Em louvor de bárbaros e profetas

 

 

Ângelo Novo (*)

 

 

 

“O que esperamos nós em multidão no Forum?

 

Os Bárbaros, que chegam hoje.

 

Dentro do Senado, porque tanta inacção?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

 

É que os Bárbaros chegam hoje.

Que leis haveriam de fazer agora os senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

 

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?

E às portas da cidade está sentado,

no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

 

Porque os Bárbaros chegam hoje.

E o Imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

 

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

 

Porque os Bárbaros chegam hoje,

e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

 

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

 

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

 

Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?

 

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

 

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.”

 

Konstantinos Kaváfis, ‘À espera dos Bárbaros’

(tradução de Jorge de Sena)

 

 

I.

De toda a evidência, a civilização capitalista ocidental ainda não atingiu o grau de decomposição orgânica interna e de prostração anímica retratados neste célebre poema. Lá chegaremos, se não se interpuserem entretanto desenlaces históricos mais auspiciosos. Está em retirada, sim, em todas as frentes, mas sob cobertura de um frémito de agressividade ofensiva sem paralelo. Nações que tentem subtrair-se à submissão e ao tributo são entregues ao caos e transformadas em “Estados falhados”. Para o efeito, multidões juvenis idealistas são cinicamente usadas como massa de manobra para supostas “revoluções coloridas”, para logo serem enquadradas e/ou alvejadas provocatoriamente por terroristas e mercenários a soldo.

 

Assassinatos à distância, individuais ou em massa, bombardeamentos indiscriminados, operações mercenárias de resgate, suborno, rapto, tortura, aniquilação, corpos lançados ao mar, acidentes aéreos civis provocados, tudo isto é ocultado ou imerso na densa teia de desinformação criada por ONG’s estipendiadas e imprensa corporativa, cujo papel é fazer-nos crer que luz, civilização e democracia estão sempre do lado de cá. O lado da alvura sempre incansavelmente generosa e esclarecida. Ontem em expansão, hoje em retraimento, mas sempre com o mesmo canto de sereia progressista e universalista. Levantam-se muros, cavam-se fossos, policiam-se os mares com uma política oficial deliberada de negação de assistência a náufragos (que é criminalizada), os afogados dão à costa aos milhares todos os anos, constroem-se, lá fora, campo de internamento forçado, guardados por facínoras milionarianente contratados para os guardar e reencher constantemente. Os raros refugiados que conseguem, ainda assim, prosseguir caminho, são recebidos nas fronteiras à bastonada e ao tiro. E ainda assim continua em rodagem e difusão universal constante uma operação de sedução pelo modo de vida ocidental, dito “livre”. Bright lights, big city!

 

As vítimas encantadas por esta melopeia hipnótica tornam-se gente do tipo “sonhador”. Sonham com vidas confortáveis e bem apetrechadas em equipamentos avançados. São gente sensível aos apelos do consumismo materialista e ao desenraizamento em relação às sociabilidades tradicionais, propugnado incessantemente pelos grandes meios de comunicação ocidentais. Gente, por vezes, até fluente no jargão tecnocrático da boa “governança” liberal, virtude republicana, lisura democrática e outros primores doutrinais jeffersonianos. Ora, os poderes ocidentais nunca quiseram do “outro” mais do que submissão absoluta e tributo incondicional. A modernidade universalista sempre foi, e continua a ser, pura farsa e engodo. Nem na expansão, e muito menos na retirada, foi missão da civilização ocidental espalhar generalizadamente o seu modo de vida e as suas instituições. Quanto a “corrupção”, infelizmente, vivemos num mundo capitalista dividido, generalizadamente, entre países pobres e corruptos e países ricos, muito mais corruptos ainda. O mais é arrogância etnocêntrica e beatice fingida.

 

É até certo ponto compreensível que jovens, confinados num ambiente social, cultural e político muito constrangedor, sob o látego da austeridade, com acesso a meios individuais de comunicação de última geração, tenham a ilusão de que o horizonte da liberdade possível estará na submissão a poderes mais elevados que os do seu Estado, ou seja, diretamente ao imperialismo mundial, que funcionaria como uma espécie de éter cívico globalizado. Mas isto é um erro (aliás, cinicamente induzido e manipulado) de consequências trágicas, infelizmente bastante expandido nesta era de desideologização ou dessignificação exponencial e algorítmica. Até por aqui se vêm os malefícios das teses de Hardt e Negri sobre o pretenso “Império” desterritorializado. São os bakuninistas em ação, uma vez mais: destruir o Estado, pura e simplesmente, nunca deu liberdade a ninguém. Estamos a ver os resultados na Líbia, na Síria e no Iémene, com mais candidaturas em perspetiva, com os respetivos dossiers a ser ativamente preparadas, no Líbano, no Iraque, no Irão e na Venezuela.

 

A relativa liberdade cívica de que gozam os cidadãos dos países ocidentais é, em grande medida (em toda a medida em que não é pura ilusão), apenas o fruto do privilégio. Vivemos num mundo regido pela troca desigual, em que o valor é sistematicamente sugado para as metrópoles centrais, por diversos meios (1). Aí vive-se com relativo desafogo, que permite alguma distensão na vida política. Constitui-se uma classe “média” robusta e relativamente numerosa, que é a espinha dorsal dos regimes demoliberais. Existe uma certa margem de liberdade, aliás cada vez mais restringida. Ora, por definição, o privilégio não é extensível nem generalizável. Não chega a ser metade a fração ensolarada deste planeta, no que respeita a condições dignas de vida humana. Dentro da dinâmica própria do sistema capitalista mundial, liberdades consentidas aqui são necessariamente liberdades negadas e espezinhadas alhures.

  

Com efeito, a difusão democrática que as elites ocidentais tanto se ufanam de promover mundialmente, desde os anos 1990 (nomeadamente por meio de uma agência satélite da CIA chamada National Edowment for Democracy), não tem rigorosamente nada a ver com democracia. Aquilo que, no linguajar da imprensa ocidental, se denomina “democracia” já foi, há muito tempo, de forma bem mais exata, qualificado como “poliarquia” (2), o governo de alguns ou de uns tantos. São regimes políticos amigos do “mercado livre”, dominados por diminutas oligarquias clientelares submissas ao Ocidente (em particular aos E.U.A.). Esses regimes praticarão um arremedo de pluralismo, no restrito âmbito da vida social das suas minúsculas e exógenas elites. Uma espécie de “sociedade civil” é promovida, estruturada e doutrinada. Dentro desses parâmetros, tanto quanto lhes for possível (e não mais do que isso), os mesmos regimes procurarão legitimar os seus governos, para esse efeito submetendo periodicamente ao voto popular a escolha entre duas ou mais fações da elite. A gobalização neoliberal, com total liberdade dos fluxos financeiros internacionais são, naturalente, as únicas políticas permitidas.

 

Desgraçadamente para os seus promotores, este tipo de “democracia” revela-se tremendamente instável, sobretudo em tempos de crise de acumulação e crescente polarização social. Quando os países periféricos se afastam deste modelo-padrão, por exemplo, com uma mais ampla participação popular na vida política, mecanismos voluntaristas de promoção social, de desenvolvimento económico autocentrado, etc., os seus regimes são imediatamente qualificadas como “ditaduras”, aberrações anarquizantes, demagógicos, assistencialistas, esbanjadores, corruptos, etc.. A democracia, em sentido ocidental, não diz respeito ao povo, ao demos. Por isso mesmo se diz incompatível com o “populismo”, expressão que deve ser pronunciada com um esgar de repugnância. Nestes casos, é a altura para colocar em ação todo um cardápio de mecanismos de coação económica e político-diplomática, culminando na ameaça de um regime change. Quando o desvio for por limitação ou eliminação total das liberdades públicas, dentro da obediência aos ditames neoliberais, aí estará tudo bem para as chancelarias e a imprensa ocidentais. Tudo, naturalmente, sempre em nome da sacrossanta “democracia”.

 

Quem se habituou a visitar países do outrora chamado “Terceiro-Mundo” - as nações “mais escuras” (3) -, sabe que aí encontra sempre basicamente duas espécies de pessoas: os nossos “amiguinhos”, sempre sorridentes e prestáveis, e aqueles que nos acolhem com distância, digna reserva, mesmo por vezes um certo toque de desdém. Os caracteres que me interessaram foram sempre os deste último tipo. É neles, aliás, que reside toda a esperança de desenvolvimento sustentado para as suas nações e para os seus povos. Mas os poderes imperialistas, os grandes mass media e a ideologia oenegeísta ocidental, de forma previsível, apostam tudo nos primeiros. Com eles promovem todo o tipo de conspiratas, indo até à insurreição, para, alegadamente, disseminar um mundo ideal de progresso infinito, abundância consumista e demoliberalismo westminsteriano a todos os azimutes.

 

Ora, os nossos “amiguinhos” são, por regra, gente que vive de expedientes, sem qualquer influência estruturante ou prestígio das sociedades locais. Não são capazes de articular fundamentadamente quaisquer propostas políticas dignas desse nome. O que resulta naturalmente destes levantamentos é apenas guerra interminável, desestruturação e caos. E era isso mesmo, afinal, o que pretendia o sóbrio e reservado planeamento estratégico ocidental. Em particular o israelita, sempre particularmente empenhado e infatigável nessa missão (4).

 

Donald J. Trump tem a particularidade interessante de, do alto do seu egocentrismo patológico, se borrifar completamente para protocolos diplomáticos e outras melosas conversas demo-humanitárias, dizendo por vezes as coisas como elas são. E foi assim que ameaçou telefonicamente o primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul-Mahdi, dizendo-lhe que, ou ele aquiescia às exigências norte-americanas de rescisão de um contrato assinado com a China, ou ele iria lançar multidões nas ruas em protestos contínuos, mandando simultaneamente disparar sobre elas, até derrubar o governo e criar o caos total no país (5). E se bem o disse melhor o fez. Ou tentou. Abdul-Mahdi resignou, para evitar danos maiores.

 

Em abril de 2018, atingiu-se um novo cume na sempre elevadíssima autoconsciência humanitarista ocidental. Os nossos amiguinhos na Síria estavam há anos alertados para uma “linha vermelha” estabelecida pelo preclaro presidente Barack Obama, cuja transposição valeria uma intervenção militar norte-americana contra as tropas de Bashar Al-Assad, nem que fosse apenas uns bombardeamentos de circunstância. Mas a partir daí, quem sabe? Talvez as sortes militares pudessem virar. Pois bem, ao que tudo indica, alguns desses nossos amiguinhos, na localidade de Douma, arrabalde leste de Damasco, gazearam umas dezenas de reféns por si detidos, encenando depois um bombardeamento com armas químicas pela força aérea síria, tudo com a sempre crédula e prestimosa colaboração das agências noticiosas e da indústria oenegeísta ocidental. E lá troaram, enfim, justiceiros, os mísseis de cruzeiro e os caças bombardeiros da NATO (estes últimos sempre a uma prudente distância), com o aplauso compungido e lacrimoso de toda a imprensa séria. Para justificar posteriormente esta intervenção, forjou-se de todas as peças um relatório “científico” da Organização para a Proibição de Armas Químicas (6), detentora do prémio Nobel da Paz.

 

Os anos 1990 e 2000 foram os do intervencionismo militar “humanitário”. Agora temos ainda contínuo humanitarismo, mas já sem intervenção. Amiúde, continua a ver-se e ouvir-se toda a parafernália mediática do mundo ocidental a rufar em uníssono, apopleticamente, os tambores da sua mais virtuosa indignação cívica. Mas a guerra não sai. Armam-se, enfim, as provocações e os “falsos positivos”. E a guerra continua sem sair. Nem na Síria, nem na Líbia, nem na Coreia, nem na Venezuela, nem no Irão. É deveras embaraçoso. O problema é que, contra adversários bem armados, ou até mesmo, tão só, firmes e tenazes no manejo das módicas armas que tenham, a intervenção militar ocidental é uma miragem sem qualquer viabilidade. Mesmo em países tão destituídos como o Afeganistão.

 

A prosápia do império é muito mais forte e chega bem mais longe do que o seu poder efetivo. A médio prazo, porém, não restará outra solução que não seja ajustar a retórica às capacidades efetivas, moderando-a. Para já, persiste este desajustamento, cujo ridículo não mata, mas vai moendo. Centenas e centenas de milhões dos seus seduzidos ficam, para sempre, “fora de limites” (em Hong Kong, p. ex.). Mas constituem ainda uma massa de manobra útil para golpear o inimigo, na cobertura da retirada.

 

Os países capitalistas ocidentais têm, é certo, uma capacidade militar muito considerável para intimidar, sob a ameaça de espalhar destruição em grande escala. Coisa completamente diversa é a capacidade de conquistar e segurar posições em terreno hostil. E a impotência militar neste segundo sentido duplica-se numa incapacidade de exportar capitais estruturantes e infraestruturantes para países periféricos. A crise de lucratividade e estagnação crónica que se faz sentir há muitas décadas impede qualquer veleidade nesse sentido. A exportação de capitais ocidentais é apenas para operações de rapina, de lucratividade rápida, segura e de ocasião. Por fim, o acentuado declínio demográfico atua como atractor para correntes migratórias em direção ao centro do sistema imperialista ocidental. E essa corrente acelera-se de forma imparável com as mutações climáticas, a pilhagem dos recursos e a desestabilização político-militar promovidas na periferia pelas próprias potências ocidentais.

 

De tudo isto decorre que, para quem for empedernida e inconsolavelmente filo-ocidental, nos países periféricos, a única opção razoável de que dispõe é pôr-se a caminho para desempenhar funções serviçais nas metrópoles centrais, vivendo aí em ghettos etno-racializados, policiados em permanência, até à quinta geração ou mais. Pese embora toda a sua multimediática propaganda, o Ocidente jamais irá ter consigo, ao seu rincão nativo, oferecer-lhe desenvolvimento, oportunidades, vida digna e “democracia”. Não o fez nunca. Cada vez menos o fará. Mas ainda muito mais estúpida do que esta esperança desesperançada, é a ideologia de certas correntes pseudo-revolucionárias ocidentalóides, que vêm a emancipação final da humanidade como resultado de um mirífico aufhebung resultante da máxima expansão do projeto moderno euro-yankee.

 

Ora, o Ocidente acabou-se. Pode desabar subitamente, do alto de toda a sua sobranceira estupidez, ou esvair-se de forma paulatina ao longo deste século. De todo o modo, as suas “luzes” fundiram. Em artes, cultura e ideias, não se passa aí praticamente nada de relevante, pelo menos entre aquilo que tem exposição pública. A decadência evidencia-se por todo o lado e em todos os campos. É bom que assim seja e devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para o acelerar. Nesse sentido, a tarefa mais urgente que a humanidade tem pela frente, numa batalha contra-o-relógio pela sua sobrevivência, é o desmantelamento completo de todo o monstruoso sistema mundial de coação e extorsão centrado na costa leste norte-americana, nas suas integradas vertentes militar, de vigilância e “ações especiais”, político-diplomática e económico-financeira. Sem isso, é impossível uma economia mundial sustentável, de desenvolvimento equilibrado e autossuficiência local/regional.

 

Quando começaram os atuais protestos sociais no Chile, o Sebastián Piñera bradou: Já percebi, isto é uma guerra! Foi desmentido pelo seu general-em-chefe (“Não vejo guerra alguma, sou um homem feliz.”) e teve que pedir desculpa à nação. Ora, o Piñera pode ser um fascista histérico, mas não é louco. Percebe-se muito bem o que ele quis dizer. Há, de facto, uma guerra mundial pela sobrevivência do modelo de acumulação neoliberal, dirigida a partir do multímodo sistema de poder yankee (Pentágono/Fed/Wall Street/Casa Branca/FMI/CIA, etc.). O Piñera tinha estado na frente dessa guerra em Cúcuta (com o inefável Richard Branson) e depois viu-a subitamente rebentar em casa, nas ruas de Santiago. Também no Equador. Logo depois, na própria Colômbia. Ficou furioso e não teve o devido tento na língua. É uma guerra já semideclarada contra a China e a Rússia, com frentes ativas de atrito militar em Cuba, na Venezuela, no Médio Oriente, na Coreia, na Ucrânia, nos mares do Sul da China, etc.. Mas é também, senão sobretudo, uma guerra contra os trabalhadores, os povos indígenas, os camponeses, as mulheres, enfim, os subalternos, em todo o mundo. Ora, quando o inimigo nos declara guerra, nós temos mesmo que ouvir. Temos de perceber o alinhamento, cerrar fileiras, mobilizar e combater. Não podemos ficar à margem a protestar contra metáforas inapropriadas.

 

O futuro imediato pertence a um capitalismo multipolar, com as mais variadas referências culturais, religiosas e institucionais. E esse processo só será ainda mais acelerado com o frenesim idiota, persecutório e, por fim, autopunitivo, das “sanções” decretadas por Washington, uma vez falhada a cartada da intimidação militar. Como tática negocial, o imperador tenta incessantemente convencer-nos que enlouqueceu, com risco de que isso se torne por fim real e irreversível, à medida que os seus interlocutores se tornam crescentemente indiferentes a tais arroubos. Mas a patologia específica do homem não pode obscurecer a de um sistema inteiro que, não por acaso, o colocou como seu guardião supremo.

  

A constatação do esgotamento do Ocidente não deve confundir-se com o repúdio do seu legado político no que respeita a Estado de Direito, direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, democracia representativa, etc.. O que se passa é que, não só o Ocidente não está em condições e não faz qualquer tenção de exportar esses valores, como, isso sim, está a traí-los e a abandoná-los de forma cada vez mais precipitada na sua própria ordem interna. No exterior, o Ocidente, que nunca foi promotor da democracia (mas sim do “livre comércio”, sob controlo de oligarquias locais clientelares), tornou-se mais recentemente um seu inimigo mortal, como se viu em Honduras, no Paraguai, na Venezuela, na Tailândia, no Bahrein, no Brasil e na Bolívia. Quem quiser prosseguir, difundir e aprofundar valores democráticos em âmbito cosmopolita, construindo novos espaços de liberdade e autonomia a partir deles, em vez de assinar The Economist, fará muito melhor aposta em apoiar as lutas das classes subalternas nos países capitalistas ascendentes, depois de ajudar a que estes se vejam livres da ameaça estranguladora do Ocidente.

 

Quando as potências capitalistas emergentes se sentirem menos ameaçadas, começará certamente a distender-se a sua vida política interna, podendo rasgar-se espaços mais amplos para a participação cidadã. Entretanto, é pura hipocrisia a gritaria ocidental sobre ameaças ditatoriais e totalitárias vindas do exterior. Essas ameaças são bem reais, mas provêm, isso sim, da própria oligarquia monopolista-financeira ocidental. A crónica crise de lucratividade de que padece, condu-la a um endurecimento constante do seu regime de opressão social, com estreitamento permanente dos espaços de liberdade, pluralismo e expressão contraditória. A barragem de mentiras e contra-informação que jorra de forma constante e uniformizada de todos os grandes meios de comunicação social ao seu serviço chega a exceder a caricatura orwelliana. Em questões internacionais, a informação provinda dos meios de comunicação das “ditaduras” é, sistematicamente, muito mais exata e fiável do que a fornecida pelas “democracias”, como começa a ser evidente para um crescente número de observadores independentes.

 

Nenhum revolucionário comunista apoia entusiasticamente ou de ânimo leve regimes despóticos, liberticidas, misóginos e antioperários. Mas fá-lo-á e deve fazê-lo, se estes forem uma defesa de último recurso contra a guerra civil, o genocídio e o caos, impostos conscientemente e de caso feito pelas grandes potências imperialistas tradicionais, que são os inimigos de primeiro grau e mais intratáveis dos povos, dos trabalhadores, do meio ambiente natural, das comunidades de vida tradicional e das mulheres em todo o mundo. Vencido este terrível inimigo, muitas oportunidades haverá para conduzir lutas democráticas e emancipatórias vitoriosas nesses países. Pelo contrário, nenhuma dessas lutas será possível em conluio, de concerto ou uivando em coro com os lobos imperialistas.

 

Sem medo de parecer sectário, é preciso afirmar, de forma muito clara, que quem diz “sim, mas…” com os imperialistas, não é melhor do que eles. Quem embarca nas feiras de ódio, mentira e propaganda pseudo-esclarecida, pseudo-humanista e pseudo-progressista do imperialismo; quem apoia algumas das suas intervenções militares, criticando apenas a sua seletividade e/ou hipocrisia; quem se rende incondicionalmente aos preconceitos reinantes, caluniando lutadores anti-imperialistas para garantir um lugar de respeitabilidade no parlamento, na academia ou na comunicação social; quem se deixa paralisar pela fobia anti-“bárbara”; quem assim procede, perdeu o direito de se afirmar um revolucionário e um comunista, até que, enfim, se explique, reconsidere e retifique.

 

Ao longo de toda a história da civilização, os bárbaros foram sempre um importante fator de liberdade e de renovação. Este conceito tem sido aplicado na historiografia, desde a mais remota (onde constituía um epíteto de horror depreciativo), para designar povos que não tinham uma organização estatal completamente estruturada, normalmente pastorícios, por vezes não sedentários, alguns deles, contudo, bastante competentes no manejo organizado das armas. Durante perto de quatro milénios (até ao século XVII da nossa era), os bárbaros fizeram a sua vida nas cercanias da “civilização”, em permanente diálogo, comércio e conflito com ela. Inúmeras vezes constituíram um espaço de acolhimento e refúgio para os perseguidos, oprimidos e desqualificados da vida civilizada. Para o seu seio deveria ter-se dirigido Espártaco com o seu exército de escravos, não fossem alguns contratempos surgidos que ficarão para sempre mal esclarecidos. Após muitas razias e conquistas mútuas, o espaço de vida dos bárbaros foi sendo cada vez mais circunscrito a pequenas bolsas. Hoje em dia não existem já bárbaros neste sentido acrata, salvo pequeníssimas comunidades de caçadores-recolectores.

 

O uso do qualificativo de bárbaro, em contexto contemporâneo, é aqui feito em sentido analógico, aproveitando uma similitude nas atitudes que os ocidentais, em geral, adotam para com povos e nações que sentem, cada vez mais, escapar ao seu domínio (7). A analogia tem a ver sobretudo com o facto de estarmos perante duas situações de erosão e possível desabamento de zonas de alta acumulação de riqueza material e simbólica. A primeira nota que há aqui a fazer é que o fim do domínio ocidental não é, de todo, o fim do mundo, nem o início de uma nova era “das trevas”. Não se dará nenhuma catastrófica perda de conhecimento. Muito pelo contrário. A única perda (inconsolável para alguns) é a do privilégio. É o final de um mundo, que nos trouxe, de iniquidade em iniquidade, sempre em crescendo e, por fim, em aceleração infrene, até às cercanias da aniquilação total das condições da vida humana neste planeta. É caso para dizer: Bárbaro é você! E espetar decididamente a nossa adaga nas entranhas destes cavalheiros, rodando-a bem, com o pulso bem firme. Um mundo definitivamente desocidentalizado é a nossa única esperança neste momento. Não basta, como é evidente, mas é um ponto essencial de partida.

 

Os novos bárbaros não são uma horda uniforme e contínua, como aliás também não foi o caso com os que aniquilaram o império romano do Ocidente. Temos, por um lado, vagas migratórias maciças para os centros imperialistas, que fazem ligação com massas proletárias racializadas já aí instaladas, de forma segregada, no seu interior. No seio dos países de acolhimento desempenham geralmente funções servis, com muito poucas oportunidades de mobilidade social. No entanto, conseguem, ainda assim, remeter poupanças e transferir alguns conhecimentos adquiridos para os seus países de origem. A existência destes movimentos clandestinos constantes nas suas fronteiras e de comunidades instaladas no seu interior de forma geográfica e culturalmente segregada, dão origem a uma instabilidade securitária crónica, sobretudo na Europa. A solução só poderá vir de um aprofundamento democrático destas sociedades, com a socialização desracializada dos seus meios de produção estruturantes.

 

Por outro lado, temos potências capitalistas emergentes que desafiam abertamente a hegemonia do Ocidente e toda a sua arquitetura financeira e institucional “globalizadora”. Nas últimas décadas, houve um conjunto de países, sobretudo asiáticos, que conseguiram, em variados graus, romper o sufoco do capitalismo financeiro monopolizado mundial. Praticando, em diversas fórmulas e medidas, aquilo que Samir Amin propugnou como “desconexão” em relação às cadeias de submissão e dependência do imperialismo, países como o Irão, a Turquia, a Índia, a Tailândia, a Malásia ou Singapura, conheceram assinalável êxito na promoção de uma estratégia de acumulação autocentrada, com algum grau de planeamento estatal centralizado. Romperam o cerco que os vinculava ao “desenvolvimento do subdesenvolvimento” (André Gunder Frank), que sempre fora o destino dos países periféricos dependentes, à exceção dos divididos pela famosa cortina de ferro, que tinham valor demonstrativo para efeitos da guerra fria (Taiwan, Coreia do Sul, Hong Kong).

 

Em consequência, os seus índices de desenvolvimento humano e a sua autoconfiança nacional conheceram um incremento bastante rápido. Em contraste, aliás, com a estagnação ocidental, onde o tecido social, a educação, a saúde e as infraestruturas públicas têm vindo a ser devastados, há décadas, pela ofensiva neoliberal. Deixou, assim, de fazer sentido a contraposição entre The West e The Rest. Não existe já hoje essa massa uniformemente empobrecida que constituía o “Terceiro-Mundo”. Quanto ao Ocidente, parece exausto e cada vez próximo do desabamento, roído pelas suas contradições e fragilidades internas, da baixa crónica na lucratividade ao declínio demográfico. Confrontando, hoje, uma típica paisagem urbana chinesa com uma norte-americana, é seguramente esta última que faz figura de terceiro-mundista.

 

Merecem destaque e consideração aparte, naturalmente, pela sua dimensão e peso geoestratégico, a China e a Rússia. Ademais, estes dois países, vencendo uma rivalidade ancestral, têm vindo a praticar um alinhamento estratégico que se tem mantido sem falhas aparentes, até ao momento. A Rússia abre espaços pela via militar e energética, enquanto a China se expande preferencialmente pelo investimento e a cooperação técnica. Juntos formam um aríete temível para as frágeis muralhas do “Consenso de Washington”. Tornou-se cada vez mais patente que há alternativas reais aos regimes oligárquicos compradores e neocoloniais. A independência e a dignidade nacionais compensam, do ponto de vista do desenvolvimento económico, mesmo que haja que arrostar o preço de boicotes, sanções, bloqueios e provocações militares. Os retrocessos pró-imperialistas que se verificaram recentemente na América Latina irão provar isso uma vez mais. Em consequência, esse caminho revela-se, cada vez mais, incompatível com a democracia política.

 

É curioso que o Ocidente se represente a si próprio como guardião da democracia contra o totalitarismo, quando a realidade nos mostra precisamente o contrário. O totalitarismo mercantil é a sua única estrela orientadora. Mas isso é o conhecido mecanismo de inversão que está na base de toda a ideologia, mais a arrogância e o despeito típicos dos privilegiados em decadência. É certo que Rússia e China não são, de momento, democracias modelares, mas, ao contrário do Ocidente, elas não têm ambições de dominação mundial e não estão em busca de fazer replicar alhures os seus modelos de organização política.

 

Rússia, China ou o Irão, por exemplo, têm, presentemente, cada um à sua maneira e medida, regimes políticos autoritários com amplo apoio popular. Muito mais amplo, certamente, do que o que teriam os títeres demoliberais que, para desgraça destes povos, o Ocidente conseguisse colocar no seu lugar. Estes regimes autoritários foram implantados e mantêm-se como autodefesa imprescindível contra as manobras de penetração, saqueio e desagregação do Ocidente. Estas manobras nunca cessaram, nem se suavizaram, chegando a ter consequências muito próximas do genocídio, na Rússia dos anos 1990, quando Bill Clinton se permitia rir a bandeiras despregadas com a mão sobre o ombro do seu ébrio amigo Boris Yeltsin.

 

Quando o Ocidente fala em liberdade, refere-se naturalmente à liberdade burguesa. É a liberdade de oprimir e explorar o outro, pilhando e destruindo os recursos naturais pelo caminho. Transposta para a periferia do sistema mundial, torna-se a liberdade de exercício imperial dessas mesmas liberdades, com a assistência cúmplice de pequenas elites locais clientelares. Qualquer obstáculo colocado a este fluxo irrestrito de “liberdades” é um crime nefando de lesa humanidade, do seu ponto de vista. Sucede ainda que, na sociedade burguesa, este sistema de liberdades é um bloco, aliás com uma dinâmica expansiva avassaladora, que é, simultaneamente, uma trituradora implacável da paisagem natural, além do sangue, suor e nervos das populações autóctones. Deter, localizadamente, este sistema, significa necessariamente colocar obstáculos e entraves às liberdades burguesas e imperialistas que não se limitarão apenas ao campo económico, refletindo-se também na esfera social, cívica, cultural, religiosa, porventura até familiar.

 

Quem resiste ao imperialismo tem de viver como que em permanente estado de sítio. Em vigília constante. Por essa razão, o julgamento definitivo sobre as suas opções de organização política deve fazer-se apenas quando cessar esse assédio agressivo externo, ou seja, quando for jugulada no seu ninho a grande hidra imperial e irradiar, enfim, sobre todos os povos, a luz inconfundível da verdadeira liberdade. Não, o avanço dos “bárbaros” não será o ocaso da democracia. Será, isso sim, uma oportunidade para a sua difusão, reinvenção e aprofundamento, à medida das necessidades específicas e das particularidades culturais diversificadas dos povos de todo o mundo.

 

O grande problema de que padece a humanidade e o planeta não é o domínio ocidental. É, sim, o seu legado dileto, o capitalismo, que entretanto já se enxertou e medrou com grande sucesso noutras paragens. Do ponto de vista da luta emancipadora dos trabalhadores e dos povos, a vantagem estratégica decorrente do declínio do Ocidente (e a razão porque vale a pena apressá-lo) é dupla.

 

Por um lado, é bom haver competição inter-imperialista em lugar de um imperialismo único ou o atual sistema estabilizadamente não-confrontacional de imperialismos ocidentais hierarquizados sob dominância anglo-saxónica (com o caraterístico toque final da rédea solta conferida às fantasias supremacistas do sionismo). Com um confronto aberto inter-imperialista, haverá mais espaço livre para a afirmação de projetos de desenvolvimento alternativos. As épocas de alguma indefinição caótica, com choques, sobreposições e interpenetrações entre civilizações diversas, são favoráveis à transição para um novo modo de produção histórico. O novo, muitas vezes, parte de trás para a frente. Ou germina em pequenas bolsas marginais onde as regras (a consagrada e imposta conjugação entre forças produtivas e relações de produção) se tornam algo indefinidas. As civilizações decadentes é que têm sempre muito pouca capacidade de reinvenção.

 

Por outro lado, o declínio do Ocidente é o dobrar de finados pelo modelo de acumulação neoliberal globalizado, um regime capital-imperialista particularmente agressivo e predatório que, para além de ter já degradado significativamente o planeta, como sistema ecológico, devastou também a geografia humana de África, de Nuestra America, do mundo árabe e de uma boa parte da Ásia. O capitalismo ascendente é de direção centralizada, mais racional e, pela luta, pode vir a ser moldado e controlado por mecanismos democráticos de decisão. Que pare o ciclo infernal de rapina do capital monopolista financeirizado e que se encete, enfim, uma era de perequação mundial na acumulação e no desenvolvimento humano, com aproveitamento integral das capacidades e caraterísticas próprias de todos os povos, máxima autossuficiência local, com trocas comerciais não coagidas e apenas supletivas. Esse será o ponto de partida para uma humanidade livre e comunista, a construir no futuro. Improvavelmente em paz. Verosivelmente mediante novos choques revolucionários guiados pela inspiração visionária das novas gerações.

 

 

II.

 

«Portanto, já que oprimis o pobre

e lhe exigis o seu quinhão de trigo,

não habitareis nestes palácios de pedra que construístes;

não bebereis o vinho das vinhas excelentes que plantastes.

Pois Eu conheço o grande número das vossas maldades

e a enormidade dos vossos pecados.

Sois opressores do justo, aceitais subornos

e violais o direito dos pobres no tribunal.

Por isso, o prudente cala-se neste tempo,

porque este tempo é mau.

(…)

Ai dos que desejam ver o Dia do Senhor!

Que será para vós o Dia do Senhor?

É um dia de trevas e não de luz.

É como um homem que foge diante de um leão

e encontra um urso;

como o que, regressando a casa,

apoia a mão na parede

e é mordido por uma serpente.

Não será, pois, o Dia do Senhor de trevas e não de luz,

de escuridão e não de claridade?»

(…)

Eu detesto e rejeito as vossas festas;

e não sinto nenhum gosto nas vossas assembleias.

Se me ofereceis holocaustos e oblações,

não as aceito, nem ponho os meus olhos

nos sacrifícios das vossas vítimas gordas.

Afastai de mim o vozear dos vossos cânticos,

não quero ouvir mais a música das vossas harpas.

Antes, jorre a equidade como uma fonte,

e a justiça como torrente que não seca.

(Amós, 5)

 

Eis que vêm dias - oráculo do Senhor -

em que o lavrador seguirá de perto o ceifeiro

e o que pisa os cachos, seguirá o semeador.

Os montes destilarão mosto;

todas as colinas se derreterão.

Restaurarei o meu povo de Israel.

Hão-de reconstruir e habitar as cidades devastadas.

Plantarão vinhas e beberão do seu vinho,

cultivarão pomares e comerão dos seus frutos.

Hei-de plantá-los na sua terra,

e nunca mais serão arrancados da terra que lhes dei!»

- diz o Senhor, teu Deus.

(Amós, 9)

 

 

Amós era um pastor e cultivador de sicómoros (uma espécie de figos), natural de uma pequena localidade a sudoeste de Belém, no reino de Judá. Viveu no século VIII a.c. e, já homem maduro, correspondeu ao apelo que sentiu de seguir a vida profética, o que fez no vizinho reino de Israel, a norte. A profecia não era, de todo, uma atividade invulgar no seu tempo e circunstâncias. Mas Amós era um homem letrado e terá sido o primeiro a legar-nos da sua experiência um testemunho escrito direto (ou participado nisso), naquilo que é hoje conhecido como o “Livro de Amós”, integrado entre os livros proféticos menores do Velho Testamento. Logo na geração seguinte começou, aliás, a idade de ouro do profetismo judaico (Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel). Isto não pode ter sido uma mera casualidade. Nesta época e local, a luta de classes a partir de abaixo ganhou uma nova arma, a escrita, e com isso passou a deixar um testemunho histórico.

 

Lendo Amós e tentando imaginar o que seria a sua vida, é fácil imaginá-la não muito diferente da dos protagonistas de Até Amanhã Camaradas. Caminhava de localidade em localidade, falava em assembleias, albergando-se em casas amigas de gente rebelde, solidária e fraterna. Era alguém já muito próximo do que se pode considerar um bom companheiro de luta. Vítima das intrigas do sacerdote oficial Amacias, acabou por ser expulso de Israel, por ordem do rei Jereboão, a quem tinha, aliás, profetizado a desgraça.

 

A atividade profética pode ser definida como a que prosseguem aqueles homens e mulheres que, sentindo esse apelo íntimo, se fazem porta-vozes do ente supremo, formulando nessa qualidade juízos sobre a vida social do seu tempo e previsões para o futuro daí decorrentes. Entre a avaliação do presente e a antevisão do futuro, ficava sempre disponível aos poderes terrenos uma certa margem para que pudessem ainda arrepiar caminho. Nesse sentido, o profeta intervinha efetivamente nos destinos da cidade, mesmo não sendo um organizador ou dirigente político em sentido estrito. O profeta era um recipiente passivo e retransmissor da voz divina, com a qual procurava criar um impacto real na sociedade. Deve ser rigorosamente distinguido do adivinho ou do oficiante ritual (astrólogo, necromante, oniromante, áugure, arúspice, etc.) que ativamente, mediante certas artes consagradas, provoca ou induz certo tipo de acontecimentos ou de revelações.

 

Temos notícia da existência de uma florescente atividade profética, em diversas civilizações primordiais do atual Médio Oriente. Os primeiros registos com algum detalhe apareceram-nos nos chamados “Arquivos de Mari”, umas 25.000 placas de argila gravadas com escrita cuneiforme acádica, datadas do décimo oitavo século a. c. (1775-1761 a. c.) e provenientes de uma cidade mesopotâmica na margem direita do rio Eufrates, localizada na atual Síria, perto da fronteira com o Iraque. Aí nos surgiram abundantes notícias de atividade profética e mesmo registos proféticos diretos. Outro tesouro copioso de informações sobre profetismo são os arquivos neo-assírios de Nínive (nos subúrbios da atual Mossul), datados da primeira metade do século sétimo a. c..

 

Para além destes dois grandes arquivos, temos suficientes notícias esparsas sobre o profetismo para concluir seguramente que esta era uma atividade muito espalhada e gozando de certo prestígio em todos os Estados antigos da Mesopotâmia, Egito, Levante e Ásia Menor (8). Merece uma referência especial o profeta egípcio Nefer-Rohu (finais do terceiro milénio a. c.), que anteviu a vinda de um novo rei do Sul, em cujo reinado os pobres se farão ricos e os servos rejubilarão. Antes ainda dos arquivos de Nínive (na verdade, a biblioteca real de Assurbanípal), começaram os registos hebraicos que viriam a constituir os Livros Proféticos do Velho Testamento. A profecia exercia-se, naturalmente, pela palavra falada, em assembleia. Foi só por altura dos séculos III a I a. c . que começaram a surgir profetas de segundo grau, ou seja, profetas que se exprimiam por meio da exegese inspirada de textos já canonizados atribuídos à intervenção oral de profetas anteriores, fazendo-o por vezes já diretamente por escrito (9).

 

A escrita era, na Antiguidade, sobretudo na tradição mesopotâmica, um puro instrumento do poder, muito mais exclusivo ainda do que o são hoje os grandes meios de comunicação social. Há, assim, uma evidente distorção social e política na imagem que nos fornecem as fontes históricas disponíveis sobre o que era realmente a atividade profética nesses primeiros tempos (10). Para além de que, naturalmente, a arte literária de então tinha ainda um poder descritivo muito rudimentar.

 

O que podemos ter por seguro é que havia profetas estipendiados pela corte (ou o templo) e profetas independentes, carismáticos, de extração mais ou menos popular. Alguns destes últimos eram visionários e sofriam episódios extáticos, por vezes sob o uso de drogas. Formavam frequentemente grupos errantes. Os soberanos (de cujos assuntos e interesses tratavam exclusivamente os escribas) socorriam-se, em primeiro lugar, dos seus próprios profetas oficiais, para se assegurarem, por ocasião de algumas das suas empresas mais arriscadas. Todavia, por vezes, não confiando excessivamente nestes - cuja tendência para a deferência e a obsequiosidade era demasiado notória -, mandavam também chamar à sua presença profetas independentes, entre os de maior nomeada e fiabilidade. É assim que alguns destes acabam por entrar também nos registos, ainda que marginalmente e com uma expressão diferente (truncada e enviesada) daquela que foi efetiva e originalmente a sua. Como facilmente se adivinha, a auscultação de profetas independentes era também uma maneira de fazer entrar no processo decisório régio algumas aspirações populares, depois de devidamente convertidas em imperativos divinos e como tal retransmitidas.

 

Não podemos senão especular sobre a frequência e a tonalidade dominante em que ocorria o fenómeno profético em meios populares, nos alvores da civilização. Mas não podemos ignorar que ele surgiu no desenvolvimento de um processo social de grande violência. A revolução urbana, que emergiu em vários estuários aluviais no Crescente Fértil, consistiu num processo de concentração e enclausuramento (dentro de perímetros amuralhados) de grandes aglomerados de famílias trabalhadoras, essencialmente dedicadas no cultivo de cerealíferos, com vista a extorquir-lhes todo o seu trabalho excedente. Este momento histórico representou-se depois, de forma mitificada, como sendo o da queda. Na verdade, foi mais uma agressão, que se vem aliás reiterando, de forma sempre renovada, até aos nossos dias. Esta elisão semântica faz parte de uma longa história de mistificação ideológica que começou também nestes recuados tempos. Para os submetidos, a vida nos alvores da “civilização” significou o horror total.

 

As primeiras cidades foram fenómenos sociais extremamente instáveis, sujeitos a grandes surtos epidémicos, zoonoses, pragas agrícolas, fomes, rebeliões, fugas individuais e coletivas. A situação alimentar e sanitária dos primeiros citadinos era extremamente débil, em confronto com a dos grupos vizinhos pastoris e de caçadores-recolectores. Só uma coação extrema, com exercício constante da violência nua e crua, podia manter alguma estabilidade e coesão na urbe. Mas o equilíbrio era rompido a todo o tempo. O objetivo estratégico das classes dirigentes era, naturalmente, assegurar a regularidade do processo de exploração e acumulação de riqueza. Mas isso passava, necessariamente, pela guarda constante contra predadores externos, por uma implacável repressão interna e por contínuas razias contra populações circundantes, com vista a trazer novos trabalhadores cativos, para substituição dos entretanto mortos ou escapados. Constituíram-se assim grandes exércitos e vastos corpos policiais, religiosos e administrativos, para a alimentação dos quais era necessário aumentar sem cessar (e sem limites ainda bem estabelecidos) a taxa de exploração. As catástrofes sucediam-se, os limites da sobrevivência eram constantemente postos à prova (11).

 

A dureza das provações da vida urbana e a nostalgia das sociabilidades mais livres perdidas devem ter constituído um ambiente propício a manifestações culturais de inconformismo. A “queda” foi uma cesura e um trauma extraordinários, que ainda hoje ressoam na nossa memória coletiva, sob uma forma lendária. E se replicam, constantemente. É o momento que Marx denominou ironicamente como a “chamada acumulação primitiva”. A revolução urbana foi, pois, a mãe de todas as acumulações primitivas. Do queixume à revolta, muitas devem ter sido as vozes que se ergueram então no negrume dos porões da vida citadina. De entre estas, admitamo-lo, surgiram vozes que exprimiam a aspiração a um futuro redimido, em cumprimento de uma vontade superior representante da harmonia perdida entre o homem e o seu ambiente natural. O paraíso perdido. O profeta é este incubador de esperança em tempos sombrios ou mesmo insuportáveis.

 

O profeta é um vingador e um restaurador. O impulso profético parte da consciência de um agravo, de uma rotura, de uma injustiça radical, para, mediante a palavra, prever e prover à religação harmónica da totalidade. Essa palavra provém diretamente da unidade do ser, que ancestralmente se representava por meio de uma divindade antropomórfica. A tradição profética adquiriu muitas cambiantes e, numa parte importante, congraçou-se de algum modo com os poderes existentes. Todavia, manteve sempre a caraterística essencial de ser um recurso contra o arbítrio e desrazão dos poderes terrenos, por invocação de uma autoridade superior conhecedora e dominadora da sequência histórica futura, na qual se encerra sempre, infalivelmente, uma retribuição por todos os males e desvios praticados. Este confronto traduziu-se, por vezes, de forma muito concreta e simplificada, numa espécie de chantagem. Ou o monarca acedia a uma determinada exigência ou desencadear-se-ia uma específica catástrofe. Profetas e reis temiam-se mutuamente e enfrentaram-se inúmeras vezes, até um deles tremer primeiro que o outro. Massacres de profetas por ordem real ocorreram também com frequência.

 

A tradição profética cruzou-se depois com a dos dirigentes políticos plebeus, que na Grécia clássica tomaram o nome de týrannos. Foi também entre os gregos que nasceu, como género literário, a prefiguração da cidade perfeita, que mais tarde se denominaria de utopismo. Aqui passamos já para o campo da política profana. A palavra dos deuses, se vem ao caso, passa para segundo plano. Os tiranos são dirigentes de forte apelo pessoal, que conseguem estabelecer um diálogo direto, fortemente empático, com as massas populares, com grande inquietação e horror para todo o círculo das elites aristocráticas tradicionalmente dominantes. Reúnem geralmente em si poderes de exceção, de tipo ditatorial. Todavia, pela sua origem em estratos sociais ascendentes e pelos projetos reformistas que prosseguiam, são aclamados como amigos do povo, desempenhando mesmo um papel de protodemocratas (12). Assim mesmo, aliás, os entendeu Platão. Tentavam compensar com uma entrega pessoal desbordante a impreparação das massas para assumirem diretamente em mãos o seu próprio destino. Uma figura modelar de tirano foi Pisístrato, em Atenas. Na república romana, os tribunos da plebe, como os irmãos Graco, tentaram preservar esta tradição.

 

Jesus de Nazaré era também um profeta. Foi sob o seu signo e exemplo que decorreu, quase exclusivamente, a atividade profética no mundo ocidental nos seguintes mil e setecentos anos. Não vamos aqui dar exemplos. Houve-os muitos, de grande estatura intelectual, moral e cívica. Foram diversas eras sucessivas, muito ricas, mas de certo modo estéreis. A experiência não se acumulou. A revolta partia sempre do mesmo ponto inicial e dirigia-se, por fim, a um mesmo horizonte infinito, que se esbatia em generalidades espiritualistas. O cristianismo, mesmo o rebelde, ficou para sempre marcado pela escatologia apocalíptica, que foi a sua marca cultural originária.

 

A partir de Karl Marx e Friedrich Engels entramos numa nova era. Descobriu-se um continente novo para o conhecimento científico, que é o da própria história humana. A revolta dos oprimidos tem agora um guião e, a partir daí, é capaz de refletir sobre si própria e acumular conhecimentos novos, reinventando-se constantemente em novos alinhamentos do ponto de vista estratégico e tático. Como horizonte temos a possibilidade da tomada do destino histórico da humanidade em suas próprias mãos, por sua decisão livre, consciente e participada.

 

É um tanto ousado dizer que Marx e Engels foram profetas. Eles seguramente que tomariam ofensa com isso. Não o perdoariam mesmo nunca. Mas o nosso dever é tentar compreender, se necessário contra a corrente e desfazendo consensos. Isso é que é ciência. Dizia judiciosamente um autor norte-americano (David Lowenthal): “O passado é um país estrangeiro. Eles fazem as coisas de forma diferente lá”. Ora, o tempo dos profetas no Médio Oriente foi mesmo há muito, muito tempo. Não havia então, por lá, qualquer método científico, nem reflexão estruturada sobre questões sociais. Mas estamos então nos alvores das sociedades de classes. E é precisamente isso que é fascinante e revelador.

 

Historicamente, foram as classes dominantes que se afastaram sempre da unidade do Ser, que é uma outra maneira de dizer Deus. São elas o elemento dissonante, de fuga centrípeta e de constante agressão. Isso é muito sensível na literatura profética. É um tema constante: Não te atrevas soberbo, corrupto, cúpido, lascivo, ímpio, iníquo, não levantes a tua mão contra o teu povo humilde e contra a lei de Deus, teu Senhor. Vais causar a nossa desgraça. Como não reconhecer este discurso como contemporâneo?

 

Os profetas populares desse tempo (não os cortesãos ou os do templo) foram os primeiros lutadores de classe a partir de baixo que conhecemos. A sua atitude perante a vida social e o devir histórico revela a presença de certos arquétipos mentais que se mantiveram, em algumas linhas fundamentais, essencialmente os mesmos até aos dias hoje. Isso não nos deve repugnar nem envergonhar absolutamente nada. Estes homens (e mulheres, das quais sabemos infelizmente pouca coisa) eram certamente notáveis e devemos ter muito orgulho e desvelo por eles. A boa ciência é tentar compreender o que mudou e o que se manteve, apesar de tudo, relativamente constante, ainda que transfigurado.

  

Nós, comunistas, somos reintegradores ou religiosos (de re-ligare), se quiserem. Como se diz em expressão popular queremos “endireitar o mundo”. Elevar os humildes e castigar os soberbos. Queremos reparar até o passado. Dar um sentido aos sofrimentos dos nossos mártires de ontem. Elevá-los e vitoriá-los para todo o sempre. Ora, acreditar num horizonte comunista é crer no que nunca ninguém viu e está inteiramente por provar. Pensando friamente, a avaliar pelo percurso histórico que a humanidade percorreu até aqui, é até bastante improvável. Só se torna plausível quando houver uma maioria de gente a pensar e a sentir assim, por necessidade interior e mediante o exemplo. Tudo isso após um processo dialético de autotransformação do sujeito revolucionário enquanto, ele próprio, transforma revolucionariamente a sua circunstância envolvente e determinante. As forças produtivas amoldar-se-ão depois, de forma correspondente a essa decisão popular soberana triunfante. Na origem, porém, é-se comunista, de forma muito isolada, marginal e contra a corrente, por um sentido de simetria histórica mas sobretudo por convicção moral, por nostalgia romântica de uma unidade perdida.

 

Devemos todo o preito à ciência. Mas a nossa atitude perante a vida, as nossas opções fundamentais, essas não são determinadas por forma científica. Estamos muito longe disso, se é que algum dia nos aproximaremos de tal. Isso também era assim nos tempos de Marx e Engels. Eles tornaram-se ambos comunistas, de forma totalmente independente um do outro, por volta de 1842-43. Na altura ainda mal se conheciam e nem tinham uma impressão favorável um do outro. Não tinham ainda tido a célebre longa conversa de que resultaram amigos. Sentiram, cada um por si, o mesmo apelo, a mesma convocação original. A ciência que viriam a produzir de seguida formou-se a partir dessa atitude fundamental que tomaram em jovens e que se tornaria mesmo uma espécie de apostolado conjunto, por todo o restante das suas vidas.

 

Saber qual a origem e a base material de que surge este apelo é a questão de relevância central para a dilucidação do sentido da experiência histórica humana em todo o período que se convencionou denominar como civilizado. Mas estamos aqui perante uma área de conhecimento em que o instinto das classes possidentes as conduzem sistematicamente no sentido da obfuscação, antes que do esclarecimento. São como um ladrão apressado, em negação, rasgando o futuro sempre com o mesmo punhal entre os dentes. Este conhecimento tem de ser procurado e acumulado, geração após geração, na contra-corrente.

 

Na minha leitura, Marx e Engels foram profetas, diretamente inseridos na respetiva tradição. E sem pessoas como Rosa Luxemburgo, Antonio Gramsci, José Carlos Mariátegui, Che Guevara, Amílcar Cabral, Samora Machel, etc., a nossa luta (e com ela toda a ciência de Marx e Engels) não vai a lado nenhum. Nem se levanta do chão. Os movmentos de contestação social, mesmo atingindo grandes dimensões, serão amorfos e inconsequentes, incapazes de ultrapassar o nível do justicialismo casuístico.

 

Embora seja convicto materialista, nunca entendi a necessidade de puxar da pistola ao ouvir falar em Deus. Essa profissão de ateísmo militante calha bem melhor aos construtores de teodiceias laicas a partir dos tópicos ideológicos dominantes - como a seleção natural e o liberalismo - à maneira de Richard Dawkins, Daniel Dennett ou o falecido Christopher Hitchens. Quem nos propõe estes desígnios fundamentais acredita naturalmente num futuro “aberto”. Não se oporá nunca à corrente dominante, à marcha triunfal dos poderosos que é o progresso como diz Walter Benjamin (13). Pelo contrário, procurará estar na sua vanguarda, tipo Mark Zuckerberg, Jeff Bezos ou Elon Musk.

 

O universo está em expansão? A humanidade deverá estar também, rumo ao hibridismo e ao sincretismo. Embriaguemo-nos de um futuro em permanente desequilíbrio dinâmico. Que venha o super-homem nietzscheano. Quando acabarmos, enfim, de destruir este planeta, uma pequena elite deslocar-se-á para a Lua e daí para Marte. Na Terra ficará só uma massa explorada e inerme, a quem requisitaremos matérias-primas. A longo prazo seremos uma espécie “superior”, totalmente destacada do velho homo sapiens terrestre. E percorreremos toda a Via Láctea em busca de novas presas para os nossos propósitos agressivos, dominadores e inconsoláveis. Esta é uma das alternativas de uma bifurcação na história da humanidade que estamos já a viver, neste mesmo momento. Não é ficção científica. Está a decorrer.

  

A outra alternativa tem de ser postulada por gente real, de carne, palavra e memória. São os profetas. O peso do fator profético na marcha da história continua a ser muitíssimo importante. É impossível de negar. Só não o vê quem não quer. Agora, porém, o profeta é um publicista ou dirigente político. Está definitivamente no campo de César e não mais no de Deus. Na oposição, tem uma agenda bem definida. No poder, tirano ou democrata, prossegue uma intervenção bem planificada, com vista a obter resultados específicos e mensuráveis na vida da comunidade. Situando-se dentro dos limites homeostáticos do sistema planetário terrestre, o futuro da humanidade será comunista. O breve interregno multimilenar de esquizofrenia crematística e misantrópica, que foram as sociedades de classes, terá sido apenas uma patologia passageira.

 

Nos dias de hoje, em todos os focos de resistência ao imperialismo norte-americano, que é a corrente forte que direciona o rumo pretendido pelos senhores do mundo, faz-se sentir a presença de uma voz profética já extinta, mas ainda atuante: Hugo Chavez, Nelson Mandela, Fidel Castro, Ruhollah Khomeini, Kim Il-Sung, Mao Zedong, Lenine. Esqueça-se, por um momento, todas as montanhas de horror, escárnio e ódio que lhes têm sido despejadas em cima (exceto sobre Nelson, que é um caso muitíssimo brando e contemporizador, sendo precisamente por isso a sua projeção no presente tão débil e equívoca). Baste agora, como exercício, lembrarmo-nos das personalidades concretas e conferir o espaço correspondente, no presente mapa geopolítico mundial. Com a passagem do tempo, o seu legado profético foi-se degradando e até sofrendo algumas “mutações”, mas persiste.

 

Estes homens (todos eles homens, infelizmente, mas não desproporcionadamente brancos) realmente fizeram história, na contramão, resistindo, projetando toda a sua densidade humana e a força das suas convicções de sociabilidade alternativa contra a corrente dominante do devir. A sua luz perdurou muito para além deles próprios, criando nichos, de variável dimensão, que pontuam ainda hoje a paisagem histórico-mundial. Muito para lá da sua morte física, o seu exemplo continua a inspirar os seus concidadãos, irritando até ao desespero a minoria local aspirante aos postos de oligarquia tributária, que procura retomar a subalternização total ao imperialismo, regressando assim à corrente dominante. O nosso objetivo estratégico deve, pois, ser multiplicar estes fenómenos políticos por todo o mundo, pontuar e interromper repetidamente a corrente dominante, até a sufocar e bloquear por completo. Tudo isso antes de mergulharmos todos no abismo aonde seguramente nos conduz essa mesma corrente. É o travão de emergência.

 

As missões proféticas são, precisamente, deflagrações nostálgicas de um mundo de unidade e harmonia, que interrompem e contrariam (local e temporariamente) o normal curso triunfal dos mais fortes, curso esse que, já se intuía, mas sabemo-lo hoje de ciência certa, nos conduz a todos para o abismo. Esse tira-teimas ainda não terminou. Ainda não se viu quem vai prevalecer. Mas hoje sabemos quão correta foi, desde sempre, a intuição essencial dos primeiros profetas: os desmandos da ganância e da hubrys business as usual de há milénios a esta parte - conduzem-nos a todos à perdição. Simplesmente, a retribuição pela injustiça e pelo mau governo dos homens já não é a submissão a um conquistador estrangeiro (Oseias, Amós, Miqueias, Isaías, Sofonias, Jeremias), mas sim a aniquilação de toda a nossa vital circunstância ecoambiental. Essa intuição específica, só a poderemos encontrar já na literatura apocalíptica, nomeadamente no Livro da Revelação de João de Patmos.

 

A último avatar ideológico dos poderosos foi a crença numa mão invisível que regularia secretamente, em favor do bem comum, o choque entre todas as cupidezes individuais, melhor entregues à sua livre expansão à máxima potência. Esta poderosíssima e tenaz superstição reina ainda, de forma quase indisputada, no mundo ocidental, há uns bons duzentos anos. O resultado está à vista: aquecimento atmosférico, incêndios descontrolados, furacões, elevação do nível dos mares, aridez dos solos, oceanos azedos, extinções de espécies animais, migrações humanas em massa. Os profetas como que viram tudo isto à distância, desde há milhares de anos. Mas hoje mesmo, quem nos governa continua ainda em negação. Ou contemporizando de uma forma que é em tudo absolutamente equivalente a isso.

 

Walter Benjamin é primeiro pensador que conheço que dá um grande relevo político à conjugação dialética entre o conhecimento das leis do materialismo histórico e a inspiração profética disponível por cada geração (14). Para o efeito usou, com algum deleite irónico, uma curiosa metáfora circense: um autómato jogador de xadrez invencível, movido secretamente por um anão escondido debaixo da mesa. O anão representaria a teologia inconfessável que estava na base de todos as partidas vitoriosas do materialismo histórico, ou melhor, daquilo que os ortodoxos progressistas e unilinearistas fizeram dele (15).

 

Ernst Bloch, na sua magnum opus O Princípio Esperança (1959), chamou também a atenção para a existência de uma corrente fria e uma corrente quente no marxismo. A corrente fria baseia-se na ciência e na análise objetiva da realidade dinâmica do mundo capitalista, enquanto a corrente quente faz apelo ao ideal de justiça e redenção, à utopia, ao sonho e à nostalgia romântica. Destas duas correntes, a segunda deve sempre conduzir e prevalecer. Esta linha de pensamento tem sido prosseguida por importantes pensadores marxistas contemporâneos como Enrique Dussel, Michael Löwy e Daniel Bensaïd (16).

 

A inspiração profética (ou “messiânica”) sempre foi e sempre será, em última instância, impotente sem o concurso da ciência. Mas o inverso também é verdadeiro. A ciência, por si só, não pode salvar-nos. São precisos homens e mulheres concretos que tomem o risco e a iniciativa, avançando decididamente para resgatar o nosso destino coletivo. Os humanos são um animal gregário que se move coletivamente sob o efeito de uma direção inspiradora. Não se vê como possa ser de outra maneira, no imediato. Admitindo que todos os humanos tomassem posse instantânea de todo o conhecimento existente, ainda assim precisariam de responder a estímulos de exemplo e direção para tomar decisões coletivas conscientemente. Muito mais ainda quando essas decisões implicam nada menos que o ensaio de novos modelos de sociabilidade.

 

Toda a ciência do mundo não nos pode valer aqui. É preciso uma estratégia bem definida, extensamente fundamentada. São necessários modelos teóricos sólidos, sem dúvida. Mas é preciso, sobretudo, em última análise, impulso e decisão, um “salto de tigre” no desconhecido. Ora, isso é impossível sem uma sólida e inflexível convicção ontológica. Convicção, no mínimo, de que a humanidade deve viver em harmonia consigo mesma e com o seu meio ambiente, e não em perpétua fuga centrípeta e agressão acaparadora. Chamem-lhe fé ou cegueira, como quiserem. É assim. O modelo mais completo de uma figura heroica com estas caraterísticas é o nosso companheiro Vladimir Illitch Ulianov, dito Lenine. Não é previsível que surja alguém com as dimensões de Lenine já na próxima geração. Teremos que fazer mais e melhor do que Lenine com os que aqui estamos. Com dois, três, muitos Lenines. Lenine trocado por miúdos, se quiserem.

 

É certo que Lenine era uma personalidade excecional mas também o são os tempos que vivemos. Os desafios que nos confrontam são os mais dramáticos e exigentes de sempre, na história das sociedades humanas. Por isso é razoável prever um aumento muito acentuado das vocações proféticas entre a juventude, com a qualidade a emergir finalmente a partir da quantidade. Tamanha a prova, tamanhos os campeões. O material humano como que se amolda às exigências que lhe são feitas historicamente, que neste caso podem passar, com grande probabilidade, a curto-médio prazo, por horizontes de guerra planetária de destruição maciça, colapso económico, ecológico e possivelmente demográfico.

 

Sê, pois, bem-vinda entre nós, Greta, cheia de graça. É tua a palavra sábia nesta hora. Fala, por Deus (o de Spinoza, naturalmente)!

  

Perto está,

E difícil de prender, o Deus.

Mas onde há perigo, cresce

Também o que salva.

No escuro moram

As águias e intrépidas vão

As filhas dos Alpes sobre o abismo

Por pontes de construção leve e fácil.

Por isso, porque em volta se apinham

Os cumes do tempo, e os queridos

Vivem perto, esmorecendo

Em montes que tornam a distância infinita,

Dá-nos, água inocente,

Oh dá-nos asas, para voar para lá

De ânimo fidelíssimo e voltar de novo (17).

 

 

 

 

 

 

 

(*) Ângelo Novo (n. 1961) é um pesquisador e ensaísta independente português, editor da revista eletrónica ‘O Comuneiro’. Foi advogado, jornalista, cineclubista e tradutor. Foi ainda redator ou colaborador permanente em diversas revistas culturais, literárias e de intervenção política, designadamente ‘Vértice’, ‘Última Geração’ e ‘Política Operária’. É autor de O estranho caso da morte de Karl Marx, Edições Mortas, Porto, 2000 e Outro Mundo, Estratégias Criativas, Porto, 2019, para além de outras obras publicadas em poesia e ficção. Os seus escritos principais podem ler-se em linha na sua página pessoal na rede .

 

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NOTAS:

 

(1) Entre os mais recentes, destacam-se o das “cadeias mercantis globais”. V. Intan Suwandi, R. Jamil Jonna e John Bellamy Foster, “Global Commodity Chains and the New Imperialism”.

 

(2) Cf. William I. Robinson, Promoting Polyarchy. Globalization, US Intervention, and Hegemony, Cambridge University Press, 1996. Ler também, do mesmo autor, “Promoting polyarchy: 20 years later”. Não estamos de acordo com a sua tese da existência de uma “classe capitalista transnacional”, “elite globalizada”, etc..

 

(3) Cf. Vijay Prashad, The Darker Nations. A People’s History of the Third World, The New Press, New York, 2008.

 

(4) Por todo o Médio Oriente, é de há muito um segredo de Polichinelo que os grupos militantes de fundamentalismo islâmico são financiados pelos sauditas, armados (direta ou indiretamente) e instrumentalizados pela CIA e pela MOSSAD e bombardeados depois, periodicamente, pela aviação norte-americana, em “queima de arquivos”. Servem o propósito triplo de desestabilizar regimes incómodos, justificar a presença militar norte-americana na região e desviar vocações juvenis anti-imperialistas para propósitos úteis ao Império, secando à nascença focos potenciais de consciência e militância político-social consequente.

 

(5) Cf. Protests resume in Iraq, demanding reforms, new govt.”, Press TV, 20 de janeiro de 2020. Este é o tipo de notícias que é inútil procurar na imprensa ocidental. Não teria “seriedade”, caindo imediatamente na categoria das “teorias da conspiração”. Os dirigentes políticos e securitários norte-americanos gozam por cá da presunção de serem pessoas de bem. Imagine-se!...

 

(6) Cf. Robert Fisk, “The evidence we were never meant to see about the Douma ‘gas’ attack”.

 

(7) Para uma série de apreciações contemporâneas com uma perspetiva concordante com a que desenvolvemos neste modesto ensaio, ler Mike Davis, In Praise of Barbarians. Essays against Empire, Haymarket Books, Chicago, 2007.

 

(8) Cf. Georges Minois, História do Futuro (Dos profetas à prospectiva), Teorema, Lisboa, 2000, pp. 25-44.

 

(9) Cf. Naila Z. Razzaq, Embodying God's Final Word: Understanding the Dynamics of Prophecy in the the Ancient Near East and Early Monotheistic Tradition.

 

(10) Gerda de Villiers, “The origin of prophetism in the Ancient Near East” .

 

(11) James C. Scott, Against the Grain. A Deep History of the Earliest States, Yale University Press, New Haven e London, 2017. Este magnífico e apaixonante livro dá-nos uma panorâmica impressionante do que foi realmente a ascensão da “civilização”, com base nos mais atualizados dados arqueológicos.

 

(12) Cf. Perry Anderson, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo, Afrontamento, Porto, 1989, pp. 31-34.

 

(13) Leia-se a tese número 9 de “Sobre o conceito de história”, neste mesmo número de O Comuneiro.

 

(14) Leia-se Walter Benjamin, O Anjo da História, Vol. 4 das Obras Escolhidas com edição e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, em especial as célebres teses ‘Sobre o conceito de História’ (págs. 9-20) e os seus paralipómenos (págs. 152-155). Para bem compreender o pensamento de Benjamin (um tanto elíptico, alegórico, metafórico e esotérico), é inestimável a ajuda de Michael Löwy, Walter Benjamin: Avertissement d’incendie, Éditions de l’Éclat, Paris, 2018. Ler também Michael Löwy, La révolution est le frein d’urgence, Éditions de l’Éclat, Paris, 2019 e Daniel Bensaïd, Walter Benjamin, sentinelle messianique, Plon, Paris, 1990.

 

(15) Leia-se a tese número 1 de “Sobre o conceito de história”, neste mesmo número de O Comuneiro. A história a que Benjamin se refere é exposta no conto de Edgar Allan Poe ‘O jogador de xadrez de Maelzel’, que ele seguramente conhecia na tradução de Baudelaire. Cf. Edgar Poe, Histórias, Círculo de Leitores, s/d, pp. 145-174.

 

(16) Cf. Josep M. Antentas, “La razón mesiánica de Daniel Bensaïd”, Viento Sur.

 

(17) Friedrich Hölderlin, ‘Patmos’, in Poemas, Relógio d’Água, Lisboa, 1991 (tradução de Paulo Quintela), p. 407.