Capital e clima

- Por que é impossível o capitalismo verde?

 

 

Daniel Tanuro (*)

 

 

Capital, capitalismo, mercadoria, valor: de que é que estamos a falar?

 

É preciso, de entrada, definir uma série de conceitos, a fim de evitar falsos debates.

 

Vamos começar com o conceito de capital. Na sociedade capitalista em que vivemos, capital e riqueza são considerados sinônimos, de modo que falamos correntemente de capital de conhecimento, capital de simpatia, capital humano ou de capital natural... Ora, se capital e riqueza fossem a mesma coisa, os faraós, os imperadores chineses e os reis aztecas teriam sido capitalistas, assim como Bill Gates. Isto é, obviamente, um absurdo. A amálgama entre capital e riqueza obscurece qualquer compreensão do desenvolvimento humano, pois coloca no mesmo saco sociedades completamente diferentes, que seguem lógicas de desenvolvimento completamente diversas.

 

Capital e riqueza são duas coisas diferentes, ou melhor, o capital é apenas uma forma histórica específica de geração de riqueza pela humanidade. Uma característica especial desta forma é ser monetária, mas isso não é suficiente para a definir, porque o dinheiro acumulado forma unicamente um tesouro, não um capital. Um tesouro torna-se um capital apenas quando é investido para gerar um lucro. E essa é a definição de capital: a soma de dinheiro que parece crescer por si própria, o dinheiro correndo em busca de mais dinheiro, um valor que aumenta de um sobrevalor pelo simples jogo "normal" da economia.

 

Historicamente, o capital apareceu pela primeira vez sob a forma de capital mercantil. O comerciante compra para vender, temos portanto: Dinheiro-Mercadoria-Mais Dinheiro (D-M-D', sendo que D’>D). Esta "fórmula" constitui a definição mais geral de capital. Mas o comerciante não cria riqueza nova, ele mais não faz que deslocar a riqueza existente. As riquezas monetárias acumuladas pelos comerciantes, antes do capitalismo, foram conseguidas vendendo a bom preço o que tinha sido comprado barato - ou não fora comprado de todo, mas roubado. A segunda forma de capital, o capital de empréstimo, cresceu a partir do capital mercantil, antecipando sobre os lucros de expedições distantes. É óbvio que este capital de empréstimo tão pouco cria nova riqueza. Ao mesmo tempo, a sua forma D-D’ expressa perfeitamente a mistificação do capital, uma vez que parece aqui que o dinheiro rende por si próprio juro, tão naturalmente como a pereira dá peras.

 

Apesar de terem permitido a acumulação de grandes fortunas, o capital comercial e o capital de empréstimo permaneceram, durante muito tempo, fenómenos económicos marginais, confinados à esfera da distribuição da riqueza. A esfera da produção funcionava, com efeito, quase que exclusivamente de acordo com lógicas alheias à da troca mercantil e do lucro. Na Europa Ocidental, berço do capitalismo, essa lógica foi a da troca de serviços, característica da sociedade feudal.

 

A grande aventura do capital começa apenas, verdadeiramente, assim que ele entra na esfera da produção. A partir desse momento, a fórmula D-M-D' não se limita mais a deslocar a riqueza, torna-se produtora de riqueza nova. O segredo desta produção encontra-se na compra de uma mercadoria M peculiar: a força de trabalho humana. Ela é trocada contra um salário abaixo do valor da riqueza que produz e a diferença constitui um sobrevalor ou mais-valia. É o capital industrial, a forma moderna de capital. Desde o seu nascimento, ele subsume o capital mercantil. Com o nascimento das sociedades por ações, ele forja laços cada vez mais estreitos com o capital financeiro, com o qual está agora profundamente imbricado.

 

É importante notar que o capital não é uma coisa, é uma relação social de exploração do trabalho. Ele difere das outras relações de exploração do trabalho que a precederam na história pelo facto de consistir na produção pelo trabalho assalariado de mercadorias portadoras de um sobrevalor que o proprietário dos meios de produção realiza pela venda no mercado. O camponês da Idade Média poderia vender a sua produção excedente no mercado, mas não produzia para o mercado; por outro lado, o servo podia medir sua taxa de exploração: bastava constatar o número de dias de corveia e a parte da sua produção apropriada pelo senhor. Com o capital, a apropriação toma uma forma mais sutil, pois parece baseada na liberdade dos agentes económicos e na sua igualdade. Com efeito, acabaram-se os senhores e os servos, acabaram-se as relações de dependência imediata e de exploração transparente: o proprietário do capital e o proprietário da força de trabalho apresentam-se como cidadãos livres que realizam uma transação comercial justa segundo as leis do mercado. O assalariado fica com a impressão de ser pago pelo seu trabalho. O roubo é intermediado.

 

Isto nos leva a definir um segundo conceito: o capitalismo é a sociedade em que esta relação de exploração é dominante, ou, dito de outro modo: uma sociedade de produção generalizada de mercadorias, uma sociedade de numerosos capitais, uma sociedade em que o produtor vende a sua força de trabalho para um empregador em troca de um salário, despendendo esse salário para adquirir, sob a forma de mercadorias, os bens necessários para a sua existência (temos assim aqui uma fórmula M-D-M: força de trabalho – salário – bens de consumo, que, notemo-lo, contrariamente à primeira, não envolve acumulação). Esta sociedade nasce das sociedades nacionais que a precederam. Ela pressupõe, necessariamente, um Estado que cunha moeda, mas a função do dinheiro muda: não é só unidade de conta e meio de circulação, torna-se ainda uma das formas de existência do capital enquanto relação social.

 

O terceiro conceito a precisar é o de valor. Quem diz mercadorias diz valor, mas o valor não é, obviamente, uma propriedade dos próprios objetos (cortemo-los, observemo-los ao microscópio: não se vai encontrar neles um átomo de "valor"). É uma propriedade social, que, além disso, aparece apenas na troca: é apenas antecipando na mente a sua troca contra outra coisa que eu posso estimar o valor de um objeto. Podendo ser trocadas coisas muito diferentes, esta propriedade social só pode ser um denominador comum da sua produção, e há apenas uma possível, ou seja, o facto de que todos os bens são produtos de trabalho humano em geral, do trabalho humano abstrato. É a quantidade desse trabalho abstrato, reduzido a trabalho simples (aquele que não requer qualificação) e medido em horas de trabalho socialmente necessárias, ou seja, em tempo de trabalho médio, o que dá o valor às mercadorias.

 

O ser humano é um animal social, que produz coletivamente a sua existência. No capitalismo, essa socialização é regida pela "lei do valor". A socialização, nesta sociedade, não é pois o produto de uma deliberação social: é feita às cegas, pela intermediação do valor e do mercado. As decisões sobre a repartição da força de trabalho pelos diferentes ramos, o que é produzido, como e em que quantidades, são tomadas pelo jogo do valor no mercado, à revelia de qualquer decisão social consciente. O mecanismo é a tal ponto automático que parece resultar de uma lei natural, tão inevitável quanto a lei da gravitação universal.

 

Uma das dificuldades maiores de compreensão do capitalismo é que a lei do valor não opera imediatamente, em cada capital individual. Ela opera à escala do sistema no seu conjunto, isto é, à escala do conjunto dos capitais concorrentes. Em um determinado país, a partir do aparecimento do capitalismo, uma taxa média de lucro se estabeleceu, de facto, que oscila em torno da taxa de mais-valia. O capital de empréstimo desempenhou um papel importante a este nível. O valor é, portanto, a base do sistema, mas cada capitalista determina os seus preços, não a partir da lei do valor, da qual ele não tem a mínima ideia, mas a partir de seus custos, através de um cálculo simples: preço = custos + (custos x taxa de lucro). Ao nível de um capital particular, ou de um sector específico, a lei do valor é pois mediada pela taxa de lucro.

 

O capitalismo, sistema produtivista e «crescimentista»

 

O capitalismo, como já dissemos, é composto por muitos e concorrentes capitais. Dado o método de determinação de preços (dito de outra forma, o modo paradoxal da expressão da lei do valor), cada capitalista é compelido pela concorrência a reduzir os seus custos, a fim de vender menos caro que os seus concorrentes, embolsando ainda assim um lucro extra para além do lucro médio. Insisto: é bem de uma compulsão que se trata. O proprietário de capitais que não busque constantemente reduzir os seus custos é condenado à morte económica. O meio preferido para reduzir os custos consiste em aumentar a produtividade do trabalho através da introdução de máquinas, depois máquinas para produzir as máquinas. Mas os concorrentes estão fazendo o mesmo, de modo que a quantidade média de trabalho humano necessária para produzir uma mercadoria tende a diminuir, e com ela o valor, portanto, a taxa média de lucro.

 

Esta tendência para a redução da taxa média de lucro constitui uma grande contradição do capitalismo. Mas é apenas uma tendência e o sistema dispõe de uma série de meios para combatê-la. Um deles é o aumento da quantidade de produtos produzidos: compensa-se, assim, o declínio da taxa de lucro, aumentando a sua massa. Um outro é aumentar a taxa de sobrevalor em relação aos salários, isto é, a taxa de exploração do trabalho humano na economia em geral. É assim que a evolução do capitalismo combina, em permanência, o mais alto desenvolvimento científico nas fábricas tecnológicas que tendem à automatização, por um lado, e a sobre-exploração mais sórdida. Esta última pode assumir formas abertamente regressivas como o trabalho infantil clandestino em empresas semi-artesanais com alta intensidade de mão-de-obra (nos têxteis e vestuário, por exemplo); mas pode também assumir formas decididamente modernas, como mostra a uberização, em que as tecnologias digitais permitem o retorno a uma variante do trabalho ao domicílio, comum antes do advento da manufatura.

 

Uma vez clarificados estes conceitos e noções gerais, estamos em condições de discutir de forma adequada a questão do capitalismo verde.

 

Esta questão deve ser entendida como a questão da sustentabilidade do capitalismo como tal. Com efeito, uma vez que capital e capitalismo são duas coisas diferentes, é claro que a questão relativa à possibilidade de um capitalismo verde não pode ser decidida constatando a existência do capitais verdes. O capital é investido em todas as actividades susceptíveis de trazer-lhe um lucro, sejam elas limpas ou sujas. Na realidade, ele é indiferente à qualidade daquilo que produz, bastando-lhe saber que o que produz é portador de um sobrevalor realizável através da venda. O facto de uma quantidade crescente de capitais ser investida no setor dito "verde" da economia (eólicas, painéis fotovoltaicos, purificação de água, descontaminação de solos, etc.) permite afirmar que este sector gera lucro; isso não permite, contudo, afirmar a sustentabilidade ecológica do capitalismo. Esta última questão não pode ser decidida senão ao nível do capitalismo como um todo, enquanto sistema mundial de capitais numerosos e concorrentes.

 

O grande problema do ponto de vista da sustentabilidade do capitalismo como um todo é, obviamente, a sua dinâmica de crescimento. Como vimos, essa dinâmica decorre da concorrência para o lucro, que compele a um aumento contínuo da produtividade do trabalho através da mecanização, a tendência à queda da taxa média de lucro sendo compensada pelo aumento da massa de lucro, resultante do aumento das quantidades de bens produzidos. O economista Joseph Schumpeter dizia-o sem rodeios: "um capitalismo sem crescimento é uma contradição nos termos". Este é o ponto chave, pois que todos os grandes desafios ambientais da atualidade - aquecimento global, perda de biodiversidade, perturbação dos ciclos do fósforo e do nitrogênio, poluição química, exploração excessiva dos recursos hídricos e das pescas, etc. – têm em comum colocar a questão dos limites do desenvolvimento em um planeta finito.

 

São conhecidos os gráficos que mostram a evolução desses desafios ambientais ao longo do tempo, desde o início do século XIX. Constatar-se-á que esta mudança não é linear, mas exponencial, acelerando após a Segunda Guerra Mundial. Este perfil exponencial é para ser comparado com a dinâmica de crescimento capitalista, especialmente com o facto decisivo de que o aumento da massa de lucros num contexto de declínio da taxa de lucro implica um aumento da massa de mercadorias produzidas. Logo, um aumento na massa de recursos consumidos e introduzidos como insumos no processo de produção.

 

Como contra-argumento é muitas vezes realçado o facto de que a sua obsessão com a redução de custos também incentiva o capital a aumentar a eficiência na utilização dos recursos, reduzir o desperdício e aumentar a reciclagem. Isso é certo, mas, em primeiro lugar, o aumento da eficiência não pode ser uma função linear do investimento em capital - só pode ser uma função assintótica, caso contrário o movimento perpétuo seria possível – pelo que a tendência, em si própria, tem limites; em segundo lugar, o aumento da eficiência é apenas uma forma do aumento da produtividade do trabalho: ganhos de eficiência requerem investimentos que, uma vez que são imitados pelos concorrentes, tendem à redução da taxa média de lucro, que é compensada pelo capital por um aumento das quantidades produzidas. O aumento da eficiência, portanto, em absoluto, não é uma resposta à contradição entre o crescimentismo (ou produtivismo) do capital, por um lado, e a finitude dos recursos, por outro.

 

O economista John Stuart Mill, no século XIX, pensava que o capital evoluiria para um regime estacionário. Mill não entendia a lógica de acumulação do capital. Ele imaginou que o capital seria capaz de uma auto-regulação racional do seu desenvolvimento, em particular, de auto-regulação racional da sua relação com o meio ambiente. Mas o capital, enquanto relação de exploração do trabalho centrada na produção de mais-valia, é produtivista por natureza, e, portanto, ecocida por natureza. Nenhum mecanismo endógeno lhe permite antecipar o esgotamento dos recursos. Seu único indicador é o valor, que ele procura maximizar, e é com este único indicador que ele socializa, tanto os relacionamentos dos seres humanos entre si, como as relações da humanidade com a natureza. Este não é o lugar para expor as consequências sociais da lógica capitalista, mas as consequências ambientais são óbvias: baseando-nos no tempo de trabalho socialmente necessário para a exploração dos recursos naturais – logo no seu valor, que suporta o seu preço - não ouviremos a tempo soar o alarme sobre os riscos de desastre ecológico. Só se pode constatar a catástrofe assim que ela ocorre.

 

O poder político poderá contrariar o produtivismo do capital e em que condições?

 

Como não há mecanismo endógeno que permita ao capital regular a relação da humanidade com seu ambiente, surge a pergunta: um mecanismo exógeno poderá aqui operar, e em que condições? Mecanismo exógeno aqui significa um mecanismo fora da esfera econômica propriamente dita, portanto, um mecanismo político. Vimos que o capitalismo implica a existência de um Estado e que o funcionamento desse Estado, por sua vez, envolve instituições que permitem aos diferentes interesses capitalistas em presença (desde que foi concedido o sufrágio universal, aos diferentes interesses sociais em presença) chegar a acordo sobre a política a seguir. A questão do mecanismo exógeno pode pois ser precisada da seguinte forma: o Estado pode tomar medidas para proteger a sociedade e a natureza do produtivismo capitalista? A resposta é "sim"... desde que estas medidas consistam em fortes incursões na lógica básica do capital. Isto significa que a lei do valor, a produção pelo valor e pelo sobrevalor, deve ser posta radicalmente em questão, a níveis e em domínios de importância estratégica para a protecção do ambiente.

 

Não é geralmente nesse sentido que vão as políticas implementadas desde que a questão ambiental se tornou uma questão política. Há certamente toda uma regulamentação ambiental que cresce e se torna cada vez mais ampla. Não se trata de negar esta realidade e é claro que a legislação sobre o amianto, por exemplo, é uma coisa boa. Mas, além de que este tipo de legislação se impõe dificilmente e muito lentamente, tão grandes são as resistências dos industriais, temos que constatar que isso não resolve o problema dos grandes desafios ambientais, como as mudanças climáticas, a extinção de espécies, o esgotamento dos recursos hídricos e das pescas, etc.

 

A razão para essa incapacidade deriva da própria natureza das políticas conduzidas: em vez de atacar a dinâmica produtivista do capital, a maioria destas políticas estão tentando dirigi-la por meio de mecanismos de mercado. Einstein disse algo como: "Não se resolve um problema com o modelo de pensamento que o gerou". Isto é exatamente o que acontece quando os economistas imaginam que vão resolver os problemas ambientais causados pela economia de mercado, "internalizando as externalidades", isto é, pela estimativa da destruição ecológica em termos de custos e integrando esses custos nos custos de produção das empresas. Em primeiro lugar, este método é muito antropocêntrico e utilitarista. Ele inclui apenas o que tem um valor conhecido do ponto de vista humano. Se uma espécie de batráquios desaparecer na América Central devido à poluição, sem que se saiba "para que é que ela serve", é impossível avaliar "o que ela conta", para dar-lhe um preço. Em seguida, na prática, este método é dificultado pelo grande poder de influência do capital. Finalmente, ele se confronta com o facto de que a lei do valor, a lei do lucro e do crescimento sem fim, polui as mentes ao ponto de ser percebida como uma lei natural.

 

Vou comentar brevemente os dois últimos pontos, mas primeiro quero destacar um facto interessante: a luta contra a destruição da camada de ozônio estratosférico é o único campo ambiental global onde se pode falar de um sucesso da política seguida. A camada de ozônio vai realmente ser reconstituída na segunda metade deste século. Chama-se muito pouco a atenção para o facto de este sucesso ser devido a que o método seguido pelo Protocolo de Montreal não foi o da "internalização de externalidades", do comércio dos "direitos de poluir", etc., mas, pelo contrário, o da regulação: decidiu-se, muito simplesmente, proibir a produção de gases que destroem a camada de ozônio, um calendário foi adotado, um fundo financeiro foi criado para ajudar os países em desenvolvimento na transição, e tudo isto funciona. O contraste é flagrante com o fracasso até agora averbado pelos métodos de mercado na luta contra as alterações climáticas...

 

Viro-me agora para os dois comentários mencionados mais acima. O poder de influência do capital, em primeiro lugar. Em meu livro O impossível capitalismo verde, coloquei isso em evidência, tomando por fio condutor a questão das mudanças climáticas, que é, sem dúvida, o perigo ambiental mais grave que a humanidade tem de enfrentar. Dei o exemplo do relatório Stern sobre a economia das mudanças climáticas. Na primeira página deste relatório, Stern escreveu que as mudanças climáticas são "uma falha sem precedentes do mercado". Mas nas centenas de páginas que se seguem, ele se esforça por desenvolver contra esta falha do mercado uma estratégia de mercado, principalmente com base em um preço para o carbono. E falha, bem em conformidade com a observação metodológica de Einstein. Com efeito, na página 247 do seu relatório, Stern explicou que a estabilização das concentrações atmosféricas a 450 ppmv de CO2eq (1) custaria demasiado caro a sectores económicos como a aviação e alguns processos industriais, que é necessário "evitar fazer demasiado, demasiado depressa" e que as políticas climáticas deve assim apontar para uma estabilização a 550 ppmv de CO2eq. Ora, uma tal concentração atmosférica de gases com efeito de estufa não nos protege, de forma alguma, contra catástrofes muito sérias e irreversíveis à escala humana dos tempos (na verdade, mesmo 450 ppmv já não são considerados, hoje em dia, como um limite seguro, a não franquear).

 

A razão porque Nicholas Stern, barão de Brentford, e outros como ele, se recusam a fazer "demasiado, demasiado depressa" é extremamente simples: para termos uma chance de 60% (que não é muito) de não exceder 2° C de aquecimento global (que, isso sim, é muito), é necessário que 4/5 (pelo menos) das reservas de combustíveis fósseis conhecidas nunca sejam exploradas. Ora, estas reservas estão apropriadas por empresas ou países produtores de petróleo, que operam de facto como empresas. Portanto, o seu valor já está incluído como activo nos seus balanços. Dizer, pois, que essas reservas não podem ser exploradas equivale a dizer que tem de ser destruído capital, destruindo assim promessas de lucros. É por isso que falamos de "bolha de carbono" para descrever esta situação. Ora, trata-se de uma bolha enorme: o setor da energia, da produção de eletricidade e da exploração mineira representa cerca de um quarto do valor expresso pelo FTSE100, o índice bolsista das cem maiores empresas cotadas na Bolsa de Londres (Standard & Poor’s, Capital IQ, 2016). Outra avaliação é fornecida pelas Nações Unidas: globalmente, o sistema de energia representaria um quinto do PIB mundial (World Economic and Social Survey, 2011). Ora, a bolha de carbono implica que uma parte substancial do sistema de energia deva ser desmantelada, antes da sua amortização. Se aceitarmos as regras do jogo capitalista, não podemos senão curvarmo-nos face a estas realidades e, como Stern, concluir que se deve "evitar fazer demasiado, demasiado depressa".

 

Vejamos agora uma outra questão, a da poluição das mentes. Um exemplo flagrante é a contribuição do Grupo de Trabalho 3 (GT3) para o 5.º Relatório de Avaliação do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (International Panel On Climate Change - IPCC). Foi Kevin Anderson, diretor do Centro Tyndall de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas, que levantou esta lebre: 95% dos cenários de emissão de gases com efeito de estufa que o GT3 do IPCC compilou para avaliar as condições de um aquecimento inferior a 2° ou 1,5° C incluem o uso extensivo das Tecnologias para Emissões Negativas (TEN), incluindo a Bioenergia com Captura e Sequestro de Carbono (BECSC). Sem estas TEN, parece que o pico das emissões globais deveria ter acontecido, o mais tardar, em 2010. Tomando em conta as TEN, pode atrasar-se esse pico para à volta de 2020, ou mesmo 2025, talvez até ainda mais além, de modo a tranquilizar a opinião pública mundial sobre o facto de que os formuladores de políticas têm a situação sob controle. Ora, estas TEN são puramente hipotéticas e potencialmente perigosas. As implicações sociais e ecológicas da sua implementação são incertas e esta incerteza deveria proibir a sua tomada em conta para cenários básicos. Mas é aqui que intervém a poluição das mentes, ou seja, a ideologia.

 

Vejamos como o GT3 do IPCC (5.º Relatório de Avaliação, capítulo 6) descreve a sua metodologia: «The models use economics as the basis for decision making. It fundamentally implies that the models tend toward the goal of minimizing aggregate economic costs of achieving mitigation outcomes. The models typically assume fully functioning markets and competitive market behavior» (2). Por meio desta nota introdutória, o GT3 do IPCC exclui qualquer cenário em que os autores optassem por recorrer a medidas fora das regras do mercado e da concorrência, tais como a criação de uma empresa pública para isolamento de habitações ou a generalização do transporte público gratuito, ou a socialização do sector da energia, por exemplo. Resulta muito claro, aqui, que as leis de funcionamento do capital são consideradas dogmaticamente como leis naturais, muito embora sejam apenas leis sociais. Ora, uma vez que nos recusemos a questionar a lógica "crescimentista" do capital, resta apenas o recurso à geoengenharia para tentar enfrentar o desafio climático. Ele pode tomar, basicamente, duas formas principais: a maximização das capacidades dos ecossistemas para absorver carbono, por um lado, e a forma tecnológica, por outro lado (existe aqui toda uma série de propostas). Se permanecermos dentro da lógica capitalista, os prazos são muito curtos para podermos fazer outra coisa, muito tempo tendo sido perdido na implementação de uma transição. Os especialistas consideram que seria melhor não exceder 1,5° C de aquecimento global, mas o orçamento de carbono que daria uma chance de 60% de observar este limite nos deixa apenas quatro a cinco anos, no máximo, com o atual ritmo de emissões. Obviamente que será excedido, e é bem provável que o orçamento para 2º C o seja também, logo de seguida.

 

Que sociedade, que natureza queremos nós?

 

Permaneço estritamente no quadro anunciado pelo título deste seminário "O impossível capitalismo verde". Não abordarei assim aqui a questão das alternativas. Em conclusão, gostaria de salientar o seguinte: eu desconfio das escatologias, dos discursos do fim do mundo que permitem aos gurus apostar no medo para fazer passar projetos políticos e valores questionáveis, ou mesmo destestáveis, mais ou menos misantropos e raramente democráticos. Jared Diamond, autor do livro Colapso é um especialista no gênero. Até nova ordem, eu acho que não há nenhuma situação completamente sem saída para o capitalismo. Mesmo o desafio climático, não me parece seja impossível de resolver para o sistema. A questão é: como será ele conduzido a resolvê-lo, em que medida o conseguirá e a que custo - social, político e ecológico? Esta questão, obviamente, não pode ainda ter resposta em detalhe, mas podemos ter uma ideia razoavelmente precisa de estratégia capitalista para lidar com esta questão importante, e do que ela implicará. Agora que os céticos do clima foram batidos, toda uma série de publicações, relatórios e processos já implementados, permitem dizer que se vai em direção a uma manta de retalhos, composta de diversos elementos:

 

- A ideia de que é preciso "evitar fazer demasiado, demasiado depressa" significa, inevitavelmente, a persistência de sérias catástrofes, das quais os pobres serão as principais vítimas, por causa, em particular, dos eventos climáticos extremos e da elevação do nível dos oceanos;

 

- Em nome da compensação das emissões com as absorções de CO2 (pelas plantas verdes), sobrevirá uma poderosa vaga de apropriação de ecossistemas, que serão assim incorporados à força no ciclo do capital, uma vez simplificados e adaptados para esse fim;

 

- Será feita a implementação das TEN, incluindo a BECSC, que hoje parece ser a mais madura das tecnologias de emissões negativas;

 

- Como conseqüência das TEN, ocorrerão tensões acrescidas na produção agro-alimentar, novas ameaças graves à biodiversidade e atentados ainda mais profundos aos direitos dos povos indígenas;

 

- Será tomada a cargo da coletividade a bolha de carbono, segundo o modelo da bolha imobiliária de 2008;

 

- Ocorrerá uma definição ou pilotagem desta política através de uma estreita cooperação entre os círculos de negócios e os governos, fora de qualquer controle democrático, como começou já com a 20.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças do Clima (COP 20), em Lima, Peru (dezembro de 2014), com o lançamento do "diálogo estratégico de alto nível" entre multinacionais, governos e instituições internacionais.

 

A questão que se coloca não é a do fim do mundo. É a de saber se nós queremos esse mundo aí, essa natureza aí (uma espécie de natureza simplificada, uma natureza "produto branco") e essa sociedade aí, em que a democracia não é mais que uma concha vazia. Ou se inventaremos outra coisa. Outro modo de desenvolvimento, uma nova relação entre os seres humanos e entre humanos e não-humanos, implicando uma outra maneira de lidar com as crises ambientais.

 

 

Louvain, 4 de outubro de 2016

 

 

 

 

(*) Daniel Tanuro é um engenheiro agrónomo e ambientalista belga, membro da ONG Climat et justice sociale, militante na LCR-La Gauche e colaborador habitual da revista ‘Le Monde Diplomatique e do sítio Europe Solidaire sans Frontières. É autor do livro L’impossible capitalisme vert, La Découverte, Paris, 2010 (publicado em Portugal como O impossível capitalismo verde, Edições Combate, Lisboa, 2012) e co-autor de Pistes pour un anticapitalisme vert, Syllèpse, Paris, 2010. Foi também autor do longo ‘Relatório sobre mudanças climáticas adotado para servir de base à resolução que seria tomada sobre o assunto no 16.º Congresso Mundial da IV Internacional (Secretariado Unificado) em março de 2010. A exposição aqui publicada foi feita no âmbito do seminário LENVI2002 para estudantes do Mestrado em Ciência e Gestão Ambiental da Universidade Católica de Louvain.

 

 

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NOTAS:

 

(1) [NOTA DO TRADUTOR] ppmv é uma abreviatura usada em cálculos científicos que significa “parts per million volume” (partes por milhão em volume); CO2eq significa dióxido de carbono ou equivalentes, sendo uma medida convencional que reduz todos os gases com efeito de estufa ao seu equivalente em dióxido de carbono, segundo os respetivos graus de nocividade. 450 ppmv de CO2eq significa, assim, uma presença na atmosfera de gases com efeito de estufa equivalentes, em nocividade, a 450 unidades de dióxido de carbono por cada milhão de unidades de outras substâncias, em volume.

 

(2) [NOTA DO TRADUTOR] "Os modelos utilizam a economia como base para a tomada de decisões. Fundamentalmente, isso implica que os modelos tendam para o objetivo de minimizar os custos económicos agregados da obtenção de resultados de mitigação. Os modelos, tipicamente, assumem a existência de mercados em pleno funcionamento e comportamentos competitivos de mercado."