As Contradições Metabólicas do Capital

- Uma Introdução

 

 

Giovanni Alves (*)

 

 

 

De acordo com a perspetiva ontológica de Lukács (1978), o desenvolvimento histórico do processo civilizatório do capital ativou “contradições de tipo cada vez mais elevadas, cada vez mais fundamentais”, que podem ser “aparentemente insolúveis”. Podemos dizer que tais contradições de tipo mais elevado são as “contradições metabólicas” que se distinguiriam das “contradições fundamentais” do modo de produção capitalista (Alves, 2020).

 

Na medida em que são “contradições metabólicas”, elas dizem respeito à relação do homem com a natureza, isto é, a natureza externa e a natureza interna, que implica as relações do homem com o homem e as relações do homem consigo mesmo – corpo e mente - a partir das “mediações de segunda ordem” do capital (Mészáros, 2006).

 

As “contradições metabólicas” implicam a relação dialética entre o ser social e o ser orgânico – mediadas pelo todo complexo da economia do capital. É como ser orgânico – e não apenas como ser social – que o homem está sendo provocado pela relação-valor ou pelo modo de produção capitalista (Marques, 2015; Foster, 2015).

 

Podemos considerar como “contradições metabólicas” do capital, as contradições históricas entre o capital e (1) a sustentabilidade da natureza externa (florestas, rios e mares ou ainda, o clima, isto é, o meio-ambiente natural propriamente dito); ou a contradição entre o capital e a (2) preservação da saúde humana, isto é, o equilíbrio da natureza interna do homem (saúde física e saúde mental como sendo o equilíbrio entre mente e corpo abalado pelos cataclismos epidemiológicos e pelos transtornos psicológicos: estresse, ansiedade, depressão ou burn-out); e a contradição entre o capital e (3) o processo de senescência (e envelhecimento) da força de trabalho nas condições históricas das “sociedades das pessoas sem valor”. Como observou Marx (1985), o homem vive da natureza, o que significa:

 

“a natureza é o seu corpo, com o qual tem que permanecer em constante processo para não morrer. Que a vida física e mental do homem está interligada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interligada consigo mesma, pois o homem é uma parte da natureza” (Marx, 2004).

 

As “contradições metabólicas” do capital se precipitam sobre as “contradições fundamentais” do modo de produção capitalista, explicitando-se como crise ecológica, crise sanitária e crise humana. Elas dizem respeito às “fraturas metabólicas” (“metabolic rift”) operadas pelo capital no corpo orgânico do homem (a natureza externa e a natureza interna do homem).

 

A “fratura metabólica” é a desconexão ou o desequilíbrio da interação metabólica entre a humanidade e o resto da natureza derivada da produção capitalista e da crescente divisão entre a cidade e o campo.

 

A ideia de “fratura metabólica”, de acordo com John Bellamy Foster (2005), foi desenvolvida nas primeiras reflexões de Marx nos “Manuscritos económicos e filosóficos”. Nos seus livros, Foster desenvolveu o conceito de “fratura metabólica” nas reflexões de Marx sobre capitalismo e agricultura. Marx apresentou “uma maneira sólida e científica de representar o intercâmbio complexo e dinâmico entre os seres humanos e a natureza, resultado do trabalho” (Foster, 2005; 2020).

 

Diferenciando-se dos que atribuíram a Marx uma indiferença pela natureza, Foster encontrou na teoria da “fratura metabólica”, a evidência da perspetiva ecológica de Marx. A teoria da “fratura metabólica” permite desenvolver uma crítica da degradação ambiental que antecipou grande parte do pensamento ecológico atual, incluindo as questões de sustentabilidade.

 

Ao desdobrarmos as contradições metabólicas do capital para além da crise ecológica (a “fratura metabólica” entre o homem e a natureza externa), consideramos também como “fratura metabólica”, as crises sanitárias (epidemias, pandemias e surtos de adoecimento mental) e a crise humana que diz respeito à desvalorização da força de trabalho humana envelhecida. Na verdade, as “contradições metabólicas” do capital se interrelacionam de modo complexo; e compõem, ao lado das “contradições fundamentais” do capitalismo, o cenário da crise estrutural do capital.

 

Nas condições históricas do capitalismo global, as “contradições metabólicas” se manifestam de forma global, possuindo uma dinâmica histórico-geográfica bastante específica (o movimento da cumulatividade e longa temporalidade histórica).

 

Na medida em que expressam fenómenos complexos, as contradições metabólicas adquirem o caráter de emergência histórica no sentido de serem manifestações da complexidade (Folloni, 2016).

 

A pandemia do novo coronavírus foi o elemento diruptivo - explosivo - da crise ecológica no século XXI. Mas a “fratura metabólica” do capital opera também com elementos não-diruptivos e cumulativos, quase silenciosos, que, numa longa temporalidade histórica, têm características catastróficas para o mundo do trabalho.

 

Por exemplo, a mudança climática por conta do aquecimento global, é um elemento não-diruptivo da crise ecológica. Ela provoca alterações do clima da Terra que afetam a produção agrícola, degradando as condições de vida das populações proletárias pobres e envelhecidas do mundo do trabalho nas metrópoles. A disseminação de problemas de saúde física e mental da força de trabalho envelhecida global é outro elemento não-diruptivo da crise sanitária do capital.

 

Como manifestação da alienação e auto-alienação do trabalho vivo, a crise sanitária encontra seu caráter catastrófico na precariedade dos sistemas públicos de saúde e de assistência social. O envelhecimento populacional e da força de trabalho global no século XXI, conjugado com os outros elementos das contradições metabólicas do capital, constitui também elemento não-diruptivo que se configura como crise humana.

 

Por um lado, a necropolítica é o modo de explicitação da política anti-humana do capital face às suas contradições metabólicas num cenário de crise estrutural do capitalismo global (Alves, 2018).

 

Por outro lado, o metabolismo demográfico do capital no século XXI deve explicitar uma nova camada social do proletariado: o gerontariado, a camada social do proletariado constituída pelo precariado envelhecido, o contingente de trabalhadores “mais velhos” e trabalhadores idosos precarizados nos seus direitos trabalhistas e previdenciários.

 

Contradições metabólicas e crise estrutural do capital

 

As “contradições metabólicas” – que podem ser consideradas contradições perigosas (Harvey, 2016) - expõem os limites do capital. É por isso que podemos caracterizar a crise estrutural do capital como sendo a forma histórica no interior da qual o capital opera seus limites que, na fase elevada do processo civilizatório, adquire uma feição catastrófica.

 

No plano do movimento da acumulação do capital no século XXI, coloca-se a seguinte questão: de que maneira o capital deve se adaptar para “conciliar” as disparidades entre o seu processo de acumulação, que é necessariamente exponencial, e as condições que podem limitar a capacidade de crescimento exponencial do capital, tais como, por exemplo, as mudanças demográficas que caracterizam o século XXI?

 

Ao discutir o que ele denominou de “contradições perigosas”, David Harvey (2013) começou discutindo o problema do crescimento exponencial (onde tratou ligeiramente das mudanças demográficas); e depois, discutiu a relação do capital com a natureza (crise ecológica); e, por fim, o que ele denominou “revolta da natureza humana (a alienação universal)”. Interessa-nos verificar como ele aborda o problema do crescimento exponencial do capital, pois ele é a raiz da contradição entre o capital e o envelhecimento humano.

 

Ao tratar do crescimento exponencial, Harvey salientou que as mudanças demográficas colocam dificuldades estruturais para o movimento da acumulação do capital no século XXI. Diz ele que, para que o padrão de vida possa se sustentar, a economia tem de crescer pelo menos a taxas iguais à da população. Portanto, existe uma relação entre as trajetórias demográficas e a dinâmica da acumulação do capital.

 

Com o envelhecimento populacional no século XXI, a população mundial deve se estabilizar durante este século, atingindo um máximo de 12 bilhões de pessoas (ou talvez menos, em torno de 10 bilhões) até o fim do século e, a partir de então, provavelmente mantenha uma taxa estável de crescimento zero. Harvey não discutiu a natureza das mudanças demográficas do século XXI, caracterizada pelo envelhecimento da força de trabalho por conta da queda da taxa de fertilidade global do trabalho vivo. Este é o novo padrão demográfico do capital.

 

No futuro, a acumulação de capital terá de se apoiar cada vez menos no crescimento demográfico para se manter ou impulsionar seu crescimento exponencial; e as dinâmicas de produção, consumo e realização do capital terão – de acordo com Harvey - de se ajustar às novas condições demográficas.

 

David Harvey afirma que é impossível imaginar que a acumulação de capital possa abandonar o crescimento exponencial dos últimos dois séculos, culminando numa economia estável de crescimento zero. Diz ele:

 

“O capital é a busca de lucros. Para todos os capitalistas, realizar lucro positivo é ter mais valor no fim do dia do que tinha no início. Isso significa uma expansão da produção total do trabalho social. Sem essa expansão, o capital não existe. O crescimento zero define uma condição de crise para o capital. Quando se prolonga, um crescimento zero como o que predominou em grande parte do mundo na década de 1930 é uma sentença de morte para o capitalismo” (Harvey, 2016).

 

Deste modo, pode-se dizer que existe uma barreira demográfica, ou limite interno do capital, que deve se impor à acumulação de capital no século XXI. O envelhecimento da força de trabalho que caracteriza o novo metabolismo demográfico do capital é um limite como barreira para o capital em sua sanha de crescimento exponencial. Ele faz parte do novo metabolismo do homem com a natureza (natureza externa e natureza interna, isto é, a relação do homem com o próprio homem; e do homem com si mesmo entendido como corpo e mente).

 

O novo padrão demográfico do capital é caracterizado não apenas pela queda global da taxa de fertilidade, mas pelo aumento da expectativa de vida e da longevidade humana. Portanto, o processo de desenvolvimento da relação-valor produz uma sociedade do trabalho vivo envelhecido que tende a tornar-se um fardo para o capital.

 

A discussão da crise enquanto dialética entre as barreiras (“Schranke”) ou o limite (“Grenze”) do capital; ou ainda, da crise enquanto dialética da finitude e infinitude (a partir de Ruy Fausto, 1987), é importante para expormos, de modo introdutório, a natureza endógena, isto é, intrínseca ao próprio desenvolvimento interno do sistema, da crise humana do século XXI (o envelhecimento humano na sociedade das pessoas sem valor).

 

Contradições metabólicas como limites internos do capital

 

As contradições metabólicas não são dadas desde o início do modo de produção capitalista, embora pertençam hoje à sua interioridade. A rigor, nos modos de produção pré-capitalistas não havia a “fratura metabólica” entre o homem e a natureza. Deste modo, a interioridade dos elementos metabólicos enquanto pressuposições da produção do capital, consistia precisamente – de início - numa exterioridade.

 

Ela – a natureza externa e a natureza interna do homem (o corpo e mente do organismo humano e sua população com seu regime de fecundidade) caracterizavam outros modos de produção pré-capitalistas, não nascendo do desenvolvimento do capital, embora tenham estado lá desde o inicio, como pressuposição do modo de produção. Esta presença imediata é “exterioridade”, o que permite chamá-los, num primeiro momento, de barreiras (“Schranke”) e não de limites (“Grenze”). Como salientou Ruy Fausto (1987), o limite do capital é o ponto além do qual é impossível a conservação do sistema, mas se pode dizer também que a autoconservação do sistema é seu limite.

 

Entretanto, o capital no seu desenvolvimento histórico, subsumiu seus elementos metabólicos pressupostos (a natureza externa e interna do homem). Enquanto barreiras externas postas, a produção do capital os in-corporou em si e para si, e portanto, ultrapassou-os na medida em que ocorreu a produção (e reprodução) da natureza externa e interna do homem à sua imagem e semelhança (a natureza do capital). Abriu-se deste modo, a “fratura metabólica” entre o homem e a natureza.

 

No início, o capitalismo não tem barreiras internas, mas tem limites imanentes que compõem as suas contradições fundamentais e que coincidem com a natureza do capital, e com as suas determinações essenciais e fundamentais (Fausto, 1987). Como dissemos, de início, os elementos metabólicos da natureza indicados acima são barreiras externas. Diz Fausto citando Marx:

 

«“(...) o capital” (...) derruba “todas as barreiras que freiam o desenvolvimento das forças produtivas, a ampliação das necessidades, a multiplicidade da produção” (...). Em parte, já são limites postos como barreiras, mas o capital os ultrapassa. As barreiras se repõem, entretanto, e seu movimento aparece como um mau infinito. Mas chegando a um certo ponto, o sistema entra em crise. Isto significa que num certo ponto (que se pode chamar de limite), os limites internos do capital se transformam em barreiras que ele não pode mais ultrapassar» (Fausto, 1987).

 

Deste modo, as barreiras externas – os elementos metabólicos – são incorporadas de início pelo capital, sendo ultrapassados como limites postos, como barreiras que o capital os ultrapassa.

 

Entretanto, na medida em que se desenvolve a relação-valor ou o modo de produção capitalista propriamente dito, a natureza do capital – a natureza externa e interna à sua imagem e semelhança - se repõe como barreiras internas (que se pode chamar de limite).

 

Deste modo, como salienta Fausto, os limites internos do capital se transformam em barreiras que ele não pode ultrapassar. Esta é a fase de desenvolvimento das contradições metabólicas que compõem – ao lado das contradições fundamentais – a crise estrutural do capital.

 

Portanto, num primeiro momento, os elementos metabólicos da natureza externa e interna, são “exterioridades” que não são imediatamente inerentes ao capital. Depois, na medida em que ocorre o desenvolvimento do sistema, eles são incorporados e tornam-se limites postos como barreiras, sendo ultrapassados, convertendo-se na natureza do capital, demarcada por fissuras metabólicas.

 

Entretanto, na medida em que tornam-se barreiras internas e implicam-se com as contradições fundamentais do capitalismo, constituindo com elas um todo complexo, elas são postas como limites internos do capital, isto é, “barreiras que ele [o capital] não pode mais ultrapassar”.

 

Assim, como nos lembra Ruy Fausto, o limite do capital é o ponto em que a expansão do sistema não é mais possível. A exposição da dialética da crise do sistema é apresentada sob forma temporalizada, delineando-se no tempo o processo que conduz à negação do sistema. Interessa ao filósofo brasileiro, tematizar sua lei tendencial, em que o tempo não é cíclico, mas opera com passagens da quantidade à qualidade e saltos ontológicos que implicam no movimento de corrupção do sistema. O que caracteriza a modalidade neste nível é a passagem do necessário ao impossível na medida em que a necessidade do sistema se interverte em sua impossibilidade (Oliveira, 2004).

 

Ao incorporar, de início, as “barreiras externas” (a natureza) como limite visando ultrapassá-las, o capital só as ultrapassou (“darüber weg”) idealmente (“ideel”), não significando que ele, de forma alguma, as tenha vencido realmente (“real”); e como cada uma dessas barreiras contradiz a determinação do capital, sua produção se move em contradições que são constantemente vencidas, mas igualmente constantemente postas.

 

Portanto, a subsunção “real” da natureza - externa e interna, incluindo o trabalho vivo - ou a produção da natureza do capital, não significou o ultrapassamento real da natureza enquanto barreira posta como limite pelo capital, mas sim apenas, seu ultrapassamento ideal. Engendra-se no movimento do capital diante da natureza, um “mau infinito”, utilizando a lógica dialética de Hegel, conforme Ruy Fausto, pois a natureza não foi suprimida (“aufgehohen”), mas sim anulada, pois as barreiras externas postas (incorporadas) como barreiras internas, foram ultrapassadas e vencidas apenas idealmente mas não realmente (Fausto remete ao conceito do ideal (“ideel”) em Hegel, 2016).

 

Nesse caso, o capital é aqui o infinito que operou a primeira negação do finito (negação que é justamente ideal e não real) e na qual, por isso mesmo, o finito deve emergir de novo – nesse caso como contradição metabólica que irrompe sobre as contradições fundamentais.

 

Nas condições da crise estrutural do capital, as “contradições fundamentais” do capitalismo se precipitam (“hinausstreibt”) sobre as contradições metabólicas do capital, que se tornam limites como barreiras que ele não pode ultrapassá-las.

 

Entretanto, pode-se dizer também que o limite é a auto-expansão, onde a auto-expansão, nas condições do capitalismo propriamente dito, é o desenvolvimento das forças produtivas, um desenvolvimento que é potencialmente infinito. Diz Ruy Fausto, citando os Grundrisse de Karl Marx:

 

«Enquanto o desenvolvimento das forças produtivas aparece como infinito: “(...) constata-se que (...) o desenvolvimento das forças produtivas suscitado pelo próprio capital no seu desenvolvimento histórico, chegando a um certo ponto, suprime (“hebt auf”) a autovalorização do capital em lugar de pô-la”. Para além de certo ponto, o desenvolvimento das forças produtivas se torna uma barreira para o capital; assim, a relação-capital se torna uma barreira ao desenvolvimento das forças produtivas do trabalho» (Fausto, 1987).

 

No processo histórico do capital onde se desenvolvem suas contradições fundamentais e contradições metabólicas, há uma dialética do finito e do infinito. O limite é pois aqui, um infinito.

 

No entanto, esse infinito potencial se manifesta no interior do movimento do capital, como limite (isto é, “barreira que ele não consegue ultrapassar”); e assim, como finitude (a queda tendencial da taxa de lucro, exposta por Marx no Livro 3 de O Capital) (Marx, 2017).

 

O que queremos salientar é que, de início, o capital transforma os limites em barreiras para poder ultrapassá-las (foi o que ele fez com a natureza externa e interna do homem, ao incorporá-las como sua própria natureza). Disse Marx: “(...) o próprio desenvolvimento da força produtiva (...) [é] a barreira para o desenvolvimento da sua [do capital, RF] força produtiva.” (Marx, 2011).

 

Entretanto, existe uma “contradição viva” - é o capital e todas as suas condições que aparecem contraditoriamente como finitude na medida em que sua auto-expansão desenvolve contradições fundamentais e metabólicas, limites internos postos como barreiras que ele não consegue ultrapassá-las.

 

Fausto diz que o capital é produtivo, isto é, ele é uma relação essencial para o desenvolvimento das forças produtivas sociais. Entretanto, ele só deixa de ser quando o desenvolvimento das forças produtivas, elas mesmas, encontram uma barreira no próprio capital:

 

“A universalidade à qual aspira irresistivelmente o capital, encontra barreiras na sua própria natureza, as quais num certo grau de seu desenvolvimento, fazem reconhecer ele próprio como a maior barreira a esta tendência, e por isso através dele mesmo o impulsionam à sua abolição” (Fausto, 1987).

 

Ruy Fausto destaca dois movimentos lógicos de negação operados pelo desenvolvimento do capital: primeiro, o infinito potencial do desenvolvimento das forças produtivas, na qual está incorporada a natureza, aparece como finitude para o capital.

 

Ao mesmo tempo, a finitude do capital e todos os seus limites postos como barreiras (que ele não consegue ultrapassar), aparece representando o crescimento das forças produtivas para além do capital. Diz Fausto: “Essa infinitude – que é finitude para o capital nas condições do capital – ultrapassa o capital”.

 

Há assim, de acordo com Fausto, interversão no contrário de cada um dos termos: o que aparecia como finito se atualiza como infinito (da segunda negação) e o infinito (da primeira negação) se revela finito na medida em que expõe – como temos salientado aqui – as contradições fundamentais e metabólicas do capital. E Ruy Fausto conclui: “A crise do capitalismo é a emergência da identidade no interior de uma forma cuja identidade só pode ser a da não-identidade” (Fausto, 1987). Isto é, a natureza produzida pelo capital que se afirma como identidade entre Capital e Natureza (indústria), faz emergir uma forma histórica cuja identidade só pode ser a da não-identidade entre Natureza e Capital, expondo assim, o que denominamos como contradições metabólicas do capital.

 

Esta é a lógica dialética que compõe o movimento do sistema do capital, que incorpora barreiras externas (os pressupostos metabólicos) como “barreiras internas” que lhe são específicas na medida em que se compõe com a natureza do capital e suas contradições fundamentais.

 

A discussão das contradições fundamentais do capital deve se articular com o entendimento de suas contradições metabólicas que se tornaram – em si e para si – elementos compositivos do limite do capital. Disse Marx:

 

“Ele [o capital] põe conforme a sua natureza, uma barreira para o trabalho e a criação de valor, a qual está em contradição com a sua tendência a se ampliar desmesuradamente. E como ele põe uma barreira que lhe é específica e ao mesmo tempo se precipita (“hinaustreibt”) por outro lado sobre toda barreira, ele é a contradição viva" [grifos de Marx) (Marx, 2011)

 

Quando Ruy Fausto, a partir de Marx, fala de possibilidade da crise, como verificamos acima, trata-se de possibilidade abstrata, ou seja, da forma abstrata da crise sem conteúdo algum.

 

Nossa hipótese é que o caminho da possibilidade para a efetividade da crise estrutural do capital se revela quando as “contradições fundamentais” se precipitam (“hinausstreibt”) sobre as contradições metabólicas que se tornam “limites como barreiras” que ele não pode ultrapassá-las.

 

Na verdade, a problemática da contradição se radica em determinadas relações reais. A problemática da mudança demográfica se põe no interior da questão do crescimento exponencial do capital (Harvey, 2016), tendo em vista o limite dado pelo próprio metabolismo demográfico da força de trabalho, a única capaz de produzir o mais-valor. Deste modo se coloca a importância para o desenvolvimento do sistema da lógica do limite (lógica do ser) da dialética do finito e do infinito num horizonte quantitativo (Oliveira, 2004).

 

No plano das “contradições fundamentais” do modo de produção capitalista, o processo de valorização como um movimento desmedido, põe sempre de novo um limite que serve de medida para a criação do valor em cada circuito subsequente; mas, na medida em que é limite quantitativo, emerge como uma barreira a ser permanentemente ultrapassada pelo próprio impulso infinito de autovalorização (o crescimento exponencial salientado por David Harvey, 2016).

 

A crise surge, porém, quando o limite com que o capital se confronta não é mais um limite externo como barreira a ser superada, mas um limito interno ao próprio capital, manifestação de sua autonegação e que constituiu o fundamento da crise, elemento fundamental para compreender seu modo de atuar.

 

O metabolismo demográfico com que o capital se defronta no século XXI não constitui um limite externo como barreira a ser superada. Ele diz respeito a um regime demográfico adequado à nova etapa de desenvolvimento do sistema – o capitalismo global (Alves, 2018) – que se manifesta como um limite interno ao próprio capital.

 

É deste modo que as “contradições metabólicas” se implicam com as “contradições fundamentais” do capitalismo e elas precipitam (“hinausstreibt”) sobre as “contradições metabólicas”, expondo as contradições metabólicas – e no caso, as mudanças demográficas – como “limites como barreiras” que o capital não pode ultrapassá-las. Esta é a manifestação de sua autonegação e que constituiu o fundamento da crise, elemento fundamental para compreender seu modo de atuar.

 

Mas o que se coloca como problemática é como a acumulação do capital pode mudar seu funcionamento para se adaptar ao que parece ser uma situação crítica e assim se reproduzir?

 

Esta questão foi levantada por David Harvey (2013) logo depois de fazer uma breve referência às mudanças demográficas no século XXI que devem colocar limites como barreiras à acumulação do capital e ao crescimento exponencial no sentido da produção de mais-valor.

 

Harvey (2013) procurou responder tal questão observando que, diante de suas barreiras, o capital deve operar uma série de adaptações já em andamento para evitar as dificuldades de acumulação tendo em vista as mudanças demográficas. O capital deve, de acordo com ele, operar “adaptações comportamentais” que podem remodelar a dinâmica acumulativa do capital e, ao mesmo tempo, preservar sua “essência necessária” de crescimento exponencial no século XXI.

 

David Harvey salientou quatro adaptações estruturais: (1) a forma-dinheiro impulsionando acumulações sem limites; (2) a destruição e desvalorização do capital; (3) a privatização dos ativos públicos; e (4) a criação de novos mercados e novos cercamentos de bens comuns (de terra e água a direitos de propriedade intelectual).

 

Mas ele ressaltou também as transformações radicais na natureza, na forma, no estilo e no volume do consumo final. Ele observou que o capital tem sistematicamente encurtado a vida útil dos bens de consumo, produzindo mercadorias que não duram, forçando uma “obsolescência programada” e às vezes instantânea, criando rapidamente novas linhas de produtos (como tem acontecido ultimamente com os aparelhos eletrônicos), acelerando a rotatividade pela mobilização da moda e da propaganda para enfatizar o valor da novidade e a falta de elegância do velho). Foi isto que levou ao que o filósofo István Mészáros denominou de aumento da taxa de utilização decrescente do valor de uso (Mészáros, 2011). O movimento da produção e do consumo de espetáculos tornou-se uma forma efêmera de mercadoria que é consumida instantaneamente.

 

The last but not the least, David Harvey salientou outra “adaptação comportamental” do capital diante de seu limite: a utilização do capital fictício, isto é, investir o capital excedente não na produção, mas na compra de ativos (inclusive títulos de dívida). Diz ele:

 

“As contradições, longe de conter os excessos umas das outras, como aconteceu algumas vezes no passado, serão muito mais propensas a explodir e contagiar umas às outras sob a pressão crescente de um crescimento exponencial necessário. Os valores de uso estarão fadados a ser uma consideração cada vez mais trivial num cenário de explosão de considerações sobre o valor de troca provocada pelas febres especulativas. Disso devem resultar alguns resultados bastante surpreendentes” (Harvey, 2013).

 

Caso não haja superações das contradições expostas, elas devem se reproduzir de forma ampliada, operando deslocamentos geográficos administradas pelo Estado por meio dos seus vários mecanismos.

 

Entretanto, David Harvey não deixa de reconhecer que existe um limite para o capital: a produção do mais-valor. É o que ele identificou como sendo o limite do crescimento exponencial. Pode-se dizer que o capital é obrigado a operar por meio da produção – sob pena de arruinar-se numa crise estrutural. A utilização hipertrofiada da forma-dinheiro ou do capital fictício representam formas falsas de superação dos limite exposto pela lei do valor.

 

É importante dizer que David Harvey discorda que a lei tendencial da queda da taxa de lucro exposta por Marx no volume 3 de O Capital, seja a causalidade essencial da crise estrutural do capital (Harvey, 2013). Entretanto, como vimos acima, ele não deixa de reconhecer que o capital encontrou no século XXI, o seu próprio limite, tendo em vista as mudanças tecnológicas e demográficas operadas pelo próprio capital. Pode-se dizer que é isto que explica as crises financeiras que expõem dificuldades de fundo da acumulação do capital produtivo, apesar da operação feita pelas politicas dos bancos centrais aliadas à classe rentista do capital.

 

Para além da discussão da acumulação do capital, existe outra problemática que o novo metabolismo demográfico do capital deve expor no século XXI e que diz respeito à contradição entre modo de produção e envelhecimento da força de trabalho. Esta nova problemática humana não diz respeito diretamente à acumulação de capital, embora seja produto dela.

 

Quando salientamos a crise humana como produto da “contradição metabólica” entre modo de produção e senescência humana, expomos a questão social entre capital e trabalho sob outra perspetiva histórica. A verdadeira “fratura metabólica” é aquela entre capital e trabalho vivo que se desdobra e expõe-se na relação do modo de produção com o ecossistema natural. Enfim, a questão social da crise humana é a seguinte: o que fazer com a superpopulação relativa produzida pela nova dinâmica de acumulação do capital em sua etapa de crise estrutural? Como diria Marx (1978), “Hic Rhodus, hic salta”! (1)

 

 

 

 

 

 

(*) Giovanni Alves é professor de Sociologia na Universidade Estadual Paulista (UNESP-Marília), pesquisador do CNPq e coordenador-geral da Rede de Estudos do Trabalho. Coordena ainda os seguintes projetos de extensão universitária: Projeto Tela Critica, voltado para a produção de material pedagógico de conteúdo sociológico que visa discutir temas da sociedade global através da análise critica de filmes do cinema mundial; Projeto CineTrabalho, voltado para a produção de vídeos que tratem das experiências vividas e percebidas do mundo do trabalho. É autor de vários livros na área da sociologia do trabalho, globalização e reestruturação produtiva, entre eles Trabalho e Mundialização do Capital (Editora Praxis, 1999), Dimensões da Globalização (Editora Praxis, 2001), Limites do Sindicalismo - Marx, Engels e a Crítica da Economia Política (Editora Praxis, 2003), Dimensões da Reestruturação Produtiva - Ensaios de sociologia do trabalho (Editora Praxis, 2007), Trabalho e subjetividade - o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo, 2011) e O Duplo Negativo do Capital: Ensaio sobre a crise do capitalismo global (Editora Praxis, 2018). É editor-chefe do Projeto Editorial Praxis e colunista no Blog da Boitempo. E-mail: alvesgiovanni61@gmail.com. O presente artigo foi extraído do seu livro As Contradições Metabólicas do Capital: Crise Ecológica, Envelhecimento e Extinção Humana (Praxis, 2020). Disponível na Amazon.

 

 

 

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NOTA:

 

(1) “Aqui está Rodes, salta aqui!” - Esta frase é tirada de uma das fábulas de Esopo: Um fanfarrâo gabava-se de ter testemunhas para provar que havia certa feita, executado um notável salto em Rodes, tendo recebido a seguinte resposta: "Para que citar testemunhas se é verdade? Aqui está Rodes. Salta aqui!" Em outras palavras: Mostra aqui mesmo, na prática, o que és capaz de fazer! (Marx, 1978).

 

 

 

Referências bibliográficas

 

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