Introdução

 

 

 

Na agonia da sua revolução socialista, a nação bolivariana conseguiu, ainda assim, produzir um sobressalto cívico patriótico que, de momento, derrotou por completo os planos intervencionistas ao abrigo do novo Plano Condor. Não há memória de uma tão clamorosa derrocada de uma revolução colorida da escola de Gene Sharp. Borrifadas de ridículo ficaram todas as chancelarias ocidentais, mais os seus grandes monopólios de “informação”. Juntamente com os impasses político-militares nas frentes iraniana e coreana, esta aventura pode marcar um declínio acentuado no prestígio e no poder intimidatório do imperialismo norte-americano. Em face, está a colossal articulação continental sino-russa, que marca pontos, vai amealhando ouro discretamente, mas não parece ainda decidida a lançar uma ofensiva concertada contra a hegemonia mundial do US$dólar e as restantes instituições do imperialismo financeiro de Washington. Por entre uma floresta inextricável de sanções, ameaças, chantagem, espionagem e roubo, decisivas conversações comerciais estão ainda em curso. Mas tudo pode se encaminhar subitamente para uma rotura ominosa. Entretanto, para quem tivesse albergado dúvidas, é agora evidente que o Estado profundo norte-americano está perfeitamente reconciliado com os juízos e modos atrabiliários de Donald J. Trump. É definitivamente um dos seus.

 

Rússia e China, é claro, são precisamente os países onde se deram as maiores revoluções socialistas do século XX. Revoluções cujas conquistas ainda travejam, de variadas formas, as estratégias de acumulação capitalista que esses países, cada um à sua maneira, estão agora empenhados em prosseguir. Talvez a tão celebrada queda do muro de Berlim não tenha sido uma viragem de época tão marcante como na altura se quis crer, pelo menos em termos de clivagens geo-estratéticos mundiais. O que se produziu nessa ocasião foi uma importante rotura na frente, numa guerra que prosseguiu essencialmente a mesma, estando ainda muito a tempo de vir a ser perdida pelo “ocidente”, como aliás resulta com grande probabilidade das dinâmicas sociais e demográficas em curso.

 

Não deixaria de ser irónico que estas duas grandes nações-continentes conseguissem agora o entendimento duradouro que não conseguiram quando eram ambas declaradamente socialistas. Agora são ambas formações sociais capitalistas e a dimensão relativa das suas economias inverteu-se dramaticamente. Entretanto, aprenderam a duras penas a defenderem-se das cínicas depredações do imperialismo ocidental, mostrando-se dispostas a ajudar outros a fazer o mesmo. A contenção mútua entre potências rivais e uma alteração progressiva na sua correlação de forças tende a alargar a margem de possibilidade de concretização de projetos originais de emancipação e desenvolvimento. Sendo, pois, auspicioso que novas potências se afirmem como alternativa no xadrez mundial, não é certamente nestas que podem ser colocadas agora esperanças numa futura transformação socialista. Esta deverá emergir, isso sim, nos interstícios abertos pela luta entre os grandes blocos capital-imperialistas. É aproveitando essas falhas tectónicas que uma luta persistente e estrategicamente esclarecida dos trabalhadores e dos povos poderá fazer com que eles se afirmem transnacionalmente como a próxima grande potência, anunciadora de um mundo novo.

 

Abrimos este número de O Comuneiro com um ensaio de Mike Davis que pretende identificar o agente histórico capaz de operar uma transformação revolucionária libertadora das melhores potencialidades criativas da humanidade, reconciliando-a com o seu meio ambiente. A classe trabalhadora aí estará ainda, certamente, mas não apenas ela. O espírito mundial ganhou novos atores e tem ainda de estabelecer novas articulações. John Bellamy Foster e Paul Burkett debruçam-se sobre o arcano do valor, para desmontar novos assomos de uma velha falácia antimarxista, agora ressurgida nas fileiras da ecologia liberal. Muitas vezes se atribuíram a Marx valorizações que ele justamente criticava. Para valorizarmos devidamente a humanidade e a natureza, temos que nos desembaraçar da ditadura do valor de troca mercantil.

 

Michael Krätke realça que democracia e capitalismo não formam hoje nem alguma vez formaram um par óbvio ou sólido. Foi um casamento de conveniência, tremendamente instável, como Marx no seu tempo já havia calculado e hoje em dia se evidencia cada vez mais. Jorge Beinstein traz-nos uma luminosa arqueologia do fascismo, ancorando-o na ideologia supremacista que sempre deu suporte ao expansionismo ocidental. Não é uma anomalia súbita e imprevisível. É um recurso de que as classes dirigentes se servem de forma recorrente em períodos de impasse nas suas estratégias de dominação. Hoje, em tempos de crise de acumulação e parasitismo financeiro, vemo-lo novamente ressurgir um pouco por todo o lado, ainda que de forma mitigada e dissimulada. Para Alain Badiou, a regressão para o abrigo das autoridades despóticas da tradição é uma falsa saída para a deriva a-simbólica do capitalismo ocidental, que deve antes buscar-se no horizonte igualitário da ideia comunista.

 

Paul Mason sustenta que o caminho presentemente trilhado pela economia mundial é insustentável, pelos gigantescos níveis projetados para a dívida pública dos E.U.A. e pela necessidade que há de redução de emissão de gases com efeito de estufa para evitar um cenário de aquecimento planetário descontrolado. Teremos que fazer a transição para uma economia capitalista diferente – com um vasto setor público, outro colaborativo e um livre mercado lucrativo drasticamente restringido – ela própria apenas uma etapa em direção a um modo de produção completamente diverso. Prabhat Patnaik analisa a recente agressão à Venezuela para aí identificar um novo tipo de intervenção imperialista, na qual um conjunto articulado de pressões económicas externas e de agitação interna visa submeter - sempre que possível por meios formalmente democráticos - uma nação rebelde aos ditames da ortodoxia neoliberal. Jacques Rancière, a propósito dos coletes amarelos, reflete sobre essas revoltas que despertam onde não se esperavam, agitando os signos universais da democracia direta.

 

A avaliar pelas declarações do seu presidente, o Brasil é o mais conspícuo e destacado dos integrantes da vaga neofascista contemporânea. Ângelo Novo reflete um pouco sobre as circunstâncias que levaram a esta solução política, onde ainda se não distinguem claramente os componentes de farsa daqueles que podem ainda levar novamente à tragédia. As greves de mulheres, diz-nos Cinzia Arruzza, são o sinal de arranque para uma terceira vaga histórica na luta feminista e, simultaneamente, a marca de nascimento de uma nova subjetividade atuante na luta de classes. Samir Amin, antes de nos deixar, fazendo o balanço da sua experiência do Fórum Social Mundial, propôs-nos um conjunto de princípios para a convocatória da reunião inaugural de uma nova Internacional dos Trabalhadores e dos Povos.

 

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O Comuneiro está solidário com Julian Assange e Chelsea Manning, bravos dissidentes do mundo ocidental, lutadores contra o império da manipulação e do cinismo.

 

 

Os Editores

 

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Ronaldo Fonseca

 

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