Outubro e nós (Parte II)

 

 

Ângelo Novo (*)

 

 

A águia bicéfala e a intelligentsia

 

Os eslavos eram tribos neolíticas de agricultores e pastores, de origem indo-europeia. Uma parte dessas tribos acabaria finalmente por assentar sobre a planície europeia oriental, entre a Carélia e o Mar Negro, em especial ao longo do rio Dniepr. Procopius de Cesarea descreveu-os em 545 como “bárbaros vivendo em democracia”. Com efeito, as suas decisões eram tomadas em assembleia de chefes de família (a “viétché”), ao nível de aldeia ou distrito. Uma organização política territorialmente mais ampla foi-lhes imposta apenas pelos sucessivos conquistadores, juntamente com o domínio senhorial sobre a terra (1). Sob esse jugo, continuaram ainda assim a organizar-se produtivamente de forma comunitária até bem dentro do século XX. As terras aráveis eram divididas e redivididas periodicamente pelas famílias, estabelecendo-se uma exploração solidária do solo. A comuna rural russa (obschina ou mir) seria tema de debate acalorado entre a inteletualidade democrática russa, no qual Karl Marx, hesitantemente, também acabaria por participar, no final da sua vida.

 

Houve diversas Rússias ao longo da História, mas o traço de continuidade entre elas foi sempre o despotismo. Por finais do século IX, conquistadores varegues, de origem escandinava, tomaram Kiev e a partir daí submeteram todos os povos eslavos orientais sob a monarquia de Kievan Rus. Por intermédio de sucessivos choques militares e relações comerciais e diplomáticas estabelecidas com o Império Bizantino, os Rus acabaram por absorver a fé cristã ortodoxa de Constantinopla. As invasões mongóis de 1237-40 deram origem a dois séculos de domínio tártaro, sob o Khanato da Horda Dourada. A partir de inícios do século XIV começou a emergir o poderoso Grão-Ducado de Moscovo. Foi aí que Ivan IV, o “terrível”, se proclamou em 1547 czar da Rússia, a “terceira Roma”, reclamando para si o escudo de armas bizantino, entretanto caído aos pés dos turcos.

 

Nos séculos XVI-XVII, batedores cossacos lideraram a grande expansão siberiana. Pedro, o “grande”, proclama o império russo em 1721, instalando a sua capital nas margens do Mar Báltico, em São Petersburgo. É encetada uma grande modernização política e administrativa, com vista a integrar este colosso no concerto das nações europeias. O império russo é animado por uma permanente pulsão expansionista e colonizadora, em todas as direções. É por esse meio que vai resolvendo as suas crescentes tensões internas, que conheceram apenas duas grandes explosões, com as revoltas camponesas dirigidas pelos cabos de guerra Stenka Razin (1630-1671) e Iemelian Pugachev (1742-1775), impiedosamente esmagadas. A ordem social interna baseada na servidão pôde assim permitir-se uma estagnação duradoura.

 

À entrada para o século XVIII, a Santa Rússia não tinha qualquer cultura literária ou científica digna desse nome. Quando, a partir das reformas petrovianas, começou a surgir alguma inteletualidade nativa, logo esta se destacou pela sua autonomia e inconformismo, o que lhe valeu de pronto uma aberta hostilidade por parte dos poderes estatais. O primeiro caso de vulto é o de Aleksandr Radishchev (1749-1802), poeta, escritor e filósofo iluminista, que pôs termo aos seus dias, depois de preso, torturado, condenado à morte e exilado na Sibéria. A sua obra de ficção Viagem de Petersburgo a Moscovo, denunciava a servidão e a vacuidade arrogante da vida cortesã, deixando no ar vagos presságios ameaçadores. Publicada por alturas da tomada da Bastilha em Paris, a sua leitura enfureceu Catarina II, a correspondente de Voltaire, mecenas e confidente de Diderot.

 

O fundador da moderna literatura russa, Aleksandr Pushkin, sofreu exílio interno de 1820 até 1830, quando, pelo casamento, foi admitido na corte. Intrigas cortesãs relacionadas com a sua jovem e aristocrática esposa levá-lo-iam, poucos anos volvidos, a um duelo que lhe seria fatal. Ciladas do romantismo. As ideias liberais, constitucionais e republicanas campeavam entre a oficialidade vitoriosa das guerras napoleónicas, que se organizou conspirativamente em sociedades secretas. Em dezembro de 1825, uma questão sucessória serviu de pretexto ao seu levantamento, facilmente derrotado e brutalmente reprimido. Dezembrismo passou a ser o nome de uma esperança sussurrada a medo durante gerações. Serviria ainda, por exemplo, como pano de fundo de Guerra e Paz (1869) de Tolstoy. O czar que os dezembristas não queriam, Nicolau I, um déspota militarista e ultramontano, reinaria de 1825 até à sua morte, em 1855. A única imprensa que permitiu era a literária, sujeita a uma censura arbitrária. Piotr Tchaadaiev, autor de umas seminais Cartas Filosóficas (1829), foi declarado louco, confinado ao domicílio e proibido de escrever. Veio depois a geração de 1840, dividida entre eslavófilos e ocidentalistas, que se digladiavam ferozmente entre si, mantendo porém ambos estes grupos uma distância altaneira em relação aos círculos oficiais. Entre os “ocidentalistas”, de inspiração hegeliana, destacaram-se o crítico literário Vissarion Belinsky e dois grandes proprietários de origem nobre que se manteriam amigos pelo resto da vida: Aleksandr Herzen (1812-1870) e Mikhail Bakunine (1814-1876).

 

Bakunine foi o profeta anarquista na negatividade pura, defensor do primado da destruição. Fundou uma escola subversiva baseada num conspiracionismo exacerbado, que difundiu, apadrinhou e animou, na Rússia e também um pouco por toda a Europa. É necessário falar aqui um pouco mais em particular de Aleksandr Herzen, um caráter completamente distinto, geralmente considerado o pai do socialismo russo. Depois de sofrer várias perseguições e exílios internos por motivos fúteis, dispondo de consideráveis meios de fortuna, fixou residência definitivamente na Europa ocidental a partir de 1847. Juntar-se-lhe-ia depois o seu amigo e colaborador Nikolai Ogarev. Conheceu Marx em Londres e participou algo nas atividades da AIT. Contudo, a sua intervenção publicística dirigiu-se sempre, em primeira linha, para a Rússia nativa. Escreveu copiosamente, ensaio, ficção, epistolografia e memórias. Editou vários periódicos, como Kolokol (“O Sino”), que eram introduzidos clandestinamente no espaço do império, granjeando-lhe alguma influência. Atacou com denodo a servidão rural. Favorecia a república democrática e propugnou um socialismo com amplas liberdades de iniciativa individual. Sempre grande amigo do campesinato, retomou dos eslavófilos o apreço pelo espírito comunitário do povo russo. Baseando-se nas investigações do agrónomo alemão August von Haxthausen, colocou grandes esperanças numa revitalização da comuma rural russa, desde que articulada federalmente e dotada com tecnologia e organização produtiva modernas. Por isso mesmo é reconhecido como o direto inspirador do populismo russo.

 

Mikhail Petrashevsky (1821-1866) era um jurista empregado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, que nutria uma secreta admiração pelo socialista utópico Charles Fourier. Por amor à cultura e ao convívio inteletual, animava no seu apartamento em São Petersburgo um círculo de leitura e discussão de ideias avançadas, onde era frequente a presença do então jovem escritor Fédor Dostoievsky. Em abril de 1849 todos os membros do círculo foram pesos, sendo quinze deles condenados à morte e encaminhados para execução junto ao Regimento Semionovsky. Foi já com o primeiro grupo perfilado perante o pelotão de fuzilamento que receberam a notícia de uma especial “graça” do imperador Nicolau I, comutando as penas de morte em encarceramento em colónias penais na Sibéria. Petrashevsky morreria aí, dezassete anos depois. Da sua experiência pessoal neste caso, Dostoievsky daria conta em Recordações da Casa dos Mortos.

 

Decididamente, a autocracia russa declarava-se inimiga da liberdade de pensamento. Acabaria por tornar-se também um Estado policial, com um gigantesco aparato de segurança, usando métodos de repressão extremamente brutais e técnicas de vigilância sofisticadamente intrusivas e provocatórias. Não era tanto um Estado totalitário, no sentido contemporâneo do termo (não dispunha de suficiente coesão para isso), como um conglomerado de despotismos absolutos e absolutamente arbitrários, em geometria variável e algo caótica. A única lei da terra era a opressão e o aviltamento. Foi por meio de sucessivos choques traumáticos com as autoridades pátrias que nasceu a intelligentsia russa, embora só mais tarde se desse a sua sedimentação identitária e sociológica. “Falando dela própria, ela dirá «nós», falando do governo, do poder, ela dirá «eles»(2).

 

O Império Russo ganhara um lugar proeminente na Europa saída do Congresso de Viena. Necessitava ainda, porém, de criar uma organização burocrática e militar capaz de a fazer verdadeiramente ombrear com o Ocidente. Para isso era-lhe indispensável um sistema nacional de ensino, com todos os inconvenientes e perigos que daí pudessem advir. Planificado por Alexandre I, ele viria a ser realizado já no reinado de Nicolau I. Não era, de modo algum, um sistema educacional massivo. Teria, nos seus inícios, uns 20.000 alunos no nível de ginásio e uns 4.000 universitários, engrossando progressivamente a partir daí (3). Mas levou, ainda assim, a educação moderna para além das classes nobres, englobando também filhos de comerciantes, popes, pequenos funcionários, oficiais de baixa patente e mesmo alguns camponeses e artesãos, tudo mesclado numa mesma massa culturalmente uniformizada e ligada por laços de solidariedade juvenis. Eram os raznochintsy, os inteletuais sem castelo.

 

O bloco no poder que dava sustentação ao despotismo czarista era muito estreito: a nobreza descendente dos boiardos e a cooptada para os graus superiores da Tabela de Patentes da burocracia estatal, o alto clero, alguns grandes proprietários de província. Na falta de uma verdadeira burguesia ascendente, a sociedade civil foi sendo engrossada por uma classe média inteletualizada cronicamente descontente. Foi com base nestas realidades típicas da Europa de Leste que o russo-polaco Jan Waclav Makhaiski, entre 1898 e 1906, viria a criar a teoria de que os inteletuais constituíam um grupo social distinto que tendia a usar uma ideologia revolucionária para aceder ao poder com o apoio do proletariado e, a partir daí, explorar por sua própria conta as classes produtoras (4). Talvez tenha sido, em parte, por acreditar nesta teoria (ou por a ter formulado ele próprio de forma independente) que Estaline, assim que consolidou o seu poder pessoal na União Soviética, se empenhou em dizimar, sem piedade e sem quartel, todos os “velhos bolcheviques” oriundos da intelligentsia anticzarista. O marxismo pode ser uma escola de suspeição impiedosa. Debalde o fez, porém, se foi esse o caso, pois que as novas gerações de quadros dirigentes, formadas já sob a sua direção, viriam a constituir a famosa “Nomenklatura” que, por fim, faria implodir o regime a partir de dentro, dando lugar à atual oligarquia.

 

Mas estamos a adiantarmo-nos imperdoavelmente. Produto já do sistema estatal de ensino, a década de 1860 viu surgir na Rússia um novo tipo de inteletual, que ademais trazia consigo a promessa de um “homem novo”. Ivan Turguenev chamou-lhes niilistas no seu romance Pais e Filhos, que faz um retrato desta clivagem geracional. Eram ateus com vocação de santidade, individualistas generosos, ascéticos, disciplinados, ávidos de informação científica, avessos aos prazeres fúteis e às efabulações estetizantes, totalmente devotados à causa da emancipação popular. Havia que ressarcir o povo pelo privilégio de uma educação adquirida à custa do seu labor. A figura chave é o filósofo materialista Nikolay Tchernichevsky (1828-1889). Foi editor da prestigiada revista literária Sovremennik (“Contemporânea”) tendo-a transformado num órgão de combate político. Advogou o derrube revolucionário da autocracia e a criação de uma sociedade socialista baseada na comuna rural, sendo assim o fundador formal do populismo russo (Narodnichestvo). Também ele foi preso e sujeito a uma execução simulada, seguida de exílio e trabalhos forçados (katorga) na Sibéria. Enquanto esteve encarcerado na fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, escreveu uma novela intitulada Que Fazer? que se tornou imensamente influente como retrato da formação de uma geração revolucionária. Há um testemunho que garante ter o jovem Lenine lido esta novela cinco vezes seguidas, no verão de 1888. Deixou-lhe uma impressão de tal modo indelével que resolveu dar este mesmo título à sua conhecida obra teórica sobre a formação do partido revolucionário.

 

Outros niilistas de vulto foram Nikolai Dobrolyubov, Dmitry Pisarev, o celerado conspiracionista Sergey Nechayev e Pyotr Tkachev (1844-1886). Este último merece uma referência especial por ter entrado em contato com o marxismo, de que reteve aliás apenas uma espécie de determinismo económico. Polemizou com Engels. Formulou uma teoria da revolução de inspiração blanquista, em que uma vanguarda organizada de forma isolada tomaria o poder para instaurar uma ditadura. Muitos autores equivocadamente consideram-no um afluente do leninismo. Morreu aos 41 anos em Paris, num hospital psiquiátrico. O sociólogo Nikolay Mikhaylovsky (1842-1904), por sua vez, não era um revolucionário de faces encovadas pelas insónias de uma paixão infrene. Nunca conheceu a prisão, nem sentiu grandes dificuldades na publicação dos seus escritos nas revistas narodnik legais, como Russkoye Bogatstvo (“A Riqueza Russa”). Era um sóbrio homem de saber, de barba bem cuidada, sobrecasaca e pince-nez, com certo pendor para o cientismo evolucionista. Também ele teorizou a obshchina, colocando-a no centrodas suas esperanças numa via original de desenvolvimento para a Rússia.

 

O czar Alexandre II iniciou o seu reinado em 1855 com o encargo de encerrar uma guerra perdida na Crimeia. No rescaldo, procurou trilhar um certo reformismo liberalizante. A águia bicéfala procura a eficácia na modernidade, mas não pode ir muito longe nesse caminho, sob pena de perder ambas as cabeças. Em 1861 foi abolida a servidão, concedendo-se aos camponeses libertos a possibilidade de adquirir as suas terras, a preços elevadíssimos. Estas reformas introduziram o capitalismo na vida rural russa, iniciando-se a polarização entre uma classe de agricultores ricos (kulaks) e a grande massa campesina e proletária ainda mais empobrecida. Foi ainda instituído um sistema de autogoverno pelas elites locais (o zemstvo), limitado aliás às áreas de população russa. Estalaram tumultos violentos nos campos. Os anos de 1861-63 foram também de grande agitação universitária. Houve uma nova insurreição nacional na Polónia. As veleidades progressistas de Alexandre II cederam paulatinamente o passo à reação.

 

Com a morte prematura de Herzen, em 1870, a opinião democrática russa passou a ser dominada pelo despique cerrado entre Mikhail Bakunine e Pyotr Lavrov (1823-1900). Este último, com uma carreira militar atrás de si, aderiu ao movimento revolucionário e foi exilado para os Urais, de onde escapou para o estrangeiro. Esteve organizado na AIT em França e participou na Comuna de Paris. Leu Marx desde muito cedo e meditou fecundamente sobre ele. Acreditava que as peculiaridades históricas da Rússia lhe facultavam uma via original para o socialismo, que se poderia operar por intermédio de reformas estruturais, envolvendo as massas campesinas de forma sustentada, através da educação. Não descartava, porém, a via revolucionária, aliás indispensável para derrubar a autocracia. Em certa medida foi um social-democrata precoce. Publicou o jornal Vperiod (Avante) a partir de Zurique, para além de numerosos ensaios históricos, sociológicos e filosóficos. Na pátria russa, círculos clandestinos de estudantes e inteletuais citadinos começaram a reunir-se à volta das ideias de Herzen, Tchernichevsky, Lavrov, mais tarde Mikhaylovsky, procurando achar meios de as levar à prática, resgatando a obshchina do perigo mortal em que se encontrava e preservando-a para o seu papel idealizado de esteio central de um desenvolvimento original socialista.

 

Nascia assim o populismo russo. Partiu então desses círculos a palavra de ordem de “ir para o povo”, mergulhar no seu seio, viver com ele, com o objetivo de lhe transmitir o imperativo da revolta. Esse anseio concretizou-se finalmente na primavera de 1874. Dois a três mil narodniks, homens e mulheres, puseram-se em marcha, muitos a pé, vestindo roupas populares, com uma grande alegria e entusiasmo missionário. Espalharam-se por 37 províncias (em 49), segundo os relatos policiais, com destaque para as regiões do Don e do Volga. O movimento entrou muito rapidamente em colapso, face à incompreensão desconfiada dos muzhiks e à repressão brutal das autoridades. Pelo outono, quase todos os agitadores tinham já sido detidos. Os julgamentos só se iniciariam a partir de 1877, decorrendo de forma tumultuosa, com um grande pathos emocional, à russa. A partir de agora seria a guerra. Começou a ser rotineiro encontrar uma parte significativa da “melhor juventude” russa em trânsito pelo exílio europeu, quando não estava encarcerada ou vergada às paisagens geladas da Sibéria. Foi a ida para o povo uma “cruzada de crianças” (5), uma iniciativa inapelavelmente quixotesca? Na verdade, o que se produziu então foi um desencontro completo, absolutamente caricatural. Contudo, certo é que, quarenta anos volvidos, os camponeses aderiram à revolução e, em novembro de 1917, os populistas, agora sob a sigla de “socialistas revolucionários”, arrebataram as eleições para a Assembleia Constituinte, arrasando em todos os distritos rurais.

 

A primeira organização política revolucionária russa de alcance nacional, com direção centralizada, formou-se em 1876, no rescaldo do fracasso da “ida para o povo”. Foi fruto do esforço organizativo de Mark Natanson e retomou o nome de Zemlya i Volya (“Terra e Liberdade”) que já havia sido usado, na década anterior, pelos círculos formados à volta do jornal Kolokol. Os seus objetivos políticos fixaram-se no derrube revolucionário da autocracia e na distriuição igualitária da terra, ficando a forma do Estado (ou ausência dele) para ser deliberado oportunamente pelas massas populares soberanas. Em dezembro desse mesmo ano Zemlya i Volya promoveu uma demonstração pública (outra novidade absoluta) na cidade de São Petersburgo, tendo-lhe dirigido a palavra um jovem estudante de nome Georgy Plekhanov. A novel organização criou uma imprensa própria, feita e distribuída no interior. Encarou também a execução de tarefas de “desorganização”, como libertação de prisioneiros (um dos resgatados foi um jovem geógrafo das mais altas famílias, de nome Pyotr Kropotkine), contra-espionagem ou a eliminação de bufos, provocadores e agentes repressivos especialmente perigosos. Começava o terrorismo, embora de uma forma ainda não sistemática. Foi assim que a jovem Vera Zasulich feriu a tiro o General Trepov, chefe de polícia na capital, sendo espantosamente absolvida em tribunal, aclamada na rua e prontamente conduzida clandestinamente para o estrangeiro. Os atos de violência começaram a registar uma escalada e passaram a incluir atentados à vida do czar. Provocaram também uma cisão irreconciliável que levou à liquidação de Zemlya i Volya, em agosto de 1879.

 

Os adeptos das ações violentas agruparam-se numa nova organização denominada Narodnaya Volya (“Vontade do Povo”). Formalmente era um partido político, mas na verdade era mais uma sociedade secreta, com um comité executivo autonomeado que decidia tudo e não respondia perante ninguém. Só uma elite abnegada seria capaz de despertar o vulcão popular, por meio de ações exemplares de propaganda pelo facto. A sua doutrina admitia a simultaneidade entre revolução política e social. O derrube da autocracia, nas condições russas, traria por si só a emancipação do povo, não havendo outras forças capazes de lhe disputar o poder. Deve-se atacar ao centro e todo o edifício colapsará.

 

Narodnaya Volya foi assim sobretudo notória pelas suas ações armadas e pelo clima de estado de sítio que foi capaz de impor ao país com a sua obsessão regicida. Depois de muitas tentativas e erros, muitos túneis escavados, muitas cargas instaladas e explodidas da recém-inventada dinamite, conseguiu por fim assassinar Alexandre II, a 1 de março de 1881, com uma segunda bomba atirada à queima-roupa de uma emboscada ao seu trajeto dominical de carruagem por São Petersburgo. Todas estas ações geraram grande ansiedade e impacto internacional, criando a ilusão de uma situação revolucionária na Rússia, quando na verdade eram produto da ação conspirativa de umas escassas dezenas de pessoas, com algumas escassas centenas de apoiantes ativos mobilizados. Os simpatizantes na expetativa eram naturalmente muitos mais, sobretudo nos meios urbanos, sendo a opinião pública ilustrada generalizadamente hostil ao czarismo. Entre os mais lendários terroristas narodovoltsy contaram-se Aleksandr Mikhailov, Nikolai Morozov (que depois de sobreviver a vinte e cinco anos de prisão se tornou um cientista de renome), Andrey Zheliabov, Sofya Perovskaya, Nikolai Kibalchich e Vera Figner.

 

A execução do czar não provocou nenhum levantamento de massas, antes uma onda repressiva que acabou por conduzir à forca quase toda a organização terrorista. Alexandre III subiu ao trono, que se tornaria, até ao fim, um baluarte da mais absoluta e intransigente reação. A autocracia dos Romanov estava bem preparada para suportar o regicídio, que ela própria aliás, por tradição, praticava palacianamente, segundo as suas conveniências. Para o camponês comum, terá sido isso mesmo o que se passou então mais uma vez. Narodnaya Volya perseguiu uma miragem. No entanto, não deixou por isso de trilhar algum caminho. Tinha a sua imprensa clandestina regular e continuou a fazer trabalho organizativo e de mobilização, não só entre o campesinato como agora também entre o operariado urbano. Em termos teóricos registou uma evolução em relação ao apoliticismo acrata dominante no populismo tradicional. Admitia a tomada de medidas revolucionárias por um governo provisório, enquanto se aguardasse a eleição de uma assembleia constituinte por sufrágio universal.

 

A organização resultante da cisão do populismo que agrupou os militantes relutantes em relação ao terrorismo, insistindo na linha do levantamento de massas, denominou-se Chernyi Peredel (“Partição Negra”). Este nome faz alusão à operação periódica de redistribuição das terras e tributos na comuna rural russa. Sempre a obshchina. Este grupo não trouxe grandes novidades ideológicas e lutou com muitas dificuldades de implantação, tendo a maioria dos seus membros mais destacados tomado o caminho do exílio. Entre eles estavam, além do ideólogo Georgy Plekhanov, o incansável organizador Pavel Axelrod, a emblemática Vera Zasulich e o intrépido Leon Deutsch. Todos eles estariam depois envolvidos, escassos anos volvidos, em 1883, na fundação em Genebra do Gruppa Osvobozhdenie Truda (Grupo Emancipação do Trabalho), a primeira organização russa explicitamente marxista, sob o modelo social-democrata. Nesse mesmo ano, Plekhanov publicou o seu primeiro ensaio político relevante (6). Viria a ser considerado o “pai do marxismo russo” e chegou a adquirir alguma nomeada como um dos autores de referência no sistema ideológico da II Internacional (7).

 

Esgotados todo o som e a fúria de Narodnaya Volya, a parte final da década de 1880 foi marcada, no campo populista, por uma grande prostação e melancolia tchekoviana. A fusão de vários aparelhos de vigilância e repressão criou a temível Okhrana (8). Se havia ciência em que a Rússia imperial se destacava na vanguarda em todo o mundo era sem dúvida a ciência policial. Uma última e desgarrada tentativa regicida, a 1 de março de 1887, vitimaria apenas os muito jovens terroristas, entre os quais Aleksandr Ulianov, o sisudo irmão mais velho de Lenine (9). Uma parte das hostes narodnik evoluiria desencantadamente para posições conciliatórias aproximando-se do liberalismo que se acantonava legalmente no poder local dos zemstvos (o plural é zemstva), em constante luta de fricção com a autocracia.

 

No final do século, círculos neopopulistas começaram a reunir-se de novo em diversas organizações, acabando depois por confluir, dando origem ao Partido Socialista-Revolucionário, fundado em 1902. O seu dirigente e principal teórico era Viktor Chernov (1873-1952), que manteve a tradição do socialismo agrário narodnik. Reuniram-se a esta bandeira velhas glórias da “ida para o povo” como Mark Natanson e Yekaterina Breshko-Breshkovskaya, juntamente com jovens leões como Grigory Gershuni, Boris Savinkov e Maria Spiridonova. Na primeira década do século XX, o partido notabilizou-se por possuir uma ala armada que praticou numerosos assassinatos de altos oficiais czaristas, incluindo o odiado ministro do Interior Vyacheslav von Plehve. Entendia-se que esta era a única maneira de extrair concessões políticas da autocracia. O que, por paradoxal que pareça, era razoável de um ponto de vista reformista. O czarismo tinha um historial de iniciativas de negociação secreta com Narodnaya Volya com oferta (provavelmente de má fé) de importantes concessões constitucionais a troco de tréguas.

 

Nos anos 1891-92 rebentaram a fome e epidemias de cólera, sendo ocasião para novo sobressalto cívico inconformista. Anton Tchekov esteve na primeira linha do socorro às vítimas, em retalhos da sua vida de médico. A consciência liberal acordou subitamente para o facto de que o absolutismo czarista era não apenas iníquo e opressivo mas falhava no cumprimento das funções mais elementares de um Estado. Em 1894 morre o anafado Alexandre III, sendo sucedido pelo bisonho Nicolau II. O ideólogo e eminência parda do regime manteve-se o reacionaríssimo rato de sacristia Konstantin Pobedonostsev. Em 1896, na faustosa cerimónia de coroação do novo czar, em Moscovo, nova tragédia, com perto de 1.500 pessoas a morrer esmagadas e até 20.000 resultando feridas na disputa pelas migalhas do banquete destinadas ao povo. O baile festivo marcado para essa noite na embaixada francesa manteve-se, abrilhantado com a presença do jovem czar.

 

Marx viveu o suficiente para ver a destestada Rússia ser dos países em que as suas ideias tiveram mais precoce divulgação, debate e aceitação. O Volume I de O Capital foi aí publicado logo em 1872, escassos cinco anos após a edição original, com tradução do populista Nikolai Danielson. A censura czarista, numa primeira análise, não lhe encontrou perigo, ajuizando, não sem razão, que a obra se dirigia sobretudo contra o capitalismo liberal ocidental. Venderam-se três mil exemplares num ápice, antes de ser barrada uma segunda edição. Em 1882 é publicada uma nova edição russa do Manifesto do Partido Comunista, com prefácio dos autores. Marx aprendera a língua russa e dedicou uma grande parte dos seus anos finais ao estudo e reflexão sobre questões do império oriental (10).

 

Marx e Engels eram grandes admiradores de Narodnaya Volya, que era aliás o partido do seu bom amigo German Lopatin. Relacionaram-se empenhadamente com círculos populistas, antes de Engels (então o único sobrevivente) o ter feito com a “Emancipação do Trabalho”. Inclusivamente aprovaram, de forma condicionada, a ideia da integração da comuna rural numa via original para o socialismo que evitasse as dores dilacerantes do desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Como noutras ocasiões, não foi sem alguma reserva que Marx e Engels viram surgir e afirmarem-se os “marxistas”. Mas estes mantiveram o seu curso com denodo e acabariam por prevalecer.

 

Existia um movimento operário com influência marxista pelo menos desde a constituição da União Nortenha dos Trabalhadores Russos, em 1879. No entanto, foi sobretudo a partir da década de 1890 que a Rússia assistiu a um grande surto de industrialização, em resultado da política desenvolvimentista do ministro das Finanças Sergei Witte, financiada em grande parte com capitais franceses, belgas e alemães. Começou a formar-se nas grandes cidades um proletariado muito compacto, que rapidamente deu mostras de grande agitação inconformista. Agitadores da intelligentsia marxista introduziram-se no seu seio. Nadezhda Krupskaia, Vladimir Ulianov, Gleb Krzhizhanovsky e Iulii Martov estiveram entre eles, em São Petersburgo. Primeiro avançaram as mulheres, fazendo voluntariado na educação de adultos promovida legalmente. Os elementos operários mais promissores eram depois encaminhados daí para cursos clandestinos de educação política marxista (11).

 

Desta feita o encontro foi fácil e, rapidamente, muito proveitoso. O terreno era fértil e muito recetivo, num operariado jovem e rebelde, desenraizado da sua província natal, não tendo ainda qualquer outra ideologia socializadora ou tradição cultural que lhe fornecesse uma fixação identitária (12). A teoria da mais-valia era fácil de entender e interessantíssima. O resto também, com algum esforço. O único problema é que os operários mais dotados nunca se davam por satisfeitos com a formação recebida. Queriam aprender sempre mais. Começaram a surgir os primeiros inteletuais operários, que nem sempre coincidiam com os dirigentes da classe. Este encontro bem sucedido, por sua vez, granjeou novos adeptos para o marxismo entre a juventude estudantil e narodniks desiludidos. A repressão notou de imediato estes desenvolvimentos e tentou criar a sua própria animação nos meios operários, com a ajuda de membros do clero, sob a direção de um agente da Okhrana particularmente criativo, Sergei Zubatov. Certo é que sindicatos e associações policiais e genuinamente social-democratas passaram a coexistir com muitos vasos comunicantes entre si, de forma por vezes quase inextricável.

 

A elevação da estrela do marxismo no seio da intelligentsia significou uma deslocação do centro de gravidade da agência revolucionária do campesinato para o proletariado urbano e do heroísmo individual para a luta de massas. As particularidades eslavófilas ligadas à ancestral obshchina perderam o seu interesse e, pelo contrário, o desenvolvimento capitalista (que a estava a destruir) passou a ser observado com uma expetativa atenta e benévola. Em 1898 formalizou-se, num minicongresso realizado em Minsk, a constituição do Rossiyskaya sotsial-demokraticheskaya rabochaya partiya (Partido Operário Social-Democrata Russo - POSDR). A sua existência, contudo, só viria a adquirir real significado a partir de dezembro de 1900, quando começa a publicar-se o seu jornal Iskra (Centelha). Editado e impresso no ocidente, era depois introduzido na Rússia em fundos de mala falsos, sendo ainda reimpresso clandestinamente em diversos pontos do país. Os círculos de correspondência e de apoio à distribuição do jornal foram-se constituindo como os núcleos regionais do partido.

 

A definição estratégica da social-democracia russa foi sendo construída por meio de diversas obras polémicas dirigidas contra o populismo, da autoria sobretudo de Plekhanov e Lenine. Do primeiro, surgiu As nossas divergências ainda em 1885 (13). Do segundo, as obras cimeiras publicadas ainda em oitocentos são Quem são os «Amigos do Povo» e como lutam contra os sociais-democratas (1894) (14) e, sobretudo, o monumental O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (1899) (15). Merece também referênciao panfleto de Pavel Axelrod Sobre a questão das tarefas e tácticas da social-democracia russa (1898) (16).

 

O pressuposto básico é que o capitalismo era já o modo de produção dominante na Rússia, sendo inútil e retrógrado tentar salvá-la desse flagelo. O proletariado urbano, sendo embora ainda uma classe minoritária, tem a seu favor os ventos teleologicamente orientados da história, transportando em si o testemunho de uma fase mais avançada do desenvolvimento social. Por esse motivo, quando o desenvolvimento, concentração e densificação das suas lutas económicas o conduzir à luta política, caber-lhe-à aí naturalmente encabeçar e dirigir todo o campo popular dos explorados. Mais ainda. Como a burguesia russa é enfezada e timorata, sendo incapaz de tomar uma iniciativa política disruptora, mesmo na prossecução dos seus interesses históricos, caberá ainda ao operariado o impulso decisivo e, em grande parte, a direção, no derrube da autocracia por meio da revolução democrática que se aproxima. Uma vez instaurada a república burguesa, com as suas liberdades públicas, o desenvolvimento das lutas sociais nesse novo contexto acabará por desembocar naturalmente, a prazo, num contexto internacional confluente, na revolução socialista.

 

Os populistas tinham muita dificuldade em compreender a linha estratégica de intervenção política dos social-democratas (ou marxistas), a quem olhavam desdenhosamente como inteletuais não revolucionários. Parecia-lhes que estes propunham um adiamento indefinido da revolução, à espera que a destruição das comunidades camponesas, com o consequente êxodo rural, engrossasse suficientemente os efetivos da classe operária urbana. Mas a perspetiva de Lenine era muito diferente: o desenvolvimento do capitalismo traria a polarização social e a agudização da luta de classes às cidades e aos campos. Caberia a um partido social-democrata canalizar e articular a nível nacional todo este descontentamento em termos de luta política de massas em torno de um programa de democracia revolucionária. Era a aliança operário-camponesa que se esboçou já muito claramente num panfleto publicado nos inícios de 1903, antes ainda do fatídico II Congresso do POSDR (17).

 

As greves bem sucedidas de 1896-7 foram uma boa introdução do operariado à luta política. Mas o facto de os veteranos da Emancipação do Trabalho continuarem fixados no estrangeiro, conjugado com a prisão e exílio na Sibéria de Lenine, Martov e companheiros entre 1898 e 1901, criou um vazio na liderança social-democrata russa no terreno que deu ocasião a dois desafios teóricos, aliás ambos aparentado com o revisionismo bernsteiniano que então se manifestava na Alemanha. Surgiu, por um lado, o “marxismo legal” (assim chamado por promover as suas ideias em publicações toleradas pela censura czarista) de Pyotr Struve e Mikhail Tugan-Baranovsky, que acentuava o pendor evolucionista da social-democracia da época para tentar colocar a russa a reboque do liberalismo burguês. Por outro lado, apareceu o “economismo”, entre os jovens ativistas apoiantes do movimento operário, que desejava limitar o programa da social-democracia russa às aspirações manifestadas pelo próprio operariado, na progressão espontânea da sua luta. Além do economismo propriamente dito, que se expressava no jornal Rabochaia Mysl (Pensamento Operário), havia uma outra tendência que foi julgada contemporizadora para com ele, que se expressava no jornal Rabochee Delo (A Causa Operária). Estas tendências dissolventes foram isoladas, amalgamadas e dispersas pela artilharia então ainda bem conjugada de Plekhanov e Lenine, com o acordo de toda a redação do Iskra. E se dizemos artilharia é porque era mesmo para aniquilar.

 

Na viragem para o século XX, a formação social russa estava num agudo estado de sufoco e desordem, aproximando-se rapidamente da zona de deflagração de uma tempestade perfeita. As vias de transição pacífica ou mesmo revolucionária para um Estado burguês clássico estavam bloqueadas. O descontentamento camponês engrossava. O operariado estava em ponto de ebulição. A intelligentsia em estado de alerta, com os nervos retesados.

 

Não é sem consequências que um regime político aliena e ganha inimizades declaradas em gerações sucessivas dos seus melhores valores, ao ponto de os seus revolucionários se superiorizarem inteletualmente, de forma esmagadora, aos quadros dirigentes oficiais que tem ao seu serviço. A mediocridade passeava-se langorosamente nos salões, enquanto a verdadeira excelência conspirava em salas modestas, de forma resoluta, obstinada e sem regresso, com gente de mãos calosas e unhas sujas. Esse abismo e esse desequilíbrio qualitativo tinham-se vindo a cavar, com efeitos cumulativos, durante todo o longo estertor do czarismo, que se prolongou agonisticamente por cerca de um século. Sem eles, a revolução soviética, com a sua insensata radicalidade, teria sentido muito mais dificuldade a eclodir, a vencer e a consolidar-se contra todos os inimigos que prontamente se reuniram contra si. A revolução russa era inevitável, tendo eclodido de uma forma socialmente espontânea. Do seu seio transcresceu uma outra revolução que, essa, foi uma criação voluntária e consciente. A seu modo, também ela foi um produto da libertação de forças longamente represadas e comprimidas. Mas estas aqui eram forças do pensamento e do imaginário social, da “costa da utopia” para empregar aqui o título da trilogia dramática de Tom Stoppard sobre Herzen e seus amigos.

 

Os bolcheviques

 

Sendo o homem produto da sua circunstância, as circunstâncias que referimos anteriormente produziram revolucionários absolutamente excecionais. Homens e mulheres que, noutros países, constituiriam uma geração literária notável – por exemplo, o “grupo de Bloomsbury” na contemporânea Inglaterra pós-vitoriana, com Bertrand Russell, John Maynard Keynes, Virginia Woolf, etc. – sob as condições históricas particulares da Rússia no limiar do século XX, constituíram uma plêiade inigualável de teóricos, organizadores e agitadores revolucionários. E essas qualidades não se circunscreveram a um número limitado de figuras cimeiras, antes se reproduziram, nas devidas proporções, por todos os níveis da população formalmente educada ou com a sua curiosidade desperta ainda em estado bruto.

 

A enorme quantidade de jovens revolucionários surgidos produziu um nível cimeiro de elevada qualidade, ocasionando mesmo a emergência de um génio entre eles. Talvez mesmo dois, ou, pelo menos, um e meio, um e um terço, se contarmos também Leon Trotsky. Já mencionamos por diversas vezes Vladimir Illitch Ulianov, dito “Lénine” (1870-1924), sem dúvida um personagem central na “tragédia de um povo” de que nos ocupamos. É absolutamente excecional a reunião, numa só pessoa, de um conjunto tão vasto, apurado e temperado de qualidades próprias de um dirigente revolucionário. Eis como Rosa Luxemburgo o indicou a uma amiga, em 1907, por alturas do Congresso Mundial da Internacional Socialista, realizado em Estugarda:

 

“Olha bem para ele. Aquele é Lenine. Olha para a sua cabeça voluntariosa e obstinada. Uma verdadeira cabeça de camponês russo, com alguns vagos traços asiáticos nela. Aquele homem vai tentar derrubar montanhas. Talvez venha a ser esmagado por elas. Mas nunca cederá” (18).

 

Esta descrição premonitória resulta extraordinariamente comovedora se a confrontarmos com a última foto conhecida de Lenine, de olhos esbugalhados na sua cadeira de rodas. Eis o que é um titã fulminado pela marcha implacável de um tempo adverso. A conjugação e peculiar tensão entre conhecimentos e vontade, livro e espada (19), paixão e capacidade de cálculo realista, que se operou na mente unidirecionada deste homem, fizeram dele, sem dúvida, uma figura de uma perigosidade ímpar. Derrubadas as estátuas, ainda hoje isso se sente, causando temor, repulsa ou fascínio. Quando a tarefa indeclinável do momento for pegar o mundo pelos cornos e fazê-lo mudar de curso, o seu exemplo brilhará, sem que se saiba ainda muito bem se alguém estará então em condições de responder à chamada.

 

O propósito a que Lenine resolveu dedicar a sua vida, assim que atingiu a maioridade inteletual, foi o de criar na Rússia um partido decalcado naquilo que já foi chamado o modelo erfurtiano. Na Alemanha, em 1990, o SPD emergira vitorioso de um período de doze anos de semiclandestinidade imposta pelas leis antissocialistas de Bismarck. No seu congresso realizado em 1991, na cidade de Erfurt, adotou um programa que manifestava a sua confiança na aproximação inelutável de uma revolução socialista, que o partido deveria aguardar e preparar com tranquilidade, participando na vida política e social dentro da legalidade. Este programa e o comentário oficial de Karl Kautsky, intitulado Luta de Classes, eram divulgados como a doutrina oficial “marxista” por todos os meios sob a influência da II Internacional (20). Os social-democratas russos aspiravam também, nesse tempo, a derrubar a autocracia czarista, instaurar uma república democrática e aceder assim à sua própria auspiciosa bem-aventurança erfurtiana.

 

O projeto de Lenine não era, pois, construir um “partido de tipo novo” como viriam depois a afirmar em coro sicofantas estalinistas e anticomunistas da guerra fria. As únicas especificidades de tomo eram as impostas pelas condições de rigorosa clandestinidade em que o partido teria de atuar. Vencidas estas, conquistado um regime político de legalidade democrática e liberdades públicas, o partido almejado seria ainda mais semelhante ao modelo do SPD, devidamente adaptado às particularidades geográficas, sociais e culturais russas (21).

 

A social-democracia, nesse tempo, era a doutrina política que propagava ser a missão histórica mundial da classe trabalhadora derrubar o capitalismo e instaurar um novo modelo de sociedade baseado na soberania dos produtores associados. Para esse fim, operava uma fusão entre o socialismo científico marxista e o movimento operário, por meio da constituição de partidos políticos independentes da classe trabalhadora centralizados, disciplinados e de âmbito nacional. Constituir-se-ia assim uma vanguarda esclarecida da classe operária, plenamente consciente da sua missão e organizada com vista à prossecução dessa finalidade libertadora. Caber-lhe-á estabelecer meios estáveis de contato e influência sobre as restantes camadas mais atrasadas do proletariado e, finalmente, sobre todo o povo trabalhador, com vista a mobilizá-lo, em alturas decisivas, para garantir o triunfo final da sua causa. Uma importante e necessária etapa nesse caminho será a conquista de um regime político que garantisse as liberdades públicas essenciais. E era neste ponto que a social-democracia russa punha as suas esperanças de ter encontrado a fórmula que permitiria, finalmente, o triunfo sobre o bárbaro despotismo dos Romanov e sua clique. A vitória final do socialismo seria uma outra luta, que teria de ser conduzida no âmbito da solidariedade internacionalista do proletariado mundial, nomeadamente com a participação dos seus mais avançados destacamentos, localizados nas nações da Europa ocidental.

 

O POSDR, na esteira da circulação do Iskra, tinha dado passos muito seguros de expansão nacional e estruturação organizativa. Era altura de realizar um novo congresso nacional para consolidar o partido. Foi feito nesse sentido um grande esforço de secretariado, de comunicações (cifradas) e logístico. O congresso iniciou-se finalmente, a 30 de julho de 1903, em Bruxelas, mas logo teve de ser transferido para Londres. E o partido cindiu-se ali mesmo, praticamente a meio, na 22.ª sessão plenária, com grande acrimónia, de forma irremediável, por uma diferença praticamente impercetível na redação do art.º 1º dos seus estatutos. Os “economistas” e os judeus exclusivistas do Bund abandonaram o congresso. A maioria que resultou dessas exclusões proclamou-se como tal, como bolchevique, enquanto a minoria aceitou, fez mesmo questão de ser considerada também como tal, ou seja, como menchevique.

 

A redação do Iskra foi reduzida a três elementos: Plekhanov, Lenine e Martov. Este último, contudo, recusou-se a integrar a equipa. Plekhanov sinalizou então que queria um compromisso e Lenine demitiu-se. A minoria ganhou assim Plekhanov e, com ele, o Iskra e os órgãos centrais do partido. Era como se as deliberações do congresso resultassem completamente invertidas. Os bolcheviques publicariam um novo jornal intitulado Vperyod (Avante). A tempestuosa cisão na social-democracia russa provocou alarme na Internacional Socialista e um alargamento da polémica. Rosa Luxemburgo interveio a favor dos mencheviques, de forma aliás um tanto infeliz (22). A posição de Lenine seria reunida numa extensa brochura publicado em março de 1904 (23).

 

A diferença entre mencheviques e bolcheviques, como se veio a provar subsequentemente, era sobretudo uma questão de atitude. Ambas as fações eram constituídas por marxistas ortodoxos (à altura kautskianos) e assim permaneceriam por algum tempo. Aliás, assim protestariam sempre considerar-se a si próprias. Foi só com o correr dos anos que se revelou claramente que os mencheviques eram tendencialmente mais moderados, embora chegassem a protestar o contrário. Em 1903, os mencheviques eram aqueles que não gostavam de Lenine, sobretudo no que respeita ao modelo que este propunha para o partido, exposto já exaustivamente nas páginas do Iskra e sintetizado na brochura Que fazer? (o célebre e contencioso Chto Delat?), publicada no ano anterior (24). Aí se propunha a criação de uma estrutura de combate, bem disciplinada e articulada, apta a suportar os embates da repressão e a conduzir, mesmo em condições de clandestinidade, ações ofensivas de classe coordenadas e unificadas a nível nacional. Os mencheviques, sem o admitirem muito explicitamente, desejavam no fundo algo de mais aproximado aos velhos círculos de estudo e propaganda, que Lenine julgava ultrapassados, comparando-os à fase manufatureira que precedera o surto da grande indústria. Eram mais inteletuais e pensadores do que propriamente militantes. A sua composição social acabou também, com o tempo, por se tornar mais diversificada, com predomínio de operários qualificados, pequena burguesia e algumas classes profissionais.

 

Comentadores contemporâneos e posteriores dedicaram centenas e centenas de páginas a salientar o caráter organicamente centralizador e pretensamente elitista da estrutura partidária proposta por Lenine (25), sem cuidarem minimamente do que era a preocupação essencial de Que Fazer?, a concentração e centralização política do descontentamento social contra o despotismo czarista. A tomada de consciência de classe por parte do proletariado é um processo desigual e descontínuo. Por esse motivo, é essencial organizar separadamente a sua vanguarda, para que esta possa preservar, elaborar e sintetizar a experiência das suas lutas. Além disso, é ainda fundamental universalizar essa experiência e dar-lhe o necessário tratamento científico e enquadramento histórico. Para daí, enfim, extrair uma estratégia, uma tática e um programa. Nada disso estará ao alcance da simples vivência empírica local de operários em revolta espontânea, ano após ano, geração após geração. Qualquer pessoa de boa-fé e minimamente raciocinante compreenderá isto. Não é mais amigo dos operários nem lhes faz mais justiça quem se sente na obrigação de sustentar ilusões em contrário. Provavelmente será, isso sim, um pequeno-burguês assolado pela má consciência. Sem que seja possível articular um desafio credível à hegemonia política da burguesia, o proletariado não poderá sequer esperar obter ganhos económicos de forma sustentada.

 

O partido de vanguarda, mergulhado na luta proletária e aprendendo quotidianamente com ela, sintetizando-a abstratamente de modo a melhor se elevar ao seu concreto fluir, é o instrumento indispensável para operar, com base na sua energia concentrada e bem dirigida, uma percussão política de grande poder e eficácia, capaz de operar, na altura certa, uma transformação histórica verdadeiramente libertadora (26). Outro problema, bem diverso, é que a “grande narrativa” emancipatória de que estamos revestidos não é uma verdade profética revelada e infalível. Para parafrasear um velho slogan do Movimento Popular de Librtação de Angola (MPLA), a luta continua. Porque tem de ser. Não está em nosso poder, enquanto classe social, deixar de lutar, melhor ou pior. A vitória, porém, não é certa, não. No tempo de Lenine, como ainda no nosso, não havia um instrumento perfurador-percutor das brenhas do futuro no sentido da plena liberdade humana universal com um poder sequer comparável ao concebido por Marx e Engels. Talvez um dia o haja, mas neste momento estamos ainda limitados a tentar adaptá-lo e aperfeiçoá-lo tendo em conta as aquisições e as necessidades do nosso próprio tempo.

 

Como sucede ainda hoje, há muitas razões para não se gostar de Lenine, algumas delas porventura bastante atendíveis, tanto no plano pessoal como no plano político. Segundo testemunhos credíveis e por admissão própria, na defesa das suas convicções, Lenine podia ser desagradável em extremo. Na situação histórica específica de 1903, a grande maioria dos que lhe viraram as costas, de forma ostensiva e teatral, com uma acrimónia extrema raiando o abuso pessoal, nos limites do confronto físico, encaravam inteletualmente a revolução russa como uma necessidade, mas não tinham ânimo suficiente para se dedicarem a ela pessoalmente de forma total e irreversível. A questão não tinha a ver com o livro, mas com a espada. Foi esta diferença de disponibilidade pessoal, de generosidade física (27), digamo-lo assim, que, a prazo, se veio a exprimir numa divergência política explícita. A prova disso não demorou muito tempo a começar a fazer-se.

 

Nicolau II desprezava os japoneses, a quem chamava “macaquinhos”. Embora desaconselhado por vozes mais avisadas, resolveu majestaticamente conduzir uma política aventureira na Manchúria, com os olhos postos na Coreia. Valeu-lhe um ultimato do Mikado, seguido de um ataque fulminante, em fevereiro de 1904. A guerra que se seguiu foi uma sucessão de catástrofes militares russas, em terra e sobretudo no mar (28). Na frente interna, os salários reais do operariado baixaram entre 20 a 25% num ano, o desemprego alastrou, as condições de alojamento eram atrozes (29).

 

Uma marcha peticionante ao czar encabeçada pelo padre Georgy Gapon foi massacrada por repetidas rondas de fuzilaria da guarda imperial e cargas de cavalaria, junto ao Palácio de Inverno e depois, caoticamente, um pouco por toda a cidade de São Petersburgo, ao longo de várias horas. Jornalistas calcularam que à volta de 4.600 pessoas jaziam mortas ou gravemente feridas na neve no final desse “domingo sangrento”, dia 22 de janeiro de 1905. O país inteiro explodiu de imediato espontaneamente em revolta, com greves, manifestações, motins militares e revoltas camponesas. O mito do czar bom paizinho desfez-se para sempre. As nacionalidades não-russas sublevaram-se. Para acalmar a situação, o czar viu-se obrigado a fazer concessões, instituindo em fevereiro uma Duma eleita por sufrágio censitivo e com poderes meramente consultivos. A oferta foi escarnecida e as eleições boicotadas.

 

De 12 a 17 de abril de 1905, convocado pelo comité central, reúne-se novamente em Londres um intitulado III Congresso de POSDR, na verdade puramente bolchevique. Os mencheviques reúnem em Genebra uma conferência de delegados de grupos da emigração (30). Os bolcheviques conseguem garantir a lealdade da maioria dos comités e círculos clandestinos social-democratas que lutam no interior, à exceção da Geórgia. Mas a fação começa logo de início a revelar a sua diversidade e inconsideração para com as posições de Lenine. Começa a publicar-se um novo periódico bolchevique, intitulado Proletary (O Proletário).

 

Em junho dá-se a sublevação do couraçado Potemkin em Odessa. A revolta continuou a grassar em todo o país, até que no outono tomou proporções alarmantes. Por toda a província centenas de palácios de grandes terratenentes foram incendiadas e as respetivas terras e gado apropriados e redistribuídos. Em outubro desencadeia-se uma greve geral por tempo indeterminado nas grandes cidades, com os estudantes a acorrer em apoio dos trabalhadores. Foi instituída uma estrutura de poder paralelo, o conselho (soviet) dos deputados operários de São Petersburgo, que seria replicado noutras cidades, incluindo Moscovo. Com a morte na alma, Nicolau II viu-se forçado a fazer concessões reais no seu “Manifesto de Outubro”. São instituídas liberdades públicas e uma assembleia representativa, a Duma Estatal, com funções de contrôlo legislativo, eleita por sufrágio que, teoricamente, poderia no futuro vir a tornar-se universal. Os liberais do Partido Constitucional Democrata (os kadets), sob a direção de Pavel Milyukov, exultaram. Os constitucionalistas mais conservadores e lealistas reuniram-se sob a bandeira do “outubrismo”.

 

A iniciativa política conciliadora, arquitetada por Witte, agora conde e presidente do conselho de ministros, foi acompanhada de medidas repressivas e de restabelecimento da ordem pública. Os dirigentes do soviete de São Petersburgo foram presos nos inícios de dezembro, aí se incluindo um já conspícuo jovem judeu ucraniano de nome Leon Bronstein, “Trotsky” (1879-1940). Seriam depois deportados, após julgamento. Ainda em dezembro houve uma insurreição operária em Moscovo. Embora de forma muito indefinida, chegou a haver uma situação de poder soviético, antes de o levantamento ser esmagado pelo temível regimento Semionovsky, enviado de São Petersburgo por ferrovia. Houve muitos fuzilamentos sumários e deportações.

 

Para Plekhanov, “não havia necessidade de ter pegado em armas”. A opinião de Lenine era totalmente distinta. Para ele, havia sim, essa necessidade. A insurreição operária e popular era mais uma etapa percorrida na tomada de consciência histórica do proletariado, parte de um percurso ascendente previsível, enfim, um marco essencial no caminho da revolução democrática. Sem ela, não haveria uma verdadeira revolução democrática levada até ao fim (do kontsa). O povo, sob a enérgica direção do proletariado mais esclarecido e militante, deve conquistar para si o poder, todo e de uma vez, e não ficar dependente de benesses liberalizantes acertadas entre a corte e a alta burguesia. É este o entendimento que passou doravante a caraterizar e distinguir o bolchevismo. Lenine assumia para a sua fração a analogia com os jacobinos, remetendo para os mencheviques a posição dos girondinos.

 

1905 marcou uma época de charneira para a consciência liberal russa. Se com a “ida para o povo” e com a fome de 1991 tinha havido movimentos de viva simpatia e condolência para com os destinos sofridos da vida popular, agora emergiu a consciência de que o povo, afinal, podia bem ser feio, porco e mau. Revoltava-se, emboscava, matava. Pegava fogo a palácios, belas pinturas e bibliotecas. Houve uma retração geral nos bons sentimentos liberais, com a passagem de apenas uma muito pequena minoria deles a posições consequentemente revolucionárias. Era nisso que se destacavam os bolcheviques.

 

As primeiras eleições para a Duma Estatal do Império – com uma representatividade distorcida e limitada a homens de mais de 25 anos com certo nível de património - foram boicotadas por social-democratas e socialistas-revolucionários. Os kadets triunfaram e transformaram a assembleia numa tribuna de combate bastante animada, até o czar a dissolver, passados 73 dias. O governo passou então a ser dirigido pelo duro, tenaz e esclarecido reacionário Pyotr Stolypin. Convocadas novas eleições, os partidos socialistas concorreram e aceitaram exercer os lugares de deputados que lhes foram atribuídos, de março a junho de 1907. Aí, nova dissolução. As regras eleitorais foram alteradas, reforçando ainda mais o seu caráter censitário. A terceira Duma seria assim já um instrumento dócil e passivo da autocracia, enquanto a Rússia mergulhava num período de franca reação. Os social-democratas manteriam sempre um pequeno grupo parlamentar na Duma, mas não havia agora sombra de liberdades públicas e toda a atividade política tinha de ser conduzida na mais rigorosa clandestinidade. O caminho a fazer era de regresso ao exílio.

 

Bolcheviques e mencheviques revelaram atitudes diferenciadas quanto às hipóteses de entendimento com a burguesia liberal no quadro desta farsa de constitucionalismo. Os mencheviques revelaram tendência para esquecer com alguma facilidade o compromisso teórico e programático que tinham com a hegemonia proletária na revolução democrática. Havia ainda discórdia quanto à luta armada, em questões organizativas e no programa agrário. No entanto, paradoxalmente, vincadas que foram estas divergências, as condições políticas objetivas criadas pela revolução forçaram uma reaproximação. Nesse sentido convergiram fortes pressões da Internacional mas também das próprias bases, que se haviam batido juntas nas ruas e não compreendiam as razões da animosidade cavada no exílio entre os quadros dirigentes. A unidade do partido seria assim formalmente restabelecida num congresso de reunificação, em Estocolmo, em abril de 1906. Foram consagradas, por voto unânime, as teses organizativas leninistas, enquanto que o comité central ficou com uma maioria menchevique. Os bolcheviques, contudo, continuaram a publicar àparte o seu próprio periódico, o Proletary, agora a pretexto de ser o órgão dos comités social-democratas de Moscovo e São Petersburgo. Nestas condições, Lenine era favorável a um aligeiramento das regras do centralismo democrático.

 

Lenine deixou um rasto escrito extensíssimo, quase obsessivo, do seu pensamento político. Escreveu sempre contra algo, frequentemente num contexto polémico que hoje é difícil de localizar e recriar. Lido hoje, seletivamente, em tradução e descontextualizado, não deixa de causar alguma perplexidade e dar ocasião a manipulações grosseiras por parte dos seus inúmeros detratores. O seu pensamento estratégico conheceu uma única grande inflexão bem marcada, por volta da eclosão da I Grande Guerra (31). Uma segunda grande inflexão, a partir de 1922, ficou apenas esboçada, devido à sua incapacitação física. Taticamente, contudo, ele era efetivamente dotado de uma grande ductibilidade e capacidade de manobra (32). Como exemplo, se em Que Fazer? usou fórmulas que puderam dar a impressão de que não confiava muito na adesão espontânea da classe operária à social-democracia, querendo enquadrá-la estreitamente por um exército de revolucionários profissionais, sob o impacto da revolução de 1905 já queria escancarar de par em par as portas do partido à adesão das grandes massas em revolta, confiando apenas nestas para espicaçar o conservadorismo dos seus quadros dirigentes.

 

Quanto ao apreço de Lenine pela democracia, deixamos aqui a nossa própria citação preferida, também ela, naturalmente, cuidadosamente selecionada:

 

O proletariado não pode vencer senão através da democracia, isto é, realizando integralmente a democracia e ligando a cada passo da sua luta reivindicações democráticas formuladas da maneira mais decidida. É absurdo opôr a revolução socialista e a luta revolucionária contra o capitalismo a uma das questões da democracia, neste caso a questão nacional. Devemos combinar a luta revolucionária contra o capitalismo com um programa e uma táctica revolucionários em relação a todas as reivindicações democráticas: república, milícia, eleição dos funcionários pelo povo, igualdade de direitos das mulheres, autodeterminação das nações, etc.. Enquanto existir o capitalismo, todas essas reivindicações só serão realizáveis como excepção e mesmo assim de maneira incompleta e deformada. Apoiando-nos na democracia já existente, desmascarando o seu carácter incompleto sob o capitalismo, nós exigimos o derrubamento do capitalismo, a expropriação da burguesia, como base necessária tanto para liquidar a miséria das massas como para a completa e integral realização de todas as transformações democráticas. Algumas dessas transformações serão iniciadas antes do derrubamento da burguesia, outras durante esse derrubamento, outras ainda depois dele. A revolução social não é uma batalha única, mas uma época com toda uma série de batalhas por todas e cada uma das questões de transformação económica e democrática, que só terminarão com a expropriação da burguesia. É precisamente em nome desse objectivo final que devemos formular de modo consequentemente revolucionário cada uma das nossas reivindicações democráticas. É inteiramente concebível que os operários de qualquer país determinado derrubem a burguesia antes da realização integral mesmo de uma só transformação democrática essencial. Mas é completamente inconcebível que o proletariado, como classe histórica, possa vencer a burguesia se não estiver preparado para isso por uma educação no espírito de democratismo mais consequente e resolutamente revolucionário(33).

 

Nunca vai perceber nada sobre a personalidade de Lenine quem não seja capaz de intuir, nem que seja fugazmente, o que é verdadeiramente a paixão democrática. O partido de vanguarda é apenas um engenhoso artefacto mecânico para canalizar e potenciar a libertação concentrada de toda a energia primordial que provém do grande caldeirão do demos, do narod. Este é que é o fogo sagrado. É certo que Lenine tinha um justificado orgulho arquimediano por ter importado, adaptado e aperfeiçoado este mecanismo, capaz de levar a luta muito mais longe e em profundidade do que o conseguiram os seus infelizes predecessores, inclusive o mano Sacha. Mas o que ele quer verdadeiramente é ver subir nas ruas a maré avassaladora, cortando todas as amarras dos poderes corruptos do passado e poder dizer: meus senhores, vejam, está tudo acabado, está escrito nos céus a toda a largura o que nós há muito tatuamos nos nossos peitos, o povo é quem mais ordena. Depois, enfim, os problemas recomeçarão. Correndo tudo bem, talvez a um nível mais elevado de transparência, esclarecimento e autonomia para todos. Mas aquele momento inolvidável já ninguém no-lo tirará jamais.

 

Um panfleto publicado por Lenine em agosto de 1905, é porventura onde mais claramente se esboça a sua perspetiva de intervenção política nesta primeira fase da sua vida, demarcando o terreno em relação aos mencheviques. Já estamos sob o impacto da revolução mas ainda antes da insurreição de Moscovo (34). Aliás, no dia em que deixemos de viver sob o signo de uma revolução iminente podemos confiadamente fechar à chave todos os cinquenta e cinco volumes encadernados das Obras Completas de Lenine (35). Por esta altura, a palavra de ordem bolchevique, contra todas as ambiguidades e tergiversações, era a república democrática, governo provisório revolucionário e convocatória de uma assembleia constituinte a eleger por sufrágio universal. O proletariado revolucionário dirigiria a luta arrastando atrás de si o grosso indistinto de toda a grande massa camponesa e uma parte da pequena burguesia citadina, paralisando a restante.

 

Para sublinhar a clara rotura de regime político, Lenine cunhou a curiosa fórmula de ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato. A vitória será obtida pelas armas e serão necessárias medidas de exceção para defender as conquistas revolucionárias, como o horário de trabalho de oito horas e uma repartição igualitária das terras. Contudo, o regime social continuará completamente burguês e capitalista, agora radicalmente expurgado de todos os resquícios do feudalismo, da semi-servidão e do despotismo asiático. Lenine apostava no suporte entusiástico da pequena e média burguesia rural à revolução democrática. Contava ainda com ela para promover um desenvolvimento do capitalismo nos campos que seguisse um modelo mais popular, que não o modelo senhorial e latifundiário em curso com a reforma agrária do primeiro-ministro Stolypin. Seria depois, com o capitalismo mais desenvolvido e uma mais clara polarização social nos campos, que se faria a revolução socialista, agora impulsionada pelo proletariado agrícola e o campesinato pobre contra a burguesia rural. Mas isso seria em toda uma outra época histórica, já devidamente enquadrada pela revolução proletária mundial.

 

As comunas rurais (“obshchina” ou “mir”), enlevo e esperança dos populistas, foram, entretanto, fortemente golpeadas pelas atrás citadas reformas de Stolypin, ainda nesta primeira década do século XX. Pretendeu-se então facilitar a consolidação da propriedade privada dos mais “fortes e capazes” sobre a terra comunal. Com notável resiliência, a organização comunal aldeã resistiria ainda, desempenhando um papel central em todas as insurreições camponesas que se seguiriam, até à coletivização forçada dos anos 1930. Mas nunca gozou do favor de Lenine, que a considerava uma força inapelavelmente retrógrada, bárbara e localista. 

 

Pouco depois de Duas tácticas, mas já com toda a experiência da revolução para trás, o menchevique heterodoxo Leon Trotsky, inspirado pelo russo-germânico Aleksandr Helphand “Parvus”, avançava uma outra perspetiva, mais ousada e radical, a da revolução permanente (36). Trotsky não acreditava que o campesinato pudesse ter organização e maturidade política para exercer uma parceria de poder com o proletariado. Por outro lado, entendia que o exercício do poder político pelo proletariado não poderia ser feito no âmbito de uma democracia burguesa, abrindo caminho ao desenvolvimento do capitalismo, ou seja, ao domínio social e económico da burguesia sobre si próprio. Perante as resistências à implementação do seu programa mínimo, o partido do proletariado teria de renunciar ao poder ou passar de imediato à implementação do seu programa máximo. A tomada do poder pelo proletariado russo, pela própria dinâmica objetiva da luta de classes, inevitavelmente seria levada a ultrapassar as tarefas da revolução democrática, abrindo um caminho direto e sequencial para a expropriação da burguesia e as transformações socialistas, as quais só se poderiam sustentar, a partir daí, pelo alastramento internacional da revolução proletária. Por esta altura, o máximo que Lenine podia admitir é que a revolução democrática russa pudesse ter um efeito de detonador para a revolução socialista no ocidente, a qual, por sua vez, em retorno, permitiria porventura acelerar a entrada da Rússia na fase história da passagem ao socialismo. Trotsky distancia-se então dos mencheviques animando o seu próprio grupo político que pugnava pela união no seio da social-democracia russa.

 

Nos anos de reação que se seguiram ao golpe de Stolypin de 3 de julho de 1907, bolcheviques e mencheviques continuaram o seu despique acerado, nas misérias do exílio. Especial animação tiveram alguns episódios de financiamentos arrancados pelos primeiros bem à margem das normas da moralidade burguesa. Foi o caso não só das unidades armadas de assalto organizadas por Leonid Krasin (1870-1926) mas também o caso pícaro da sedução politicamente motivada de umas certas ricas herdeiras. Entretanto, as clivagens existentes no POSDR, formalmente unificado, iam muito para além da cisão verificada já desde 1903. Os mencheviques deram também mostras de desentendimentos entre si, com uma corrente a defender abertamente o fim de toda a atividade clandestina no interior, tendo por isso ficado conhecida como “liquidacionista”.

 

Os bolcheviques, por sua vez, tiveram também uma importante disputa interna, esta não só de caráter político como também filosófico. Os “otzovistas”, liderados pelo cientista e ficcionista Aleksandr Bogdanov (1873-1928), com a assistência do seu cunhado Anatoly Lunatcharsky (1875-1933), de forma simétrica aos liquidacionistas, opunham-se a toda a atividade política legal, nomeadamente à participação na Duma do Império. Exigiam, pois, a revocação (“otzov”) dos mandatos dos deputados social-democratas. Insistiam, isso sim, na intensificação das ações armadas, o que incorria no risco de descambar em banditismo desordenado, alienando as massas.

 

Lenine, nesta fase de refluxo revolucionário, queria antes manter o bolchevismo organicamente ligado à luta de classes quotidiana, nomeadamente nos sindicatos e outras organizações sociais ainda legais ou semilegais, sem desprezar a ação tribunícia proporcionada pelo parlamentarismo existente, ainda que de mera fachada. Pressentia o perigo da desagregação, da regressão ao terrorismo inconsequente, querendo a todo o custo manter o caráter de massas do partido, a sua unidade programática e a arduamente conquistada dimensão nacional da sua ação política. Mas não era fácil dar estas explicações aos combatentes, de uma forma convincente e em tempo real. O otzovismo tinha grande apelo na militância mais radicalizada – a própria massa de que era feito o bolchevismo - e esta foi uma das batalhas políticas mais duras e ingratas que Lenine teve de enfrentar em toda a sua vida. Para muitos, tinha-se tornado finalmente menchevique, também ele. E a verdade é que foi ao ponto de se aliar a eles no V Congresso do POSDR realizado em Londres, em maio de 1907, votando a favor da participação social-democrata nas eleições para a III Duma do Império.

 

Os otzovistas tinham também conceções filosóficas originais, que procuravam conciliar o marxismo com o empiriocriticismo – que era uma forma de idealismo epistemológico - do físico austríaco Ernst Mach. Procurava-se por essa via injetar alguma dose de autonomia voluntarista na ação política, contrariando o que, a justo título aliás, se considerava ser o determinismo económico amorfo típico da ortodoxia marxista então dominante. Plekhanov acusou o toque, atacou o “machismo” e procurou conotar com ele toda a rival corrente bolchevique (37). Lenine teve ocasião de debater pessoalmente com Bogdanov estas suas ideias, na casa de férias do escritor Maxim Gorky, na ilha de Capri, antes de as procurar desmontar, com grande esforço, no livro Materialismo e Empiriocriticismo (1909) (38). Mas não foi dele a iniciativa de politizar uma questão filosófica, nem procurou amalgamar as distintas divergências que mantinha com Bogdanov e Lunatcharsky. O propalado empiriomonismo era, simplesmente, uma conceção do mundo errónea e nociva em si mesma, em muitos sentidos, aliás, percursora do que viria a ser o “marxismo ocidental”, como o otzovismo pode ser considerado um antepassado próximo do “comunismo de esquerda”. Ambas as correntes bolcheviques instalaram separadamente as suas próprias escolas de formação de quadros no exílio.

 

Considerados “liquidacionistas de esquerda”, os otzovistas acabariam finalmente por ser expulsos da fação bolchevique, à socapa e pela porta pequena, numa conferência alargada da redação de Proletary (39). Afortunadamente para Lenine, estes seus adversários não tinham nada que se aproximasse da sua experiência organizativa e do seu denodo na luta faccionária, acabando por se dispersar pouco tempo depois.

 

Vivendo então em Paris, Lenine discursou no funeral de Paul e Laura Lafargue, genro e filha de Marx, em finais de 1911. Para retemperar os seus nervos andava frequentemente de bicicleta, nadava ou dava grandes passeios a pé pelas montanhas, sobretudo na Suíça. Os bolcheviques estavam então muito perto do ostracismo a nível internacional. No entanto, tiveram um apoio insuspeito que significava tudo para eles. Edouard Bernstein, pai da social-democracia no sentido moderno do termo, serviu-se do seu conhecimento pessoal para testemunhar: “Os bolcheviques não estão injustificados em considerar Marx um deles. Sabe? Marx tinha mesmo uma forte costela bolchevique nele” (40). Entretanto, no interior russo eles dominavam largamente entre a militância operária, embora a estrutura partidária de luta clandestina se encontrasse por então seriamente depauperada.

 

Em setembro de 1911 Stolypin foi assassinado a tiro na Ópera de Kiev, por um “esquerdista” manipulado pela Okhrana. Há anos que fervilhavam na corte com intensidade crescente as intrigas contra este homem obstinado. Nicolau II sempre se aborreceu de morte quando se viu obrigado a tratar assuntos de governação com pessoas inteligentes. A família imperial e uma parte da corte começavam então a ser dominadas pelas intrigas de um charlatão místico e lúbrico vindo do interior siberiano, de nome Grigory Rasputin.

 

A partir de 1911 dá-se um novo ascenso na luta de massas na Rússia, sobretudo após o massacre dos mineiros grevistas do Rio Lena, na Sibéria, em abril de 1912. Uma conferência bolchevique realizada em Praga em janeiro de 1912 consuma definitivamente a cisão na social-democracia russa. É criado o Partido Operário Social-Democrata Russo (bolchevique). A Okhrana conseguiu infiltrar o seu comité central com o seu agente mais bem pago: Roman Malinovsky, operário, sindicalista, eloquente deputado à Duma do Império, o Bebel russo. Lenine não queria crer e ficou bem ferido quando as suspeitas se confirmaram já depois da revolução. O georgiano Iossif Djugashvili, “Estaline” (1878-1953), simpatizante do “oztovismo”, com uma folha de serviços que incluía algumas ações armadas de resgate de fundos, acede também ao mesmo comité central. Numerosos jovens militantes de elevado potencial como Grigory Zinoviev (1883-1936), Nikolai Bukharine (1988-1938) ou Iákov Sverdlov (1885-1919) reforçam as fileiras. Um pouco menos jovens, Inessa Armand (1874-1920) e Aleksandra Kollontai (1872-1952) destacavam-se ente a militância feminina.

 

Em maio de 1912 inicia-se em São Petersburgo a publicação legal do jornal bolchevique Pravda (A verdade). Sob a direção de Lev Kamenev (1883-1936), chega a ter uma circulação diária de 130.000 exemplares. Simultaneamente continuava a publicar-se também o clandestino Sotsial-Demokrat. Em fevereiro de 1914 Konkordiia Samoilova dá início à publicação da revista bolchevique e feminista Rabotnitsa (A trabalhadora) onde se destacaria também Liudmila Stal e a própria Nadezhda Krupskaya. A juventude operária adere em massa às palavras de ordem e às organizações de classe animadas pelos bolcheviques. Lenine muda-se para Cracóvia, na Polónia sob domínio austríaco, onde as comunicações com o interior russo eram mais fáceis. Há um crescendo de agitação social que prenuncia claramente uma nova revolução. Em grande medida graças à tenacidade, frio calculismo e intratável mau feitio de Lenine, existe também um partido experiente, doutrinado e coeso, capaz de lhe dar a necessária articulação e propulsão. Na primavera e verão de 1914, a agitação nos grandes centros industriais é contínua e começa a contagiar quartéis militares vizinhos. Há greves, comícios, desfiles, confrontos quotidianos com a polícia. Em São Petersburgo havia uma greve geral e levantaram-se barricadas nas ruas.

 

E então, de súbito, é a guerra. Guerra. Guerra. Guerra.

 

Da revolução democrática à socialista

 

Com a ajuda de uma oportuna “cunha” ao social-democrata austríaco Victor Adler, Lenine saíu da cadeia, onde já fora preventivamente encerrado como presumível espião russo, conseguindo um salvo-conduto para se relocalizar na neutral Suíça, em Berna. Foi aí que começou a fazer o seu balanço pessoal e luto político pelo imenso desastre. A revolução russa em ascenso fora afogada pelo ambiente de mobilização patriótica. Mais e pior do que isso, a poderosa, solene e profética Internacional Socialista, luz de toda sua vida, desabara por completo, de um dia para o seguinte. Socialistas alemães, austríacos, húngaros, franceses, belgas, ingleses, renegando miseravelmente os compromissos firmados nos três últimos congressos da Internacional, inclusive o último, extraordinário, convocado expressa e solenemente para esse fim, votaram os créditos extraordinários de guerra ou, por outra forma, solidarizaram-se de imediato e sem qualquer reserva com as suas respetivas alianças patrióticas de defesa nacional. Soaram, enfim, por nós, os sinos de Basileia (41).

 

O papa Kautsky sentenciou que a Internacional era uma força de paz, operativa em tempo de paz, que em tempo de guerra se tornava pouco efetiva. E depois disso ficou ainda algum tempo a dançar no meio da tempestade, fingindo que tentava parar os ventos com as mãos. O Manifesto de Marx e Engels, com a sua consigna histórica bordada a ouro nos pendões das gentes do trabalho em todo o mundo, era reduzido a cinzas. Em perspetiva estava agora o massacre autoinfligido da flor da juventude proletária de toda a Europa nas trincheiras da vergonha, ao serviço do imperialismo e do chauvinismo.

 

No interior, os bolcheviques não traíram. Os seus deputados à Duma Estatal foram mesmo presos, julgados e deportados para a Sibéria. As suas organizações clandestinas continuaram, com grande risco, a fazer agitação antiguerra, embora não aderissem às palavras de ordem de “derrotismo revolucionário” e “conversão da guerra imperialista em guerra civil” que Lenine começou por defender a partir do exterior. O Pravda foi encerrado. Os mencheviques, como os socialistas-revolucionários, dividiram-se entre uma ala defensista - que continuou a atuar legalmente no movimento operário, defendendo embora a queda da monarquia – e uma ala internacionalista, pacifista, que era coordenada no exílio por Martov e Axelrod. Plekhanov aderiu aberta e desbragadamente ao nacional-jingoísmo expansionista grão-russo.

 

A expetativa generalizada de uma guerra breve e de alta mobilidade rapidamente se revelou ilusória. O poder defensivo da moderna artilharia, das metralhadoras, das granadas de mão, arame farpado e lança-chamas, impedia os avanços em campo aberto, feitos ainda essencialmente a pé ou a cavalo, forçando os exércitos a cavar extensas linhas de trincheiras, face a face, de onde se bombardeavam mutuamente durante anos a fio, com escassas variações de posições. Nada de novo na frente ocidental, seria o título de um famoso romance de Erich Maria Remarque. Foi uma guerra de lama, insalubridade, estupidez e paralisia, tremendamente assassina. O império de opereta austro-húngaro, espantosamente, não conseguia derrotar a Sérvia e sofria reveses frente aos russos na Galícia. As hostes do kaiser derrotaram as do seu primo e confidente czar em Tannenberg, começando a fazer pressão sobre a Polónia.

 

Na biblioteca de Berna, Lenine embrenhava-se afincadamente no estudo da dialética de Hegel (42). Fora aí que Herzen vira já a “álgebra da revolução”. Agora também ele não se satisfazia mais com o materialismo mecanicista do iluminismo francês. O monismo plekhanovista parecia-lhe estreito. Percecionou corretamente que uma das raízes do oportunismo dos dirigentes da Internacional estava no seu materialismo metafísico evolucionista, que deixava de fora a atividade transformadora humana como praxis revolucionante.

 

Poderia bem admitir-se que o socialismo internacional se declarasse impotente para travar a histeria patrioteira belicista, que infelizmente penetrara fundo nas próprias massas populares. Mas quem poderia esquecer a traição, a adesão leal e submissa, a pronta colaboração na mobilização, as respeitosas garantias de absoluta paz social enquanto durasse a matança? Nove décimos dos dirigentes do socialismo europeu tinham-se emburguesado. Tinham muito mais a perder do que as suas grilhetas e verdadeiramente não acreditavam num novo mundo a ganhar. O seu mundo era este, com os seus pujantes sindicatos, os seus editoriais jornalísticos marxistas, as suas modestas honrarias sociais, os seus gabinetes parlamentares, senão ministeriais. Muita burocracia, muitos funcionários, muitas expetativas de carreira. Não se podia deitar tudo isto a perder pela súbita impulsividade de uma objeção cívica. Isto para não falar já em “loucuras” revolucionárias sem quaisquer garantias de sustentação ou correspondência internacional. A guerra era, enfim, uma contrariedade, que havia que suportar com estoicismo, esperando calmamente que a situação regressasse à normalidade de uma lenta progressão política e social ascendente. Ironicamente, o único teórico consequente desta disposição de espirito, Edouard Bernstein, tomou, ele sim, uma posição de princípio inflexível contra a guerra.

 

Nada disto podia ser compreendido ou perdoado por um verdadeiro marxista, nem por um lutador consequente contra o despotismo czarista, onde aquelas perspetivas e tentações nunca se haviam aberto. Desde muito cedo, porém, entre a raiva, a solidão e o desespero, Lenine entreviu outros sinais. Na sua mente começou a formar-se distintamente todo um novo cenário histórico. Como 1905 havia sido o toque de finados pelo despotismo feudal russo, 1914 poderia ser, tinha de ser, a estrepitosa sinalização do ocaso de todo sistema capitalista mundial. Talvez se recordasse, com um sorriso luminoso, do que Marx havia escrito numa carta a Arnold Ruge de 1843, publicada nos Anais Franco-Alemães: “A situação desesperada da época em que vivemos enche-me de esperança”. Doravante, os horizontes e a perspetiva da sua intervenção política alargaram-se ao mundo.

 

O oportunismo dos dirigentes socialistas não tinha apenas fundamentos filosóficos, sociológicos ou psicológicos. Tinha a sua própria base de sustentação económica no desenvolvimento do imperialismo, uma fase decadente e opressora do capitalismo iniciada nos alvores do século XX, resultante da passagem da livre concorrência ao monopólio. A aquisição de mercados protegidos para a exportação de bens e de capital, a monopolização das fontes de matérias-primas, a exploração sem limites de trabalhadores coloniais desprotegidos, tudo isto garantia um afluxo fabuloso de super-lucros às grandes metrópoles capitalistas, que podia aí ser usado para seduzir e subornar as faixas mais influentes do movimento operário. Eis aí as raízes do colaboracionismo de classe e do social-chauvinismo. Mas os imperialismos rivais entravam necessariamente em colisão entre si, devido ao seu desenvolvimento desigual e à necessidade de, em consonância com ele, redividir as coutadas coloniais que já cobriam a totalidade do globo. Abria-se uma era de guerras infindáveis e de barbárie imperialista, colonialismo agressivo e opressão nacional que será o estertor final do modo de produção capitalista. O sofrimento crescente das massas oprimidas levará à organização de uma nova internacional operária que, totalmente depurada dos miasmas oportunistas que sufocaram a anterior, conduzirá enfim a vitoriosa revolução proletária socialista (43).

 

Na primavera de 1915 dá-se um colapso completo em toda a frente de guerra russa. Com gigantescas perdas humanas, os exércitos do czar passam doravante a lutar, de norte a sul, para trás das fronteiras do império. Em agosto de 1915 as potências centrais tomam Varsóvia e os russos são obrigados a evacuar toda a Polónia. Nicolau II decide tomar pessoalmente o comando formal dos exércitos em campanha. É novamente uma catástrofe que expõe toda a ineficácia e incompetência do absolutismo czarista. A partir daqui o esforço de guerra passa a ser tomado mais a peito pelas forças burguesas, liberais e modernistas. São estas que restabelecem a custo os abastecimentos e as comunicações, ganhando algum ascendente político e conspirando na sombra com a cumplicidade dos aliados ocidentais.

 

De 5 a 8 de setembro de 1915 realizou-se na pequena cidade suíça de Zimmerwald a primeira conferência internacional de organizações socialistas antiguerra. Participaram trinta e sete delegados em representação da Alemanha, França, Itália, Rússia, Holanda, Suécia, Bulgária, Suíça, Polónia, Roménia e Noruega. Desde o início das hostilidades, já se haviam realizado conferências socialistas dos países da entente, das potências centrais, de países neutros, de mulheres e outras. Este novo movimento internacional, caraterizado de raiz como de luta de classes contra a guerra, era o que tinha algum potencial de originar uma renovação do socialismo militante de inspiração assumidamente marxista. Lenine tinha-se preparado ansiosamente para este evento mas apenas conseguiu organizar nele um pequeno grupo de oito delegados em torno de posições minimamente satisfatórias, isto é, revolucionárias e não meramente pacifistas. Foi a esquerda de Zimmerwald, primeiro embrião da já então desejada III Internacional. Trotsky esteve presente à conferência mas não aderiu a este grupo de esquerda, antes patrocinou o Manifesto do bloco centrista, que seria aliás aprovado por unanimidade, à falta de melhor. Foi criada uma Comissão Socialista Internacional que daria sequência ao movimento, com a realização de uma segunda conferência suíça, em Kienthal, de 24 a 30 de abril de 1916.

 

Corrigindo a atitude que, por disciplina partidária, tomara no fatídico 4 de agosto, Karl Liebknecht votou solitariamente, no Reichstag, contra o reforço dos créditos de guerra, a 2 de dezembro de 1914. O filho do amigo de Marx esteve à altura das circunstâncias. Um homem levantou-se para dizer não à guerra. Foi de imediato mobilizado para a frente leste. Recusando-se a lutar, foi-lhe ordenado que enterrasse os mortos. O que cumpriu. A esquerda social-democrata alemã começou a expressar-se, a partir da primavera de 1915, na revista Die Internationale, com Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin, o idoso Franz Mehring e o jovem August Thalheimer. A revista foi imediatamente banida e os seus responsáveis acusados de altra traição. O mesmo grupo, com Leo Jogisches e Paul Levi, viria a organizar-se na Liga Spartacus (Spartakusbund), publicando vários panfletos e um boletim clandestino, de esquerda revolucionária antiguerra.

 

No 1º de maio de 1916, na Potsdamer Platz em Berlim, Karl Liebknecht, em uniforme, bradou à multidão “abaixo a guerra! abaixo o governo!”, antes de ser agredido e arrastado pela polícia. Rosa Luxemburgo estava lá, ao seu lado, procurou protegê-lo e andou também de rastos pelo solo. Os confrontos com a polícia no local prolongaram-se durante horas. Preso e condenado em tribunal militar a quatro anos de trabalhos forçados, Karl declarou: “Nenhum general alguma vez usou uma farda com tanta honra como eu usarei a minha veste de prisioneiro”. Pode parecer uma bravata, mas foi o começo do fim desta guerra imunda. Por esta brecha aberta com extrema valentia, a agitação antiguerra começou então a ganhar expressão de massas na Alemanha, à clara luz do dia, com demonstrações e greves abertamente políticas. O impensável em tempo de guerra (44). Um ódio demencial haveria de reclamar mais tarde o sangue de Karl e de Rosa.

 

Rosa Luxemburgo havia recolhido à cadeia, como perigosa revolucionária, a 1 de março de 1915 e aí permaneceu, com breves intermitências, até à revolução de novembro de 1918. Foi na cadeia que escreveu A crise da social-demoracia, a célebre brochura de Junius, que só seria publicada em abril de 1916, um ano depois da passagem do manuscrito para o exterior. Lenine não demorou muito a obter uma cópia e a reagir. Saudou calorosamente Junius (sabendo perfeitamente quem era) como um camarada de luta, fazendo-lhe contudo três importantes críticas: à sua omissão de responsabilização do centrismo oportunista kautskiano, à sua descrença na possibilidade da existência de guerras nacionais na era imperialista e à sua tentativa de opor à guerra imperialista a afirmação nacional democrática em vez da revolução proletária socialista (45).

 

Lenine e Rosa mantiveram sempre algumas divergências de vulto, uma das quais foi sobre a questão nacional. Para o primeiro - inimigo jurado do império russo que era uma velha e insalubre “prisão de povos” - o direito das nações à autodeterminação era uma faceta essencial da luta democrática e a sua consumação um pressuposto básico do socialismo. Em consequência, todas as guerras e lutas de libertação nacional deveriam ser apoiadas, como todas as guerras de opressão nacional deveriam ser combatidas. A situação a atingir no limiar do socialismo deverá ser a paridade e fraternidade entre todas as nações do universo, organizadas em entidades políticas livres e iguais entre si. Embora a própria União das Repúblicas Socialistas Soviéticas viesse a dar uma expressão em grande parte formal a este princípio, certo é que dele emergiu um raio que, a partir da revolução de outubro, incendiou todo o século XX e constitui, ainda hoje, o seu legado mais duradouro. Lenine é em grande parte responsável por isso, pois que teve de lutar arduamente contra um certo cosmopolitismo marxista que insistia em descartar ou menoscabar as aspirações de liberdade e dignidade nacional.

 

Em 1911 um miúdo maravilha do bolchevismo havia chegado ao exílio, depois de alguns anos passados como dirigente estudantil e militante clandestino. Era um moscovita de gema chamado Nikolai Bukharine, com um apetite voraz por tudo o que fosse novidades inteletuais em vários campos do saber, com primazia para a economia (46). Lenine gostou dele, embora ficasse indisposto com a sua exposição de novas suspeitas sobre o seu estimado Roman Malinovsky. Por outro lado, Bukharine começou a animar publicações e círculos inteletuais com certa apetência por liberdade crítica e heterodoxia. Era, contudo, bom trabalhador. Escreveu um livro a desmontar a doutrina económica do marginalismo. Deu uma preciosa ajuda, em Viena, ao georgiano Djugashvili para produzir uma exposição razoável da posição bolchevique sobre a questão nacional (47). Escreveu artigos e ensaios para a imprensa bolchevique, discursos para a Duma. Enfim, as suas investigações e reflexões sobre o imperialismo são de enorme valia (48). Ora, esta é, sem qualquer dúvida, a questão política chave deste tempo. Assim ia pensando Lenine, que não estando imune a um certo despeito e, sobretudo, medo do desconhecido, sentia contudo que podia ter ali finalmente um parceiro inteletual capaz de o ajudar. Mas as coisas toldaram-se de forma grave quando Bukharine submeteu para publicação na coletânea Sbornik Sotsial Demokrat um artigo intitulado “Para uma teoria do Estado imperialista” (49), que Lenine recusou, considerando-o gravemente erróneo e semi-anarquista.

 

Tal como O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (1899) é a chave e o mapa-guia da intervenção política de Lenine em busca de uma revolução democrática russa, O imperialismo, estádio supremo do capitalismo (1916) (50) é o relatório justificativo da sua nova busca por uma revolução socialista mundial, agora, sem mais qualquer adiamento ou procrastinação. Produto de uma intensa investigação, esta última obra, contudo, não é muito original, nem muito conseguida. O autor havia-se mudado para Zurique, onde tinha à sua disposição as salas de leitura da sua excelente biblioteca pública, além do sempre impecável serviço de empréstimos suíço. Nadezhda Krupskaya lembra-se de ter ficado desapontada com esta obra, achando-a demasiado árida, por comparação com as vívidas discussões e exóticas evocações etnogeográficas a que a sua investigação tinha dado lugar.

 

Nas suas obras sobre o imperialismo, tanto Bukharine como Lenine apoiaram-se fortemente em Finanzkapital (1910), um trabalho seminal da autoria do austro-marxista Rudolf Hilferding (51), já então publicada em russo. Este livro conclui-se, de forma muito revolucionária, com um apelo à ditadura do proletariado, mas o seu autor, futuro ministro das finanças na república alemã de Weimar, tinha entretanto tomado uma posição dúbia sobre a guerra, motivo porque não era uma companhia muito agradável de reconhecer. Era já citado como “antigo marxista”. Bastante inspiradora para Lenine foi também uma obra anterior do liberal progressista inglês J. A. Hobson, Imperialism: A Study (1902) (52). Rosa Luxemburgo tinha também publicado a sua própria teoria do imperialismo, mas Lenine não tinha apreço por essa parte da sua obra e ela seria mais tarde criticada por Bukharine (53).

 

Entre teses próprias e outras a que, de forma quase sempre devidamente assinalada, deu a sua adesão, Lenine sustentava que: 1) a concentração da produção e do capital desenvolveu-se em tão alto grau que deu origem a monopólios (oligopópios, trusts, cartéis, etc.), que desempenham um papel decisivo na vida económica; 2) a fusão entre o capital bancário e o capital industrial dá origem à emergência de uma oligarquia financeira, coordenadora da monopolização; 3) a exportação de capitais, não apenas de mercadorias, adquire excecional importância; 4) dá-se a formação de associações de monopólios capitalistas internacionais dividindo o mundo entre si; 5) a divisão territorial do mundo entre as maiores potências capitalistas completou-se, pelo que qualquer alteração na sua correlação de forças implica a necessidade de uma redivisão, só possível por meio do emprego da força militar (54).

 

O que é especificamente leniniano é a consideração do caráter necessariamente descompassado do desenvolvimento capitalista. Não é possível um avanço gradual e pacífico para a concentração e centralização capitalista universal. Os desequilíbrios, os desníveis, as velocidades desencontradas, fazem com que os choques entre as grandes potências monopolistas sejam inevitáveis, tornando-se crónicos. O imperialismo é assim uma era de opressão colonial e infindáveis guerras entre potências pela redivisão do mundo. Enquanto a era da livre concorrência capitalista era progressiva, na era dos monopólios campeia a regressão social, a superexploração, o militarismo, a rarefação das liberdades públicas. Entramos numa época de decadência, asfixia cívica e ruína civilizacional, que dará necessariamente lugar às lutas pela libertação das nações oprimidas e pela emancipação final do proletariado. A revolução socialista torna-se assim uma questão na imediata ordem do dia em todas as nações capitalistas, mesmo naquelas em que, aparentemente, o ciclo ascendente do desenvolvimento capitalista ainda não se completara.

 

Entre junho e agosto de 1916 os exércitos russos lançam uma grande ofensiva na frente leste, novamente na Galícia, concebida e comandada pelo general Aleksei Brusilov, um oficial de carreira de ideias modernas (mais tarde seria conselheiro do exército vermelho). O resultado final pode ser considerado um sucesso mitigado, sem grandes condições de sustentação futura, desacompanhada que foi de ofensivas complementares mais a norte. Custo final em homens fora de combate: 600.000 a 975.000 austro-húngaros, 350.000 alemães, 12.000 turcos, 500.000 a 1.000.000 russos. Uma bagatela. Avançava-se sempre, por entre uma cortina de pedras voadoras e gases letais, até atingir um estranho mundo de inefável quietação espetral. Mikhail Cholokov descreveu-o em páginas inolvidáveis de O Don tranquilo.

 

As inovações táticas de Brusilov fizeram sensação entre os generais ocidentais, inspirando-os a ordenar iniciativas ainda mais homicidas para tentar enfim romper o impasse entrincheirado. Neste mesmo ano, a matança prosseguia imparável no Somme e em Verdun. Perder 50.000 homens numa tarde era considerado um pequeno infortúnio de jogo entre os estados-maiores, fazendo estes grisalhos cavalheiros atirar as luvas para o canto da mesa contrariadamente. Em tempo de guerra, o domínio de classe é um poder de vida e de morte execido da forma mais direta e imediata. Tudo com a respeitosa aquiescência da social-democracia oficial.

 

Em dezembro de 1916, as potências centrais tomam Bucareste. O czar continuava aquartelado em permanência na frente. A execrada imperatriz contribuía para espalhar a desorientação e o descontentamento no interior. Embaixadores, adidos militares e agentes secretos aliados inquietavam-se. Estalaram greves políticas de massas. Rasputine é envenenado com cianeto, baleado repetidas vezes, mutilado e atirado ao rio Malaya Nevka semigelado, numa conjura aristocrática provavelmente com algum incitamento e assistência britânica. O santo homem das estepes siberianas morreria finalmente de hipotermia, segundo algumas fontes. As suas exéquias foram celebradas no palácio imperial de Tsarkoye Selo, perante uma família real em grande comoção na companhia de alguns íntimos. A esposa e filhos do defunto não foram convidados.

 

Nos inícios de 1917, Lenine confidenciou por carta à sua amiga Inessa Armand: “Continuo completamente apaixonado por Marx e Engels e não suporto vê-los abusados. Não, verdadeiramente – eles são o artigo genuíno.” Lenine nunca duvidou, por um segundo, que o curso da história humana, por córregos, arroios, cascatas e precipícios, corria no sentido geral emancipatório indicado pelos fundadores do marxismo. O comunismo estava ao alcance de apenas mais uma geração ou duas. E que sabemos nós? Talvez estivesse. Talvez esteja. Por esta altura, o total de perdas dos exércitos russos em campanha aproximava-se dos seis milhões de homens, entre mortos, feridos e desaparecidos. A situação nas várias frentes avizinhava-se do colapso, dadas as derrotas, as retiradas, as falhas de reabastecimento, a falta de armamento, os motins, a agitação política subversiva, a desmoralização, as deserções em massa.

 

Em resultado do crescente malestar causado pelas agruras da guerra e os escândalos da corte, as massas populares saíram à rua em Petrogrado (como se chamava agora São Petersburgo), em meados de fevereiro de 1917 (55), com um olhar endurecido pela dor e a revolta, dispostas a não mais voltar atrás. Não se podia mais continuar a viver assim. Dos bairros operários do norte e leste, passando as pontes ou o próprio Neva gelado, as colunas marcharam decididas para o centro político da cidade, recolhendo à passagem alguns acenos das janelas e a adesão de muitos estudantes e pequeno-burgueses. Ao fim de uma semana de tumultos crescentes, com bastante sangue derramado, a generalidade das unidades da guarnição militar da capital amotinou-se e não havia mais nada a fazer. A 3 de março de 1917, o último czar de todas as Rússias abdicou no seu filho adolescente Alexis, depois no seu irmão mais novo Mikhail, que não aceitou. Ficou sob custódia em família, no palácio de Tsarkoye Selo, à ordem de um governo provisório encabeçado pelo príncipe Georgy Lvov, presidente da união dos zemstvos. Os liberais defensistas triunfavam. A república não foi proclamada, mas a quebra da dinastia significava de facto a extinção da monarquia. Ficava pendente a reunião de uma assembleia constituinte a eleger por sufrágio universal que resolveria em definitivo a questão do regime político.

 

Nenhuma revolução é completamente “espontânea” e o levantamento popular de fevereiro contou, em muito, com a animação proporcionada por estruturas bolcheviques ao nível de bairro, fábrica e distrito. A pequena fação social-democrata internacionalista interdistrital (Mezhraionka) também teve a sua intervenção. Um lugar central nos acontecimentos foi desempenhado pelas manifestações de 8 de março (23 de fevereiro na Rússia), o dia internacional da mulher instituído pouco tempo antes por iniciativa de Clara Zetkin. Os dirigentes de nível superior, esses sim, foram apanhados completamente de surpresa com a amplitude e o ímpeto do levantamento popular. O bureau russo bolchevique no interior estava na altura a ser dirigido por um experiente agente revolucionário, o metalúrgico Aleksandr Shlyapnikov (1885-1937), que entendeu, com algum bom senso, que os operários nunca poderiam vencer contra a tropa, tendo mandado recuar e desmobilizar. Em vão. Não havia contatos militares suficientes para prever e, menos ainda, controlar ou dirigir o amotinamento nos quartéis.

 

A revolução de fevereiro não foi assim feita “até ao fim”, à bolchevique. No entanto, criou-se desde o início uma estrutura de poder dual, com a instituição dos sovietes populares de operários e soldados. A multidão triunfante confluiu para o Palácio de Táurida, sede da Duma de Império. Aí se formou, por um lado, com a gente da casa, um comité provisório da Duma, encabeçado pelas figuras cimeiras do monarquismo liberal e do constitucionalismo democrático. Derivaria dele um governo provisório, sem qualquer base legal ou legitimidade política. A Duma fora dissolvida pelo próprio czar, ainda no exercício dos seus poderes autocráticos. Por outro lado, numa ala oposta do palácio, reuniram-se os delegados dos operários e soldados de Petrogrado, que elegeram um comité executivo (Ispolkom) presidido pelo menchevique georgiano Nikoloz Chkheidze.

 

O soviete da capital tomou de imediato a rédea da situação em termos militares, de abastecimentos, indústria, transportes e comunicações. Começou a publicar o seu próprio jornal, o Izvestia. O autonomeado governo provisório tentou enxertar-se a si próprio, a partir do nada, à cabeça de todo o aparelho estatal czarista. A pasta dos negócios estrangeiros e a verdadeira direção política geral foi entregue ao experiente e bem articulado Pavel Miliukov, para alívio das potências ocidentais. Estava envelhecido e bastante mais conservador, monárquico como sempre e situado agora na ala direita do partido constitucional democrata, os kadets. A conjugação entre estes dois poderes foi-se fazendo de forma não antagónica, dada a vontade conciliatória demonstrada por mencheviques e socialistas-revolucinários, que começaram por dominar os sovietes que, entretanto, se iam reproduzindo disseminadamente pelo território. A revolução entendia-se como sendo burguesa e democrática por direito histórico indisputável. Entre um e outro poder na capital, ia-se desmultiplicando, com grande afã, autoconfiança e uma certa estridência teatral, o ex-deputado, jornalista e causídico Aleksandr Kerensky.

 

Lenine estava, naturalmente, entusiasmadíssimo com as notícias que lhe chegavam da Rússia. Pulava e dava socos no ar, à vista dos atónitos zuriquenses. Logo na primeira das suas Cartas de longe (56) alertou, contudo, para que esta era apenas a primeira fase da revolução russa, e esta, por sua vez,a primeira de muitas mais revoluções geradas pela guerra mundial imperialista. Em Petrogrado, os bolcheviques não se entendiam entre si e nenhuma das suas várias sensibilidades organizadas compreendia Lenine. Desde logo porque as novas perspetivas estratégicas deste nunca haviam sido aprovadas, ou sequer discutidas, em qualquer estrutura partidária. Toda a gente pensava ainda apenas e tão só em termos de revolução democrática. Havia apenas 2.000 militantes bolcheviques na capital e muito trabalho a fazer. Criaram-se comités de vizinhança e de fábrica. Era preciso participar nos sovietes de operários e soldados, disputar os sindicatos e outras organizações sociais de massa onde a hegemonia menchevique era esmagadora, em resultado do colaboracionismo com a guerra.

 

Emergidos de imediato com a revolução, da clandestinidade e da prisão, respetivamente, Vyacheslav Skryabin “Molotov” e Mikhail Kalinin recomeçaram a publicação do Pravda dando-lhe uma linha editorial algo confusa mas de oposição intransigente ao governo provisório. Todavia, uma outra fação, regressada mais tarde da deportação interna, em que pontificavam Kamenev, Estaline e o deputado Matvei Muranov, logo conseguiu apoderar-se do jornal, exprimindo propósitos completamente diversos, muito mais compreensivos em relação ao governo provisório e, inclusivamente, com o prosseguimento da guerra, entendida agora como de defesa da república contra a ameaça alemã. As cartas de Lenine enviadas do longínquo exílio eram cortadas e editadas sem contemplações. A certa altura passaram mesmo a ser simplesmente metidas na gaveta. Planeava-se uma conferência de unificação com a ala esquerda menchevique. Shlyapnikov, desautorizado nas suas funções dirigentes, encolhia os ombros, dizendo que, não tarda muito, está aí a chegar a “artilharia pesada” e vocês já vão ver como é. Outros círculos bolcheviques mais radicais, nomeadamente em torno do comité do distrito operário de Vyborg, começavam já a discutir a constituição de milícias, os guardas vermelhos, na perspetiva de uma tomada completa do poder pelos sovietes.

 

A 23 de março (gregoriano), os Estados Unidos da América entram na guerra pelo lado da entente, no mesmo dia em que se celebraram em Petrogrado as exéquias pelos caídos na revolução. Miliukov sentiu muitas dificuldades em impor os seus objetivos de guerra anexionistas e aliadófilos à democracia revolucionária soviética e mesmo dentro do próprio governo provisório. Chegou-se, por fim, a uma fórmula de compromisso resvaladiça e dissimulada para garantir o essencial apoio político soviético ao prosseguimento da guerra. Mas os desentendimentos persistiram. No Ispolkom do soviete da capital, a voz mais autorizada era agora a de outro menchevique georgiano vindo do degredo, Irakli Tsereteli. Entretanto, soldados russos começaram a desertar das frentes aos milhares todos os dias. Queriam estar em casa por altura das sementeiras e apresentar-se a postos para tomar posse de novas terras, que se dizia à boca cheia irem ser redistribuídas. Georgy Plekhanov chegou a Petrogrado com uma delegação franco-inglesa de socialistas pró-guerra, a tempo de se dirigirem todos à primeira conferência pan-russa de sovietes que se reuniu na capital por alturas da páscoa russa. Desta conferência emergiu um comité executivo central pan-russo dos sovietes (VTsIK) que passaria a ser um ator político de primeiro plano na revolução.

 

Lenine sempre apreciou as condições de trabalho e lazer que lhe proporcionava a Suíça, mas agora sentia-se ali positivamente emparedado em vida. Para situações de aperto extremo, não havia que hesitar no recurso a soluções de compromisso com o diabo mais sulfuroso disponível. Entrou em campo o velho conhecido Parvus, prolífico teórico marxista, veterano da revolução de 1905, agora aventureiro político mercenário, agente secreto e magnata especulador. Há já uns tempos que vinha recebendo copiosas somas do Império alemão à conta de um plano para organizar uma grande revolta social entre os russos, tendo os bolcheviques como peça chave. Lenine viu bem estar a ser colocado perante uma armadilha de consequências perigosíssimas. Foram exploradas hipóteses de outras rotas de viagem para a Rússia mas nenhuma delas se mostrou viável. A Inglaterra barrava em absoluto o seu trânsito até onde chegava o seu poder marítimo. O tempo escoava-se de forma inexorável. Por fim não houve alternativa.

 

Com intermediação dos socialistas suíços, foi negociada e formalmente acordada, com oficiais do ministério dos negócios estrangeiros alemão, livre passagem por território germânico, em comboio teoricamente selado, com teóricos direitos de extra-territorialidade, para um grupo alargado de revolucionários russos em trânsito para o seu país, encabeçado por Lenine. Era um grupo de trinta pessoas, incluindo Nadzhejda Krupskaya, Inessa Armand, o casal Zinoviev, Grigory Sokolnikov e Karl Radek. Este último, por então cidadão austro-húngaro, apeou-se em Estocolmo, onde ficou uns tempos a tratar de agitação e de negócios. Toda a operação foi supervisionada pelo diretor de operações militares alemão, general Erich von Lüdendorff. Sobre se este acordo incluiu ou foi tacitamente aceite algum financiamento secreto ao partido bolchevique é matéria em que ainda hoje não há acordo entre os historiadores.

 

O dinheiro pode ter vindo apenas de Parvus, que dispunha dele em abundância, proveniente das mais variadas fontes. No fim de contas, Parvus não era mau rapaz. Os seus olhos brilhavam de uma forma impossível de simular quando se lhe falava de revolução, entre duas baforadas no seu charuto. Afinal, uma revolução mundial não se vai promover tão só com base nas quotizações dos desgraçados dos operários russos (57). Certo é que, a uma certa altura, Lenine foi julgado útil aos planos dos imperialistas alemães. Mas Lenine tinha os seus próprios planos, abrangendo-os a eles. A viagem prosseguiria por ferryboat para a neutral Suécia, onde seguiria novamente por comboio até à Lapónia, descendo depois pela Finlândia até às portas de Petrogrado. Agentes ingleses postados no terreno foram incapazes de a interceptar (58).

 

Todo o poder aos sovietes

 

Não existe, infelizmente, uma transcrição completa do célebre discurso feito por Lenine à sua chegada à Estação da Finlândia, em Petrogrado, a 3 de abril de 1917. O resumo publicado pelo jornal bolchevique Pravda, diz que “Lenine saudou o proletariado revolucionário russo e o exército revolucionário russo, que conseguiram não só libertar a Rússia do despotismo czarista, mas começar uma revolução social à escala mundial, acrescentando que o proletariado de todo o mundo olhava com esperança para os passos ousados dados pelo proletariado russo” (59). Nadzhejda Krupskaya lembra-se de o ter ouvido gritar à multidão, no caminho para a sede do partido, instalada na Mansão Kschessinskaia, “Viva a revolução socialista mundial!” (60). Já no interior deste edifício art-deco, que pertencera a uma celebrada bailarina, em tempos namoradinha do deposto czar, proferiu um discurso de duas horas que deixou perplexos ou aterrados todos os circunstantes, tendo apenas obtido a adesão imediata de Aleksandra Kollontai.

 

Naquela altura, ninguém ainda pensara possível proclamar-se uma revolução socialista mundial. Até hoje, aliás, ninguém mais voltou a fazê-lo. Havia uma revolução a fazer, decerto, mas demo-republicana e russa. O hino que se tocava e cantava constantemente nas ruas, inclusive nesta sua receção na Estação Finlândia, era uma versão russificada de “A Marselhesa” (Marsiliuza), não “A Internacional”. Alguém estava ali a soar completamente fora de tom. Tudo o que se ouvia agora sair da boca de Lenine parecia absolutamente sideral, fantástico e terrível, do domínio dos livros do apocalipse. Já foi dito de Lenine que ele se caraterizava pela coragem na tomada de decisões políticas, fossem quais fossem as suas dimensões e consequências. E aqui está, com efeito, um exemplo verdadeiramente extremo. Revolução socialista mundial, pois. Alea jacta est!

 

Caluniado abertamente como traidor e agente a soldo do kaiser, isolado entre os seus próprios partidários como um lunático desfasado das realidades, Lenine parecia estar completamente desacreditado naqueles dias. Teve de interromper o seu discurso no soviete de Petrogrado, sob uma chuva interminável de apupos. Miliukov rejubilou com esse incidente, quando lho contaram, de forma aliás não garantidamente fiável. Mas muito em breve ele próprio estaria completamente desacreditado, na sequência de uma nota diplomática em que se manifestava novamente como indefetível na lealdade aos aliados e maximalista quanto aos objetivos de guerra. Na segunda quinzena de abril, houve manobras militares e manifestações populares apelando ao derrube do governo provisório. Seguiram-se conspiratas, exibições armadas e contramanifestações de apoio ao prosseguimento da guerra até Constantinopla (61). A populaça havia de se vergar ao chicote dos seus senhores e ir conquistar para eles a preciosa jóia bizantina, segunda Roma, para glória imorredoura do império russo. Ocorreram confrontos de rua, com diversas vítimas mortais. O obscuro general Lavr Kornilov começa a fazer-se notar pelas suas intervenções persistentes no campo da reação.

 

A situação militar na capital clarificou-se por fim em favor dos sovietes e o governo provisório teve de se retratar. Mas Miliukov não ficou convencido. Desmascarado nos seus obstinados e secretos propósitos anexionistas sobre os Dardanelos, foi finalmente forçado a demitir-se, juntamente com o ministro da guerra, o seu amigo outubrista Aleksandr Guchkov. O governo provisório dava uma ligeira guinada à esquerda, com a inclusão de mais socialistas provindos dos sovietes, para escorar a sua sempre precária autoridade. Era agora, nesse sentido, um governo de “coligação”. Viktor Chernov assumiu a pasta da agricultura. Tsereteli entrou para a pasta dos correios e telégrafos, criada especialmente para ele. O menchevique Matvey Skobelev abraçou a pasta do trabalho. Kerensky passou a ministro da guerra e a sua estrela começou a subir.

 

Quanto a Lenine, a sua energia, denodo e pugnacidade eram inesgotáveis. A 7 de abril consegue fazer publicar no Pravda as suas célebres Teses de Abril (62). Estava agora completamente rendido ao anti-estatismo de Bukharine, relidas as passagens relevantes de Marx e Engels e analisada a situação política concreta na Rússia e no resto da Europa. Não há qualquer dúvida possível. Uma evidência tomou-o de forma completamente avassaladora, até ao âmago mais íntimo do seu ser de homem e de revolucionário. Os sovietes são, em terra russa, o Estado do tipo Comuna de Paris, a ditadura do proletariado (e dos camponeses pobres), a forma embrionária da organização política historicamente superior capaz de nos conduzir ao comunismo universal. Ele viu isto e já não podia mais deixar de o ver, por mais só que se encontrasse. Foi o seu caminho de Damasco.

 

Confraternização geral entre soldados nas frentes da guerra imperialista. Nenhuma colaboração com o governo provisório. Todo o poder aos sovietes. Esmagar por completo o Estado burguês. Supressão imediata do exército, da polícia e do funcionalismo. Armamento geral do povo. Nacionalização da terra e sua colocação à disposição dos sovietes camponeses. Um único banco nacional sob controlo soviético. Todas as tarefas políticas e administrativas serão desempenhadas por voluntários eleitos e exoneráveis a todo o tempo, remunerados com o salário médio de um operário. É assim, seguramente. Tudo faz finalmente sentido. Tudo se conjuga, enfim. É uma evidência esmagadora, não muito diversa de uma experiência religiosa. Ninguém mais o viu, ainda, mas é esta a brecha aberta, aqui e agora, que nos pode levar ao futuro harmonioso a que aspiramos.

 

A partir daí foi partir pedra em organismos e reuniões informais do partido, reiterada, paciente, incansavelmente, servindo-se das suas incomparáveis energia vital, capacidade argumentativa e erudição marxista. Enfim, a “artilharia pesada”. Eis como o descreveu um velho conhecido e observador qualificado: “A cabeça atirada para trás e inclinada para o ombro, os dedos enfiados nas cavas do colete. Havia nesta atitude algo de extraordinariamente cómico e encantador, um porte de galo vitorioso: nesses momentos toda a sua fisionomia se iluminava de alegria (...). Gostava de histórias cómicas e ria com o corpo todo, às vezes até às lágrimas” (63). Lenine ainda terá perdido as primeiras votações, mas rapidamente foi recuperando terreno até conseguir impor uma parte importante dos seus pontos de vista numa conferência nacional do partido bolchevique realizada em finais de abril. Os moderados, porém, conseguiram uma maioria tangencial no comité central. A revisão do programa ficou agendada para o congresso especial a realizar dentro de dois meses.

 

As ideias de Lenine tiveram também eco imediato nos círculos operários mais radicalizados, nomeadamente aqueles que insistiam em formar milícias armadas. Esse era um hábito que se disseminava acentuadamente, nesses dias - por necessidade de autodefesa e por um certo sentido de dignidade readquirida - só encontrando compreensão e apoio entre os bolcheviques-leninistas. Entretanto, depois de conseguir impor ao partido o seu extremismo estratégico, taticamente Lenine alinhou do lado da moderação. A palavra de ordem “abaixo o governo provisório” parecia-lhe desadequada, pois que havia primeiro que ganhar os sovietes para posições consequentemente revolucionárias.

 

Entretanto, começou a acorrer alguma artilharia auxiliar de certa envergadura em favor de uma revolução socialista. Bukharine regressou, fazendo-se rodear de todo o seu círculo de jovens inteletuais radicalizados (Piatakov, Smirnov, Osinsky, Lomov, Yakovleva, etc.). Lenine fez-lhe chegar, por Krupskaia, a notícia de que estava agora em pleno acordo com ele sobre a questão do Estado. Vindo também dos Estados Unidos da América, Trotsky chegou a 4 de maio e logo começou a dar regularmente o seu espetáculo oratório ímpar. Discursou em sessões políticas soviéticas e também em escolas, fábricas, teatros, circos, etc.. Sem se fazer amar, causava impressão. Todo o poder aos sovietes era também o seu lema. Era uma ave lustrosa, de voz bem colocada, gestos e passadas amplos, olhar magnético, reverberante de brilhos luxuriosos e encandeantes.

 

Em confronto físico direto com Trotsky, Lenine podia parecer um homem vulgar. Numa das fases mais agudas das suas polémicas passadas, Trotsky qualificara-o como um advogado reles. Um verdadeiro merceeiro de província, foi como Gorky também o descreveu algures. São numerosos os testemunhos de que Lenine exibia normalmente uma postura física mais do que simplesmente despretensiosa. Havia nele como que um retraimento humilíssimo, capaz de o tornar absolutamente indistinguível num grupo de operários comuns. Talvez fosse a sua paixão democrática a tomar corpo. Em todo o caso, essa sua capacidade aproveitou-lhe muito bem em várias circunstâncias de vida clandestina.

 

Trotsky achava que Lenine concedera à sua teoria da revolução permanente. Lenine achou que não valia a pena do esforço estar a desmenti-lo. Pundonores pessoais àparte, estavam agora em essencial sintonia política. Como muitos outros social-democratas independentes regressados do exílio - Adolf Joffe, Anatoly Lunacharsky, Moisei Uritsky, David Riazanov, V. Volodarsky, Lev Karakhan, Dmitry Manuilsky, etc. – Trotsky juntou-se à Mezhraionka. Ainda quis que o encontro se fizesse a meio do caminho, com a dissolução de ambas as organizações numa nova a criar. Era pedir demais. A Mezhraionka aderiria mais tarde em massa ao partido bolchevique no sexto congresso deste, em finais de julho.

 

O I congresso pan-russo dos sovietes de deputados operários e soldados reuniu-se em Petrogrado a partir de 3 de junho, prolongando-se por vinte e um dias. Deu ao governo provisório o reconhecimento e apoio que este lhe suplicava. Reiterou a promessa da assembleia constituinte. Os seus delegados incluíam 285 socialistas-revolucionários, 248 mencheviques e 105 bolcheviques. A influência bolchevique era ainda mais reduzida nos sovietes camponeses, que por esta altura reuniam e se organizavam separadamente. Os trabalhos foram dirigidos por Chkheidze, que permaneceu a presidente do VTsIK. Foi neste congresso que Tsereteli, discursando em favor da concórdia, dizendo que não havia um único partido capaz de tomar sozinho em mãos o destino do país, se viu interrompido da plateia por Lenine, com o brado “Existe esse partido!” Foi um momento de impulsividade.

 

O anúncio de uma demonstração bolchevique na capital, antiguerra e antigoverno, a 10 de junho, com participação militar, gerou grande alarme. Proibida por uma resolução do congresso dos sovietes, acabaria por ser desconvocada à última hora pelo comité central, com uma incaraterística abstenção de Lenine (64). Prudência, contenção e acumulação de forças era agora tudo a que este apelava, perante as cabeças quentes dos simpatizantes bolcheviques fardados, em particular os marinheiros da ilha de Kronstadt e o 1º regimento de metralhadoras. Os bolcheviques tinham agora muitos amigos entre os militares e mesmo uma organização militar para tentar coordená-los. Mas isso era, em grande parte, ilusório. A tropa, sobretudo a mais radicalizada, a partir dali faria exatamente o que lhe dava na gana. Fartos de obedecer estavam já estes homens. O VTsIK convocou, como que para compensar, uma demonstração de apoio ao poder soviético, a 18 de junho. Pelas palavras de ordem gritadas e dísticos desfraldados, acabou por ser uma grande demonstração de força bolchevique, se bem que pacífica.

 

Muito pressionado, Kerensky prometeu aos aliados uma ofensiva russa. Em maio-junho andou constantemente pela frente, fazendo juz ao seu epíteto de “o veloz”. Abraçou soldados, discursou com paixão, conjurou, jurou eterna fraternidade patriótica, ajoelhou-se e beijou repetidamente o solo, sem dar nunca qualquer resposta satisfatória às dúvidas levantadas (65). A pena de morte fora abolida, a disciplina militar muito relaxada. Ninguém estava para correr grandes riscos pessoais sentindo próximo o final da guerra, havendo campos e vacas por reclamar lá na terra. O único estímulo guerreiro eram as extravagantes exortações do “persuasor-em-chefe” Kerensky.

 

A ofensiva foi novamente lançada na Galicia contra os austro-húngaros e comandada pelo inevitável Brusilov. Rompeu em direção a Lvov, a 18 de junho, com algum sucesso inicial, mas rapidamente estagnou. Depois veio o contrataque alemão e foi o colapso, transformando-se em caótica debandada geral na segunda quinzena de julho. O custo cifrou-se nas centenas de milhares de homens. O exército russo tem agora a sua espinha dorsal completamente quebrada, deixando de poder ser considerado uma força combatente efetiva. Bandos de desertores armados assolavam todo o país, expropriando terras e praticando o banditismo sem encontrar qualquer resistência. As aspirações de autonomia nacional expressavam-se e organizavam-se livremente por todo o império, tanto ao nível cultural como político. A preocupação essencial das potências centrais na frente leste era agora gerir os efetivos e não alagar e distanciar demasiado as linhas. A aposta no comboio selado tinha recolhido êxito pleno, se é que não demasiado tardio.

 

A 1 de julho a Ucrânia dá mais um passo em direção à independência. Era mais do que podiam suportar os quatro ministros kadets restantes no governo provisório, que se demitiram em bloco. Ficaram ainda outros ministros “capitalistas”, pelo que o governo continuava a ser de “coligação”. O príncipe Lvov também anunciou a intenção de se ir embora. A tropa bolchevizada na capital desta vez não se ia mais deixar ficar parada. Saíu à rua disposta a resolver tudo à sua maneira, acompanhada por uma enorme muitidão operária parcialmente armada. Como se veio depois a saber, a organização militar bolchevique (Vladimir Nevsky, Nikolai Podvoisky) e alguns elementos partidários mais radicais, como os bálticos Martin Latsis e Ivar Smilga, acompanharam e encorajaram efetivamente estes propósitos insurreicionais. Quem quisesse que viesse atrás. Cossacos e bandos reacionários saíram ao encontro, em vários pontos da cidade. 3 e 4 de julho foram dias caóticos e indecisos em Petrogrado, deixando um rasto de perto de quatrocentas vítimas mortais.

 

Lenine teve de interromper uns dias de descanso que gozava na Finlândia, mas nada pôde fazer para acalmar a situação. Foi forçado a discursar perante os marinheiros que chamaram por ele junto à Mansão Kschessinskaia. Saudou a multidão, apelando a que ela mantivesse a vigilância e se manifestasse pacificamente. Não era isto o que os circunstantes queriam ouvir e logo se afastaram dali ruidosamente. Petrogrado chegou a estar completamente nas mãos dos revoltosos, mas estes limitaram-se a humilhar publicamente os mais altos responsáveis soviéticos, em frente ao Palácio da Táurida. Trotsky andou lá pelo meio, a tentar impedir que ocorressem linchamentos. Todo o poder aos sovietes, gritou-se. Tomem o poder quando vo-lo dão, seus filhos da puta! Aqueles sovietes ali, manifestamente, não queriam o poder, ansiando antes pela chegada dos regimentos lealistas chamados da frente. Às chefias da guarnição de Petrogrado que hesitavam ainda em intervir a favor do governo provisório, foram mostrados elementos de uma investigação em curso, desde abril, coordenada pelo ministério da justiça, sobre o suposto conluio entre alemães e bolcheviques.

 

Quando o governo provisório e os seus amigos do VTsIK conseguiram enfim controlar a situação militar na capital, imediatamente apareceram publicadas num jornal reacionário, sendo logo reproduzidas noutros e também em brochura, as bombásticas “provas” de que Lenine era um agente alemão, recebendo fundos do kaiser. Tudo ali impresso, preto no branco. De um dia para o seguinte, o clima político desequilibrou-se por completo, agora a favor da reação. Uma das vozes mais loquazes foi a de Plekhanov, no seu jornal Edinstvo: “estes motins não podem ser tratados com sendo o resultado de uma confusão tática… Aparentemente, os tumultos foram parte integral de um plano formulado pelo inimigo estrangeiro para destruir a Rússia. Portanto, esmagá-los deve ser parte constituinte de um qualquer plano de defesa nacional da Rússia” (66).

 

Os escritórios e tipografia do Pravda foram destruídos por cadetes da escola militar, que logo afirmaram ter aí encontrado correspondência alemã. Toda a imprensa bolchevique foi interdita. A Mansão Kschessinskaia foi cercada militarmente e assaltada, com autorização governamental. A dona, que fugira em fevereiro, há uns tempos já que vinha demandando a sua restituição nos tribunais. Perderam-se aí os arquivos todos do partido. Os ocupantes bolcheviques da fortaleza de Pedro e Paulo tiveram de se render. O 1.º regimento de metralhadoras foi desarmado e obrigado a desfilar perante os apupos da populaça patriótica. Por uma extraordinária casualidade, precisamente por estes dias os alemães contratacavam na frente, desbaratando o 11.º exército russo na Galícia. A suspeição e a raiva contra os “traidores” agudizaram-se. Sedes do partido bolchevique, de sindicatos, de editoras foram assaltadas e saqueadas. Operários e militantes de esquerda eram agredidos na rua e/ou arrastados para o quartel-general dos exércitos instalado em frente ao Palácio de Inverno ou para outros centros de detenção espalhados pela cidade. Surgiu um mandato de captura para Lenine, que mergulhara na clandestinidade.

 

Perante o sério risco de assassinato e total falta de garantias de um julgamento justo, Lenine resolveu não se entregar. Prescindiu assim de se defender, no imediato, das acusações, exceto por meio de duas peças jornalísticas. Esta decisão não foi inteiramente compreendida no seu partido, onde muitos fantasiavam com a criação de um “caso Dreyfus” à russa. Ao contrário de Trotsky, Lenine decidia dos riscos pessoais a correr exclusivamente por um cálculo realista de probabilidades e vantagens em jogo para a sua causa, sendo totalmente alheio a gestos teatrais ou de bravata romântica. E talvez não lhe interessasse mesmo de todo este julgamento, de nenhuma forma ou feitio. Nem ficar preso sob custódia inimiga enquanto decorre uma revolução. Com documentos falsos e descaraterizado recolheu-se à aldeia nortenha de Razliv, onde se abrigou em cabanas, juntamente com Zinoviev. Daí passaria, no mês seguinte, a Hensingfors (hoje Helsínquia), onde se alojou em casas amigas. Recebeu sempre a imprensa e fez chegar os seus correios a Petrogrado. Presos foram Kamenev, Kollontai, Raskolnikov, Krylenko, Dybenko, Antonov-Ovseenko, Lunatcharsky, Trotsky, entre muitos outros.

 

Os tumultos na capital e o descalabro na frente de guerra criaram uma situação próxima do estado de sítio. O afável príncipe Lvov acabou mesmo por se retirar e não havia mais ninguém capaz de segurar as pontas senão Aleksandr Kerensky. Como prémio pelo descalabro da sua ofensiva, ascendeu a chefe do governo, mantendo os ministérios da guerra e da marinha. Mudou a sede governamental para o Palácio de Inverno, onde estabeleceu sua residência pessoal. Despejou os sovietes do Palácio da Táurida, a pretexto de que queria convocar para aí uma nova Duma nacional. Na verdade, continuava em funcionamento o fóssil político do comité provisório da Duma, fazendo as suas recomendações abertamente reacionárias. O VTsIK e o soviete de Petrogrado mudaram-se para o Edifício Smolny, uma antiga academia para jovens senhoras aristocráticas.

 

Outra das primeiras decisões de Kerensky à cabeça do novo governo foi uma asneira tremenda: a nomeação de Lavr Kornilov para comandante-em-chefe dos exércitos. Mas era um pouco difícil escapar a ela, pois que a sua imposição estava implícita no clamor que se ouvia agora no tom de baixo contínuo da direita profunda: ordem, ordem, ordem! Kerensky quis, sem dúvida, congraçar-se com esse sentimento, mas gostaria antes de encabeçá-lo, não de ficar seu prisioneiro. Foi restabelecida a pena de morte militar e proibidos os comités de soldados. Os trabalhadores foram desarmados. As unidades militares revolucionárias da capital foram desmembradas ou deslocadas. Kornilov queria, ainda assim, autoridade militar (e pena de morte) sobre fábricas e ferrovias, bem como ter Petrogrado permanentemente à sua ordem sob lei marcial. As suas exigências eram formuladas de forma atrabiliária, como ultimato e sempre com provocatória exibição de força armada.

 

Os sovietes não quiseram tomar o poder e viam agora assediado o poder que tinham. Na ala esquerda da democracia revolucionária começou a gerar-se um certo alarme, particularmente nos mencheviques internacionalistas de Iulii Martov. Este último procurou sempre, incansavelmente, uma base de conciliação que permitisse a todo o campo político socialista avançar unido, na via democrática e com uma paz imediata. Os sovietes dos diversos distritos da capital começam a virar à esquerda e a organizar-se entre si, demarcando-se do VTsIK e do próprio soviete de Petrogrado. Entre socialistas e nos sovietes, aos seus diversos níveis, os bolcheviques deixaram de se sentir proscritos.

 

Ainda no mês de julho o partido bolchevique foi capaz de se recompor na capital, com a ajuda de dirigentes vindos de Moscovo, entre os quais Bukharine, Bubnov, Sokolnikov e Dzerzhinsky. Sverdlov era o homem do momento. Um abismo profundo pareceu abrir-se entre os bolcheviques e o sovietismo dominante. Todo o poder aos sovietes era uma palavra de ordem que começava a perder favor. Lenine pensava agora antes em preparar uma insurreição operária e militar que transferisse o poder diretamente para o proletariado e campesinato pobre, sob a direção do seu partido. Mas as suas teses intransigentes foram derrotadas numa conferência estratégica do comité central alargado, realizada a 13-14 de julho. Sempre que se encontrava longe não conseguia nada dos seus correligionários. A maioria queria contatos abertos com mencheviques internacionalistas e SR’s de esquerda com vista à abertura de hipóteses de trabalho progressista nos sovietes.

 

O sexto congresso do partido bolchevique inaugurou-se a 26 de julho sob grande ameaça, tendo prosseguido a partir de certa altura já em semiclandestinidade. O programa do partido não pôde ainda ser revisto nesta ocasião. As resoluções políticas adotadas foram agora mais satisfatórias para Lenine. As suas teses foram aí defendidas por Estaline, com algumas nuances. A revolução a fazer seria socialista, embora as suas especificações de tempo e circunstância ficassem muito vagamente definidas. A palavra de ordem “Todo o poder aos sovietes” deixava de ser lema oficial do partido, de momento.

 

De 12 a 15 de agosto reuniu-se no Teatro Bolshoi de Moscovo uma “conferência de Estado” com todas as elites políticas, económicas, militares e sociais da nação. O evento, dominado pela direita, serviu para Kornilov e Kerensky testarem as suas forças e enviarem os seus recados. Mas só o primeiro era saudado ostensivamente como um césar. Os sovietes estiveram à defesa, representados pelo socialismo mais oficialista e obsequioso. Pouco depois deu-se uma estranha sucessão de fogos e sabotagens industriais. Riga foi ocupada pelos alemães sem encontrar resistência. A hora era sombria e requeria medidas de exceção.

 

Kerensky e Kornilov, K & K, pareciam estar em perfeito entendimento quanto a impor a ditadura e liquidar o sovietismo, mas não se entendiam de forma alguma sobre quem seria o ditador. O estado-maior (stavka) em Mogilev fervilhava de atividade abertamente conspiratória contra a capital, sempre suspeita de albergar uma iminente conjura bolchevique. Depois de várias entrevistas, mensagens crípticas, embaixadas trocadas e interceptadas entre si, entendimentos subtis e malentendidos flagrantes, Kerensky destituiu Kornilov. Este resolve então avançar e tomar a capital com uma demonstração de força avassaladora sob o comando do ultrarreacionário general Krymov, a partir de 27 de agosto.

 

As jovens instituições da democracia revolucionária não podiam, naturalmente, permitir essas veleidades. Mobilizaram-se de imediato, com grande entusiasmo. Merece especial realce a pronta ação defensiva coordenada pela conferência interdistrital dos sovietes de Petrogrado, dirigida pelo menchevique internacionalista Aleksandr Gorin com ampla participação bolchevique. As unidades militares colocaram-se de prevenção. Guardas vermelhos rearmaram-se e colocaram-se a postos. Os sindicatos mencheviques cortaram as comunicações, inclusive as vitais linhas ferroviárias. Os soldados invasores foram imobilizados e logo se viram assediados de todos os lados pela alegre fraternidade soviética, no seio da qual se dissolveram por completo como neve derretida pela primavera.

 

A kornilovada (kornilovschina) falhara miseravelmente, sem chegar a haver quaisquer confrontos armados. O terrível general Denikine foi aprisionado pelos seus próprios soldados. Krymov suicidou-se com um tiro no peito, vendo a sua Santa Rússia perdida para sempre. Kornilov foi detido em Mogilev e encarcerado na fortaleza bielorussa de Bykhov. Evadir-se-ia daí após a revolução de outubro juntando-se aos bandos de terror branco na região do Don, sendo morto em ação em abril de 1918. Tinha um coração de leão e os miolos de um carneiro, na apreciação de um contemporâneo.

 

Neste verão de 1917, isolado e clandestino, na sequência direta do que deixara esboçado nas Teses de Abril, Lenine completou uma obra teórica fundamental e escreveu algumas peças políticas de grande significado, que nos permitem, hoje, avaliar a radicalidade sem paralelo (anterior ou posterior) do projeto político com que abordou a revolução soviética e algumas das suas fragilidades básicas.

 

O Estado e a Revolução (67) é muitas vezes considerado uma obra de pura teoria política, senão de simples erudição marxista, sem grande significado histórico na prática. Isso, no fundo, é supor que Lenine era afinal um político oportunista, sem escrúpulos e sequioso de poder como todos os outros. As suas obras académicas poderiam também ser lidas com simples curiosidade inteletual, um sorriso malicioso e um encolher de ombros. Mas não é assim. Deve ser lido com seriedade e à letra como um instrumento concebido para fazer história de forma muito concreta e imediata.

 

As fragilidades do projeto de Lenine podem hoje, a meu ver, ser resumidas em dois flagrantes erros de expetativa, com origem na sua formação inteletual. O primeiro erro, poderemos talvez caraterizá-lo como um erro evolucionista-dialético. Vamos começar por ilustrá-lo com uma citação de Lenine, esta não das minhas preferidas:

 

“Os grandes bancos são o «aparelho do Estado» de que necessitamos para realizar o socialismo e que tomamos já pronto do capitalismo, e aqui a nossa tarefa consiste apenas em cortar aquilo que deforma do ponto de vista capitalista este magnífico aparelho, em torná-lo ainda maior, ainda mais democrático, ainda mais universal. A quantidade transformar-se-á em qualidade. Um banco único do Estado, o maior dos maiores, com sucursais em cada distrito, junto de cada fábrica, isto é já nove décimos do aparelho socialista. Isto é uma contabilidade nacional, um registo nacional da produção e distribuição dos produtos, isto, por assim dizer, é como que o esqueleto da sociedade socialista” (68).

 

Alto lá, espera aí. Não parece muito intuitivo como é que os grandes bancos puderam assim apaixonar um comunista. Magnífico aparelho? Torná-lo ainda mais democrático, ainda mais universal? E para além dos bancos, também era depositada uma grande fé nos monopólios, nos consórcios, nos cartéis, nos trusts, nos correios, nas ferrovias, nos telégrafos, na rede elétrica, até nos cheques. Melhor ainda é quando o capitalismo monopolista / imperialista desemboca finalmente (com terá de o fazer) na militarização e na guerra, dando lugar a uma completa nacionalização da economia, o capitalismo monopolista de Estado, verdadeira antecâmara do socialismo.

 

A ideia geral de Lenine era que, como a larva dá naturalmente lugar à borboleta, o capitalismo vai gerando no seu seio as formas organizativas das quais irá emergir depois, sem esforço, o socialismo e o comunismo. Basta destruir por completo o aparelho político de dominação da burguesia e recolher cuidadosamente em nossas mãos a sua organização económica, adaptando-a com desvelo e suavemente aos nossos próprios fins. Nesta contínua dialética entre densificação e desmantelamento da racionalização burocrática chegaremos finalmente ao comunismo? Será que toda esta magnífica organização económica, abolida a propriedade privada e a exploração de classe, passará a ser assumida espontaneamente pelos seus agentes de uma forma livre, desalienada e não hierárquica? Mas isso será esquecer que não foi por acaso que este conteúdo (de classe) tomou precisamente esta forma (o valor, o fetichismo, a alienação), ou que, como disse também Marx, divisão social do trabalho e propriedade privada são uma e a mesma coisa (69).

 

É claro que todas estas elaboradas formas organizativas tinham então uma expressão ainda bastante fruste na Rússia camponesa e atrasada. Mas a revolução que estávamos então a empreender era supostamente mundial. Na Rússia, entretanto, havia outras razões para ter esperança. Entra aqui um segundo erro de Lenine, que é um erro de excessivo otimismo humanista, aliás bastante comum em pensadores revolucionários. A ideia geral é aqui que, afastada a opressão de classe, postas em fuga as classes exploradoras, imediatamente vão brotar, melhor, vão jorrar copiosamente, das massas laboriosas pobres e ignorantes, tesouros inesgotáveis e insuspeitos, um imenso manancial de iniciativa, de capacidade organizativa, de inventividade, de abnegação. Aliás, só a libertação de todas estas energias ocultas e represadas é que vai permitir escapar ao caos económico provocado pela fragorosa derrocada do capitalismo no confronto imperialista e na guerra. E não só evitar a catástrofe, mas avançar imediatamente, numa progressão histórica imparável na mesma lógica cumulativa, para o ascenso de uma organização social incomparavelmente mais desenvolvida, mais rica e mais poderosa, inclusivamente do ponto de vista militar (70).

 

Todavia, as coisas não se passariam assim. No imediato, só podemos contar para tarefas organizativas com a vanguarda da classe ascendente, depois de bem esclarecida e temperada na luta. Quanto à massa geral das classes laboriosas, é preciso, no mínimo, uma ou duas gerações de cuidadosa preparação e educação. Ora, a ditadura do proletariado, como Lenine deixou bem explícito, devia ser exercida de imediato pelo conjunto da classe. Lenine era um político doutrinal, que não tomava uma iniciativa sem que ela estivesse claramente teorizada. Mas era também um homem de uma lucidez e um realismo cortantes, desapiedados. Para que ele tivesse achado possível o exercício da ditadura do proletariado e a tomada de medidas em direção ao socialismo na Rússia sua contemporânea, ele teve de basear-se em duas outras assunções, ambas bastante problemáticas.

 

Primeiro, que o proletariado russo era apenas um pequeno destacamento batedor, que fazia a revolução em nome do proletariado de todas as nações capitalistas mais desenvolvidas. Em segundo lugar, que, em resultado da socialização do trabalho já muito desenvolvida nessas economias mais avançados, uma vez derrubada a dominação de classe, as tarefas de governação se tornariam muito (e cada vez mais) simplificadas, como que mecanizadas. Para Lenine, aparentemente, no socialismo mais avançado, não haverá qualquer planeamento estratégico a fazer, opções coletivas a tomar entre diversas alternativas. Será só medir, pesar, registar e contabilizar, coisas para as quais bastará uma escolarização elementar, que forneça capacidade de leitura e de realização das operações aritméticas básicas.

 

Estes erros de expetativa, no fundo, o próprio volume desmesurado da sua ambição, vão ocasionar a que, desde o seu início, a revolução soviética tivesse tido sempre que recuar, reconsiderar, improvisar em relação aos seus planos, enquanto esperava por uma revolução europeia que tardava cruelmente ao encontro. Susteve-se, com denodo, acabando finalmente por aportar a outas paragens completamente diversas das esperadas, não deixando por isso de deixar inscrita a sua profunda marca na história universal. Será este o destino de todas as grandes esperanças?

 

Apesar de formalmente vitorioso, Kerensky fora obviamente apanhado em falso com a kornilovschina. O seu espaço real de iniciativa política estava agora muito reduzido. No entanto, com a sua habitual desenvoltura cénica e inesgotável desfaçatez, achou chegada a hora de proclamar a república. Propôs ainda um novo governo de coligação sob a forma reduzida de um diretório (outra reminiscência tricolor).

 

Quem estava realmente vitoriosa era a democracia soviética, sobretudo as forças à sua esquerda. Esta podia ter sido a hora de Martov, tivesse ele tido mais arreganho e capacidade de iniciativa. O que as massas ansiavam nesta altura era por paz imediata, unidade socialista e poder dos sovietes. Uma moção política de Kamenev foi aprovada no soviete de Petrogrado com o apoio de mencheviques internacionalistas e SR’s de esquerda. Mesmo Lenine esteve nesta altura, durante uns dez ou doze dias, disposto ao compromisso, desde que o governo expulsasse Kerensky, a burguesia e os liberais e se submetesse aos sovietes. Com todo o poder entregue aos sovietes (que voltava a ter o seu favor como palavra de ordem), a revolução poderia porventura prosseguir a partir daí, por algum tempo, na via socialista, de uma forma pacífica e com aberta disputa pluripartidária (71).

 

No comité executivo pan-russo dos sovietes, porém, triunfou a já provada e dasgastada aliança maioritária menchevique-SR, que resolveu dar mais uma hipótese a Kerensky para governar, ao leme do seu diretório, com o apoio de forças da direita, excluídos, em princípio, os comprometidos kadets. Realizar-se-ia uma nova conferência, agora “democrática”, das forças vivas da sociedade (sovietes, sindicatos, comités do exército, cooperativas, dumas municipais, zemstvos). A prometida conferência reuniu efetivamente em Petrogrado, em meados de setembro, com uma participação bolchevique muito minoritária. Juntando-se-lhe mais 1/3 de representantes específicos das classes proprietárias, a partir dessa conferência foi cooptado um “pré-parlamento”, oficialmente designado conselho da república. Era perante esta notável instituição que responderia o novo governo, que afinal tinha, sim, participação kadet, aliás ao mais alto nível.

 

Enfim, tratou-se de mais um arranjo oligárquico sem qualquer ponta de legitimidade, para prosseguir a mesma política de guerra, penúria e opressão social. Até o modesto reformista Chernov se viu afastado da pasta da agricultura. A eleição da assembleia constituinte foi novamente adiada. A “democracia pequeno burguesa”, como Lenine a caraterizava (os Tsereteli, Dan, Potresov, Plekhanov, Zenzinov, Liber, Avksentiev, Gots, a idosa Breshko-Breshkovskaya, etc.), escolhera em definitivo o seu campo. Qualquer compromisso com ela era agora completamente impossível. Os bolcheviques abandonaram o “pré-parlamento” (só o inconsolável Kamenev queria ficar) no Palácio Mariisnky com um discurso violento de ruptura de Trotsky. “Ide para os vossos comboios alemães” retorquiram-lhes.

  

Estava marcado para o mês de outubro o II congresso pan-russo dos deputados operários e soldados e as eleições para delegados pareciam mostrar uma verdadeira vaga de fundo a favor dos bolcheviques. Nos congressos regionais o resultado era o mesmo. Entre agosto e setembro, ainda, os bolcheviques ganham ou reforçam a maioria nos cruciais sovietes de deputados operários e soldados de Petrogrado, Moscovo, Kiev, Odessa, Ivanovo-Voznesentsk, Samara, Ekaterinburg, Saratov, Tsaritsyn e várias outras cidades. Em Petrogrado, a presidência do comité executivo coube a Leon Trotsky, que assim reaveu o seu posto de 1905. Os triunfos bolcheviques registavam-se já há algum tempo nos comités de fábrica e do exército, alargando-se agora a sindicatos, municipalidades e mesmo a alguns comités agrários.

 

A usura da indecisão sobre a paz favorecia nesta altura cada vez mais os extremos, sobretudo um deles. O tabuleiro político era como uma mesa de bilhar cada vez mais inclinada para a esquerda. Nikolai Berdiaev, que esteve lá, avançou também uma outra explicação para o triunfo político bolchevique. Para ele, ao público russo, habituado a viver sob uma autoridade bem definida, não parecia utópica a ditadura do proletariado nem o avanço para o socialismo apregoados por Lenine. Os bolcheviques prometiam paz, pão e terra. Coisas muito concretas, acessíveis e ansiadas. O resto se veria. Eram rapazes educados e lá saberiam o que estavam a propor. O que pareciam, isso sim, cada vez mais “utópicos” e ilusórios eram os projetos demo-liberais avançados por SR’s e mencheviques (72), agora que até os kadets haviam recuado já para posições indistintas da massa geral reacionária dos saudosistas. A degradação contínua das condições de vida, a incerteza e o colapso da ordem pública tornavam-se insuportáveis. Depois da kornilovschina, aqueles para quem o regresso à velha ordem senhorial czarista continuava a aparecer como uma ideia insuportável acabaram por gravitar naturalmente para a órbita bolchevique. O congresso pan-russo dos sovietes, após um pequeno adiamento, ficou agendado para 25 de outubro.

 

A partir do seu exílio finlandês, Lenine começa então a instar o partido a avançar para a insurreição, considerando ter a seu favor a maioria do povo. Fá-lo aliás de forma cada vez mais insistente e com maior veemência, avaliando que a janela de oportunidade aberta para esse efeito poderia fechar-se em breve. Não deveria esperar-se, sequer, pelo congresso pan-russo dos sovietes, como alguns objetavam. Esta ânsia de Lenine tinha tanto motivações internas como externas, pois que se evidenciavam já então sinais de desagregação no esforço de guerra das potências centrais, nomeadamente com greves e motins na Alemanha. Era chegada a hora da revolução europeia e a responsabilidade pelo tiro de partida tinha de ser russa.

 

Ao princípio estes propósitos de Lenine causaram estupor e alarme. Cópias das suas cartas foram queimadas, com receio de que chegassem a instâncias inferiores do partido e aí gerassem movimentos incontroláveis. Perante a falta de resposta às suas instâncias e, novamente, a censura efetiva ou a manipulação descarada exercida sobre os seus escritos no jornal diário do partido Rabochii put (Via dos Trabalhadores), Lenine chega a apresentar a sua demissão do comité central do partido. Muda-se, entretanto, para a cidade fronteiriça de Vyborg, instalando-se depois clandestinamente no bairro do mesmo nome em Petrogrado.

 

Entretanto, ao longo de cerca de um mês, a ideia de insurreição foi ganhando gradualmente o partido. Finalmente, numa reunião noturna clandestina do comité central realizada a 10 de outubro, o partido decide formalmente colocar na sua agenda imediata a tomada do poder por meio de uma insurreição armada, com os únicos votos desfavoráveis de Kamenev e Zinoviev. Não contentes com isto, estes dois passaram de imediato a fazer campanha contra a insurreição em organismos do partido e mesmo, veladamente, num órgão da imprensa independente de esquerda, o Novaya zhizn (Nova vida) de Gorky. Mas dificilmente isso pode ser considerado uma indiscrição traiçoeira porque, na verdade, o iminente golpe bolchevique era já há uns tempos o assunto dominante de conversa na cidade. Para desespero de Lenine, no entanto, a organização militar do partido, escaldada com a experiência de julho, não se achava de momento ainda capaz de empreender com segurança um movimento deste tipo. Também não via razão para a urgência, temendo mais a precipitação.

 

Petrogrado estava por então sob ameaça direta dos alemães e não podia confiar muito no exército para se defender. A Riga vermelha já havia sido evacuada militarmente e entregue sem resistência às hordas do kaiser. Havia a suspeita de que pudesse estar a preparar-se o mesmo para a capital, para abafar o coração da revolução. As coisas precipitaram-se quando os alemães, no início de outubro, tomaram as ilhas em frente ao golfo de Riga. A armada russa, abandonada pelos aliados ingleses, recusou o combate, ficando a partir daí completamente isolada no golfo da Finlândia. O governo provisório resolveu então ordenar o envio de vários regimentos da capital para a frente norte. Não era segredo para ninguém que não havia no exército russo unidades capazes de lutar efetivamente na frente de guerra, pelo que a transferência destes regimentos só podia ter objetivos políticos. E aquele que ocorria imediatamente à mente era inviabilizar a realização do congresso pan-russo dos sovietes.

 

Nenhuma unidade da guarnição de Petrogrado queria ser movida para a frente e todas começaram a aprovar em plenário resoluções de protesto com manifestação de apoio ao poder soviético. Mas as unidades da frente, essas, queriam ser revesadas, sendo uma preocupação bolchevique evidente que elas pudessem ser instrumentalizadas pelo governo provisório para impor os seus objetivos políticos reacionários na capital. Assim decorriam os jogos político-militares nesta hora crucial: a direita apelando à abnegação dos jovens soldados e à solidariedade com os colegas sacrificados nas trincheiras (pois que a conversa patriótica da guerra até à vitória já não movia ninguém); a esquerda, sob a palavra de ordem de paz imediata, secretamente contando com o seu cansaço e egoísmo.

 

O comité executivo do soviete de Petrogrado tomou parte em negociações sobre as planeadas movimentações de tropas. E a 9 de outubro – um dia antes da votação do comité central bolchevique sobre a insurreição - formou um comité militar revolucionário, dirigido por Trotsky, para dirigir a oposição a qualquer iniciativa contrarrevolucionária ou de entrega da capital ao inimigo externo. Seria neste organismo e com este pretexto – que era uma ameça bem real, de certo modo reminiscente da Comuna de Paris -, beneficiando da autoridade democrática amplamente reconhecida aos sovietes, que acabaria afinal por funcionar o centro coordenador do levantamento bolchevique. Reunia à vista de toda a gente num terceiro andar do Smolny. Tendo uma clara maioria bolchevique, tinha também como membros alguns SR’s de esquerda e até anarquistas.

 

O comité militar revolucionário colocou os seus próprios comissários em todos regimentos e depósitos de armas. Trabalhando quotidianamente com comités eleitos e com a prórpria conferência da guarnição (que reunia no Smolny), começou a minar por completo a autoridade do distrito militar de Petrogrado e da cadeia hierárquica oficial. Até que, a 22 de outubro, a desafiou abertamente: todas as ordens militares com efeito na capital, teriam doravante de ter o seu aval. Kerensky deu ultimatos e ameaçou de prisão, quis mandar vir tropas do exterior mas nenhumas se mostraram disponíveis no imediato. Com um discurso de Trotsky em plenário, foi ganha autoridade soviética sobre a crucial fortaleza de Pedro e Paulo, com os seus canhões e o seu imenso paiol.

 

Kerensky conseguiu enfim mobilizar algumas unidades militares da periferia da capital na madrugada do dia 24 de outubro. Cadetes de escola militar atacaram, encerraram e selaram a impressora do Rabochii put e também dois jornais da extrema direita, para dar uma impressão de equanimidade. Um batalhão de choque feminino, uma bateria de artilharia montada e um regimento de atiradores feridos de guerra tiveram ordens para se apresentar e tomar posições defensivas no Palácio de Inverno, pontes e algumas instalações governamentais sensíveis. Tinham começado a chegar à capital os delegados para o congresso dos sovietes e estes acontecimentos naturalmente causaram algum alarme.

 

Não era grande coisa como afirmação de autoridade governamental. Mas incluía, sem dúvida, uma alteração à ordem pública democrática e um ataque contrarrevolucionário, a própria razão de ser do comité militar revolucionário. Em nome da liberdade de imprensa, este deu ordem a duas unidades de sua máxima confiança para reabrir as intalações do jornal bolchevique, esquecendo a restante imprensa também atacada. Isso foi feito prontamente e sem qualquer dificuldade. Quanto ao mais, os revolucionários limitaram-se a defender o Smolny e deixar que fosse o congresso pan-russo dos sovietes a tomar a iniciativa política de destituir o governo provisório quando achasse oportuno. Havia aqui uma preocupação de não usurpar funções de soberania democrática. Sendo certo que, com toda a guarnição do seu lado, o grosso da cidade estava tranquilamente nas suas mãos.

 

Nessa tarde do dia 24, Kerensky dirigiu-se ao “pré-parlamento” no Palácio Mariinsky e aí fez um dos seus discursos mais histriónicos, exigindo plenos poderes para esmagar a rebelião de traição nacional. Mas não foi isso que aí obteve. Tanto daí como do VTsIK vieram antes exigências para que o governo provisório tomasse medidas imediatas quanto à terra e à paz. A “democracia pequeno burguesa” acordava agora, na penúltima hora, para estes problemas. Em todo o caso, não quis embarcar em sonhos de novas kornilovshinas que, fossem elas possíveis, a engoliriam também a ela. Kerensky estava completamente só, envolto por todo o pesado barroco imperial do Palácio de Inverno. Irrequieto como sempre, não ficaria aí por muito tempo.

 

Ao longo deste dia foram ocorrendo algumas escaramuças pelo controlo das pontes, a central e a agência telegráfica, com vantagem praticamente total para o lado revolucionário. Ocupou-se militarmente a estação ferroviária do báltico, para prevenir a chegada por aí de tropas inimigas. De resto, a cidade manteve-se calma. Casais burgueses passevam-se pela Avenida Nevsky, as prostitutas faziam o seu comércio, restaurantes, teatros, casinos e cinemas estiveram em funcionamento normal.

 

Não era nada disto o que Lenine entendia por uma revolução, nem o que esperava desta em particular. Tinha que sair daquela combustão um facho de luz que iluminasse o mundo. Depois de enviar mais alguns dos seus ingentes recados escritos e de pedir, em vão, ao comité central permissão para emergir da clandestinidade, resolveu sair assim mesmo, em aberta rebelião contra ele. Na noite do dia 24 dirigiu-se para o Smolny, de elétrico e por fim a pé, acompanhado por um companheiro finlandês. Uma patrulha montada de cadetes passou por eles. Chegados ao edifício fortemente guardado, não tinham credenciais para entrar. Entraram pouco depois de roldão, no meio de uma vaga de multidão apressada e excitada. Assim que encontrou os seus camaradas, Lenine começou a fazer uma pressão avassaladora para que fosse tomado o Palácio de Inverno e derrubado sem mais demoras o governo provisório.

 

Certo é que as operações militares revolucionárias tomaram um caráter ofensivo em nítido crescendo de agressividade a partir dessa noite. Tomaram-se as pontes restantes e a estação elétrica, sendo desligada a energia a todos os edifícios governamentais. Tomou-se a estação telefónica, sendo cortadas as linhas para o quartel-general e o Palácio de Inverno. Ocupou-se o banco central, que pode bem ter sido um pedido pessoal de Lenine, para corrigir uma negligência revolucionária incorrido pela Comuna de Paris. O cruzador Aurora foi postar-se cuidadosamente junto à ponte Nikolaevsky apontando os canhões ao Palácio de Inverno.

 

Na manhã do dia 25, Kerensky lança um último, desesperado apelo aos regimentos cossacos. Desenganado, arranja maneira de se escapar num comboio de dois automóveis, o primeiro dos quais pertencente à embaixada norte-americana e exibindo as respetivas bandeiras. Dirigiu-se a Pskov, para procurar mobilizar pessoalmente unidades militares da frente norte. Estavam-se então ainda a formar os piquetes do comité militar revolucionário a toda a volta do Palácio de Inverno. Lá dentro, tomou então posse como novo primeiro-ministro desta república russa o kadet Nikolai Kishkin. Ainda teve tempo para ir ao vizinho quartel-general demitir o comandante do distrito militar, aumentando com isso sensivelmente a confusão nas suas hostes.

 

Nessa mesma manhã, Lenine escreveu, mandou imprimir e distribuir um comunicado “aos cidadãos da Rússia”, anunciando o derrube do governo provisório e a tomada do poder pelo comité militar revolucionário do soviete de Petrogrado. Mais tarde, dirigindo-se pessoalmente ao soviete de Petrogrado, na presença de Trotsky, que lhe deu a palavra, saudou a revolução proletária e camponesa russa, teminando com um viva à revolução socialista mundial.

 

Regimentos da guarnição ocuparam e dispersaram sem problemas o “pré-parlamento” no Palácio Mariinsky. O presidente Avksentiev lavrou um protesto. A frota do báltico chegou à embocadura do Neva, saudou efusivamente o Aurora e desembarcou uns três milhares de marinheiros prontos para o assalto ao Palácio de Inverno. Por fragilidades na mobilização, logísticas ou em virtude do normal jogo de ultimatos e negociações, o assalto à sede de governo foi sendo sucessivamente adiado ao longo de todo este dia. Um azougado jornalista revolucionário norte-americano conseguiu infiltrar-se lá dentro com alguns amigos, em duas ocasiões diferentes, antes e durante o assalto final, testemunhando memoravelmente a enorme confusão que aí reinava (73). O governo provisório recusou a rendição, mas foi sendo abandonado por muitos cadetes e cossacos ao longo da tarde, pelo que a batalha final pôde ser grandemente amenizada, senão mesmo evitada de todo. Entretanto, caiu o quartel-general, como já havia caído o almirantado, em mão dos revolucionários. Só faltava agora um único edifício.

 

Já noite avançada, recebido o sinal luminoso combinado da fortaleza de Pedro e Paulo, o Aurora fez finalmente soar os seus canhões. Foi um tiro de pólvora seca, mas com um som verdadeiramente medonho. Depois foram os fogos reais, vindos também da fortaleza de Pedro e Paulo. Começaram a saltar as cornijas do palácio, tendo um obus explodido mesmo por cima da sala onde reunia o governo provisório.

 

Enquanto soava em fundo a fuzilaria sobre o Palácio de Inverno, abriu finalmente os seus trabalhos o II congresso pan-russo dos sovietes de operários e soldados. Martov ainda conseguiu fazer aí aprovar uma proposta de que se realizassem negociações para uma saída pacífica da crise, com eleição de um governo aceitável para toda a democracia revolucionária. Depois, começaram as tomadas de posição dos mencheviques e SR’s moderados que abandoram o congresso em protesto contra o que consideraram ser a sua colocação perante o facto consumado de um golpe de força. Fizeram mesmo menção de se juntar a uma marcha organizada pela Duma municipal de solidariedade com o governo provisório sitiado. Martov tentou então fazer passar uma moção de conpromisso, com termos desta feita totalmente impossíveis de engolir pelos bolcheviques. Acabou por abandonar também o congresso com os seus mencheviques internacionalistas, sendo famosamente remetido por Trostsky para o “caixote de lixo da história”. Os bolcheviques, ainda assim, não ficaram isolados. Dos 670 delegados eleitos, 300 eram bolcheviques, 193 SR’s (dos quais mais de metade de esquerda), 68 mencheviques e 14 mencheviques internacionalistas. Após as defeções, havia ainda espaço de compromisso com os SR’s de esquerda e outras frações minoritárias.

 

A marcha de apoio ao governo privisório promovida pela Duma municipal deu meia volta e retirou pelo mesmo caminho. Estes cavalheiros e senhoras ofereciam solenemente os seus peitos às balas, mas os marinheiros de sentinela disseram-lhes que nem pensar. Dar-lhes-iam simplesmente uma tremenda sova, ali e agora, se insistissem em passar. Com gente ignorante como esta, não vale a pena. Por volta da meia-noite a situação no Palácio de Inverno era completamente desesperada, com as suas defesas muitíssimo rarefeitas. Os sitiantes foram, simplesmente, entrando aos poucos, sobretudo pela ala leste completamente desguarnecida. Não havia já no palácio uma defesa organizada a postos.

 

Pelas duas da manhã do dia 26, Antonov-Ovseenko resolveu finalmente entrar calmamente com um destacamento para dar voz de prisão aos ministros. Quando transpareceu que Kerensky não estava na sala ministerial ou em lado algum no palácio houve uma muito má reação da multidão invasora, mas Antonov-Ovseenko conseguiu impor a sua autoridade. Os prisioneiros foram conduzidos a pé, sem sofrer violência física, para a fortaleza de Pedro e Paulo, onde foram assinados todos os devidos protocolos. Quando o deposto ministro do interior Alexei Nikitin estava a ser encerrado na sua cela, tirou do bolso um telegrama da Rada ucraniana, dizendo casualmente: “Recebi isto ontem. Agora o problema é vosso.” E não seria o único.

 

 

 

 

 

 

(*) Ângelo Novo (n. 1961) é um pesquisador e ensaísta independente português, editor da revista eletrónica ‘O Comuneiro’. Foi advogado, jornalista, cineclubista e tradutor. Foi ainda redator ou colaborador permanente em diversas revistas culturais, literárias e de intervenção política, designadamente ‘Vértice’, ‘Última Geração’ e ‘Política Operária’. É autor de O estranho caso da morte de Karl Marx, Edições Mortas, Porto, 2000, para além de outras obras publicadas em poesia e ficção. Os seus escritos principais podem ler-se em linha na sua página pessoal na rede.

 

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NOTAS:

 

(1) V. Gustave Welter, Histoire de Russie, Payot, Paris, 1963, p. 23-28.

 

(2) Nicolas Berdiaev, Les sources et le sens du communisme russe, Gallimard, Paris, 1963 [1936], p. 42. O autor é um destacado intelligent do período final do czarismo (chegou a ser um “marxista legal”) e esta sua afirmação tem valor de testemunho.

 

(3) Alain Besançon, As origens intelectuais do leninismo, Via Editora, Lisboa, 1979, p. 89 e ss.

 

(4) Eric Hobsbawn, “A cultura europeia e o marxismo entre o séc. XIX e o séc. XX”, in Eric Hobsbawn (org.), História do Marxismo, Vol. 2, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1989 (3.ª edição), p. 99.

 

(5) V. Avrahm Yarmolinsky, Road to Revolution: A Century of Russian Radicalism (1956), capítulo 10, p. 186 e ss.. Informações colhidas nesta magnífica obra estão espalhadas um pouco ao longo de todo este subtítulo.

 

(6) Jorge Plekhanov, O socialismo e a luta política, Fronteira, Lisboa, 1976. Tradução de Serafim Ferreira, provavelmente a partir do francês. Neste escrito surgiu pela primeira vez a máxima de que “sem teoria revolucionária não há prática revolucionária”.

 

(7) A sua opus magnum é Georges Plekhanov, Ensaio sobre o desenvolvimento da concepção monista da história, Livros Horizonte, Lisboa, 1976 [1895]. Das duas edições portuguesas publicadas no mesmo ano esta parece-nos ser a preferível. Foram ainda publicados em Portugal Georges Plekhanov, O materialismo militante. Questões fundamentais do marxismo, Moraes Editores, Lisboa, 1976 [1908], Georges Plekhanov, A arte e a vida social, Moraes Editores, Lisboa, 1977 [1912-1913] G. Plékhanov, Ensaios sobre a história do materialismo, Estampa, Lisboa, 1973 [1896] e Georges Plekhanov, Reflexões sobre a história, Presença, Lisboa, s/d [1891].

 

(8) V. Victor Serge, O que todo o revolucionário deve saber sobre a repressão, Publicações Escorpião, Porto, 1974.

 

(9) Sobre este episódio, em pormenor, leia-se Leon Trotsky, The Young Lenin, Penguin Books, s/d [1936], tradução e introdução de Max Eastman, p. 74 e ss..

 

(10) Sobre essa matéria leia-se Teodor Shanin (editor), Late Marx and the russian road, Monthly Review Press, New York, 1983.

 

(11) V. Nadezhda K. Krupskaya, Reminiscences of Lenin (1933), Parte 1, capítulo St. Petersburg. Estas memórias vívidas e cativantes constituem a mais privilegiada fonte biográfica primária sobre Lenine. Contudo, foram editadas por mão estalinista, não podendo ser garantida integralmente a sua autenticidade.

 

(12) Este ponto é bastante realçado na Introdução a Neil Harding (editor), Marxism in Russia. Key documents (1879-1906), Cambridge University Press, 2008.

 

(13) George Plekhanov, Our differences.

 

(14) V. I. Lénine, Quem são os «Amigos do Povo» e como lutam contra os sociais-democratas, Estampa, Lisboa, 1975.

 

(15) Vladimir Ilitch Lênin, O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (tradução de José Paulo Netto), Abril Cultural, São Paulo, 1982.

 

(16) Neil Harding (editor), Marxism in Russia. Key documents (1879-1906), ob. cit., pp. 227-241.

 

(17) V. I. Lenine, Aos pobres do campo, Avante, Lisboa, 1984.

 

(18) Clara Zetkin, Reminiscences of Lenin (1924).

 

(19) Devo esta feliz imagem metafórica a uma obra biográfica sobre Lenine, generalizadamente hostil mas penetrante, de Aleksandr Soljenitsine: Lenine em Zurique, Dom Quixote, Lisboa, 1976.

 

(20) Friedrich Engels criticara severamente o projeto que lhe havia sido submetido deste programa político, tendo as suas críticas sido apenas parcialmente atendidas na versão final. Esta circunstância só se tornaria conhecida em 1901 com a publicação das suas observações críticas na revista Neue Zeit. Cf. Friedrich Engels, “Para a crítica do projeto de programa social-democrata de 1891”, in Marx e Engels, Obras Escolhidas em Três Tomos, Tomo III, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1985, p. 478 e ss.

 

(21) V. Lars T. Lih, Lenin rediscovered. What is to be done? in context, Haymarket Books, Chicago, 2008, p. 41-158. Esta obra extraordinária desmonta metódica e impiedosamente asserções doutorais sobre Lenine que se tornaram lugares comuns quase consensuais da cultura política ocidental. É pena que se concentre em torno de Que Fazer?, de que oferece, no final, uma nova tradução para a língua inglesa, não avançando para épocas posteriores.

 

(22) V. Rosa Luxemburg, Organizational Questions of the Russian Social Democracy [Leninism or Marxism?] (1904) . Esta intervenção e outras de Leon Trotsky coetâneas – v. Our Political Tasks - e posteriores continuam ainda hoje a dar uma caução de esquerda revolucionária à lenda negra de um Lenine manipulador sem escrúpulos, sedento de poder pessoal absoluto.

 

(23) V. I. Lenine, Um passo em frente, dois passos atrás, Centelha, Coimbra, 1972. Ou também, “Um passo em frente, dois passos atrás”, in V. I. Lénine, Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1977, Tomo 1, p. 213 e ss.. Há uma versão em linha cedida pelo Portal Vermelho.

 

(24) V. I. Lenine, Que Fazer?, Avante, Lisboa, 1978. Há uma outra versão em linha cedida pelo Portal Vermelho.

 

(25) Leia-se Hal Draper, The myth of Lenin’s “Concept of the Party".

 

(26) Com uma clareza exemplar, leia-se sobre isto Ernest Mandel, A teoria leninista da organização, Antídoto, Lisboa, 1975, sobretudo a pp. 117 e ss..

 

(27) Não nos referimos a coragem em sentido amplo, mas a intencionalidade assertiva e uma certa capacidade de iniciativa de agressão. Há homens e mulheres que são capazes de atitudes de uma coragem e abnegação extremas na defesa das suas ideias, sendo todavia completamente incapazes de preparar conscienciosamente dar voz de comando para uma insurreição. O que é mais: quando sentem essa capacidade nos seus companheiros, viram-se contra eles com extrema violência, com toda a força desesperada do despeito e da negação. É uma situação lamentável, mas infelizmente não incomum em movimentos revolucionários. Era essa, em geral, a atitude dos mencheviques, com muito poucas exceções. Entre estas estava Leon Trotsky, que era ainda muito jovem à altura da cisão, não tendo podido então avaliar em profundidade tudo o que estava verdadeiramente em disputa. Sobre esse ponto, leia-se Isaac Deutscher, Trotsky, o profeta armado, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1984 (2.ª edição), p. 91 e ss.. Ler também, Leon Trotsky, Relatório da delegação siberiana, Centelha, Coimbra, 1976, com um extenso prefácio de Denis Authier.

 

(28) Marc Ferro, Nicolau II, Edições 70, Lisboa, 1992, p. 70 e ss..

 

(29) David Floyd, Russia in revolt. 1905: the first crack in tsarist power, MacDonald & Co., London, 1969, p. 55.

 

(30) V. Pierre Broué, Le parti bolchevique. Histoire du P. C. de l’U.R.S.S. Nouvelle éditions augmentée, Éditions de Minuit, Paris, 1977, p. 33-34.

 

(31) Sobre esta matéria, o melhor tratamento sistemático é, sem dúvida, Neil Harding, Lenin’s political thought: theory and practice in the democratic and socialist revolutions, Haymarket Books, Chicago, 2009. Esta edição reúne num único volume o que na edição original de 1977-78 estava dividido em dois volumes, dedicado o primeiro à revolução democrática e o segundo à revolução socialista.

 

(32) Quanto a isso, ler-se-á com grande proveito Marcel Liebman, Le léninisme sous Lénine. 1 – La conquête du pouvoir, Seuil, Paris, 1973. Há uma edição portuguesa de Iniciativas Editoriais (1976). Sob a influência magisterial do falecido Tony Cliff, que também refletiu sobre isso numa extensa biografia de Lenine, há mesmo uma importante corrente trotskista internacional que tenta praticar hoje, como uma virtude “leninista”, este brusco ziguezaguear tático sob a férrea disciplina do centralismo democrático.

 

(33) V. I. Lénine, “O proletariado revolucionário e o direito das nações à autodeterminação”, in Obras Escolhidas em Seis Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1984, Tomo 2, p. 273. Retoquei ligeiramente esta tradução para a língua portuguesa, por confronto com a versão inglesa. A já idosa Nadezhda Krupskaya chamou a atenção para esta peçazinha escusa de uma polémica entre camaradas com Karl Radek (Parabellum), além de uma outra coetânea e do mesmo sentido contra Georgy Pyatakov, conseguindo fazer passar na íntegra precisamente esta longa citação por entre as barbas (?) do censor editorial estalinista às suas Reminiscências de Lenine. Dando-nos, para além disso, a sua insubstituível garantia pessoal de que aqui está condensado o que é essencial e constante em Lenine, de 1905 a 1916, isto é, da revolução democrática à revolução socialista. V. Krupskaya’s “Reminiscences of Lenin”, The Years of The War, Zurich 1916. A mesma passagem é citada ainda, como exemplarmente relevante para o nosso tempo, em dois pontos diferentes (num deles parcialmente) de Paul Le Blanc, Unfinished Leninism, Haymarket Books, Chicago, 2014, pp. 136 e 199.

 

(34) V. I. Lénine, “Duas tácticas da social-democracia na revolução democrática”, in Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1977, Tomo 1, p. 381 e ss..

 

(35) É essa a dimensão das Polnoe Sobranie Sochinenii, na sua quinta edição, de 1958-65, que inclui todos os apontamentos e um exaustivo aparato crítico descrevendo todos os nomes, livros e até provérbios mencionados por Lenine. Juntamente com as 8.000 páginas em vários volumes da Biograficheskaya Khronika, descrevendo tudo o que é sabido ele ter feito, dia a dia, hora a hora, constituem um verdadeiro mausoléu de embalsamamento académico diz Lars T. Lih, Lenin, Reaktion Books, London, 2011, p. 7 (Esta é a melhor biografia de Lenine de dimensão pequena que se pode algum dia esperar encontrar, de uma perspetiva não militante). As Collected Works em língua inglesa, mais modestamente, ficam-se pelos quarenta e cinco volumes. A “actualidade da revolução” como eixo central da obra leniniana é um dos temas centrais de György Lukács, O pensamento de Lenine, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1975.

 

(36) V. Leon Trotsky, Balanço e perspectivas, Antídoto, Lisboa, 1979 [1906]. Há uma versão em linha oferecida pelo Grupo Livre de Estudos Marxistas Revolucionários. Ler também Leon Trotsky, 1905 (em inglês).

 

(37) Uma parte da fase final dessa polémica, sob a forma de três cartas de “Resposta ao Senhor Bogdanov”, todas ostentando a escarninha epígrafe molièriana “tu o quiseste, George Dandin”, pode ser lida em Georges Plekhanov, O materialismo militante. Questões fundamentais do marxismo, Moraes Editores, Lisboa, 1976 [1908], p. 89 e ss..

 

(38) V. I. Lénine, Materialismo e Empiriocriticismo, Estampa (Colecção Teoria), Lisboa, 1975 [1909]. Já se escreveu, com alguma graça, que esta é a obra em que Lenine, batendo-se sempre com os seus habituais denodo e sentido de propósito, faz ouvir ocasionalmente um certo gorgolejar, próprio de quem avançou para terrenos em que se achou já bem fora de pé. V. Terry Eagleton, “Lenin in the postmodern age”, in Sebastian Budgen, Stathis Kouvelakis e Slavoj Zizek (editores), Lenin Reloaded: towards a politics of truth, Duke University Press, Durhan e London, 2007, p. 50.

 

(39) As agudas divergências internas ao bolchevismo estão bem retratadas em Paul Le Blanc, Lenin and the revolutionary party, Haymarket Books, Chicago, 2015 [1989], pp. 129-152.

 

(40) Sidney Hook, Towards the understanding of Karl Marx, p. 43, citado por Paul Le Blanc, Lenin and the revolutionary party, ob. cit., p. 301.

 

(41) “Por todo o céu da Europa, e lá na distante América, amontoam-se nuvens negras, carregadas de electricidade das guerras. Os povos vêem-nas acastelarem-se, mas a sua própria sombra esconde-lhes as origens. Os Wisner, os Rockefeller, os De Wendel, os Krupp, os Putilov, os Morgan, os Joseph Quesnel agitam-se num mundo superior, fechado às multidões, onde o destino dessas multidões se joga. Inscrevem-se números em quadros pretos. Fitas perfuradas desenrolam-se em aparelhos automáticos. A guerra. Prepara-se a guerra. Ela já aí está! «Chamo os vivos, choro os mortos e destruo os raios!»” Louis Aragon, Os Sinos de Basileia, Caminho, Lisboa, p. 314, tradução de José Carlos Gonzalez. A citaçao final é de Jean Jaurès.

 

(42) Os denominados “cadernos filosóficos” estão incluídos em V. I. Lénine, Obras Escolhidas em Seis Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1989, Tomo 6, sendo aqui de especial interesse o “Conspecto do livro de Hegel «Ciência da Lógica»”, pp. 89-212, e o “Conspecto do livro de Hegel «Lições sobre a História da Filosofia»”, pp. 213-264.

 

(43) Estas ideias conheceram uma primeira sistematização, em julho-agosto de 1915, em V. I. Lénine, “O Socialismo e a Guerra (A atitude do POSDR em relação à guerra)”, in Obras Escolhidas em Seis Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1984, Tomo 2, pp. 225-267. Esta brochura foi na altura traduzida para francês e alemão, tendo tido alguma circulação clandestina no ocidente.

 

(44) Paul Frölich, Rosa Luxemburg, Pluto Press / Bookmarks, London, 1994, pp. 231-233.

 

(45) V. Rosa Luxemburgo, A crise da social-democracia, Presença, Lisboa, 1975 e V. I. Lenine, “Acerca da brochura de Junius”, Obras Escolhidas em Seis Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1984, Tomo 2, pp. 405-417.

 

(46) V. Stephen F. Cohen, Bukharin and the bolshevik revolution. A political biography 1888-1938, Oxford University Press, Oxford, 2009, pp. 3-44.

 

(47) V. Staline, Marxismo e questão nacional, Assírio & Alvim, Lisboa, 1976 [1913]. Há uma outra versão disponível na rede.

 

(48) V. Nikolai Bukharine, O imperialismo e a economia mundial, Centelha, Coimbra, 1976 [1915]. Há uma edição bem mais antiga disponível na rede. Esta obra teve um Prefácio de Lenine, datado de dezembro de 1915, bastante interessante por ser aí que se desmonta a teoria kautskyana do possível advento de um “super-imperialismo” pacífico.

 

(49) V. Nikolai Bukharin, "Toward a Theory of the Imperialist State".

 

(50) V. I. Lénine, O Imperialismo. Fase superior do capitalismo, Avante, Lisboa, 2000 [1916].

 

(51) V. Rudolf Hilferding, Finance Capital. A Study of the Latest Phase of Capitalist Development.

 

(52) Veja-se J. A. Hobson, Imperialism: A Study.

 

(53) V. Rosa Luxemburg, The Accumulation of Capital, Routledge, London e New York, 2003 [1913] e Rosa Luxemburgo e Nikolai Bukharine, Imperialismo e acumulação de capital, Edições 70, Lisboa, 1976. O argumento de Rosa Luxemburgo parte de uma controversa crítica aos esquemas de Marx de reprodução alargada do capital do Livro II de O Capital para concluir por uma igualmente contestada asserção de que o sistema capitalista mundial entrará necessariamente em colapso no momento em que não tiver já mais quaisquer espaços geográficos exteriores a si próprio a quem possa exportar uma parte das suas mercadorias.

 

(54) Cf. Neil Harding, Lenin’s political thought, ob. cit., p. 42 da II Parte.

 

(55) A partir de agora, para acontecimentos politicos russos, vou indicar datas de acordo com o calendário juliano, em uso official na Rússia até fevereiro de 1918. A conversão destas datas para o seu correspondente no calendário gregoriano faz-se acrescentando treze dias.

 

(56) V. I. Lénine, “Cartas de longe. Carta 1. A primeira etapa da primeira revolução”, in Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1978, Tomo 2, pp. 1-9.

 

(57) Aleksandr Israel Helphand (1867-1924), melhor conhecido como “Parvus” (que significa pequeno, embora o homem fosse na verdade bem dimensionado), morreu em Berlim, no mesmo ano que Lenine, pouco mais velho do que ele, vendo desmoronar-se à sua volta o seu império financeiro com total indiferença, abandonado e execrado por todos os seus amigos socialistas, que nunca traíu e a quem nunca faltou. Foi o “mercador da revolução” como se intitula uma sua biografia. O Estado soviético e os seus historiadores, obviamente, nunca lhe demonstraram qualquer reconhecimento. Muito pelo contrário. Nem o fez o seu discípulo e velho companheiro Trotsky, antes ou depois de proscrito. Este homem, tanto quanto me é possível compreender a sua vida, empregou todas suas capacidades (que eram muito consideráveis), na sua máxima tensão, para assistir, secretamente, no nascimento de um mundo melhor. Também ele pensou que a grande guerra era o aguardado dobre de finados pelo capitalismo. Perdeu, naturalmente, como tem sucedido a todos os que resolveram dedicar-se a um objetivo com alguma elevação. Fê-lo de uma forma solitária, mas em grande estilo. Isto sim, era matéria para um grande biopic.

 

(58) Sobre esta viagem e suas circunstâncias, ler-se-á, com interesse, Catherine Merridale, Lenine no comboio, Temas e Debates, Lisboa, 2017.

 

(59) V. I. Lenin, “Speech in the Finland Station Square to Workers, Soldiers and Sailors”, Lenin Collected Works, Progress Publishers, 1977, Moscovo, Volume 41, página 399.2.. Tão exaustivos, por vezes, aqui neste momento ímpar os registos existentes são terrivelmente lacunares.

 

(60) Nadezhda K. Krupskaya, Reminiscences of Lenin (1933) , Parte II, capítulo In Petrograd.

 

(61) V. Léon Trotsky, Histoire de la révolution russe, Vol. 1. La Révolution de Fébrier, Éditions du Seuil, Paris, 1950, p. 377 e ss..

 

(62) V. I. Lenin, “Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revoluçãoin Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1977, Tomo 2, pp.11-16.

 

(63) Máximo Gorky, Lenine, O Oiro do Dia, Porto, 1980, p. 38.

 

(64) China Miéville, October. The story of the russian revolution, Verso Books, London-New York, 2017, p. 151-152.

 

(65) Léon Trotsky, Ma vie, Gallimard, Paris, 1973, p. 371.

 

(66) Citado em Alexander Rabinowitch, The bolsheviks come to power. The revolution of 1917 in Petrograd, Haymarket Books – Pluto Press, Chicago – London, 2004, p. 19. Um livro indispensável para conhecer o pulsar da revolução russa de julho a outubro de 1917. Para factos relativos a todo este período baseei-me sobretudo nesta magnífica obra, produto de extensa investigação na língua original.

 

(67) V. I. Lenine, “O Estado e a Revolução”, in Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1977, Tomo 2, pp. 219-305. Há uma outra versão em linha cedida pelo portal O Vermelho.

 

(68) V. I. Lenine, “Conservarão os bolcheviques o poder de Estado?”, in Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1977, Tomo 2, pp. 327-365.

 

(69) Sobre estes problemas, com desenvolvimentos que aqui seriam impossíveis, leia-se Tom Thomas, Karl Marx et la transition au communisme, Albatroz, Paris, 2000.

 

(70) V. I. Lenine, “A catástrofe que nos ameaça e como combatê-la”, in Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1977, Tomo 2, pp. 165-200.

 

(71) V. I. Lenine, “Sobre os compromissos e “Uma das questões fundamentais da revolução”, in Obras Escolhidas em Três Tomos, Edições Avante!, Lisboa / Edições Progresso, Moscovo, 1977, Tomo 2, pp. 155-159 e pp. 200-207, respetivamente.

 

(72) Nicolas Berdiaev, Les sources et le sens du communisme russe, ob. cit., p. 221-222.

 

(73) John Reed, Dez dias que abalaram o mundo (6ª edição), Avante, Lisboa, 1997, pp. 103-106 e 118-1224. Os companheiros de Reed nesta aventura foram Albert Rhys Williams, Alexander Gomberg, Louise Bryant e Bessie Beatty. Alguns deles deixaram também memórias e estudos muito valiosos da revolução soviética.