Audácia, mais audácia

A esquerda radical face ao capitalismo em falha

 

Samir Amin (*)

 

As circunstâncias históricas criadas pela implosão do capitalismo contemporâneo exigem da esquerda radical, no Norte como o Sul, que seja ousada na formulação de sua política alternativa ao sistema existente. O objetivo deste artigo é mostrar por que audácia é necessária e o que ela significa.

Porquê a Audácia?

1. O capitalismo contemporâneo é um capitalismo de monopólios generalizados. Com isto quero dizer que os monopólios agora já não são nenhumas ilhas (mesmo que importantes) num mar de outras empresas ainda relativamente autônomas. São agora, isso sim, um sistema integrado. Por conseguinte, estes monopólios agora controlam firmemente todos os sistemas de produção. Pequenas e médias empresas, e mesmo as grandes corporações que não são, estritamente falando, oligopólios, estão todas elas encerradas em uma rede de controle levantada pelos monopólios. Seu grau de autonomia se reduziu a tal ponto que elas não são nada mais do que subcontratadas dos monopólios.

Este sistema de monopólios generalizados é o produto de uma nova fase de centralização do capital nos países da tríade (Estados Unidos, Europa ocidental e central, e o Japão), que teve lugar durante os anos 1980 e 1990.

Os monopólios generalizados agora dominam a economia mundial. "Globalização" é o nome que deram ao conjunto de demandas por intermédio das quais eles exercem seu controle sobre os sistemas produtivos da periferia do capitalismo mundial (o mundo para além dos parceiros da tríade). É nada mais do que uma nova fase do imperialismo.

2. O capitalismo dos monopólios generalizados e globalizados é um sistema que garante a esses monopólios uma renda de monopólio cobrada sobre a massa de mais-valia (transformada em lucros) que o capital extrai da exploração do trabalho. Na medida em que esses monopólios estão operando nas periferias do sistema mundial, renda de monopólio é renda imperialista. O processo de acumulação de capital - que define o capitalismo em todas as suas formas históricas sucessivas - é, portanto, impulsionado pela procura da maximização da renda de monopólio / imperialista.

Essa mudança no centro de gravidade da acumulação de capital é a fonte da concentração contínua de renda e riqueza em benefício dos monopólios, largamente dominados pelas oligarquias ("plutocracias") que regem grandes grupos oligopolistas, em detrimento da remuneração do trabalho e até mesmo da remuneração do capital não-monopolista.

3. Este desequilíbrio em crescimento contínuo é, em si, por sua vez, a fonte da financeirização do sistema económico. Com isto quero dizer que uma parte crescente do excedente não pode ser investida na expansão e aprofundamento de sistemas de produção e, portanto, o "investimento financeiro" desse excedente torna-se a única opção para a acumulação continuada sob o controle dos monopólios.

A implementação pelo capital de vários sistemas específicos permite a esta financeirização operar de diferentes maneiras:

i. a subjugação da gestão das empresas ao princípio de "valor acionista";

ii. a substituição dos sistemas de reformas distributivos por pensões financiados por capitalização (fundos de pensão);

iii. a adoção do princípio de “taxas de câmbio flexíveis”;

iv. o abandono do princípio de serem os bancos centrais a determinar a taxa de juros - o preço da "liquidez" - com transferência desta responsabilidade para o “mercado”.

A financeirização transferiu a responsabilidade principal pelo controle da reprodução do sistema de acumulação para cerca de 30 grandes bancos da tríade. Aquilo que eufemisticamente se chama de "mercados" são apenas os lugares onde as estratégias desses atores que dominam o cenário econômico são desenvolvidas.

Por sua vez, esta financeirização, que é responsável pelo crescimento da desigualdade na distribuição de renda (e das fortunas), gera o superávit crescente de que se alimenta. Os “investimentos financeiros" (ou melhor, os investimentos na especulação financeira) continuam a crescer a velocidades vertiginosas, não compatíveis com o crescimento do PIB (que, ele próprio, se tornou consequentemente, em grande parte, fictício) ou com o investimento na produção real.

O crescimento vertiginoso dos investimentos financeiros exige - e alimenta - entre outras coisas, a dívida, em todas as suas formas, especialmente a dívida soberana. Quando os governos em funções pretendem estar prosseguindo o objetivo da "redução da dívida", estão mentindo deliberadamente. É que a estratégia dos monopólios financeirizados necessita do crescimento da dívida (que eles buscam, ao invés de combater), como forma de absorver o excedente da renda dos monopólios. As políticas de austeridade impostas "para reduzir a dívida" de fato resultaram (como previsto) em aumentar o seu volume.

4. É este sistema - comumente chamado de "neoliberal", na verdade o sistema do capitalismo monopolista generalizado, "globalizado" (imperialista) e financeirizado (por necessidades impostas pela sua própria reprodução) - que está a implodir diante de nossos olhos. Este sistema, aparentemente incapaz de superar suas crescentes contradições internas, está condenado a continuar a sua ofensiva desbragada.

A "crise" do sistema é devida ao seu próprio “sucesso”. Na verdade, até agora, a estratégia implantada pelos monopólios sempre produziu os resultados desejados: planos de "austeridade" e os chamados planos sociais (na verdade, anti-sociais) de reestruturação que ainda estão sendo impostos, apesar da resistência e das lutas. Até hoje a iniciativa continua nas mãos dos monopólios (“os mercados”) e dos seus serventes políticos (os governos que se submetem às exigências do chamado "mercado").

5. Nestas condições, o capital monopolista declarou abertamente guerra aos trabalhadores e aos povos. Esta declaração é formulada na frase "o liberalismo não é negociável". O capital monopolista vai certamente continuar e não abrandar a sua ofensiva desbragada. A crítica da "regulação" que faço mais adiante é baseada nessa pressuposição.

Não estamos vivendo um momento histórico no qual a busca de um "compromisso social" seja uma opção possível. Houve momentos desses, no passado, como o compromisso social do pós-guerra, entre capital e trabalho, com as suas especificidades próprias no estado social-democrata no Ocidente, no socialismo realmente existente no Leste, e nos projetos populares nacionais do Sul. Mas o nosso momento histórico presente não é o mesmo. Assim, o conflito é entre o capital monopolista e os trabalhadores e povos, sendo estes convidados a uma rendição incondicional. Estratégias defensivas de resistência, nestas condições, são ineficazes e destinadas a ser finalmente derrotadas. Diante da guerra declarada pelo capital monopolista, os trabalhadores e os povos devem desenvolver estratégias que lhes permitam tomar a ofensiva.

O período de guerra social é necessariamente acompanhado pela proliferação de conflitos políticos internacionais e por intervenções militares das potências imperialistas da tríade. A estratégia de "controle militar do planeta" pelas forças armadas dos Estados Unidos e seus aliados subordinados da NATO é, finalmente, o único meio pelo qual os monopólios imperialistas da tríade podem esperar continuar a sua dominação sobre os povos, nações e os estados do Sul.

Os monopólios declaram a guerra

Diante deste desafio da guerra declarada pelos monopólios, que alternativas estão sendo propostas?

Primeira resposta: "regulação do mercado" (financeiro e outros). Estas são iniciativas que os monopólios e os governos afirmam que estão prosseguindo. Na verdade, trata-se apenas de retórica vazia, destinada a enganar a opinião pública. Essas iniciativas não podem parar a corrida louca ao lucro financeiro que é o resultado da lógica da acumulação controlada por monopólios. Elas são, portanto, uma alternativa falsa.

Segunda resposta: um retorno aos modelos do pós-guerra. Essas respostas alimentam uma nostalgia tripla: (i) a reconstrução de uma verdadeira "social-democracia" no Ocidente, (ii) a ressurreição de “socialismos”, fundados sobre os princípios que regiam os do século XX, (iii) o retorno a fórmulas de nacionalismo popular nas periferias do Sul. Estas nostalgias imaginam que é possível "reverter" o capitalismo monopolista, forçando-o a regredir ao que era em 1945. Mas a história nunca se permite esses retornos ao passado. O capitalismo deve ser confrontado tal como ele é hoje, não como desejaríamos que fosse, imaginando um bloqueamento de sua evolução. No entanto, esses desejos continuam a assombrar grandes segmentos da esquerda, em todo o mundo.

Terceira resposta: a busca de um consenso "humanista". Defino este desejo piedoso da seguinte forma: a ilusão de que seria possível emergir um consenso entre interesses fundamentalmente antagónicos. Movimentos ecológicos ingénuos, entre outros, compartilham essa ilusão.

Quarta resposta: as ilusões do passado. Estas ilusões invocam "especificidade" e "direito à diferença", sem se preocupar em entender o seu alcance e significado. O passado já encerraria respostas prontas para as perguntas sobre o futuro. Esses “culturalismos” podem assumir muitas formas para-religiosas ou étnicas. Teocracias e etnocracias tornam-se convenientes substitutos para as lutas democráticas e sociais que foram expulsas da sua agenda.

Quinta resposta: prioridade à “liberdade pessoal". A gama de respostas baseadas nesta prioridade, considerada como exclusivo "valor supremo", inclui nas suas fileiras os incondicionais de "democracia representativa eleitoral", que eles equiparam com a própria democracia. Esta fórmula separa a democratização das sociedades do seu progresso social, e até tolera uma associação de facto com a regressão social, a fim de não correr o risco de descrédito da democracia, agora reduzida ao status de uma farsa trágica. Mas existem formas ainda mais perigosas desta última posição. Refiro-me aqui a algumas conhecidas correntes pós-modernistas (a Toni Negri, em particular) que imaginam que o indivíduo já se tornou o sujeito da história, como se o comunismo - que permitirá finalmente ao indivíduo emancipar-se da alienação mercantil e tornar-se senhor do seu destino - estivesse já aí!

É evidente que todas as respostas acima descritas, incluindo as da direita (tais como as “regulamentações” que não afetam monopólios de propriedade privada), ainda encontram ecos poderosos entre uma maioria das pessoas situadas à esquerda.

A guerra declarada pelo capitalismo monopolista generalizado do imperialismo contemporâneo não tem nada a temer das falsas alternativas que acima deixei esboçadas.

Então, o que deve ser feito?

Este momento nos oferece a oportunidade histórica de ir muito mais longe. Exige, como única resposta eficaz, uma radicalização ousada e audaciosa na formulação de alternativas capazes de motivarem os trabalhadores e os povos a tomar a ofensiva para derrotar a estratégia de guerra do seu adversário. Estas formulações, baseadas na análise do capitalismo contemporâneo realmente existente, devem encarar diretamente o futuro que está para ser construído, virando as costas às nostalgias do passado e às ilusões de identidade ou de consenso.

Programas audaciosos para a Esquerda Radical

Vou organizar as propostas gerais que se seguem em três categorias: (i) socializar a propriedade dos monopólios, (ii) desfinanceirizar a gestão da economia, (iii) desglobalizar as relações internacionais.

1. Socializar a propriedade dos monopólios

A eficácia da resposta alternativa requer, necessariamente, o questionamento do próprio princípio da propriedade privada do capital monopolista. Com a proposta de "regular" as operações financeiras - para reconduzir os mercados à "transparência", permitindo que as "expetativas dos agentes” voltem a ser “racionais” - definindo os termos de um consenso sobre estas reformas sem abolir a propriedade privada dos monopólios, não é mais que jogar poeira nos olhos do público ingênuo. Os monopólios são convidados a "gerenciar" as reformas contra os seus próprios interesses, ignorando o facto de que eles retêm mil e uma maneiras de contornar os objectivos de tais reformas.

O projeto social alternativo deve ser o de inverter a direção da atual ordem (ou desordem) social produzida pelas estratégias dos monopólios, a fim de garantir o emprego máximo e estabilizado, garantindo salários decentes, que crescem em paralelo com a produtividade do trabalho social. Este objetivo é simplesmente impossível de atingir sem a expropriação do poder dos monopólios.

O “software dos economistas teóricos" deve ser reconstruído (nas palavras de François Morin). A absurda e impossível teoria econômica das “expetativas” expulsa a democracia do processo de tomada de decisões económicas. Audácia, neste caso, exige uma reforma radical da educação para a formação não apenas de economistas, mas também de todos aqueles que são chamados a ocupar cargos de gerência.

Os monopólios são órgãos institucionais que devem ser geridos de acordo com os princípios da democracia, em conflito direto com aqueles que querem santificar a propriedade privada. Embora o termo "commons", importado do mundo anglo-saxão, seja em si ambíguo, pois aparece sempre desligado do debate sobre o significado dos conflitos sociais (a linguagem anglo-saxónica ignora deliberadamente a realidade das classes sociais), o termo poderia ser invocado aqui especificamente. É preciso reclamar os monopólios como parte do "commons".

A abolição da propriedade privada dos monopólios se dá através de sua nacionalização. Esta primeira ação legal é inevitável. Mas a audácia aqui significa ir além desse passo, propondo planos para a socialização da gestão dos monopólios nacionalizados e para a promoção das lutas democráticas e sociais que estarão envolvidos nesse longo caminho.

Vou dar aqui um exemplo concreto daquilo que poderia ser envolvido nestes planos de socialização.

Os agricultores "capitalistas" (os dos países desenvolvidos), como os agricultores 'camponeses' (principalmente no Sul), estão todos eles prisioneiros, tanto dos monopólios a montante que, fornecem insumos e crédito, como dos monopólios mais a jusante, dos quais dependem para o transporte, processamento e comercialização de seus produtos. Portanto, eles não têm autonomia real em suas “decisões”. Além disso, os ganhos de produtividade que fazem são desviados pelos monopólios que reduziram os produtores à condição de "subcontratados". Que alternativa é possível?

Os monopólios devem ser substituídos por instituições públicas que trabalhem dentro de um quadro legal definidor do modo do seu governo. Estas seriam constituídos por representantes de: (i) agricultores (os principais interesses); (ii) unidades a montante (fabricantes de insumos, bancos) e a jusante (indústria alimentar, cadeias de retalho); (iii) os consumidores; (iv) as autoridades locais (interessadas em ambiente natural e social - escolas, hospitais, planejamento urbano e habitação, transporte); (v) o Estado (os cidadãos). Representantes dos componentes listados acima devem ser auto-selecionados de acordo com procedimentos consistentes com o seu próprio modo de gestão socializada. Por exemplo, unidades de produção de insumos geridas, elas próprias, por direções eleitas pelos seus trabalhadores diretamente contratados, bem como pelos que são empregados em unidades subcontratadas, e assim por diante. Essas estruturas devem ser concebidas com fórmulas que associem o pessoal gestionário com cada um desses níveis, tais como centros de pesquisa científica e tecnológica independentes e adequados. Poderíamos até imaginar uma representação dos fornecedores de capital (os “pequenos acionistas”) herdados da nacionalização, se tal for considerado útil.

Estamos, portanto, falando de fórmulas institucionais muito mais complexas do que as da "auto-gestão" ou da "cooperativa", tais como as conhecemos. Trata-se de fórmulas ainda a inventar, que permitirão o exercício de uma verdadeira democracia na gestão da economia, baseada na negociação aberta entre todas as partes interessadas. É necessária uma fórmula que ligue sistematicamente a democratização da sociedade com o progresso social, em contraste com a realidade do capitalismo, que dissocia a democracia (reduzida a uma formalidade de gestão da política) das condições sociais, abandonadas estas ao "mercado" dominado pelos produtos do capital monopolista. Então, e só então, poderemos falar de verdadeira transparência dos mercados, regulados por formas institucionalizadas de gestão socializada.

O exemplo pode parecer marginal, nos países capitalistas desenvolvidos, porque os agricultores são aí uma proporção muito pequena dos trabalhadores (3-7 por cento). No entanto, esta questão é central para o Sul, onde a população rural permanecerá significativa ainda por algum tempo. Aqui, o acesso à terra, que deve ser garantido a todos (com o mínimo possível de desigualdade de acesso) inscreve-se entre os princípios fundamentais de uma opção em favor do avanço da agricultura camponesa. Sobre esta matéria, para maiores desenvolvimentos, remeto a uma obra minha anterior (ver Referências). A “agricultura camponesa" não deve ser entendida como sinônimo de "agricultura estagnada” (“tradicional” ou de “reserva folclórica"). O progresso necessário desta agricultura camponesa exige algumas "modernizações" (embora este termo seja equívoco, por sugerir imediatamente, para muitos, a modernização através do capitalismo). Insumos mais eficazes, créditos, um escoamento adequado das produções, são necessários para dar um sentido à melhora da produtividade do trabalho camponês. As fórmulas aqui propostas perseguem o objetivo de permitir que esta modernização se faça por meios e num espírito "não capitalista", isto é, fundada em uma perspectiva socialista.

Obviamente, o exemplo concreto específico aqui escolhido é apenas um de entre os que precisam ser institucionalizados. A nacionalização / socialização da gestão dos monopólios nos setores da indústria e dos transportes, dos bancos e de outras instituições financeiras, devem ser imaginadas com o mesmo espírito, tendo em conta, porém, na constituição de suas diretorias, as especificidades das suas funções económicas e sociais. Também aqui, essas diretorias devem envolver os trabalhadores da empresa, bem como os das empresas subcontratadas, representantes de indústrias a montante, os bancos, as instituições de pesquisa, os consumidores e os cidadãos.

A nacionalização / socialização dos monopólios responde a uma necessidade fundamental no eixo central do desafio enfrentado pelos trabalhadores e pelos povos sob o capitalismo contemporâneo dos monopólios generalizados. É a única maneira de impedir a acumulação por espoliação que é a lógica condutora da gestão da economia pelos monopólios.

A acumulação dominada por monopólios só pode reproduzir-se, efetivamente, se a área sujeita a "gestão do mercado" estiver em constante expansão. Isto é conseguido através da privatização desenfreada dos serviços públicos (desapropriação dos cidadãos) e do acesso aos recursos naturais (espoliação dos povos). A punção nos lucros de unidades económicas “independentes” por parte dos monopólios é ainda uma desapropriação (agora de capitalistas!) operada pela oligarquia financeira.

2. Desfinanceirização: um mundo sem Wall Street

A nacionalização / socialização dos monopólios, por si própria, opera a abolição do princípio do "valor acionista", imposto pela estratégia de acumulação ao serviço das rendas de monopólio. Este objectivo é essencial para qualquer programa audacioso de saída dos trilhos em que a gestão da economia de hoje está atolada. Sua implementação puxa o tapete debaixo dos pés da financeirização dessa gestão da economia. Estaremos retornando, por aí, à famosa "eutanásia do rentista" defendida por Keynes em sua época? Não necessariamente, e certamente que não completamente.

A poupança pode ser estimulada por uma recompensa financeira, mas com a condição de que a sua origem (poupanças domésticas dos trabalhadores, das empresas, das comunidades) e as suas condições de remuneração sejam definidas com precisão. O discurso sobre a poupança macroeconômica na teoria econômica convencional esconde, na verdade, a organização montada para acesso exclusivo dos monopólios ao mercado de capitais. A sua pretendida "remuneração pelos mercados" é pois nada mais do que o meio de garantir o crescimento das rendas de monopólio.

Claro que a nacionalização / socialização dos monopólios também se aplica aos bancos, pelo menos aos mais importantes. Mas a socialização da sua intervenção ("políticas de crédito”) tem características específicas que exigem um planejamento adequado na constituição de suas diretorias. Nacionalização no sentido clássico do termo implica somente a substituição pelo Estado dos conselhos de administração formados pelos accionistas privados. Isso permitiria, em princípio, a implementação de políticas de crédito bancário formuladas pelo Estado – o que não é coisa pouca. Mas isso certamente não é suficiente, desde que tomemos consciência de que a socialização requer a participação direta na gestão do banco por parte dos parceiros sociais implicados. Bem entendido, também aqui a “auto-gestão” – a gestão dos bancos pelo seu pessoal - não é a fórmula capaz de dar resposta aos problemas colocados. O pessoal em questão deve certamente ser envolvido na decisão sobre as suas condições de trabalho, mas pouco mais, não lhe cabendo a ele determinar as políticas de crédito a serem implementadas.

Se as direções bancárias devem relacionar os interesses daqueles que concedem empréstimos (os bancos) com os dos que os recebem (as “empresas”), a fórmula para a composição das direções deve ser concebida concretamente tendo em conta o que as empresas são e do que é que necessitam. Impõe-se uma reestruturação do sistema bancário, que se tornou excessivamente centralizado, sobretudo desde que os marcos regulatórios dos últimos dois séculos foram sendo abandonados, ao longo das últimas quatro décadas. Há um argumento forte para justificar a reconstrução das especializações bancárias, de acordo com as caraterísticas dos beneficiários dos créditos e com a função econômica destes (prestação de liquidez de curto prazo, contribuição para o financiamento de investimentos no médio e longo prazos).

Poderíamos então, por exemplo, criar um “banco da agricultura” (ou um conjunto coordenado de bancos da agricultura) cuja clientela seria composta não só por agricultores e camponeses, mas também por aquelas unidades descritas mais acima, envolvidas na agricultura “a montante e a jusante”. A diretoria do banco implicaria, por um lado, os “banqueiros” (pessoal dirigente do banco - que teriam sido recrutados pela direção) e, por outra parte, os clientes (os agricultores ou camponeses, as outras entidades a montante e a jusante).

Podemos imaginar outros conjuntos de sistemas bancários articulados com os diversos setores industriais, em que as direções envolveriam os clientes industriais, os centros de pesquisa e tecnologia e serviços competentes no domínio do controle do impacto ecológico dos meios de produção, garantindo assim a minimização do risco (reconhecendo-se, porém, que nenhuma ação humana é totalmente isenta de risco), sujeito a um debate democrático, transparente.

A desfinanceirização da gestão econômica exigiria também dois conjuntos de medidas legislativas. O primeiro diz respeito à supressão pura e simples dos fundos especulativos (os “hedge funds”) que um estado soberano pode sempre proibir de operar em seu território. A segunda diz respeito aos fundos de pensões, que são agora grandes operadores na financeirização do sistema econômico. Estes fundos foram criados - em primeiro lugar nos E.U.A., é claro - para transferir para os empregados os riscos normalmente incorridos pelo capital, e que justamente constituem a razão invocada para justificar a sua remuneração! Portanto, esta é uma operação escandalosa, em clara contradição com a própria defesa ideológica do capitalismo! Mas esta "invenção" é um instrumento ideal para as estratégias de acumulação dominadas pelos monopólios.

A abolição dos fundos de pensão é necessária para benefício dos sistemas de pensões por distribuição, que, pela sua própria natureza, exigem e permitem o debate democrático para determinar os montantes e períodos de quotização e a relação entre o montantes das pensões e o das remunerações salariais. Em uma democracia que respeita os direitos sociais, estes sistemas de pensões estarão universalmente disponíveis para todos os trabalhadores. No entanto, poderão ser autorizadas reformas complementares servidas por fundos de pensões, de modo a que não se “proiba” algo que possa ser desejado por um grupo de indivíduos.

Todas as medidas de desfinanceirização aqui sugeridas levam a uma conclusão óbvia: “Um mundo sem Wall Street”, para tomar emprestado o título do livro de François Morin, é possível e desejável.

Em um mundo como esse, a vida económica estará ainda em grande parte controlada pelo “mercado”. Mas estes mercados serão, pela primeira vez, verdadeiramente transparentes, regulados por negociação democrática entre os verdadeiros parceiros sociais (pela primeira vez, também, estes últimos não são adversários, como o são, necessariamente, sob o capitalismo). É o "mercado" financeiro - opaco por natureza e sujeito às exigências de uma gestão para o benefício dos monopólios - que é abolido. Poderíamos explorar se seria útil ou não o encerramento das bolsas de valores, dado que as operações de transferência de direitos de propriedade, tanto em sua forma privada como na forma social, seriam conduzidas "de forma diferente". Poderíamos até, deste modo, acabar por concluir que um mercado de valores refundado seria de estabelecer para esse fim. Em qualquer caso, o símbolo - "um mundo sem Wall Street '- mantém todo o seu poder sugestivo.

A desfinanceirização não significa, certamente, a abolição da política macroeconômica e, em particular, a gestão macro de crédito. Ao contrário, restaura a sua eficiência, libertando-a da submissão às estratégias de maximização da renda dos monopólios. A restauração dos poderes dos bancos centrais nacionais, não mais "independentes", mas dependentes tanto do estado como dos mercados regulados pela negociação democrática entre os parceiros sociais, dá à formulação de macropolítica de crédito a sua eficácia no serviço de uma gestão socializada da economia.

3. No plano internacional: a desconexão

Retomarei aqui o termo "desconexão", que propus há meio século e que o discurso contemporâneo parece ter substituído com o sinônimo "desglobalização". Recordo que nunca entendi a desconexão como um recuo autárquico, mas sim como uma inversão estratégica na visão das relações entre o interno e o externo, em resposta às exigências inevitáveis de um desenvolvimento auto-determinado. A desconexão promove a reconstrução de uma globalização baseada na negociação, em lugar da submissão aos interesses exclusivos dos monopólios imperialistas. Também torna possível a redução das desigualdades internacionais.

A desconexão impõe-se porque as medidas preconizadas nas duas seções anteriores nunca poderão realmente ser implementadas em escala global, ou mesmo a nível regional (por exemplo, Europa). Elas só podem ser iniciadas no contexto dos Estados-nação mais avançados - pela amplitude e radicalidade das suas lutas sociais e políticas -, comprometidos com um processo de socialização da gestão da sua economia.

O imperialismo, nas formas que tomou até às vésperas da Segunda Guerra Mundial, havia criado um contraste entre centros industrializados imperialistas e periferias dominadas, onde a indústria foi proibida. As vitórias dos movimentos de libertação nacional começaram o processo de industrialização das periferias, através da implementação de políticas de desconexão exigidas pela sua opção em favor de um desenvolvimento auto-centrado. Associadas com reformas sociais, por vezes radicais, estas desconexões criaram as condições para a "emergência" ulterior dos países que tinham ido mais longe nessa direção – a China liderando o grupo, é claro.

Mas o imperialismo da era atual, da tríade acima referida, forçado a recuar e a "ajustar-se" às condições desta nova era, reconstruiu-se em novas bases, sustentado em "vantagens" das quais procurou segurar o privilégio da exclusividade. Tenho classificado essas vantagens em cinco categorias, implicando o controlo de:

- Tecnologias de ponta;

- Acesso aos recursos naturais do planeta;

- A integração global do sistema monetário e financeiro;

- Os sistemas de comunicação e de informação;

- As armas de destruição em massa.

A principal forma de desconexão, hoje em dia, é assim definida, precisamente, como o desafio a estes cinco privilégios do imperialismo contemporâneo. Os países emergentes estão empenhados em desconectar-se por essa via, com diferentes graus de controle e auto-determinação, é claro. É claro, o próprio sucesso anterior permitiu-lhes, ao longo das últimas duas décadas, acelerar o seu desenvolvimento, em particular no domínio industrial, no seio do sistema globalizado “liberal” e usando meios puramente “capitalistas”. Este sucesso tem alimentado ilusões sobre a possibilidade de continuar neste mesmo caminho, que o mesmo é dizer, de surgirem estes países como novos "parceiros iguais entre capitalistas". A tentativa de "cooptar" os mais prestigiados destes países, com a criação do G20, tem incentivado essas ilusões.

Mas, com a implosão em curso do sistema imperialista (chamado "globalização"), essas ilusões estão em vias de se dissipar. O conflito entre as potências imperialistas da tríade e os países emergentes já é visível, e deve piorar. Se quiserem avançar, as sociedades dos países emergentes serão forçadas a voltar-se cada vez mais para modos de desenvolvimento auto-centrados, tanto no plano nacional como pelo reforço da cooperação Sul-Sul. A audácia consiste aqui em engajar-se vigorosa e coerentemente nesta via, associando as medidas necessárias de desconexão com os avanços desejados no progresso social.

O objetivo desta radicalização é triplo, associando a democratização da sociedade, o progresso social e a tomada de posições anti-imperialistas consequentes. Um compromisso nessa direção é possível, não só nas sociedades dos países emergentes, mas também nos “deixados para trás” do grande Sul. Estes países haviam sido efetivamente recolonizados, através dos programas de ajustamento estrutural dos anos 1980. Os seus povos estão agora em revolta aberta, quer tenham já marcado alguns pontos (na América do Sul) ou ainda não (no mundo árabe). A audácia consiste aqui, para as esquerdas radicais nestas sociedades, em estar à altura dos desafios que enfrentam e apoiar a continuação e radicalização das lutas necessárias que estão em andamento.

A desconexão do Sul prepara o caminho para a desconstrução do próprio sistema imperialista. Isto é particularmente evidente nas áreas afetadas pela gestão do sistema monetário e financeiro mundial, uma vez que este é o resultado da hegemonia do dólar.

Mas cuidado: é uma ilusão esperar substituir este sistema por "outro sistema monetário e financeiro mundial" que seja mais equilibrado e favorável ao desenvolvimento das periferias. Como sempre, a busca de um "consenso" sobre a reconstrução internacional a partir de cima é mera ilusão, semelhante à espera por um milagre. O que está agora na agenda é a desconstrução do sistema existente - a sua implosão - e a reconstrução de sistemas alternativos nacionais (para países-continentes) ou regionais, como alguns projetos na América do Sul já anunciam. A audácia aqui é ter a coragem de avançar com a maior determinação possível, sem muito se inquietar com a reação do imperialismo.

Esta mesma problemática da desconexão / desmontagem é também relevante para a Europa, que é um subconjunto da globalização dominada pelos monopólios. O projecto europeu foi concebido, desde o início, e construído de forma sistemática para desapossar os seus povos da sua capacidade de exercer o seu poder democrático. A União Europeia foi estabelecida como um protetorado exercido pelos monopólios. Com a implosão da zona euro, a sua submissão à vontade dos monopólios assume formas extremas, resultando na abolição da democracia, reduzida ao estatuto de farsa. A única questão que se põem os decisores políticos é como é que “os mercados" (isto é, os monopólios) e as "agências de notação” (isto é, mais uma vez, os monopólios) reagirão? Essa é a única questão que agora se coloca. Como os povos possam reagir não é mais alvo da menor consideração.

É pois evidente que, também aqui, não há qualquer alternativa à audácia: "desobedecer" às regras impostas pela "Constituição Europeia" e pelo falso banco central do euro. Por outras palavras, não há alternativa para a desconstrução das instituições da Europa e da zona do euro. Este é o pré-requisito imprescindível para a eventual reconstrução ulterior de uma "outra Europa", dos povos e das nações.

Em conclusão: audácia, mais audácia, sempre audácia

O que entendo por audácia é, portanto:

i. Para a esquerda radical nas sociedades da tríade imperialista, a necessidade de um engajamento na construção de um bloco social alternativo anti-monopolista.

ii. Para a esquerda radical nas sociedades das periferias, engajarem-se na construção de um bloco social alternativo anti-comprador.

Vai levar o seu tempo fazer progressos na construção desses blocos, mas o processo poderia muito bem ser acelerado, se a esquerda radical empreender o movimento com determinação e se engajar em fazer progressos no longo caminho do socialismo. Para isso, é necessário propôr estratégias, não de “sair da crise do capitalismo", mas de “saída do capitalismo em crise”, para tomar emprestado o título de um de meus trabalhos mais recentes.

Estamos em um período crucial na história. A única legitimidade do capitalismo é a de ter criado as condições para a passagem ao socialismo, entendido como um estágio superior de civilização. O capitalismo é agora um sistema obsoleto, sua continuação levando apenas à barbárie. Nenhum capitalismo outro é possível. O resultado deste choque de civilizações é, como sempre, incerto. Ou as esquerdas radicais terão sucesso, por meio da audácia de suas iniciativas, arrancando para reais avanços revolucionários, ou a contra-revolução vai ganhar. Não há hipótese de um compromisso durável entre estas duas respostas para o desafio.

Todas as estratégias da esquerda não-radical são, na verdade, não-estratégias. São apenas ajustamentos do dia-a-dia às vicissitudes de um sistema em implosão. E se os poderes instalados querem, como ‘O Leopardo’ de Tomasi de Lampedusa, "mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma", os candidatos da esquerda não radical acreditam que é possível "mudar a vida sem tocar no poder dos monopólios”! As esquerdas não-radicais não serão capazes de suster o triunfo da barbárie capitalista. Eles já perderam a batalha, por falta de a quererem travar.

Audácia é o que é necessário para fazer coincidir o outono do capitalismo, anunciado pela implosão do seu sistema, com uma autêntica primavera dos povos, que se tornou agora enfim possível.

 

 

(*) Samir Amin (n. 1931) é um economista franco-egípcio que vive atualmente em Dakar (Senegal) onde é director do ‘Fórum do Terceiro Mundo’. Mantém-se um dos mais profundos, sagazes, originais e persistentes críticos do capitalismo mundial, ao longo dos últimos sessenta anos. Estudou em Paris de 1947 a 1957, onde participou na formação intelectual da geração que dirigiu a luta anticolonial do pós-guerra, aderindo depois ao maoismo. Fiel ao marxismo clássico, expurgado das suas excrescências eurocêntricas, manteve uma colaboração dialogante com a “teoria da dependência” e a escola do “sistema-mundo”. Estudioso de formações sociais pré-capitalistas em nações colonizadas deu contributos teóricos de grande valia ao materialismo histórico. Foi professor universitário e desempenhou também funções de pesquisa e planeamento económico no Egito, em diversos países africanos e no Institut Africain de Développement Économique et de Planification (IDEP). Actualmente é co-director (com François Houtart) do Forum Mundial das Alternativas, garantindo um lugar de relevo no movimento por uma alterglobalização, como o seu pensador estratégico mais capaz. Escreveu mais de trinta livros, dos quais podemos aqui destacar L’accumulation à l’échelle mondiale (1970), Le développement inégal (1973), La loi de la valeur et le matérialisme historique (1977), Classe et nation dans l’histoire et la crise contemporaine (1979), La déconnexion (1985), L’eurocentrisme (1988), Les défis de la mondialisation (1996), Pour la Cinquième Internationale (2006), La loi de la valeur mondialisée (2011).

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Referências bibliográficas:

 1. Samir Amin, Sur la crise. Sortir de la crise du capitalisme ou sortir du capitalisme en crise, Le temps des cerises, Paris, 2009.

 2. Samir Amin, Ending the crisis of capitalism or ending capitalism , Pambazuka Press 2011.

 3. Samir Amin, Du capitalisme à la civilisation, Syllepse, Paris, 2008.

 4. Aurélien Bernier, Désobéissons à l'Union Européenne, Les mille et une nuits, 2011.

 5. Jacques Nikonoff, Sortir de l'euro, Les mille et une nuits, 2011.

 6. François Morin, Un monde sans Wall Street, Seuil, Paris, 2011.

 7. Samir Amin, Les luttes paysannes et ouvrières face aux défis du XXIe siècle - L'avenir des sociétés paysannes et la reconstruction du front uni des travailleurs, Les Indes savantes, 2005.