O que aconteceu com a sociedade de lazer?

 

 

 

Philip Ferguson (*)

 

 

No final da década de 1960 e início da de 1970, uma das maiores idéias sendo falada por partidários liberais do capitalismo era a da "sociedade do lazer". A automação e o desenvolvimento de computadores, dizia-se, significava que o que antes levava 40 ou 50 ou 60 horas para produzir agora levaria muito menos tempo e logo levaria tão pouco que a semana de trabalho iria ficar mais curta. Porque os mesmos, ou até mais, bens e serviços seriam produzidos, poderíamos ainda obter a mesma remuneração, e assim poderíamos comprar mais e mais. A grande luta que teríamos pela frente não seria para fazer face às despesas ou tentando encontrar tempo para o lazer. Seria antes para achar o que diabo faríamos com todos os nossos novos tempos de lazer.

 

Na verdade, esta idéia de uma sociedade de lazer foi discutida já bastante mais cedo, bem perto do início da Grande Depressão, pelo mais destacado economista burguês da época, John Maynard Keynes. Em um artigo de 1930, ‘Possibilidades econômicas para os nossos netos’, Keynes tinha olhado para além das então crescentes dificuldades econômicas - desemprego em massa e pobreza gerada pela Depressão - para um período de recuperação dramática e melhoria das condições de vida das massas.

 

Ele observou que, por um período que se estende desde vários milhares de anos antes da data em que se supõe Cristo ter nascido até início do século XVIII, os padrões de vida não mudaram muito naquilo que ele chamou de "os centros civilizados da Terra". Desde o ano de 1500, e especialmente de 1700 em diante, "a grande era da ciência e das invenções técnicas começou", tornando possível melhorar as condições de vida das pessoas, mesmo enquanto a população aumentava dramaticamente.

 

Ele estimou que, dentro do tempo de vida de pessoas da sua própria geração, “poderemos ser capazes de executar todas as operações da agricultura, manufatura e mineração com um quarto do esforço humano com que estamos acostumados". Ele previu que em 100 anos - ou seja, em 2030 - os padrões de vida nos países capitalistas avançados seriam "entre quatro a oito vezes superiores" ao que eram em 1930. Na verdade, ele pensava "não ser tolice contemplar a possibilidade de um progresso muito maior ainda". (A Depressão, segundo ele, era uma espécie de estremecimento que seria superado sem grandes dificuldades. A avareza e a usura "devem ser os nossos deuses ainda por um pouco mais de tempo".)

 

No entanto, aquilo que ele chamou de "problema económico", e definiu como "a luta pela subsistência", que se vem desenrolando há milhares de anos, seria resolvido por completo, no tempo em que os netos da sua geração atingissem a idade adulta. Nesse tempo, notou ele, uma semana de trabalho poderá consistir em cinco turnos de três horas cada!

 

"Assim", escreveu ele, "pela primeira vez desde a sua criação, o homem será confrontado com o seu problema real e permanente - como usar a sua libertação de ingentes preocupações econômicas, como ocupar o tempo livre que a ciência e os juros compostos terão ganho para ele, de modo a viver bem, sábia e agradavelmente".

 

O pavor do futuro não seria o medo da escassez, mas a insegurança de ter tanto tempo de lazer que as pessoas não saberiam como preenchê-lo.

 

Porque as suas necessidades estarão sendo atendidas, as pessoas poderão dedicar tempo a outras coisas para além da labuta em um local de trabalho, serão menos obcecadas com a acumulação de dinheiro. Nesta situação, "o amor ao dinheiro como uma possessão - distinto do amor ao dinheiro como um meio para aceder aos prazeres e realidades da vida - será reconhecido por aquilo que é: uma morbidez um tanto repugnante, uma daquelas propensões semi-criminosas, semi-patológicas que, com um encolher de ombros, entregaremos aos cuidados dos especialistas em saúde mental".

 

Práticas desagradáveis e injustas, que até então poderão ter sido necessárias para a acumulação de capital, “vamos então ser livres para as descartar", no dizer de Keynes.

 

Os anos seguintes ao ensaio de Keynes viram um aprofundamento da depressão e, de seguida, uma horrenda guerra mundial. Após a guerra, no entanto, e em grande parte devido a ela e à depressão, a acumulação de capital pôde recomeçar. A expansão do pós-guerra, que durou até o início dos anos 1970, trouxe um enorme aumento da produção. Globalmente, a produção cresceu várias vezes. A evolução tecnológica parecia, finalmente, confirmar o otimismo de Keynes. Os estudos sobre o lazer surgiram mesmo, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, como uma disciplina acadêmica. No final da década de 1960, o presidente norte-americano de direita Richard Nixon declarou: "Agora somos todos keynesianos". A sociedade do lazer tornou-se parte do discurso dominante.

 

Em 1975, o sociólogo norte-americano Max Kaplan observou que nos Estados Unidos, "a extensão normal de automação reduziu as horas de trabalho semanais aproximadamente de 70 para 37, ao longo do século, quase quatro horas por semana a menos em cada década; haveria portanto, a este ritmo, uma redução adicional de 12 horas até o ano 2000". Ele passou a fazer o que descreveu como uma "projeção simplista", mas que, no entanto, lhe pareceu genericamente válida: "com a ajuda da informatização, as reduções adicionais do tempo de trabalho semanal poderão ser de cinco horas na década de 1970, seis na de 1980, e sete na de 1990. O resultado poderá ser uma semana de trabalho de 20 horas no final do século."

 

No entanto, este novo discurso estava ainda mal consolidado quando a expansão do pós-guerra chegou ao fim. Estagnação econômica e crise rapidamente dominaram a discussão. O desemprego em massa regressou. Os trabalhadores poderão ter descoberto, de repente, que tinham muito tempo livre, mas isso era porque tinham ficado sem emprego e sem salário. A luta quotidiana para fazer face às necessidades era o que ocupava as mentes dos trabalhadores, não as noções da sociedade do lazer e o problema de como preencher todo o tempo de ócio de uma semana de trabalho de 15 horas com o mesmo salário que tinha anteriormente para uma semana de 40 horas. Alguns dos trabalhadores que ainda tinham empregos descobriram que tinham menos horas de trabalho e menos salário. Outros trabalhadores encontraram a sua semana de trabalho em alongamento. Os problemas do capitalismo, garantindo que as crises são uma parte integrante do sistema, voltaram de forma agudizada.

 

Nas quatro décadas decorridas desde então, o capitalismo não foi capaz de gerar um novo período de expansão, de algum modo comparável com a longa expansão do pós-guerra. Assim, o mundo do trabalho está hoje longe, muito longe, do otimismo de Keynes em 1930 e dos prognósticos superficiais de uma sociedade lazer feitos por sociólogos liberais e apologistas do sistema em final dos anos 1960 e inícios dos 1970.

 

No mês passado, por exemplo, uma agência de recrutamento líder no mercado, a Randstad, publicou uma pesquisa que mostrou que mais de 50% dos neozelandeses sente que o seu trabalho e a sua vida privada não podem ser separados. Longe de termos uma sociedade de lazer, ou mesmo um equilíbrio trabalho-vida, a linha divisória entre trabalho e tempo privado está bem e verdadeiramente cada vez mais turva. O diretor da Randstad para a Nova Zelândia, Paul Robinson, disse ao programa da manhã da TV1, "eu acho que isso tem um significado enorme e é, definitivamente, uma tendência que vai continuar a crescer." Os patrões, disse ele, têm aumentado a pressão sobre os trabalhadores para que estes provem o seu comprometimento com a empresa trabalhando fora das horas contratadas.

 

Não só 56% dos entrevistados encontram-se a fazer isso, como 59% estão recebendo e-mails e telefonemas sobre o trabalho fora de suas horas contratadas. Quase um terço dos trabalhadores afirmaram que seus chefes esperavam deles que estivessem efetivamente disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, enquanto 60% disse que o trabalho domina por completo suas vidas. Não surpreendentemente, 68% dos entrevistados disseram que o seu salário não corresponde ao seu desempenho no trabalho e 54% disseram que estariam prontos a emigrar para obter melhores salários e condições.

 

As estatísticas mais recentes indicam que na Nova Zelândia tem havido um aumento constante na semana de trabalho. Tanto que 35,98% dos homens trabalhando a tempo inteiro trabalhou 50 horas ou mais (308.079), enquanto 18,77% das mulheres que trabalham a tempo inteiro trabalhou também por longas horas (107.562). Quase 16,5% dos trabalhadores a tempo completo do sexo masculino e quase 8,5% das trabalhadoras a tempo completo, na verdade, trabalham mais de 60 horas por semana. Mais da metade dos trabalhadores da agricultura e das pescas e cerca de 35% dos operadores de máquinas e montadores fabris trabalham mais de 50 horas por semana. Uma maioria de ambos estes grupos de trabalhadores fazendo mais de 50 horas estão realmente fazendo mais de 60 horas por semana.

 

De longe, a maioria dos trabalhadores do sexo masculino, bem como a maioria dos trabalhadores do sexo feminino trabalham 40-49 horas semanais (ver gráfico). Em vez de a vida ficar mais fácil, ela está ficando cada vez mais cheia de trabalho. Mais de um século após a obtenção da semana de 40 horas, a maioria dos trabalhadores estão trabalhando mais de 40 horas, enquanto que muitos outros trabalhadores estão subempregados, por estarem a tempo parcial em empregos precários de baixos salários, ou estão desempregados e lutando pela sobrevivência com algum magro subsídio ou nem isso.

 

Nos Estados Unidos da América, o país capitalista mais rico de todos, Michael Yates relata: "Em 2008, metade dos homens trabalhadores de mais de 65 anos de idade estavam trabalhando em tempo integral, quando eram só 38 por cento em 1994. Para as mulheres, a variação foi de 23 por cento em 1994 para um terço em 2008". "Pesquisas em pessoas entre os 45 e os 59 anos de idade indicam que uma percentagem muito elevada de homens e mulheres esperam continuar a trabalhar depois de chegar aos 65. Essa percentagem é mais do dobro da fração das pessoas com 65 anos ou mais que estão neste momento a trabalhar; portanto, a tendência para o aumento do emprego entre os idosos quase certamente irá continuar” (1). Em Espanha, a idade de aposentação foi elevada para os 67 anos, e na Irlanda a coligação Trabalhistas-Fine Gael determinou aumentá-la, de sete em sete anos, a partir de 2014, de modo que será de 68 anos em 2028.

 

Uma das ironias cruéis é que Keynes estava realmente certo sobre o facto de que a capacidade tecnológica existentente nos nossos dias nos permitiria ter uma semana de trabalho de 15 horas e todos terem renda suficiente para viver bem. O que ele não levou em conta, no entanto, foi que o capital não apenas desenvolve tecnologia, mas também sempre joga obstáculos no caminho de como a tecnologia pode ser efetivamente usada para melhorar a vida de todos no planeta. O desenvolvimento e difusão da tecnologia e seus benefícios são limitados pelo fato de que, sob o capitalismo, a necessidade humana é subordinada ao lucro privado.

 

Neste sistema, produção e distribuição são regulados pelo mercado, uma simples coisa, ao invés de o ser por um planejamento humano democrático e consciente. As forças de produção (que podem expandir-se, pelo menos potencialmente, até proporcionar abundância material para todos) são continuamente mantidas dentro dos limites das relações sociais de produção (onde os meios de produção são de propriedade privada e operam com base na exploração dos trabalhadores pelos capitalistas). Esta contradição é, por sua vez, a fonte de crises econômicas regulares em que a remuneração dos trabalhadores e as suas condições de trabalho são agravadas e a taxa de exploração é intensificada pelos patrões, à medida que eles tentam sair da crise. Isto exige que eles nos façam trabalhar mais tempo, mais duro, mais rápido e por relativamente menor pagamento.

 

Considerando que a semana de trabalho se reduziu substancialmente entre o final do século XIX e meados do século XX, não houve a partir daí reduções adicionais em horas de trabalho. A possibilidade aventada por Kaplan de uma semana de trabalho de 20 horas até o ano de 2000, e mais ainda a semana de trabalho de 15 horas de Keynes, estão mais longe da realidade do que o estavam quando essas duas pessoas estavam escrevendo. E ainda nos vêm com a cantiga de Marx ser um economista da era vitoriana desatualizado!

 

De facto, em 1994, uma abordagem do trabalho e da exaustão na Nova Zelândia pelo programa de assuntos correntes da TV1, observou que nessa altura custava 60 horas de trabalho por semana manter um estilo de vida comparável com um baseado em 40 horas de trabalho em 1960. E assim chegamos à situação de hoje, onde o Partido Trabalhista, um dos dois principais partidos capitalistas, quer aumentar a idade de aposentação, garantindo assim que mais de nós trabalharemos até cair. Enquanto isso, os baixos salários, mais longas horas de trabalho, menor mobilidade social e uma indistinção cada vez maior entre tempo de trabalho e tempo pessoal são o nosso destino. Isto é o melhor que o sistema tem para nos oferecer.

 

O que aconteceu com a sociedade de lazer? Aconteceu o capitalismo.

 

 

 

(*) Philip Ferguson é um historiador marxista de origem irlandesa, antigo militante e organizador do Sinn Fein (1986-94), atualmente residente na Nova Zelândia, onde é professor na Canterbury University de Christchurch. Neste país tem animado algumas publicações de cariz socialista revolucionário, sendo a última delas Redline. É ainda organizador nacional do Workers Party.

 

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NOTA:

 

(1) Michael Yates, ‘Whooppee, we’re all gonna die… working.