Sobre o significado político do positivismo lógico

 

 

Marcos Barbosa de Oliveira (*)

 

 

Devido à influência, por um lado, do Materialismo e empírio-criticismo de Lênin, por outro, da crítica dos frankfurtianos, o positivismo lógico, aqui no Brasil e em outras partes do mundo foi tradicionalmente visto pela esquerda como uma filosofia conservadora, ou mesmo reacionária. O objetivo deste comentário é questionar em certa medida tal julgamento, tomando como ponto de partida as interpretações de Michael Löwy em As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento (1).

 

Em seu estudo da linhagem principal do pensamento positivista, uma das teses centrais de Löwy é a de que, na passagem dos primeiros positivistas – Condorcet e Saint-Simon – para Comte, Durkheim, e todos os outros que vieram depois, houve uma inversão de sinal no que se refere a seu significado político. Em suas palavras, “o positivismo surge, em fins do século XVIII - princípio do século XIX, como uma utopia crítico-revolucionária da burguesia anti-absolutista, para tornar-se, no decorrer do século XIX, até nossos dias, uma ideologia conservadora identificada com a ordem (industrial/burguesa) estabelecida” (2).

 

Numa obra com tantas virtudes como As aventuras de Karl Marx... é com certo pesar que se notam algumas deficiências não triviais. Uma delas é o silêncio a respeito do positivismo lógico, que não é mencionado uma vez sequer ao longo de todo o livro (3) – uma omissão bastante estranha, sendo esta sem dúvida a mais importante vertente do pensamento positivista no século XX.

 

Apesar dessa omissão, pode-se inferir de várias passagens, como a que acabei de citar, que valeria para o positivismo lógico a pecha de “ideologia conservadora identificada com a ordem estabelecida”. Discordando desta interpretação, vou sugerir uma outra em que o desenvolvimento da tradição positivista como um todo é marcada não por uma mas por três inversões de sinal quanto a seu significado político. Para isso, é preciso em primeiro lugar dividir a história do positivismo lógico em duas fases. A primeira, que se pode denominar vienense, começa com a formação do movimento em princípios da década de 20, culmina em 1929, com o lançamento do manifesto de fundação do Círculo de Viena (4), e vai até o início da década de 30, quando seus membros, premidos pela ascensão do nazismo, deixam a Áustria indo se fixar principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra. Tem início então a segunda fase, anglo-saxônica, em que, encontrando boa receptividade, as idéias dos positivistas lógicos vêm a ter uma enorme influência na filosofia e nas ciências sociais desses países.

 

Com base nesta periodização, vou argumentar: 1. que do ponto de vista que nos interessa, o positivismo lógico em sua fase vienense está mais próximo de Condorcet e Saint-Simon que de Comte e Durkheim; e 2. que na passagem à fase anglo-saxônica volta a predominar a tendência conservadora, constituindo essas a segunda e a terceira inversões de sinal da história do positivismo. Esquematicamente: o positivismo começa sendo de esquerda, com Condorcet e Saint-Simon, vira para a direita com Comte, Durkheim e muitos outros, volta à esquerda com o positivismo lógico da fase vienense, e depois, mais uma vez para a direita, no positivismo lógico da fase anglo-saxônica.

 

Uma demonstração cabal de tais teses escapa naturalmente do âmbito de um simples comentário. Nosso objetivo será apenas o de esboçar em poucos traços algumas das considerações que integrariam essa demonstração.

 

Em seu livro, M. Löwy caracteriza o positivismo, enquanto tipo ideal, por meio de três “axiomas”:

 

“1. A sociedade é regida por leis naturais, isto é, leis invariáveis, independentes da vontade e ação humanas; na vida social, reina uma harmonia natural.

2. A sociedade pode, portanto, ser epistemologicamente assimilada à natureza (o que classificaremos como “naturalismo positivista”) e ser estudada pelos mesmos métodos, démarches e processos empregados pelas ciências da natureza.

3. As ciências da sociedade, assim como as da natureza, devem limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos, de forma objetiva, neutra, livre de julgamentos de valor ou ideologias, descartando previamente todas as prenoções e preconceitos” (5).

 

Este terceiro axioma pode ser mobilizado para uso por assim dizer “interno”, como diretriz para o desenvolvimento das “verdadeiras” ciências da sociedade, mas também para uso externo, como base para a crítica de teorias sociais rivais, denunciadas por falta de neutralidade, por apresentarem visões da realidade social distorcidas por preconceitos e interesses. O que abre a possibilidade de que o positivismo tenha mais que um significado político – dando margem assim a inversões de sinal – é a natureza do alvo da crítica, que muda conforme o contexto histórico. Quanto a Condorcet e Saint-Simon, Löwy interpreta suas idéias como inseridas no “combate intelectual do Terceiro Estado contra a ordem feudal-absolutista”. Atribuindo a Condorcet “uma significação utópico-crítica”, ele afirma que “seu objetivo confesso é o de emancipar o conhecimento social dos ‘interesses e paixões’ das classes dominantes. O cientificismo positivista é aqui um instrumento de luta contra o obscurantismo clerical, as doutrinas teológicas, os argumentos de autoridade, os axiomas a priori da Igreja, os dogmas imutáveis da doutrina social e política feudal. [...] O combate à ciência social livre de ‘paixões’ é, portanto, inseparável da luta revolucionária dos Enciclopedistas e de toda a filosofia do Iluminismo contra os preconceitos, isto é, contra a ideologia tradicionalista (principalmente clerical) do Antigo Regime” (6).

 

Comentando a seguir as idéias de Saint-Simon, Löwy menciona a concepção da sociedade como um organismo, mas ressalta que a “utilização abusiva da analogia “orgânica” não tem neste autor – como terá nos positivistas posteriores – uma significação apologética conservadora em relação à ordem estabelecida; muito pelo contrário, ela tem uma função eminentemente crítica e contestadora. [...] Assim, é em nome das leis fisiológicas do organismo social e de sua ‘higiene’ que ele apela abertamente pelo fim do absolutismo e por uma ‘mudança de regime’ na França” (7).

 

Quando se passa a Comte, o panorama se altera radicalmente. Como diz Löwy, “é ele que inaugura a transmutação da visão de mundo positivista em ideologia, quer dizer, em sistema conceitual e axiológico que tende à defesa da ordem estabelecida” (8). Já vimos que o terceiro “axioma”, da neutralidade, quando utilizado criticamente, adquire uma ou outra coloração política conforme a natureza dos preconceitos que são atacados. Em Comte, tais “preconceitos” são os revolucionários; seriam eles, inclusive, que teriam, em sua opinião, impedido Condorcet de fazer a descoberta das leis sociológicas. “Nota-se aqui a mudança brusca de função do conceito de ‘preconceito’, que ocupava um espaço central no dispositivo crítico da Enciclopédia e do positivismo utópico: ele não serve mais para designar as doutrinas estagnadas do Antigo Regime, mas sim o próprio pensamento utópico-crítico do Iluminismo. O termo ‘preconceitos revolucionários’ concentra, numa fórmula sucinta, o adversário da nova expressão do positivismo instaurado por Comte” (9).

 

Do ponto de vista que nos interessa, Durkheim representa apenas um prolongamento de Comte: tanto num quanto no outro é assumida inequivocamente a posição anti-revolucionária baseada na idéia de lei social natural. Segundo Löwy, “é apaixonante observar como o conceito que havia servido de instrumento revolucionário por excelência no século XVII, que esteve no coração da doutrina política dos insurretos de 1789, altera seu sentido no século XIX, para se tornar, com o positivismo, uma justificação científica da ordem social estabelecida” (10).

 

Passemos agora ao positivismo lógico. Algo que não pode ficar de fora de uma demonstração da tese 1., referente à fase vienense, é uma consideração do manifesto de 1929 já mencionado, e especialmente da seguinte passagem:

 

“O incremento da inclinação metafísica e teologizante que hoje se verifica em muitas associações e seitas, em livros e periódicos, em conferências e cursos universitários, parece apoiar-se nas violentas lutas sociais e econômicas do presente. Um dos grupos de combatentes, mantendo-se no passado no domínio social, cultiva também as atitudes tradicionais, freqüentemente há muito superadas, da metafísica e da teologia, enquanto outro grupo, voltado para a modernidade, especialmente na Europa central, recusa tais atitudes e se põe sobre o solo da ciência empírica. Este desenvolvimento se associa ao do moderno processo de produção, que se configura de um modo cada vez mais mecanizado e técnico, deixando sempre menos espaço a representações metafísicas. Tal movimento se associa também à decepção das grandes massas pelas postura daqueles que preconizam doutrinas metafísicas e teológicas tradicionais. Resulta assim que, em muitos países, as massas recusam essas doutrinas, agora muito mais conscientemente que no passado, e se inclinam por uma concepção mundana e empirista, em conexão com sua atitude socialista” (11).

 

Para entender melhor esta passagem, é bom lembrar que até princípios do século XX o império austro-húngaro era uma das unidades politicamente mais conservadoras da Europa. Embora sua dissolução resultante da primeira guerra tenha representado um abalo profundo, as tendências conservadoras mantiveram-se vigorosas na Áustria, sustentadas principalmente pela Igreja Católica, e pelo nacionalismo austro-germânico de direita. Exagerando um pouco, talvez se possa dizer que a Áustria de princípios do século XX tinha mais em comum com a França de Condorcet e Saint-Simon do que a com a França pós-revolucionária de Comte e Durkheim.

 

Do ponto de vista que nos interessa, uma boa análise do positivismo lógico encontra-se em “Positivism and politics: The Vienna Circle as a social movement” de Marx Wartofsky (12). Um dos objetivos de Wartofsky neste artigo é caracterizar o Círculo de Viena não apenas como um movimento filosófico, mas como um movimento social. Em sua palavras: “[N]ão se pode começar a entender o Círculo de Viena sem vê-lo não apenas como um movimento a favor da concepção científica do mundo em termos de seu conteúdo lógico, epistemológico, e metodológico, mas também como um movimento que concebia suas contribuições teóricas como estando a serviço da transformação da sociedade, e, em grande medida, alinhadas com os movimentos sociais de esquerda em sua época” (13). Seus líderes “consideravam o desenvolvimento de uma concepção científica do mundo como um projeto político historicamente situado, isto é, como uma luta contra forças reacionárias não apenas na vida intelectual, mas também na vida política e social de Viena e, mais especificamente, como uma contribuição para o movimento de mudança social e política em direção a uma sociedade socialista” (14). E quem eram seus inimigos então? Eram “os nacionalistas austro-germânicos de direita, o establishment reacionário católico-clerical em Viena e na Universidade, e os proto-nazistas e anti-semitas, que viam o Círculo de Viena e suas idéias como ‘vermelhas’ e ‘judaicas’, e portanto como uma ameaça política e social, não apenas intelectual” (15).

 

Uma outra faceta do ideário do Círculo de Viena, que merece ser discutida neste contexto é a tese da unidade da ciência. Essa discussão vai me dar a oportunidade de mencionar um outro artigo escrito por um pensador de esquerda que, questionando a interpretação dominante, procura estabelecer uma visão mais correta sobre o significado político do positivismo lógico. O autor é John O’Neill, e o artigo se chama “In partial praise of a positivist: the work of Otto Neurath” (16).

 

Como o título indica, o tema central do artigo é a contribuição de Neurath – uma das principais figuras do Círculo de Viena; no que se refere à militância e às tarefas de organização, certamente o líder. Neurath era também, do ponto de vista político, aquele situado mais à esquerda (17). Ele se considerava marxista – na linha do austro-marxismo –, e participou do governo revolucionário da Baviera em 1918, na qualidade de presidente do Departamento de Planejamento Central. (Depois do fracasso da revolução, foi preso e processado.) (18)

 

Sobre a relação do Círculo de Viena com o austro-marxismo, convém registrar que, nas palavras de Bottomore,

 

“os austro-marxistas...estavam interessados principalmente no desenvolvimento do marxismo como uma ciência social empírica – na verdade, como sociologia. Suas preocupações filosóficas...estavam centradas em problemas da teoria do conhecimento e da filosofia da ciência; influenciados sobretudo pelo neo-kantismo e pelas idéias de Ernst Mach, eles manifestavam uma forte afinidade, no que se refere ao ponto de vista geral e às preocupações, com as novas doutrinas positivistas que mais tarde assumiram uma forma distintiva no Círculo de Viena” (19).

 

Para tratar de autores como Max Weber, e de certas vertentes do próprio marxismo que, embora não sendo estritamente positivistas, incorporam em seu ideário elementos desta tradição, Löwy introduz o conceito de dimensão positivista: “Quando um ou outro destes três axiomas está integrado em uma investigação metodológica distinta do positivismo, pode-se falar de uma dimensão positivista(20). Invertendo a démarche, não é descabida a atribuição, ao positivismo lógico em sua fase vienense, de uma dimensão marxista.

 

Mas voltemos à questão da unidade da ciência. Os positivistas eram muito enfáticos na defesa do princípio da unidade da ciência, e uma manifestação desta postura encontra-se nos próprios títulos de suas publicações: houve uma série de monografias denominada “Ciência Unificada” (Einheitwissenschaft); a revista Erkenntnis (o órgão oficial do Círculo), depois do êxodo, ao passar a ser publicada em Haia, recebeu o nome de “Revista da Ciência Unificada” (The Journal of Unified Science); mais tarde foi lançada a “Enciclopédia Internacional da Ciência Unificada” (International Encyclopedia of Unified Science), cujos dois primeiros volumes tinham por título “Os fundamentos da unidade da ciência” (Foundations of the Unity of Science) (21).

 

À primeira vista, pode-se pensar que a noção da “ciência unificada” constitui apenas uma outra maneira de expressar o axioma naturalista que assimila a sociedade à natureza, e prescreve para seu estudo os princípios e métodos empregados pelas ciências naturais. O uso reiterado da expressão pelos positivistas aparece assim como uma exacerbação da tendência naturalista. Há entretanto uma outra dimensão neste uso, muito bem explicada no artigo de O’Neill, a saber, a que liga a unificação da ciência aos problemas do planejamento socialista. Como diz O’Neill:

 

“É possível o planejamento central dada a divisão do conhecimento? Esta questão forma a base da segunda fase do debate sobre o cálculo socialista provocado por Hayek. [...] Sua argumentação é epistêmica – sustentando que a divisão social do conhecimento entre diferentes atores sociais elimina a possibilidade de planejamento racional numa economia socialista. [...] o projeto de uma ciência unificada tinha em parte o objetivo de mostrar que as divisões do conhecimento poderiam ser superadas para fins do planejamento socialista racional” (22).

 

Creio não haver dúvida de que esta conexão destacada por O’Neill coloca a idéia da unidade da ciência sob uma outra luz, a qual contribui significativamente para a reavaliação que estou propondo a respeito do significado político do positivismo lógico.

 

Para completar esta parte, vale registrar uma última informação, esta de caráter anedótico, que aponta na mesma direção. Conta-se que Neurath encerrou o I Congresso Internacional para a Unidade da Ciência, realizado em Paris, em 1935, com as palavras: “Vivent les nouveaux encyclopédistes!” (23) Muito mais poderia ser acrescentado, porém o que foi dito é suficiente, creio, para que se dê por estabelecida a tese 1. Antes de prosseguir convém, para evitar mal-entendidos, especificar o que se pretende com esta análise, para além da retificação do registro histórico.

 

Uma moral que alguém poderia tirar das considerações apresentadas é a de que o positivismo lógico, afinal de contas, do ponto de vista político não está situado assim tão à direita quanto se costuma pensar, e que isto implica que haveria em seu ideário, falando grosso modo, tanto elementos conservadores quanto progressistas. Uma explicitação cuidadosa dos elementos progressistas poderia embasar uma démarche de recuperação, ou resgate de parte das concepções positivistas. Mencionei esta linha de pensamento para deixar claro que ela não é a linha que subscrevo.

 

A análise proposta não é a de que o ideário positivista, abstratamente considerado, tem tanto elementos conservadores quanto progressistas; é a de que o significado político deste ideário depende do contexto histórico. A questão relevante então é a de se na presente conjuntura o positivismo tem algo a oferecer às forças progressistas. A resposta que defendo é essencialmente negativa. Muito em resumo, eu diria que, embora o rótulo “positivismo” tenha caído em desgraça, e hoje em dia seja usado quase exclusivamente como um termo de xingamento, a ideologia positivista, com seus elementos de cientificismo, de tecnicismo e naturalismo continua, não apenas viva mas bem vigorosa, e no momento a serviço das forças neoliberais. Em vez de resgate ou recuperação, ela precisa ser combatida, e para bem combatê-la é necessário bem conhecê-la. Conhecê-la bem implica ter uma visão correta de sua história, e é este o espírito da interpretação proposta neste comentário.

 

Passemos agora à tese 2., relativa à transição da fase vienense para a fase anglo-saxônica do positivismo lógico. Muito sucintamente, ao ser transplantado para os Estados Unidos e a Inglaterra, há uma mudança da água para o vinho. Em primeiro lugar, desaparecem de cena os principais inimigos de direita – as forças do pensamento clerical reacionário e os nacionalistas austro-germânicos, incluindo os proto-nazistas –; no lugar disso o positivismo assume uma posição hegemônica, perde seu caráter militante, e se institucionaliza, tornando-se a filosofia do establishment, principalmente no domínio da filosofia da ciência. E, de forma ainda mais radical, evapora-se a dimensão marxista.

 

Para aprofundar estas observações, é necessário subdividir o que chamei de fase anglo-saxônica do positivismo lógico em duas sub-fases ou etapas. Está se tornando cada vez mais freqüente o uso do termo “pós-positivista” para designar o período da tradição em pauta, posterior à mudança que se dá em fins da década de 50, princípios da década de 60, marcada pelas contribuições de Kuhn, Quine, Hanson, Toulmin e outros. Sobre esta transição, é importante ressaltar, primeiro, que a crítica teve um caráter interno, já que seus autores se formaram dentro da tradição positivista (24), e que em certa medida ela já vinha sendo feita pelos próprios membros do Círculo de Viena, os quais estavam longe de formar um bloco monolítico no que se refere aos princípios filosóficos do movimento. Em segundo lugar, a crítica incidiu sobre os aspectos por assim dizer mais “técnicos” desses princípios – por exemplo, a distinção analítico/sintético, a noção de proposições observacionais puras, etc. – não sobre o que se pode, em contraste, denominar a ideologia do positivismo, com seus ingredientes de cientificismo, tecnicismo e naturalismo. Veja-se por exemplo o que diz Wartofsky:

 

“Em resumo, a crítica mais severa das falhas filosóficas da Concepção Científica do Mundo não veio dos críticos de esquerda, mas do interior do movimento, e de sua periferia imediata. O fato é que aos críticos “externos” de esquerda, que formularam uma crítica ideológica ao movimento, faltava ou competência ou vontade de desenvolver uma crítica filosófica. ...Na medida em que os marxistas humanistas ou frankfurtianos atacaram o “positivismo” e o “cientificismo”, foi na verdade adotando a própria concepção de ciência que atribuíam aos empiristas lógicos, e aceitando como válida a descrição da ciência nela contida. Eles fizeram então da ciência, de acordo com esta descrição, o objeto de seu ataque. Entretanto, foram os críticos relativamente “internos” que atacaram as formulações metodológicas específicas do programa da “reconstrução lógica da ciência”, que rejeitaram esta concepção da ciência e do método científico, e que finalmente solaparam a visão formalista da ciência” (25).

 

As contribuições de Kuhn, como se sabe, geraram uma enorme controvérsia quanto a seu significado mais geral. Há por um lado uma corrente muito forte que as vê como uma negação do caráter racional da ciência, tendendo ao relativismo. Esta corrente inclui por um lado aqueles – como Feyerabend, e, posteriormente, os críticos pós-modernos da ciência – que vêem com bons olhos esta guinada, por outro a corrente ortodoxa, especialmente de Popper e seus seguidores, que a rejeita vigorosamente. Kuhn toma esta linha interpretativa como uma acusação, e a repele. Em seus inúmeros pronunciamentos referentes a esta questão, ele se coloca sistematicamente no campo racionalista. Há uma passagem muito clara em que se lê:

 

“O comportamento científico, tomado como um todo, é o melhor exemplo que temos de racionalidade. Nossa concepção do que é ser racional depende de modo significativo, embora naturalmente não exclusivo, daquilo que consideramos ser os aspectos essenciais do comportamento científico. Isto não significa dizer que todo cientista se comporta racionalmente todo o tempo, ou que muitos se comportam racionalmente todo o tempo, ou mesmo que muitos se comportam racionalmente boa parte do tempo. Mas significa que, se a história ou qualquer outra disciplina empírica nos leva a pensar que o desenvolvimento da ciência depende essencialmente de comportamentos que julgamos previamente como irracionais, então devemos concluir não que a ciência é irracional, mas que nossa noção de racionalidade precisa de ajustes aqui e ali” (26).

 

Temos aí então uma declaração de princípios inequivocamente fiel não apenas ao racionalismo, mas a um racionalismo cientificista. A pergunta que se coloca é a seguinte: por que, tendo tais convicções, teria Kuhn formulado suas idéias de tal maneira que alimentou interpretações opostas? A meu ver a resposta – que não caberia desenvolver aqui – envolve a atribuição a Kuhn, por um lado, de certa insensibilidade em relação às implicações político-ideológicas de filosofias da ciência, por outro, de algumas confusões metafísicas. Seja como for, o fato é que, excluindo Feyerabend e a linha pós-moderna, continuou a existir na tradição da filosofia da ciência uma vertente central ortodoxa, dominante no âmbito acadêmico, a qual preservou os elementos ideológicos do ideário positivista herdados de suas fases anteriores.

 

Dando mais ênfase ao aspecto político-ideológico seria mais conveniente portanto chamar a etapa em pauta de “pós-positivista” – com aspas –; ou então usar para designá-la o termo pós-kuhniana, que contempla o papel decisivo da obra de Kuhn, e sugere para a anterior o nome de etapa pré-kuhniana.

 

Para completar esta sugestão de chave interpretativa, convém reconhecer que os princípios ideológicos em pauta não são muito visíveis na produção teórica tanto da etapa pré- como da pós-kuhniana. A explicação reside em que, de um lado, tal ideologia cientificista-tecnologista-naturalista adquiriu na época em questão um caráter hegemônico, de outro, ao ser transladada de Viena para os Estados Unidos e a Inglaterra, a tradição positivista perdeu seu caráter de movimento social, de reflexão filosófica engajada; no lugar, ela se institucionalizou – data deste período a criação de inúmeros departamentos ou centros de História e Filosofia da Ciência, da qual o Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da UNICAMP é um exemplo tardio. Como parte deste processo, toda a produção teórica adquiriu um caráter acadêmico, dirigido mais aos próprios especialistas que aos cientistas e ao público em geral. Os dois elementos da resposta na verdade são interligados: esta institucionalização e especialização foram possíveis em parte justamente porque não havia mais necessidade de um movimento filosófico-social para defender a ideologia positivista, nem de inimigos de direita, como havia em Viena, nem de esquerda, os quais nunca chegaram a ter força suficiente para constituir uma ameaça.

 

Como Wartofsky explica bem no artigo já mencionado, estas características do positivismo lógico da fase anglo-saxônica levaram o movimento a renegar seu passado de militância; com isso, todos esses aspectos do Círculo de Viena como um movimento social de esquerda caíram no esquecimento, e só recentemente começam a ser recuperados. Trazê-los à tona, ainda que muito sumariamente como neste comentário, serve então como um corretivo para a interpretação tanto do pensamento de esquerda, que vê toda a tradição positivista, exluindo apenas Condorcet e Saint-Simon, como uma tradição essencialmente conservadora, quanto para a tradição anglo-saxônica ortodoxa

na filosofia da ciência.

 

 

À guisa de epílogo, vamos observar que apenas nos últimos anos (até que enfim!) começa a surgir um movimento de crítica não apenas filosófica mas também ideológico-política, de esquerda, a toda esta tradição, um movimento que questiona não apenas as concepções dominantes de ciência e tecnologia, mas a própria maneira como elas são praticadas no capitalismo, e que se distingue dos pós-modernos por não cair no relativismo, e dos pós-modernos juntamente com os frankfurtianos por seu caráter engajado, não se contentando com críticas abstratas, mas procurando influir concretamente nos rumos do desenvolvimento científico-tecnológico. Mas com isso já estamos indo além dos limites previstos para este comentário. Terminamos com a menção a dois dos representantes mais destacados desta tendência: Hugh Lacey e Vandana Shiva (27).

 

 

 

 

 

 

(*) Marcos Barbosa de Oliveira, bacharel em Física pela Universidade de São Paulo (USP) (1970), doutorou-se em História e Filosofia da Ciência pela Universidade de Londres (1981), com a tese A critique of Popper’s views on demarcation and induction. Livre-docente na USP (1997), com o trabalho ‘Da ciência cognitiva à dialética’, posteriormente publicado como livro pela Discurso Editorial (São Paulo, 1999). Completou estágios de pesquisa nas universidades inglesas de Essex e Bristol, e no Departamento de Filosofia da New School for Social Research (Nova York). É atualmente Professor Colaborador no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia, do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). Publicou numerosos artigos e capítulos em livros coletivos. Entre as suas publicações mais recentes contam-se: Entre as suas publicações mais recentes contam-se:"A estratégia dos bônus: três pressupostos e uma consequência" (Trabalho, Educação e Saúde, 7(3), nov. 2009 / fev. 2010); "Formas de autonomia da ciência" (Scientiae Studia 9(3), 2011); "On the commodification of science: the programmatic dimension (Science & Education 22(10), 2013); "Inovação e neoliberalismo: a experiência brasileira" (em R. Caldart e P. Alentejano (orgs.) MST, Universidade e pesquisa. São Paulo, Expressão Popular, 2014); "Technology and basic science: the linear model of innovation (Scientiae Studia 12 (special issue), 2014); “A dádiva como princípio organizador da ciência” (Estudos Avançados 28(82), 2014) e “A epidemia de más condutas na ciência: o fracasso do tratamento moralizador” (Scientiae Studia, 13(4), 2015). O presente artigo foi publicado originalmente no n.º 14 da revista Crítica Marxista, no ano 2002.

 

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NOTAS:

 

(1) 5ª ed. revista. São Paulo, Cortez, 1994.

 

(2) Löwy, op. cit., p.18. Itálico acrescentado.

 

(3) Esta afirmação vale desde que não se considere Popper um positivista lógico, já que uma das seções da primeira parte do livro é dedicada a ele. Tem-se aqui uma questão polêmica. Popper rejeita terminantemente a designação de positivista, sendo nisso acompanhado por seus seguidores; mas de maneira geral, especialmente entre os críticos de esquerda, prevalece a outra alternativa. O cuidado nesta controvérsia é não esquecer que, pelo menos em algum nível há uma questão meramente semântica – já que classificar ou não Popper como positivista depende da definição que se adote para este conceito. Entre Popper e os membros do Círculo de Viena existem com certeza pontos em comum e divergências, e a nosso ver em vez de uma definição e uma classificação abstratas, válidas em geral, é mais conveniente um procedimento de agrupar ou não Popper com os positivistas conforme o contexto. No presente trabalho, dada a posição política de Popper, claramente à direita dos positivistas, especialmente por seu anti-marxismo militante, e tendo em vista razões que virão à tona a seguir, convém deixá-lo de fora da categoria dos positivistas lógicos. Uma análise de algumas facetas da relação entre Popper e os positivistas encontra-se em M. B. de Oliveira, “Popper e seus dois problemas da demarcação” (Cadernos de História e Filosofia da Educação II(4):43-53, 1998).

 

(4) O manifesto foi divulgado como obra coletiva do Círculo com o título de “Wissenschaftliche Weltauffassung: der Wiener Kreis”. Existe tradução para o português (“A concepção científica do mundo – o Círculo de Viena”), de Fernando Pio de Almeida Fleck, publicada nos Cadernos de História e Filosofia da Ciência , vol. 10 (1986).

 

(5) Löwy, op.cit., p.17.

 

(6) Idem, pp.19-20. Itálico no original.

 

(7) Idem, p. 21.

 

(8) Idem, p. 22.

 

(9) Idem, p. 23.

 

(10) Idem, p. 27.

 

(11) “A concepção científica do mundo – o Círculo de Viena”, p. 18.

 

(12) Wartofsky é um dos raros filósofos da ciência norte-americanos de esquerda (ao lado de R. S. Cohen, seu colaborador em muitos empreendimentos). O artigo encontra-se em Sahotra Sarkar (org.), The legacy of the Vienna Circle: modern reappraisals (Nova York e Londres, Garland, 1996).

 

(13) Wartofsky, op. cit., p. 60.

 

(14) Idem, p. 57.

 

(15) Idem, p. 57.

 

(16) Radical Philosophy, vol. 74, nov./dez. 1995.

 

(17) Não se deve esquecer porém a declaração de Carnap – outro dos mais destacados membros do Círculo de Viena – a R. S. Cohen: “Se você quiser descobrir quais eram minhas posições políticas nas décadas de 20 e 30, leia os livros e artigos de Otto Neurath desta época; suas posições também eram as minhas” (Prefácio, de Marie Neurath, à coletânea de textos de Neurath publicada postumamente com o título Empiricism and sociology (org. de M. Neurath e R. S. Cohen; Dorcrecht, Reidel, 1973), p.xiii.) De Cohen, v. também “Dialectical materialism and Carnap’s logical empiricism”, in P.A. Schilpp (org.), The philosophy of Rudolf Carnap (LaSalle, Open Court, 1963.

 

(18) Dados biográficos de Neurath encontram-se na Parte I (de autoria de Lola Fleck) do livro Otto Neurath: philosophy between science and politics, de N. Cartwright et al. (Cambridge, Cambridge University Press, 1996), e no Cap.1 (“Memories of Otto Neurath”) de Empiricism and Sociology.

 

(19) Introdução da coletânea Austro-Marxism, org. de T. Bottomore e P. Goode (Oxford, Clarendon Press, 1978), p. 3.

 

(20) Löwy, op. cit., p. 18.

 

(21) Cf. Ayer, Introdução da coletânea Logical Positivism (Glencoe, Ill., The Free Press, 1959), pp. 6 ss.

 

(22) O’Neill, op. cit., pp.32-3. Sobre este tópico, v. também Cat, J., Chang, H. e Cartwright, N. “Otto Neurath: unification as the way to socialism”, in Einheit der Wissenschaften (Berlim, de Gruyter, 1991) e Reisch, G. A., “Planning science: Otto Neurath and the International Encyclopedia of Unified Science” in Sahotra Sarkar (org.), The legacy of the Vienna Circle: modern reappraisals (Nova York e Londres, Garland, 1996).

 

(23) Cf. Neurath, Empiricism and sociology, p. 53.

 

(24) É significativo, por exemplo, que a obra principal de Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, tenha sido publicada originalmente como um fascículo da International Encyclopedia of Unified Science.

 

(25) Wartofsky, op. cit., p. 66. Itálicos no original.

 

(26) Kuhn, “Notes on Lakatos”, in Buck, R.C. e Cohen, R.S. (orgs.), In memory of Rudolf Carnap (Boston Studies in the Philosophy of Science n° 8; Dordrecht, Reidel, 1971), p.144. (Citado em R. J. Bernstein, Beyond objectivism and relativism (Philadelphia, Un. of Pennsylvania Press, 1983), p. 58.)

 

(27) De Lacey, v. Valores e atividade científica (São Paulo, Discurso Editorial, 1998) e Is science value free? values and scientific understanding (Londres e Nova York, Routledge, 1999); de Vandana Shiva, Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento (Petrópolis, Vozes, 2001). Cf. também M. B. de Oliveira, “A epistemologia engajada de Hugh Lacey” e “A epistemologia engajada de Hugh Lacey II” (Manuscrito, vol. XXI(2), outubro de 1998, e vol. XXIII(1), abril de 2000, respectivamente).