Introdução

 

 

A Europa será finalmente alemã ou desfar-se-á? Foi com esta interrogação que abrimos o editorial do último número de O Comuneiro. Um reich alemão grotescamente intumescido até onde nem Hitler sonharia, eis o arrimo comum de todas as burguesias monopolistas europeias. O capital não tem pátria. Encontrá-lo-emos sempre onde se sentir ao abrigo da soberania popular, imperando sobre todos os impérios, ditando a sua lei sobre todas as leis, esmagando a pés juntos a decência, a razão e o senso comum, quantas vezes necessário for ao prosseguimento dos seus fins.

 

Abrimos este número de décimo aniversário de O Comuneiro, com um artigo do nosso editor Ângelo Novo sobre as novas andanças da Europa, face ao desafio popular grego. Da Grécia, precisamente, temos três contributos. Do agora ministro das finanças Yanis Varoufakis, uma reflexão pessoal profunda e cativante sobre os desafios que o atual momento histórico coloca a todos os que abominamos o capitalismo. Extremamente discutível nas suas conclusões, não é possível evitar o debate convocado por este ensaio. De Stathis Kouvelakis, do comité central do Syriza, uma palavra crítica para a estratégia negocial do governo grego que é também de confiança e encorajamento à luta. Costas Lapavitsas não vê hipóteses de retoma da soberania e dignidade do povo grego senão através da saída da moeda única europeia.

 

O nosso colaborador Miguel Judas oferece as suas reflexões sobre as dificuldades de afirmação de uma alternativa anti-sistémica em Portugal, apontando algumas linhas orientadoras nesse sentido. O tratado de comércio transatlântico que, neste mesmo momento, se está a construir paulatinamente em secretos conciliábulos é a mais grave ameaça a pesar sobre a liberdade e autodeterminação dos povos em muitos anos. Não ao TTIP é a consigna certa, urgente e indispensável para este momento. Prabhat Patnaik é daqueles pensadores que não dispensamos. Disseca exaustivamente e em profundidade para cinco minutos de leitura, que é o tempo da internet. Neste caso sobre um fenómeno cosmopolita recente que é o protagonismo contestatário das classes médias. O imperialismo yankee está de vigília permanente sobre o continente americano, ensaiando novos modelos de intervenção. Ivonaldo Leite traz-nos uma oportuna análise sobre as novas/velhas caras de Moloch.

 

Marcos Barbosa de Oliveira parte do conceito maussiano de dádiva e pugna pela sua pertinência e atualidade como o ideal princípio orientador da pesquisa científica. Mas a superação do paradigma neoliberal do empresariamento não vai depender apenas de argumentação científica, necessitando de se englobar numa ampla frente de luta por uma nova sociedade. Trinta e tantos anos depois, Bernard Stiegler faz uma reavaliação da proposta do pós-modernismo avançada por Jean-François Lyotard num livrinho que fez a sua época. A sua densa reflexão abarca também Platão, Kant, Hegel e Marx, relidos sobre o fundo da corrente dos tempos. Stiegler segue um impulso crítico que nos é próximo, visando objetivos muito semelhantes. Temos inimigos em comum. Pena que não atribua qualquer papel ao proletariado no processo de desproletarização.

 

Agradecemos toda a divulgação possível do conteúdo deste número do O Comuneiro, nomeadamente em listas de correio, portais, blogues ou redes sociais de língua portuguesa. Comentários, críticas, sugestões e propostas de colaboração serão benvindos. Agradeceríamos em particular a ajuda voluntária e graciosa de tradutores.

 

 

 

Os Editores

 

Ângelo Novo

 

Ronaldo Fonseca