisboa, S/d.

 

(135) Cf. Yves Benot, Ideologias das independências africanas, Vol. 1, Sá da Costa, Lisboa, 1981, pp. 89-143.

 

(136) Mas não só, como foi o caso da baronesa dinamarquesa Karen Christenze Dinesen (de casamento von Blixen-Finecke), autora do celebrado romance Out of Africa. Para muita gente, ainda hoje, o nostálgico “I had a farm in Africa”, é o cúmulo do charme. Gente não africana, naturalmente.

 

(137) A mais interessante explicação para a origem da expressão Mau-Mau é, sem dúvida, a recolhida pela ativista ecologista Wangari Maathai. Segundo ela, quando os kikuyo começam a enunciar uma lista, dizem "maũndũ ni mau" (os principais assuntos são), levantando três dedos. Os três principais assuntos neste caso eram terra, liberdade e autogoverno. Cf. Wangari Maathai, Unbowed: a memoir. Alfred A. Knopf, 2006, p. 63. Apud Wikipedia, artigo “Mau Mau Uprising.

 

(138) Cf. Alejandro Botzàris, África e o comunismo, Vol. II, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1961, pp. 52-56.

 

(139) Imortalizado em Mongo Beti, Remember Ruben, Caminho, Lisboa, 1983.

 

(140) Cf. Kwame Nkrumah, A África deve unir-se, Ulmeiro, Lisboa, 1977 [1963].

 

(141) Leia-se, por exemplo, Kwame Nkrumah, A luta de classes em África, Sá da Costa, Lisboa, 1977 (2ª edição) [1970] e Kwame Nkrumah, Consciencism: Philosophy and Ideology for De-Colonisation, Monthly Review Press, New York, 1970.

 

(142) Ahmed Sékou Touré (1922-1984) lia Marx e Lenine desde a sua juventude, mantendo-os sempre nas suas estantes. Trabalhou nos serviços postais e fez-se sindicalista. Em 1947 fundou o Parti démocratique guinéen, ramo local do RDA. Foi deputado à Assembleia Nacional francesa. Em 1957 organizou a Union générale des travailleurs d'Afrique noire, uma central sindical para todaa África Ocidental Francesa, que desempenhou também um papel de relevo na luta independentista na região. Era um grande orador público. Estudou economia como autodidata, até atingir um nível relevante como autor, como se pode constatar lendo Ahmed Sékou Touré, A Economia da Revolução, Via Editora, Lisboa, 1977. Foi um estadista por vezes duro, como lho impuseram as circunstâncias. Teve algumas inflexões e incongruências não facilmente compreensíveis. Mas não vergou. Quiseram-no fazer entender certas coisas, mas foram os seus inimigos que tiveram de entender outras, bem diferentes. E isso pode ter tido o seu quinhão de influência na marcha da história mundial.

 

(143) Cf. La Pensée Politique de Patrice Lumumba, Présence Africaine, Paris-Dakar, 1963. No seu extenso prefácio a esta recolha de intervenções dispersas de Lumumba, Jean-Paul Sartre faz uma lúcida e informada exposição sobre a lógica de desenvolvimento, aporias e escolhos – que se revelaram, por fim, invencíveis - que percorreram o seu projeto político.

 

(144) Sobre o desenlace criminoso da aventura independentista congolesa, leia-se, por todos, Ludo De Witte, O assassinato de Lumumba, Caminho, Lisboa, 2001.

 

(145) Sobre este episódio da vida do Che, leia-se Paco Ignacio Taibo II, Froilán Escobar e Félix Guerra, O ano em que estivemos em parte nenhuma, Campo das Letras, Porto, 1995. Os apontamentos do próprio Che, em tradução de Egito Gonçalves, podem ler-se em Ernesto “Che” Guevara, Congo: o sonho africano, Edições Asa, Porto, 2002. Para as suas viagens, disfarces e conspirações desta época, leia-se José Gomez Abad, Como o Che enganou a CIA, Avante, Lisboa, 2006.

 

(146) Sobre as realizações da revolução congolesa e seus limites, de origem histórica e de enquadramento regional, leia-se Samir Amin e Catherine Coquery-Vidrovitch, Históire économique du Congo 1880-1968, IFAN-Anthropos, Dakar-Paris, 1969.

 

(147) Cf. The Arusha Declaration, Marxists Internet Archive.

 

(148) Cf. Yves Benot, Ideologias das independências africanas, Vol. 2, Sá da Costa, Lisboa, 1981, pp. 14-15.

 

(149) A história reterá aqui, sobretudo, a personalidade dirigente de Samora Machel e o pensamento político de Amílcar Cabral. A bibliografia ativa de Cabral em Portugal - muito ao contrário do que sucede noutros países onde ela se publica traduzida - está vergonhosamente dispersa, envelhecida, lacunar, inencontrável. Refiram-se Amílcar Cabral, Guiné-Bissau, nação africana forjada na luta, Publicações Nova Aurora, Lisboa, 1974; Amílcar Cabral, Textos políticos, CEC, Porto, 1974; Amílcar Cabral, Alguns princípios do partido, Seara Nova, Lisboa, 1974; Amílcar Cabral, Análise de alguns tipos de resistência, Seara Nova, Lisboa, 1975; Amílcar Cabral, A arma da teoria. Unidade e luta, Seara Nova, Lisboa, 1976; Amílcar Cabral, Documentário (Textos políticos e culturais), Cotovia, Lisboa, 2008.

 

(150) Leia-se Cunha Leal, A gadanha da morte, Ed. do Autor, Lisboa, 1961 e A Pátria em Perigo, Ed. do Autor, Lisboa, 1962.

 

(151) Cf. Thomas Sankara, “A libertação das mulheres - uma exigência do futuro em Marxists.org. Mais materiais de e sobre Thomas Sankara podem ser encontrados no seu Website.

 

(152) Leia-se Nasce uma Nação: A luta de libertação da Namíbia, Departamente de Informação da SWAPO / Zed Books, Luanda e Londres, 1985.

 

(153) Leia-se Valentim Alexandre, Contra o Vento. Portugal, o Império e a Maré Anticolonial (1945-1960), Temas e Debates, Lisboa, 2017.

 

(154) Leia-se Cláudia Castelo, “O luso-tropicalismo e o colonialismo português tardio”, Buala. A obra de referência seminal do luso-tropicalismo é Gilberto Freyre, O mundo que o português criou, José Olympio, Rio de Janeiro, 1940.

 

(155) Isso mesmo foi oportunamente realçado pelo ensaísta marxista inglês Perry Anderson, numa série de artigos publicados na New Left Review no ano de 1962, que seriam publicados em volume, no ano seguinte, em tradução francesa, nas edições de François Maspero. Leia-se Perry Anderson, Le Portugal et la fin de l’ultra-colonialisme, Maspero (Cahiers Libres), Paris, 1963. Esta obra teve depois uma publicação em língua portuguesa, mas no Brasil. Em Portugal é inédita e bem merecia ser publicada, ainda hoje, para permitir uma mais ampla discussão do conceito de ultra-colonialismo que o autor cunhou para definir o sistema colonial português. Anderson não é um autor qualquer. Foi até já bastante publicado em Portugal, felizmente. Porém, justamente quando resolveu abordar assuntos de grande relevo nacional deixou de interessar.

 

(156) Leia-se, por exemplo, Ana Naomi de Sousa, “How Portugal silenced ‘centuries of violence and trauma’, Al Jazeera, 10 Mar 2021. Aí se realça o papel das Irmandades Católicas de Lisboa e do abolicionista angolano negro Lourenço da Silva Mendonça, em pleno século XVII.

 

(157) Leia-se Pires Laranjeira, A Negritude Africana de Língua Portuguesa, Afrontamento, Porto, 1995, pp. 25-170. Para um estudo de caso específico que envolveu a participação de maçons, republicanos, socialistas, anarquistas, católicos progressistas e comunistas portugueses, leia-se Ilídio Rocha, A Imprensa de Moçambique. História e Catálogo (1854-1975), Livros do Brasil, Lisboa, 2000.

 

(158) Leia-se Dalila Cabrita Mateus, A Luta pela Independência. A formação das elites fundadoras da FRELIMO, MPLA e PAIGC, Inquérito, Lisboa, 1999.

 

(159) Ver, da sua série História a História, o programa de Fernando Rosas “A Cada dos Estudantes do Império, RTP.

 

(160) Com especial incidência na luta no cone sul de África, mas sem esquecer as outras colónias portuguesas mais a norte, leiam-se, por exemplo, os três volumes de Aquino de Bragança e Immanuel Wallerstein, Quem é o Inimigo?, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1978.

 

(161) Leia-se Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, Purga em Angola: O 27 de maio de 1977, Texto Editores, Lisboa, 2009 (3.ª edição). Ou ainda, Leonor Figueiredo, Sita Vales. Revolucionária, comunista até à morte (1951-1977), Aletheia, Lisboa, 2010, pp. 119-189. Para mais informações, ver 27 de maio 1977. Infelizmente, este sítio não fornece uma versão integral do documento chave deste movimento que é “Treze teses em minha defesa” de Nito Alves.

 

(162) Sobre a política obstinada e irracionalmente hostil dos E. U. A. para com Angola, só compreensível numa lógica de apoio ínvio e não confessado à África do Sul racista, leia-se George Wright, The Destruction of a Nation. United States’ policy toward Angola since 1945, Pluto Press, London-Chicago, 1997.

 

(163) Sobre essa questão leia-se Dalila Cabrita Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial 1961-1974, Terramar, Lisboa, 2011 (2ª edição), pp. 169-171.

 

(164) Um bom retrato da guerrilha do PAIGC pode ser encontrado no filme de Flora Gomes “Mortu Nega” (1988). O documentário recente “A libertação da Guiné-Bissau: uma entrevista com o Comandante Pedro Pires revela alguns pormenores operacionais e político-diplomáticos interessantes.

 

(165) Leia-se o Manuel Político do P. A. I. G. C., Edições Maria da Fonte, Lisboa, 1974.

 

(166) Para uma excelente análise marxista-cabralista da formação da nação guineense, leia-se Carlos Lopes, A transição histórica na Guiné-Bissau, Instututo Nacional de Estudos e Pesquisa, Bissau, 1986. Ou ainda, do mesmo autor (que depois faria uma carreira de grande destaque na ONU), Etnia, Estado e relações de poder na Guiné-Bissau, Edições 70, Lisboa, 1982.

 

(167) Sobre o processo político são-tomense após a independência, leia-se Gerhard Seibert, Camaradas, Clientes e Compadres. Colonialismo, Socialismo e Democratização em São Tomé e Príncipe, Vega, Lisboa, 2001.

 

(168) Os fundamentos da posição da FRELIMO na questão femimina são expostos em Samora Machel, “A libertação da mulher é uma necessidade da revolução, garantia da sua continuidade, condição do seu triunfo (1973) in Samora Machel, A Luta Continua, Afrontamento, Porto, 1974, pp. 55-72.

 

(169) O ponto da situação da luta nacionalista moçambicana foi feito então pelo presidente da FRELIMO, de forma modelar, em Eduardo Mondlane, The Struggle for Mozambique, Penguin Books, London, 1969. Tendo feito carreira académica nos E. U. A., casado com uma norte-americana (branca) e sido funcionário da ONU, Mondlane escrevia preferencialmente em inglês. Esta obra só seria publicada em Portugal já depois do derrube do regime fascista: Eduardo Mondlane, Lutar por Moçambique, Sá da Costa, Lisboa, 1975. Janet Mondlane teve uma ação cultural muito destacada na formação do seu país adotivo, como é justamente destacado em Catarina A. Costa, Moçambique: O sonho de uma nação, Lua Eléctrica, S/l, 2019.

 

(170) Leia-se João Paulo Guerra, Memória das Guerras Coloniais, Afrontamento, Porto, 1994 (2ª edição), pp. 265-277.

 

(171) Leia-se Adrian Hastings, Wiriyamu, Afrontamento, Porto, 1974.

 

(172) Um vívido retrato de todo este período de transição pode ser lido em Fernando Amado Couto, Moçambique 1974: O fim do império e o nascimento da nação, Caminho, Lisboa, 2011, pp. 283-372.

 

(173) Leia-se e veja-se Raimundo Domingos Pachinuapa, Do Rovuma ao Maputo: A marcha triunfal de Samora Machel, Edição do Autor, Maputo, 2005.

 

(174) Sobre a vida e lutas de Samora Moisés Machel, leia-se Iain Christie, Samora: Uma biografia, Ndjira, Maputo, 1996.

 

(175) Sobre esta conjura externa, leia-se Alex Vines, RENAMO: Terrorism in Mozambique, Center for Southern African Studies of the University of York – James Currey – Indiana University Press, 1991. Sobre a desolação criada pela guerra, leia-se William Finnegan, A Complicated War – The harrowing of Mozambique, University of California Press, Berkeley, 1992.

 

(176) Sobre isso leia-se Christian Geffray, La cause des armes au Mozambique. Anthropologie d’une guerre civile, Éditions Khartala, Paris, 1990 e Michel Cahen, Mozambique: La révolution implosée, l’Harmattan, Paris, 1987.

 

(177) Leia-se, por exemplo, o “Discurso de Estado do Camarada Presidente da FRELIMO Samora Moisés Machel na tomada de posse de Presidente da República Popular de Moçambique, 25 de junho de 1975, in João Reis e Armando Pedro Muiuane (org.), Datas e Documentos da História da FRELIMO, Imprensa Nacional de Moçambique, Maputo, 1975, pp. 507-509.

 

(178) Sobre o acidentado processo político-económico no imediato pós-independência, leia-se Joseph Hanlon, Mozambique: The Revolution Under Fire, Zed Books, London, 1984, Margaret Hall e Tom Young, Confronting Leviathan: Mozambique since Independence, Ohio University Press, Athens (Ohio), 1997 e João Mosca, A Experiência Socialista em Moçambique (1975-1986), Instituto Piaget, Lisboa, 1999.

 

(179) Leia-se Álvaro B. Marques, Quem matou Samora Machel?, Ulmeiro, Lisboa, 1987.

 

(180) Leia-se Hans Abrahamsson e Anders Nilsson, Mozambique, The Troubled Transition: From Socialist Construction to Free Market Capitalism, Zed Books, London/New Jersey, 1995.