A grande regressão

 

 

Jacques Généreux (*)

 

 

 

Vi morrer a esperança de um mundo melhor

 

Durante os vinte primeiros anos da minha vida, cresci num mundo onde o destino das crianças parecia ser naturalmente mais feliz do que o dos seus pais; no decurso dos trinta anos que se lhes sucederam, assisti à morte da promessa de um mundo melhor. No tempo de uma só geração, a quase certeza do progresso esbateu-se pouco a pouco perante a evidência de uma regressão social, ecológica, moral e política, uma “Grande Regressão” que já é tempo de designar e representar para que possamos combatê-la.

 

Porque a arma principal dos doentes e predadores que orquestram esta tragédia é a sua capacidade de apresentá-la como o novo rosto do progresso. E a sua principal aliada é a permeabilidade dos espíritos angustiados, facilmente dispostos a aceitar qualquer fábula que faça baixar de um grau a pressão e a angústia que os devoram. Na época da da democracia de opinião, os espíritos reaccionários não podem contentar-se com a demolição dos adquiridos das conquistas passadas em favor de uma vida melhor para todos; é-lhes necessário também anestesiar as suas resistências, suscitar a adesão ou, pelo menos, a resignação das suas próprias vítimas; precisam de ganhar uma batalha cultural em que aquilo que está em jogo é a tentativa, tantas vezes, vitoriosa de nos fazer amar a decadência.

 

É assim que esperam, por exemplo, persuadir-nos de que a necessidade de “trabalhar mais para ganhar mais” representa um avanço social, a renúncia voluntária aos nossos direitos sociais alarga a nossa liberdade, que a construção de estabelecimentos prisionais para crianças melhora a nossa segurança, que a expansão dos bio-carburantes contribui para o “desenvolvimento sustentado”, etc. Mas a substância real deste pretensos “progressos” é a intensificação do trabalho, a servidão voluntária, a incapacidade de educar os nossos filhos e a destruição das florestas virgens! Se permitirmos que se instale esta fatal perversão do discurso político, então, de cada vez que se nos anuncia uma “nova liberdade”, devemos temer uma alienação suplementar dos nossos direitos e cada reforma para “avançar mais um pouco”, pode mascarar um enorme passo atrás. São incontáveis as regressões que hoje avançam, mesmo sem sentir a necessidade de se mascarar: as “democracias liberais” laminam as liberdades públicas, metem nas prisões as crianças e os loucos, invadem países que não lhes causaram nenhum dano; os trabalhadores morrem no trabalho e não apenas em sentido metafórico; o fundamentalismo religioso e o obscurantismo prosperam; a incivilidade invade as ruas e os pátios de recreio; a cupidez obscena dos ricos destrói os sistemas financeiros e reduz os países pobres à miséria, etc. Para onde quer que olhemos, não podemos deixar de ver como um movimento regressivo se apodera do que até muito recentemente havíamos chamado “o progresso”.

 

Ao designar como “Grande Regressão” a mutação que se processou nas sociedades industriais no curso dos últimos trinta anos, pretendo fundamentalmente, o que pode parecer paradoxal, restabelecer o sentido real e o verdadeiro gosto da palavra “progresso”. Depois da intensiva lavagem ao cérebro que foi infligida à minha geração, para apagar todos os vestígios das lições da história, não se trata de uma tarefa muito simples. A resistência à marcha actual do mundo supõe a memória de um tempo em que um outro caminho parecia possível e a compreensão do que entretanto nos aconteceu. A história previne-nos de que nenhuma civilização está ao abrigo de uma amnésia colectiva capaz de cortar, durante um tempo muito longo, a via do progresso, eliminando todas as pontes com os saberes e as práticas acumuladas pelas gerações anteriores. Jane Jacobs (1) sublinha, a justo título, que este improvável esquecimento generalizado é a síndrome mais flagrante dos sobreviventes das civilizações mortas; não só perderam irremediavelmente os instrumentos, as técnicas, e as instituições dos seus antepassados, como a própria ideia do que foi esquecido, a consciência de que algo se perdeu. É por isso que, quando uma sociedade que ficou, durante longo tempo, armadilhada neste esquecimento, - como aconteceu com o Ocidente na Idade Média – refaz o seu contacto com a herança perdida, falamos de um Renascimento, pois é como se fosse um recém-nascido que precisasse de reaprender a pensar. Porque a cultura de uma sociedade humana não é um simples pacote de informações que bastasse ser reinstalado no cérebro para o restaurar; é um conjunto complexo de saberes, intelectuais, manuais e sociais que se adquirem pela educação, a aprendizagem, o exemplo e a experiência, sem as quais a totalidade da informação disponível é praticamente inutilizável.

 

Jacobs não hesita em prevenir o povo americano de que o seu domínio de todas as técnicas de armazenamento e tratamento da informação, não o previne minimamente contra o advento de uma nova Idade Média (2), uma perda durável da civilização. Mesmo se uma simples porta USB pode hoje conter uma enciclopédia das ciências contemporâneas, ela não é mais do que uma “memória morta” (3), a qual não serviria para grande coisa se fosse interrompida a cadeia de transmissão e de aprendizagem da compreensão do mundo entre as gerações.

 

Porventura, Jacobs será, intencionalmente, demasiadamente alarmista no que se refere à eventualidade de um afundamento do saber-fazer técnico. Mas seja como for, não é desta eventualidade que pretendo falar neste livro. O perigo, muito real, de uma regressão da civilização procede do esquecimento de um saber-fazer social e político, de um saber-viver juntos que só pode ser conservado na inteligência e na sensibilidade dos homens. Bem podem preservar-se todos os outros traços aparentes da civilização, mas se perdermos o desejo de fazer progredir a igualdade, a solidariedade e convivialidade entre os homens, a mais avançada das sociedades pode, com demasiada facilidade, recair na barbárie: foi essa a grande lição do século XX onde se viu povos – oh quão brilhantes pela sua cultura! – abismar-se no horror totalitário. Esta lição pode ser resumida assim: entre os seres humanos, o único progresso que verdadeiramente conta é o progresso social, no sentido mais amplo do termo, ou seja, a sua capacidade de fazer sociedade, viver com os outros e todos em conjunto. Sem este progresso, o desenvolvimento das ciências e das técnicas não protege nenhuma civilização contra uma regressão e, pior ainda, pode engendrar a sua destruição. Quando os humanos perdem de vista a prioridade que presidiu ao próprio processo de hominização – a constituição e o reforço da sua aliança – e se dedicam ao culto da acumulação e da competição, então o florescimento das suas técnicas pode conduzir, pelo contrário, a capacidade de se combaterem entre si e esgotarem a Terra e todo o sistema ecológico a que devem a vida. Assim morrem as civilizações, ou pela guerra, ou pelo esgotamento do seu ecossistema.

 

Eis a razão pela qual, mais do que qualquer outra, é a memória viva dos nossos saber-fazer sociais que importa preservar e transmitir. Isto foi verdadeiro para todas a civilizações passadas. E é-o ainda, e de forma mais urgente, para as de hoje, porque aquilo que se joga, na nossa capacidade, ou falta dela, de centrar o progresso humano sobre o viver juntos, não é apenas a sobrevivência desta ou aquela civilização, mas a sobrevivência da humanidade. Com efeito, a nossa capacidade de exploração do mundo material está a atingir os seus limites. O projecto moderno de uma Natureza dominada pela razão e pela técnica, desenvolveu-se com tamanho “êxito” durante três séculos que chegámos ao momento em que múltiplos limiares críticos para a sobrevivência da espécie já foram ultrapassados ou estão em vias de o ser a muito curto prazo (desflorestação, empobrecimento dos solos, esgotamento das reservas fósseis, poluição da atmosfera e dos fundos marinhos, recuo da biodiversidade, desaparição dos lençóis freáticos, etc.). Se já foi tão difícil para a humanidade evitar as guerras, em tempos de relativa abundância de recursos naturais, o que poderá acontecer num mundo onde o simples acesso à água, aos alimentos ou a um clima suportável, se torne cada vez mais problemático. A superação dos desafios ecológicos e dos conflitos potenciais que contém supõe obviamente uma bifurcação radical dos nossos sistemas económicos e sociais, de forma a privilegiar a qualidade de viver juntos, em lugar da acumulação privada dos consumos materiais, isto é, privilegiar os laços, em lugar dos bens (“les liens plutôt que les biens”). Isso implica uma utilização mais racional e ecónoma dos bens e, portanto, um uso mutualizado dos equipamentos que detemos vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas para os utilizarmos apenas durante algumas horas ou alguns dias por mês. O que implica conceber uma distribuição de recursos fundada sobre as necessidades reais e uma partilha equitativa em vez da livre concorrência. O “progresso social”, num sentido alargado, o saber-fazer na construção de relações equitativas e solidárias entre os homens é a chave do desafio ecológico. É esta evidência que a ideologia dominante procura, por todos os meios, apagar dos nossos espíritos, desde há uma trintena de anos, porque ela contraria o interesse imediato dos mais ricos que preferem a lei devastadora do mais forte e a lógica do cada um por si. Ora, as novas ameaças que pesam sobre o futuro da humanidade podem, muito paradoxalmente, vir a confortar a louco domínio dos privilegiados, em vez de o contrariar.

 

Com efeito, há uma armadilha insidiosa que ameaça a humanidade. A necessária tomada de consciência ecológica relativamente às ameaças acumuladas por séculos de produtivismo, longe de vir a recentrar os espíritos sobre o imperativo do progresso social, pode igualmente alimentar a ilusão de que a questão social se tornou secundária em relação ao problema da sobrevivência a humanidade. Esse é precisamente o perigo que toma corpo, nos nossos dias, quando a ecologia tende a pensar-se para além da clivagem direita-esquerda (ou liberais-conservadores no mundo anglo-saxónico). E embora tardiamente e às arrecuas, os reaccionários e aproveitadores do regabofe capitalista, não deixem de tropeçar nos ecologistas, eles não perdem a oportunidade de explorar o medo de um desastre planetário, exagerando inclusivamente a sua probabilidade depois de a terem persistentemente ocultado. Porque o medo da desordem e das catástrofes nunca apoiou as aspirações ao progresso social. Num mundo a ferro e fogo, exactamente como no interior de um cinema que se torne pasto de um incêndio, indivíduos aterrorizados e dissociados não reivindicam a justiça e a solidariedade, mas só querem salvar a pele e esperar o regresso à ordem. A vitória do medo sustenta sempre a direita conservadora, enquanto não chegam os fascistas. Em todos os tempos, as classes dominantes exploraram a assombração de uma invasão estrangeira, de uma catástrofe económica ou de um desastre natural para acalmar a exigência de justiça por detrás da preocupação pela ordem pública que sempre mascara a escandalosa desigualdade das condições de vida sob o factício interesse geral da sobrevivência (4).

 

Regressarei mais tarde sobre este governo pelo medo. Mas, por ora, vou insistir de novo sobre o risco de amnésia. Um choque qualquer e um grande medo colectivo podem engendrar reacções de pânico, reacções conservadoras, e sufocar momentaneamente os apelos e as aspirações ao progresso social. Não podem, no entanto, sufocá-los duradouramente se uma parte da população mantiver a compreensão do que aconteceu, entender que a negligência anterior em relação à justiça e ao vínculo social teve a sua fonte nas catástrofes sofridas e conceba que outro mundo e outras políticas são possíveis. Esta inteligência e a perduração desta memória parecem ter sido operantes, a seguir à Segunda Guerra Mundial, quando se viu os governos ocidentais proceder à contestação e à reforma do sistema económico e social que estivera em vigor antes da guerra.

 

O que aconteceria ao capitalismo se, nestes tempos de crises financeiras recorrentes, de desumanização do trabalho, de saqueio do mundo vivo por investidores em busca de lucros relampejantes, de deslaçamento dos vínculos sociais, de injustiças gritantes, de desordem internacional, etc., que aconteceria ao capitalismo se subitamente fossemos inspirados pela recordação dos nossos avós e conviéssemos na necessidade de uma bifurcação histórica para uma outra sociedade? Qual seria o futuro dos exploradores da nossa economia inumana se compreendêssemos, retrospectivamente, que a sabedoria dos nossos avós foi a de nos afastar tanto quanto lhes foi possível do capitalismo e que o seu testamento tácito nos lega a tarefa de completar o trabalho e inventar outra coisa? Levantar estas questões é responder-lhes.

 

Essa é a razão pela qual os artesãos da Grande Regressão se empenham tão activamente na ridicularização da recordação de outro mundo, em espalhar um nevoeiro cerrado na memória dos sobreviventes de uma época em que o progresso social parecia, mais do que desejável, possível! A recente e insistente dedicação ao “dever de memória”, e inclusivamente, de “arrependimento” por todos os crimes dos nossos antepassados, não deve iludir-nos. É precisamente quando o horror do mundo presente se arrisca a despertar a recordação de outros mundos possíveis, que os exploradores se dedicam à tarefa de ocupar as nossas memórias com lembranças escolhidas suficientemente nebulosas e dolorosas para nos saturar de emoção, adormecer a nossa reflexão e neutralizar outras recordações mais subversivas. Nenhum ser dotado de uma mínimo de sensatez deveria sentir-se culpado ou responsável por crimes cometidos por quem o precedeu. Se há quem se dedique com tanto empenho a despertar estes sentimentos insensatos, é simplesmente para nos desviar do único “trabalho de memória” que seria útil, se nos possibilitasse a compreensão de onde vem o mundo em que hoje vivemos. Esse é precisamente o trabalho proposto neste primeiro capítulo.

 

 

Não era o paraíso, apenas o progresso

 

Na parte que me toca, não esqueci nada.

 

Cresci num mundo onde o progresso social consistia em trabalhar menos para viver melhor, ganhando mais e alargando os direitos dos trabalhadores à protecção social. Era um tempo em que os accionistas não tinham todo o poder de impor a intensificação do trabalho, a baixa dos “encargos” sociais ou fiscais e o recuo dos salários. Um tempo em que os detentores de capitais não dispunham de toda a liberdade de deslocalizar ao seus investimentos, nem de especular, em toda linha, sobre o preço dos imóveis ou sobre as cotações de produtos financeiros compostos não se sabe bem por quê nem por quem. Aos investidores insatisfeitos só lhe restava ter paciência e os ricos suportavam sem pestanejar taxas de imposição quase confiscatórias sobre os rendimentos mais elevados (regularmente superiores a 70% ou 80%). Nesse tempo não era fácil emigrar para outros céus mais clementes para o capital: os movimento de capitais eram estritamente limitados e vigiados. Os governos podiam, pois, governar e os empresários empreender sem serem obcecados pela rentabilidade do capital.

 

Nesse tempo, o poder de compra operário duplicava em cada vinte anos e toda a gente tinha trabalho; o senso comum pensava que os serviços colectivos (energia, transportes colectivos, telecomunicações, correios, etc.) deveriam, de um modo ou de outro, ser assegurados ou enquadrados pelos poderes públicos; não havia falta de dinheiro para financiar os bens públicos: construíam-se mais casas de juventude do que prisões; não havia “crises financeiras” repetitivas nem motins nos subúrbios; não nos cruzávamos com trabalhadores pobres em todos as esquinas de ruas…

 

Não se tratava do paraíso! Mais adiante, insistirei sobre tudo o que impede considerar esta época dos “Trinta Gloriosos” como um éden desaparecido e a reencontrar. Não era o paraíso, mas era o progresso! De onde provínhamos, com efeito? Da súbita aniquilação de quase três séculos de avanço da modernidade. A geração dos meus avós sabia o que havia custado ter abandonado a sociedade, a economia e as relações internacionais ao poder do dinheiro e da livre concorrência: a Grande Depressão, a miséria social, a ascensão do fascismo e do nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Por isso, ela empreendeu afastar-se, tanto quanto fosse possível, do sistema e das políticas que tinham engendrado estas tragédias; ela concebeu um novo contrato social, na linha das reformas que tinham sido instituídas com o New Deal, na América, e com a Frente Popular em França; lançou a constituição de uma ordem internacional fundada sobre o direito (ONU), a negociação multilateral e a cooperação financeira (FMI, Banco Mundial). Entretanto, na Europa, a rivalidade secular entre a Alemanha e a França recuava em prol de uma cooperação económica que daria origem ao nascimento da Comunidade Económica Europeia.

 

Contrariamente ao discurso ortodoxo, a prosperidade e os progressos sociais realizados durante os Trinta Gloriosos, não manifestaram, de modo algum, a pretensa superioridade do capitalismo e da economia de mercado. Eles manifestaram, pelo contrário, tudo o que uma sociedade pode ganhar em afastar-se tanto quanto possível do capitalismo e da economia de mercado. As reformas e as convenções sociais e políticas do pós-guerra instituíram, com efeito:

- a socialização parcial da economia (desenvolvimento do sector público nacionalizado, submetido a uma regulação pública);

- o desenvolvimento da segurança social;

- um controlo público estrito do financiamento da economia (pela via da política monetária e da regulamentação das transacções financeiras);

- o enquadramento público do preço dos bens de consumo de base, dos arrendamentos, dos baixos salários, da energia e do dinheiro (taxas de juro);

- a extensão dos direitos dos assalariados e das férias pagas e a redução progressiva do tempo de trabalho semanal;

- uma forte redistribuição pública dos rendimentos (através da fiscalidade progressiva e das transferências sociais);

- uma partilha dos ganhos de produtividade das empresas mais favorável aos assalariados (fordismo);

- políticas orçamentais activas para fazer face a toda a recessão (“políticas keinesianas”);

- comprometimento directo ou indirecto dos Estados nas políticas industriais e de inovação tecnológica, por vezes com a ajuda de organismos de planificação;

- a organização de um sistema monetário internacional garantindo a estabilidade das taxas de câmbio (graças às intervenções dos bancos centrais e à convertibilidade do dólar em ouro a preço fixo).

 

Uma economia em que os principais preços não são livremente determinados por negociações nos mercados, não é uma “economia de mercado” (5). Uma economia em que uma parte considerável da produção releva de organizações não capitalistas (empresas ou agências públicas, mutualidades, cooperativas) e na qual as firmas capitalistas não podem determinar arbitrariamente os salários, o tempo de trabalho ou a localização dos seus investimentos não é propriamente “capitalista”. É uma economia administrada por engenheiros, funcionários e quadros dirigentes que não obedecem à discricionariedade dos capitalistas. É uma economia onde o conceito teórico de “mercado” tem um alcance limitado porque o essencial das operações não é determinado pelas trocas entre indivíduos independentes, mas por relações hierárquicas no seio de organizações e pela concorrência desigual entre elas (Jonh K. Galbraith já demonstrara tudo isto em 1960 (6)). Recordemos ainda que, até ao começo dos anos 1970, o comércio internacional se desenrolava num quadro relativamente proteccionista. A notável contribuição das trocas internacionais para o crescimento mundial não resultava, então, do “livre-câmbio”, mas do seu contrário: uma competição limitada entre um pequeno número de grandes países que desenvolviam políticas industriais voluntaristas, ao abrigo de tarifas aduaneiras, de protecções não tarifárias (regulamentações, normas, etc.) e de um controlo administrativo dos fluxos financeiros (controlo dos câmbios).

 

Por consequência, se durante os três decénios que se seguiram à guerra, houve progressos notáveis, eles nada devem às virtudes dos mercados auto-regulados do capitalismo, mas foram o produto de uma economia amplamente pilotada pelo Estado e “encastrada” na sociedade por normas e instituições sociais, como anunciava Karl Polanyi em 1944 (7).

 

Dito tudo isto, por muito notáveis que sejam estes progressos, eles não podem afastar da nossa memória a face sombria desses anos. A sociedade dos Trinta Gloriosos, saída dos compromissos e das reformas do pós-guerra, não era certamente uma sociedade ideal.

 

As desigualdades continuavam a ser muito acentuadas, mesmo quando recuavam para os homens brancos. Os direitos das minorias étnicas e das mulheres continuavam por construir ou por aplicar (mesmo quando eram formalmente reconhecidos). O anti-comunismo americano ou a razão de Estado europeia justificavam múltiplos atentados tanto à liberdade de expressão como de imprensa. O florescimento de uma sociedade de consumo de massa e a corrida desenfreada à acumulação de bens materiais aceleravam o esgotamento dos recursos não reprodutíveis e a degradação do ecossistema. Já desde os anos 1960, Jane Jacobs se inquietava com uma urbanização pervertida pelo economismo que desumanizava as cidades americanas (8). Nas grandes cidades ocidentais, a “gettoização” de certas minorias, a criação de zonas, a decomposição da instituição familiar, provocava a insidiosa laminação dos laços sociais, da civilidade e da cidadania. A nova opulência do Norte coincidia com o subdesenvolvimento do Sul, submetido a uma pressão demográfica sem precedentes. Os ricos do Norte, antes de se preocuparem com uma verdadeira ajuda aos países do Sul, apressavam-se sobretudo a instalar (a pedido ou à força) governos anticomunistas e/ou ao serviço dos seus interesses económicos ou estratégicos. O imperialismo americano provocava devastações no Vietname e na América Latina, a França espezinhava os direitos dos povos e os direitos do homem na Argélia. A paz internacional resultava não da amizade entre as nações e os povos soberanos, mas de uma partilha do mundo entre duas hegemonias e do “equilíbrio do terror”.

 

Numa palavra, esta lista sumária de pontos negros poderia estender-se ainda mais, mas não se trata aqui de fazer um inventário: trata-se de sublinhar porque razão nunca podemos considerar esta época como o exemplo de uma melhor sociedade à qual deveríamos regressar. Tanto mais que um tal “regresso” não tem nenhum sentido. Nenhuma sociedade remonta no tempo e é importante compreender o sentido desta trivialidade cronológica: o presente é o filho do passado. Se tivéssemos a capacidade de reproduzir as condições que prevaleciam numa fase precedente, apenas restauraríamos o contexto que engendrou a sociedade actual. Se a sociedade em que vivemos tem todos os traços de uma sociedade inumana, há mais que fazer do que lastimar o regresso impossível ao mundo que preparou a sua chegada. Não convido o leitor a cultivar uma nostalgia dos Trinta Gloriosos, mas apenas a que proceda a uma análise desse período. Trata-se de extrair daí algumas lições que nos ajudem a transformar a sociedade de hoje, de forma a escapar precisamente à Grande Regressão em que desembocaram esses anos famosos.

 

Prossigamos, pois, a análise com uma primeira lição que podemos tirar desses três famosos decénios. A despeito de inúmeros pontos negros, esses anos foram anos de progresso humano porque a geração do pós-guerra teve a sabedoria de recusar o culto do mercado e de se afastar significativamente do modelo capitalista que havia prevalecido antes da guerra. Por outro lado, cada uma das malfeitorias que evocámos atrás, suscitava uma tomada de consciência, um debate, e desencadeava um movimento de resistência. O campo do progresso distinguia-se, sem dificuldade, do campo conservador.

 

Nos Estados Unidos, os persistentes vestígios da escravatura suscitavam, como reacção, o movimento dos direitos cívicos; a guerra do Vietname defrontava-se com a hostilidade crescente por parte do povo americano. Face ao domínio masculino, as manifestações feministas ganhavam força e audiência. A Igreja católica abria-se às reivindicações de autonomia individual e de igualdade social (Concílio de Vaticano II, 1962-1965) e, por vezes, passava para o campo dos pobres, após séculos de servilismo interesseiro perante os poderes dominantes. Perante o imperialismo, os países em desenvolvimento uniam-se afim de recusar o alinhamento com as grandes potências. Face à injustiça das relações económicas internacionais, o movimento para uma “nova ordem económica internacional” ganhava amplitude; estava na ordem o dia na ONU dos anos 1970. Nessa mesma época, com os relatórios do Clube de Roma e a forte ascensão dos movimentos ecologistas, o mundo ocidental tomava consciência dos desgastes do produtivismo sobre o nosso ecossistema. Dito de outro modo, no final dos anos 1970, estávamos na posse dos elementos que permitiam estabelecer um duplo inventário: o dos progressos realizados, graças a uma primeira domesticação do capitalismo e dos mercados, e, em sequência, dos novos progressos que faltava cumprir.

 

Se estávamos, então, muito longe de uma sociedade justa, pacificada e capaz de legar às gerações futuras um ecossistema viável, era porque vivíamos ainda no começo do caminho tomado depois de 1945; seria necessário ter ido mais longe, afastarmo-nos mais radicalmente de uma sociedade comandada pelas mercadorias, conter com maior segurança a rivalidade entre as nações e as tentações hegemónicas. Teria sido necessária mais igualdade, maior preocupação com os bens públicos, mais democracia real, mais cooperação entre os povos, mais solidariedade e menos competição, maior atenção à qualidade dos laços sociais e menor apetite pelo consumo material que favorece sobretudo uma minoria de privilegiados, mais internacionalismo e menos nacionalismo.

 

Ora, em lugar desse novo salto em frente do progresso humano, na passagem dos anos 1970 para os anos 1980, o mundo iniciou uma viragem de 180º e tomou o caminho inverso: deu um enorme salto à retaguarda e estendeu ao planeta inteiro, não o que havia alimentado o impulso do progresso, mas o que de novo, o impossibilitaria, a saber: o produtivismo, a arbitrariedade do capital, o culto do desempenho individual, a rivalidade exacerbada dos indivíduos e das nações, a guerra económica e a mercantilização de todas as actividades humanas. Este regresso em força da desordem económica e social iria despertar os medos que fazem o leito do obscurantismo, dos integrismos religiosos, dos populismos fascizantes e do racismo, numa palavra, da imbecilidade servil.

 

A grande arte dos gurus, dos marchantes e dos governantes que impuseram esta inversão foi a de operar a transmutação desta regressão geral numa nova e necessária via de progresso. A grande questão é a de saber como esta derrota da razão conseguiu impor-se sem uma resistência significativa.

 

 

A vitória das ideias falsas

 

Como e porque razão tal reviravolta do mundo pôde acontecer nesse momento? Porque a cultura e as relações de força políticas que tinham prevalecido no pós-guerra haviam sido transtornadas pela evolução do mundo. Mais adiante, porei em evidência as raízes mais profundas e mais antigas deste fenómeno, mas precisamos, em primeiro lugar, compreender o mecanismo que possibilitou que ela fosse desencadeada nessa época precisa.

 

Recordemos, para começar, que durante os Trinta Gloriosos, os conservadores haviam tolerado políticas, na realidade, mais socialistas do que capitalistas, porque elas permitiam conter uma ameaça comunista perfeitamente credível. Por outro lado, graças a condições históricas excepcionais, as políticas sociais progressistas eram compatíveis com um forte crescimento, sem excesso de inflação, e, por isso, com a manutenção de lucros reais.

 

Ora, a partir dos anos 1970, os capitalistas e os conservadores deixaram de ter qualquer boa razão económica para apoiar o regime que se instalara no final da guerra. A desaceleração dos ganhos de produtividade (desde 1965 (9)), o forte acréscimo dos custos salariais (finais dos anos 1970), os choques petrolíferos (1974, 1979) e a aceleração da inflação, acabaram por laminar a rentabilidade dos capitais até ao ponto em que os seus detentores começaram a exigir uma reorientação radical das políticas, em seu favor. Para restaurar a rentabilidade, era preciso limitar a imposição fiscal sobre o capital, travar a inflação, encontrar saídas para os excedentes e baixar os custos da mão-de-obra. O escoamento dos excedentes poderia fazer-se no estrangeiro (levantando os obstáculos à livre circulação dos bens, dos serviços e dos capitais), como internamente (privatizando e/ou abrindo à concorrência serviços colectivos, como a educação, a saúde, os seguros sociais, as telecomunicações, os transportes públicos, a distribuição da energia, etc.). A baixa dos custos do trabalho supunha a redução dos salários ou o emprego, a intensificação do trabalho, o recuo dos direitos sociais e das cotizações sociais. E para quebrar a resistência dos assalariados bastava expô-los à concorrência do resto do mundo.

 

O momento era oportuno para desencadear esta inversão das políticas, porque, após o primeiro choque petrolífero, a desaceleração da actividade e o forte aumento do desemprego limitavam a capacidade de resistência dos sindicatos e semeavam a dúvida sobre o regime económico e social em vigor. Aliás, nos anos 1970, os capitalistas e os governos ocidentais já não tinham necessidade de fazer concessões às ideias socialistas para contrabalançar o poder de sedução sobre a classe operária e sobre os intelectuais. Porque a sedução já se tinha transformado em desilusão ou mesmo repulsa. A informação crescente sobre a perseguição dos opositores nos países comunistas juntamente o com o patente fracasso económico da planificação soviética, tinham acabado de convencer muita gente de que era melhor ser operário numa democracia capitalista do que numa ditadura comunista. Em 1969, os americanos marchavam na Lua; enquanto os soviéticos se arrastavam nas filas de espera de armazéns semi-vazios. A União Soviética, estagnada no marasmo económico, já não tinha condições para financiar a corrida ao armamento nuclear e à conquista espacial sem uma maior deterioração da situação social interna. Já não podia conservar por muito mais tempo a possibilidade material de sustentar o seu papel de super-potência e garantir a imposição do seu modelo na sua própria zona de influência. Na veia do sulco aberto por Soljenetisyne (L’Archipel du Goulag, publicado em 1973) a denúncia dos crimes comunistas e dos sistemas totalitários ocupava o grosso do debate intelectual.

 

Deste modo, a ideologia e o sistema concorrente da economia de mercado capitalista perdiam toda a sua força de atracção; muito rapidamente (nos anos 1980) afundaram-se pura e simplesmente e deixaram o campo livre ao regresso em força de um capitalismo descomplexado, seguro da sua superioridade universal e decidido a pôr em causa todas as concessões feitas aos “socialistas” após a Grande Depressão e Segunda Guerra Mundial. No entanto, será bom recordá-lo, o declínio ideológico e político do bloco comunista não demonstrava minimamente a superioridade do mercado livre e do capitalismo (10). Demonstrava, pelo contrário, a superioridade momentânea do compromisso histórico entre socialismo e capitalismo instaurado nas democracias ocidentais em 1945. Seria este compromisso que deveria ter sido bem acolhido na opinião pública ocidental face ao declínio do modelo concorrente. Mas os capitalistas e os conservadores aspiravam doravante a um questionamento radical deste compromisso. Precisavam de reescrever a história mais ou menos nestes termos: a revelação dos horrores estalinistas não deveria sobretudo tranquilizar-nos sobre as virtudes do nosso modelo social misto; ela deveria, pelo contrário, prevenir-nos contra a ameaça que se ocultava sob os compromissos que os nossos pais haviam concedido aos comunistas depois da guerra. Eis como eles exploraram habilmente o contexto da época, de forma a conseguir que o descrédito geral do comunismo se transmutasse numa desconfiança sistemática para com o Estado, os funcionários, os impostos, os serviços públicos, as regulamentações, etc..

 

O ambiente geral dos anos 1970 era propício a esta ofensiva reaccionária porque os povos ocidentais tinham algumas boas razões para duvidar do seu próprio sistema: explosão do desemprego, aceleração da inflação, instabilidade financeira internacional (11). Por outro lado, os velhos países industriais viam os seus mercados cada vez mais contestados pelos novos países industriais asiáticos e latino-americanos. Os conservadores e os ideólogos do mercado podiam, com toda a facilidade espalhar a ideia de que o Estado providência, as políticas keynesianas, a regulamentação dos mercados, etc., já não ofereciam condições de garantir a prosperidade e o pleno emprego. Esta forma de pensar a economia, explicavam eles, é “arcaica” e inadaptada à intensificação da concorrência internacional. Foi assim que estes auto designados “modernos” conseguiram o feito de “actualizar” a nossa cultura económica, substituindo a doutrina dos nossos pais pela dos nossos avós! O seu “novo” discurso reactivava, de facto, o pensamento ortodoxo dos anos 1920, pensamento cujos diferentes elementos fundadores foram avançados entre meados do século XVI e finais do século XVIII! É óbvio que não proclamaram estas referências ainda mais cobertas de pó do que aquelas cujo arcaísmo denunciavam. Puseram em evidência pretensas “novas” escolas fundadas, depois de Keynes, pelos “monetaristas”, os “novos clássicos” ou ainda os defensores de uma denominada “economia da oferta”.

 

O contributo destas antigas novidades pode resumir-se em alguns princípios:

 

- o indivíduo é um homo economicus racional que procura o máximo da satisfação e é capaz de atingi-la se lhe derem tempo para isso;

 

- a livre concorrência dos interesses privados assegura um equilíbrio geral estável de todos os mercados e o melhor emprego possível dos recursos (pleno emprego, nenhum desperdício, repartição óptima dos meios disponíveis);

 

- a eficácia da livre concorrência é igualmente válida nas relações internacionais onde deve reinar a perfeita flexibilidade das taxas de câmbio, a livre troca dos bens, dos serviços e dos capitais;

 

- os únicos problemas económicos e sociais duradouros provêm, portanto, dos entraves ao mercado livre que constituem os encargos fiscais e sociais, as leis, as regulamentações e as políticas públicas;

 

- as políticas keynesianas de apoio à procura global são, por consequência, inúteis, ineficazes e prejudiciais; implicam empréstimos (dívida pública) que limitam e encarecem os fundos disponíveis para os investidores privados; ou são financiados pela criação monetária que engendra a inflação; é apenas a oferta de bens, de capital e de trabalho que pode estimular os actores privados, desmotivados pelo peso dos impostos e das regulamentações;

 

- é, pois, conveniente, instalar um “Estado mínimo” que garanta unicamente os serviços colectivos a que o mercado não pode dar resposta (polícia, justiça, defesa nacional); a Constituição deverá proibir os deficits públicos: a política monetária deve ser conduzida por um Banco Central independente do poder político e com um único objectivo, a estabilidade dos preços.

 

Devemos repeti-lo, esta nova doxa não representa nenhuma inovação intelectual, mas é apenas a restauração de um antigo corpo de ideias e de prescrições sabiamente posto em questão pelos nossos avós perante a catástrofe económica e social a que ela tinha conduzido o mundo nos anos 1930. O verdadeiro problema desta doutrina não é evidentemente o de que seja velha, mas unicamente o de que é falsa e perigosa.

 

No decurso da primeira parte do século XX, os progressos reais da ciência económica (12) começaram por elaborar uma longa lista de excepções necessárias ao funcionamento do princípio de auto-regulação pelos mercados livres (serviços colectivos, indústrias com rendimentos crescentes, situação de recessão); na segunda parte do século, foi finalmente estabelecida a impossibilidade geral de tal auto-regulação, tendo sido posta em evidência, entre outras: a impossibilidade de reunir as condições necessárias ao funcionamento de mercados concorrenciais, a irracionalidade do comportamento económico dos indivíduos; a ineficiência da livre concorrência e do livre-câmbio; o papel essencial do Estado e dos bens públicos, das instituições e das convenções sociais no desenvolvimento; a necessidade e a eficácia das políticas macroeconómicas, etc.. A lista dos trabalhos que demoliram, um a um, os fundamentos da teoria de referência dos conservadores é interminável! A tal ponto que se torna inclusivamente difícil de sustentar a ideia de uma “economia de mercado” regulada, isto é, um sistema que repouse principalmente sobre os mercados, mas apoiado por intervenções políticas para os corrigir. Com efeito, pode sustentar-se com James Galbraith que

 

na realidade, as correntes da moderna ciência económica universitária são infinitamente mais devastadoras. Cada um dos problemas que acabo de citar nada tem de acidental; eles são omnipresentes. Tomados em conjunto, eles levam a duvidar muito seriamente que possa acontecer que os mercados funcionem. Melhor dizendo: vistos globalmente, estes problemas constituem uma crítica devastadora do próprio conceito de mercado(13).

 

Acrescentemos que o progresso dos conhecimentos científicos sobre o funcionamento do cérebro e sobre os comportamentos humanos não cessou de aniquilar o modelo antropológico do homo economicus, esse átomo humano perfeitamente autónomo e racional (14). Ora, ao demolir esta falsa concepção do homem, a ciência pulverizou os dois pilares da retórica neo-conservadora: a sua teoria dos mercados livres e sua filosofia da responsabilidade individual.

 

Eis o primeiro indicador de uma grande regressão psíquica e cultural que se iniciou no começo dos anos 1980: neste mundo ocidental que, desde há três séculos, proclamava o necessário reinado da razão, as elites intelectuais e os governos restauraram e promoveram uma antiga doutrina económica e social, no momento preciso em que esta acabava de ser integralmente invalidada pelo factos e pelos conhecimentos. Não foi uma nova ciência da sociedade, acessível à razão, que foi instalada, mas um culto irracional do mercado que exige uma fé cega e hermética em relação a todo e qualquer debate razoável. Não falo numa “nova religião” porque a religião (do latim religare) tem por função social primária ligar os humanos. Ora (irei mostrá-lo), o culto do mercado tinha ao contrário por função desligar totalmente os indivíduos, tal como faz uma seita, para garantir mais eficazmente a submissão dos adeptos aos seus gurus. Foi assim aberta uma nova era de obscurantismo sectário.

 

Mas não devemos iludir-nos sobre o objectivo destes grandes sacerdotes da nova política: a difusão dos seus dogmas não passa de um instrumento posto ao serviço de outros fins. Como em todas as seitas, os grandes sacerdotes procuram apenas consolidar o seu poder e/ou a sua fortuna; que as suas prédicas tenham algum fundamento é algo que não tem a mínima importância; não transmitem a suas ideias porque elas sejam justas e aplicáveis, mas apenas porque elas permitem contar uma história na qual um significativo numéro de crentes tem vontade de acreditar. Foi precisamente assim que procederam os artesãos da reviravolta da opinião em favor do mercado livre e da desregulação do capitalismo.

 

 

Uma contra-revolução neo-conservadora

 

Para os detentores do capital tratava-se de tirar o máximo proveito de um momento particularmente favorável para abolir as antigas concessões feitas aos trabalhadores e relançar a rentabilidade financeira. Para os políticos conservadores, tratava-se de retomar ou reforçar o seu poder, explorando a crise de modelo de economia mista e a ascensão do individualismo. Mas, nem uns nem outros iriam comprometer-se na sua batalha política, contando aos cidadãos uma história deste tipo: “A única coisa que nos interessa é reforçar o nosso poder e maltratar os assalariados para inchar cada vez mais os nossos lucros!” Contavam, pelo contrário, uma história edificante, no sentido de um apelo em sintonia com o ar o tempo, individualista, anticomunista, desconfiado do Estado, ávido de independência e de mercadorias. A doutrina do mercado livre, embora rigorosamente falsa e inaplicável, fornecia justamente uma narrativa coerente, que ia ao encontro das pulsões libertárias da sociedade, prometendo o progresso material para todos. Essa narrativa iria servir de caução científica a uma política cuja consistência não era nem é o mercado livre nem o recuo do Estado, mas a brutal submissão da sociedade às exigências de uma minoria obcecada pela acumulação do capital. E como esta mutação fazia explodir as desigualdades e as frustrações, era-lhe necessária uma justificação moral, uma contra-cultura que desacreditasse a igualdade, a solidariedade e sustentasse o culto do indivíduo rei e guerreiro, único responsável pela sua sorte, completamente irresponsável pela sorte dos outros, merecedor tanto das suas derrotas como do preço das suas vitórias.

 

Foi assim que não só sobreviveu, como se amplificou, o triunfo das ideias falsas. Com as anos Reagan-Tacther (e logo a seguir, ao anos Delors (15) para a União Europeia) uma contra-revolução “neo-conservadora” esforçou-se por instaurar no Ocidente – e impor ao resto do mundo – o mito do mercado livre sustentado por uma filosofia singular do mérito e da responsabilidade individual.

 

Uns atrás dos outros, a maior parte dos governos e dos jornalistas converteu-se ao novo dogma, com tamanho êxito que em muito poucos anos assistiu-se a uma total inversão dos valores e das políticas. Tudo aquilo que os meus pais tinham considerado como marcas de progresso (direitos sociais, serviços públicos, segurança social, regulamentações, redistribuição, melhoria das condições de trabalho, desenvolvimento do tempo livre, etc.) passou a ser apresentado como “arcaísmo”, “rigidez”, “encargos excessivos”, bloqueadores da “iniciativa” e da “criação da riqueza”. Os desempregados e pobres começaram a ser apontados a dedo como parasitas que vivem deliberadamente pendurados nas costas dos trabalhadores. Deixou de ser possível contar com o Estado, com normas colectivas ou com os bens públicos para construir a boa sociedade; devíamos contar apenas com nós mesmos, com os nossos esforços e os nossos talentos pessoais, desprezar a busca da segurança – uma ambição medíocre dos assistidos – amarmos o risco e aderir à nova regra do jogo social: que ganhem os melhores!

 

Aos espíritos nostálgicos temerosos da desordem social e internacional contida nesta apologia do “cada um para si”, era oposto o velho mito ultraliberal da auto-regulação pela concorrência, os contratos, as trocas, numa palavra, “os mercado livres”. Os mercados criariam bem mais riqueza do que qualquer economia administrada e toda a gente acabaria por apanhar o seu bocado; mesmo os menos dotados e os mais desfavorecidos acabaria por ver a sua sorte melhorar. Certamente que a sociedade seria mais desigual, mas a igualdade é um valor ultrapassado, produto de uma moral de preguiçosos. Porque as desigualdades contém duas virtudes. Primo, elas recompensam o esforço, a assunção de riscos, a sagacidade das escolhas individuais, numa palavra, o mérito pessoal, pelo que são “justas”. Secundo, incitando toda a gente ao esforço e destacando os melhores desempenhos, elas reforçam a eficácia global da sociedade (16).

 

Tudo isto veio a constituir a base de uma ideologia que muitas vezes foi etiquetada de “neoliberal” a fim de a distinguir do liberalismo clássico. Sugeri, sem grande êxito, o baptismo desta nova doutrina como “mercadismo” (em lugar de “neoliberalismo”) já que ela assenta fundamentalmente no mito de uma sociedade constituída por relações de troca entre átomos humanos ou grupos humanos independentes. Aliás, o termo “neoliberalismo” deixa entender que se trata de um “novo liberalismo”, o que representa um verdadeiro contrassenso filosófico e histórico. Deixo o debate filosófico para mais tarde porque, de momento, ocupo-me da narrativa daquilo que toda a gente pode verificar em matéria de mutação das políticas públicas. Tanto a configuração adoptada por estas políticas, como as alianças que se constituíram para as executar, são mais do que suficientes para as qualificar de “iliberais” ou como “antiliberais”, conforme se preferir. Ateus neofascistas, fundamentalistas religiosos, ultra-conservadores, “velhos reaccionários” e “novos reaccionários” (17) de todas as obediências vieram reencontrar-se, sem dificuldades excessivas, ao lado dos chamados “neoliberais” para apoiar as políticas que combinavam o recuo dos direitos sociais, atentados às liberdades públicas, redução das despesas sociais, inflação da políticas securitárias, islamofobia e “apartheid” comunitário.

 

Esta aliança entre os defensores da livre concorrência e de uma ordem moral sectária é muito mais natural do que possa parecer à primeira vista. Com efeito, quanto mais se pretende entregar uma sociedade à livre competição dos interesses privados, mais necessário se tornará preparar-nos para conter os conflitos e a violência através de normas e instituições repressivas. Assim, a revolução cultural dos anos 1980 foi necessariamente híbrida: Combinou uma utopia “neoliberal” de emancipação pelo “mercadismo” com uma concepção reaccionária da ordem social. Tornou, por isso, necessária uma aliança política entre os neoliberais que promovem a extensão planetária do comércio livre e da troca mercantil a todas as actividade humanas e os conservadores mais retrógrados que visam a restauração de um controlo social estrito das pessoas pela famílias, a religião e as comunidades através da repressão de todos do desvios à norma.

 

Em termos de “revolução”, tivemos uma dupla “contra-revolução”:

 

- uma desforra dos capitalistas e dos “mercadistas”, obcecados com a abolição de todos os progressos sociais consentidos depois da guerra;

 

- uma desforra dos tradicionalistas, dos religiosos e dos fascistas contra a liberdade dos costumes, a emancipação das mulheres, o reinado da razão, o florescimento do pensamento livre, do pluralismo e daquilo a que chamam o “laxismo” da geração anterior em relação aos desvios sociais, etc..

 

Assim se montaram os carris e o respectivo atrelado, capaz de nos voltar a encarrilar na boa direcção. Uma espécie de condensado de ultra-liberdade para o capital e de ultra-submissão para os espíritos. É claro que ninguém nos explicou os pormenores desta poção mágica nem, sobretudo, o vínculo consubstancial entre a liberalização dos mercados e a alienação dos indivíduos. Tal vínculo era tanto menos visível, quanto à certo que a poção nos foi administrada em dois tempos: era necessário que a liberalização do capital produzisse primeiramente o seu potencial de desordem social e moral para que pudesse seguidamente bramar-se pelo apelo à ordem.

 

Uma vez que se postulava que os mercados livres, secundados pela ordem moral, podiam garantir uma ordem social justa e eficiente, bastaria estender o seu domínio ao planeta inteiro para que o milagre da espontânea harmonia se cumprisse igualmente na ordem internacional. Os países em desenvolvimento deixariam de ter necessidade de mendigar ajudas públicas ao desenvolvimento. A libertação das trocas comerciais e dos movimentos de capitais engendraria um fluxo contínuo de financiamentos privados e de excedentes exteriores para todos os países que adoptassem o novo modelo ocidental. Uma tal conversão, e o crescimento que se lhe seguiria, não seriam o melhor garante da paz? Uma vez que a livre competição fosse alargada ao planeta inteiro, a corrida às mercadorias substituiria a corrida aos armamentos: “fazei negócios, não a guerra” seria o novo slogan da moda, menos sedutor mas tão eficaz como o antigo apelo “hyppie”.

 

Tal era a novíssima figura da modernidade ocidental na sua última perfeição: a sociedade dos indivíduos autónomos ordenada pelas virtudes da livre concorrência e a sociedade das nações pacificada pela doçura do comércio livre. Só bastava espalhar a boa nova através do mundo inteiro e converter todas as nações e este novo modelo (a bem ou à força). A maior parte das vezes à força, colocando os trabalhadores dos países industrializados e os governos dos países em desenvolvimento numa situação que aniquilava a sua capacidade de resistência.

 

O movimento de conversão forçada começou na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos pelo súbito endurecimento da política monetária (desde 1979) e a liberalização dos movimentos internacionais de capitais. O rigor monetário, imposto no momento em que um segundo choque petrolífero exercia já um efeito recessivo, provocou uma crise grave (1981-1982) e uma explosão do desemprego que permitiu quebrar a resistência dos sindicatos a uma baixa dos salários. A liberalização dos movimentos de capitais conferia subitamente aos seus detentores um poder de chantagem inédito: ou as empresas e os seus trabalhadores de submetiam à suas exigências e rentabilidade ou eles procederiam à deslocalização dos seus investimentos! Para continuar a “ser competitivos” – diziam eles – os governos da União Europeia alinharam, uns atrás dos outros, na política de desinflação e de desregulamentação financeira dos anglo-saxónicos. Seguir-se-ia muito rapidamente a privatização das empresas públicas e a extensão da livre troca aos serviço e à mão-de-obra (18). Após meio século de progresso no sentido de uma União Europeia este belo projecto afundava-se na criação de um espaço de guerra económica entre os povos europeus.

 

No anteriormente chamado Terceiro Mundo, a conversão forçada ao novo modelo anglo-saxónico foi obtida graças aos efeitos catastróficos da política monetária norte-americana sobre os países endividados em dólares (a maior parte das vezes com taxas de juro variáveis). Nos anos 1970, para apoiar regimes autoritários anti-comunistas, os países do Norte incitavam os seus bancos a emprestarem, sem fazer muitas contas, a inúmeros países da América do Sul. Resultado: uma explosão da dívida em dólares desses países, que ficaram à mercê de uma forte apreciação da moeda americana. Ora a política de rigor monetário com que os Estados Unidos se comprometeram tinha precisamente por efeito engendrar uma forte apreciação do dólar. Seguiu-se uma explosão do serviço do serviço da dívida dos países do Sul, no momento em que o abrandamento do crescimento mundial reduzia significativamente as receitas provenientes das suas exportações. Desde 1982, o México ficou sem condições de honrar a sua dívida a que se seguiu, no decurso dos anos 1980, uma longa lista de países sobre-endividados.

 

Aquilo a que então se chamou a “crise da dívida” constitui uma alavanca ideal para impor aos países do Sul o novo modelo exigido pelos capitalistas do Norte (foi o que se chamou “o consenso de Washington” (19) ). O FMI e o Banco Mundial “propuseram” com efeito, a estes países os famosos “planos de ajustamento estrutural”. Ora, para beneficiar de ajuda financeira e de novos empréstimos, os países sobre endividados deveriam comprometer-se com reformas que reduzissem a necessidade de financiamento criando uma ambiente favorável ao investimento estrangeiro e ao aumento das exportações, a saber: redução das despesas públicas e sociais, privatização das empresas públicas, rigor monetário, abertura à concorrência internacional, desregulamentação, livre entrada e saída dos capitais, redução dos impostos sobre o rendimento, privatização dos terrenos públicos ou comunitários para culturas de produtos exportáveis, etc..

 

Assim, desde meados dos anos 1980, a contra-revolução conservadora estava plenamente em marcha tanto no Norte como no Sul. A queda do muro de Berlim e o afundamento dos regimes comunistas vieram na boa ocasião, para levantar o último obstáculo que ainda dificultava a “mundialização” do modelo do homem branco americano. Fukuyama (20) podia, então, anunciar, sem se rir, o “fim da história”, happy end de uma comunhão universal dos povos no culto da mercadoria, da livre concorrência e da iniciativa individual.

 

Não foi o fim da história, mas o começo de uma tragédia.

 

 

Uma catástrofe anunciada pode esconder outra (21)

 

Em poucos anos, foram abandonados os valores e as regras que, durante os três decénios precedentes, tinham permitido combinar estabilidade económica e progresso social e restauraram-se os mitos que engendraram a Grande Depressão e a impotência das nações em ultrapassá-la a não ser pela guerra; pior ainda estendemos esta regressão ao conjunto do planeta. Os resultados desta loucura, previsíveis e mil vezes anunciados, não se fizeram esperar: regresso das crises, económicas ou financeiras, o aumento da pobreza e da precariedade social nos países ricos, a degradação acelerada dos ecossistemas, a explosão das desigualdades, etc.. Não vou insistir porque os capítulos seguintes descreverão os becos sem saída em que nos encerra o novo capitalismo mundializado. Pelo contrário, vou insistir nisto: o regresso previsível das catástrofes económicas e financeiras não constitui aqui a minha maior preocupação, mesmo se no momento em que escrevo estas linhas o capitalismo se afadiga na digestão dos malefícios de uma nova crise mundial. Com efeito, a famosa “crise”, por muito dura que seja para com as suas verdadeiras vítimas, não é nada de comparável em relação à patologia geral, social, moral e política sobre a qual quero advertir-vos; ela é simplesmente um avatar de um movimento muito mais vasto de regressão da civilização moderna, civilização que, como se no limite da sua vitalidade, começa a afundar-se e a enrolar-se sobre si mesma, como se estranhamente se tornasse uma vítima do seu próprio êxito.

 

Se tivéssemos apenas que preocupar-nos com o eterno retorno das crises do capitalismo, o problema não seria tão dramático: “bastaria” mandar para férias todos os especialistas em modernidade que nos têm enchido as orelhas com a fábula dos “mercados livres auto-regulados” e restaurar ou reforçar o tipo de instituições e regulamentações que anteriormente deram suas provas. Ora, o que acontece é que nem sequer esta simples solução de bom senso está hoje na ordem do dia; verifica-se, pelo contrário, uma obstinação quase geral em defender e aprofundar, e mesmo aperfeiçoar, um sistema catastrófico e esse é o primeiro indício de um mal muito mais temível do que a mera recorrência de recessões.

 

Todos os políticos, jornalistas, patrões e outros gurus reaccionários que nos enviaram contra o muro prometendo-nos a mundialização feliz, conservam hoje todas as oportunidades de domínio sobre a fábrica da opinião e das políticas públicas. Os neo-conservadores não parece estarem minimamente abalados, ou nem sequer ameaçados, pela falência total da suas políticas. No espaço de uma recessão, e para pasto das vítimas em fúria, imolaram, na praça pública, o seu bezerro de ouro (o mercado livre), fustigaram alguns excessos dos especuladores, denunciaram o laxismo da regulação financeira e as escandalosas remunerações dos “grandes patrões”. Mas se têm o dente afiado contra alguns capitalistas, é para melhor poupar o capitalismo apontando à cólera popular, um punhado de loucos e piratas que perverteram o “melhor dos sistemas”. Esta pantomina populista foi, mais ou menos, a única mudança política que se notasse. Porque, durante o mesmo período, os governos em nada alteraram a filosofia e a substância da sua política que continua a ter como objectivo perfazer a revolução neo-conservadora e colocar o poder público ao serviço dos interesses privados.

 

Nos Estados Unidos, o regresso dos democratas ao poder não produziu senão uma ligeira inflexão “social”, sem que pusesse em causa o sistema e raros são aqueles que denunciam o mito de uma “economia do mercado”, mito cuja função primacial é a de mascarar uma nova administração política ao serviço dos ricos (22). Na Europa ocidental, todos os governos nacionais e a Comissão Europeia estão determinados em prosseguir exactamente as mesmas políticas que vigoravam antes da crise, ou seja, as que a haviam engendrado! Salvam bancos da falência, falam em “moralizar” o capitalismo, mas entendem-se, na realidade, para preservar o sistema com o mínimo de desgastes; evocam a regulação dos mercados financeiros, mas impõem, de facto, uma políticas que vão de encontro às suas expectativas. Quanto à maior parte dos países emergentes, estão numa situação comparável à da Europa ocidental no fim da guerra com populações ávidas de consumo e de liberdade, após anos de penúria e ditadura; uma perspectiva de crescimento forte a médio prazo se copiarem o American Way of Life. Não é, por isso, desse lado que surgirá, a breve trecho, uma ampla contestação do “modelo” em vigor. Apenas alguns países da América Latina (23), esboçaram a procura de um outro modelo, a partir do início dos anos 1990.

 

Pelo caminho que o mundo leva, nenhuma crise económica, mesmo que mundial, parece estar em condições de perturbar os espíritos empedernidos que nos governam. Cada “crise” é declarada terminada, logo que um crescimento modesto se aguenta mais de seis meses, na Europa e, na América, após um breve impulso de gesticulação reguladora, o mundo retoma a sua marcha exactamente no mesmo quadro e na mesma direcção do que antes da crise. Isto é ir de encontro a novas catástrofes.

 

Catástrofe ecológica, em primeiro lugar. Não há dúvida de que a progressiva extensão do modo de vida americano à China, ao Brasil e à Europa do Este, etc. representa um potencial de crescimento excepcional capaz de atenuar uma crise. Mas é absolutamente certo que uma tal extensão não é sustentável pelo nosso ecossistema. Em termos de marca ecológica (24). Para alargar a todo o mundo o modo de vida americano, precisaríamos de cinco planetas de dimensão equivalente à da Terra. O que os grandes sacerdotes da mundialização feliz apresentam como solução é, na verdade, uma terrível ameaça para a humanidade. A urgência não é a de reencontrar o nosso “bom velho crescimento” mas a de preservar a capacidade dos nossos netos de continuarem a manter uma vida humana sobre esta única terra que é a nossa e oferecer-lhes uma nova perspectiva de um progresso verdadeiramente humano.

 

Mas a generalização planetária do “modelo” ocidental é insustentável por outras razões mais profundas e, por isso, menos espectaculares. A evidência dos becos sem saída económicos e ecológicos onde nos conduziu a mundialização capitalista pode mascarar, ao mesmo tempo, a perversidade mais geral deste sistema e a necessidade de ultrapassar a mera crítica do capitalismo para aprender o movimento mais amplo da civilização em que ele se inscreve. Os becos sem saída do nosso modelo de desenvolvimento são apenas os sintomas mais evidentes da irrazão da razão moderna, de uma patologia colectiva que se instalou no cerne da nossa civilização e que parece conduzir à sua própria destruição. É isso que pretendo demonstrar.

 

Assim, este livro não é tanto um livro sobre a “crise” que ocupa os nossos espíritos, mas uma reflexão sobre tudo aquilo que esta legítima preocupação se arrisca a ocultar. Em tempos de crise, concentramo-nos quase espontaneamente sobre as urgências: restaurar o emprego, diminuir a poluição, travar a vaga de suicídios no trabalho, evitar o afundamento do sistema financeiro, etc.. Numa palavra, atacam-se os sintomas ou visa-se a eficácia imediata. Trata-se de salvar o doente, não de escrever uma tese sobre a doença. Se o doente morrer, virá o tempo de escrever teses – ou não virá - porque neste caso o paciente em questão é a própria sociedade e ninguém pode fazer ideia sobre quando será que o pensamento pode regressar! Mas se o paciente sobrevive, se o tratamento dos sintomas for, de momento, eficaz, há um grande risco de que o mundo retome o seu curso comum, aguardando as próximas crises que acabarão por liquidar a sociedade humana. É para esconjurar esse risco que tento trazer aqui o meu contributo à acção que considero mais urgente: a reflexão. Porque, em tempo de crise, a única utilidade social de quem pensa reside em ser capaz de se abstrair da urgência enganadora e intimar os seus contemporâneos a pensar. Abordarei essa tarefa em quatro tempos.

 

O capítulo II despreza a espuma das crises presentes para perscrutar com maior profundidade a vaga de fundo sistémica que as transporta desde o alvorecer da sociedade industrial moderna. Veremos assim como a dinâmica do capitalismo e do “mercadismo” transporta consigo a engrenagem de uma regressão generalizada, oferecendo aos detentores do dinheiro e do capital um potencial inédito de domínio. A Grande Regressão começa a definir-se num momento determinado (os anos 1980) de uma longa história em que a pulsão dominadora do capital se defrontara com a resistência dos outros actores da sociedade: foi o momento em que todos os diques que procuravam conter o poder do dinheiro começaram a ser erodidos. Até então, o capitalismo tivera que adaptar-se às resistências da sociedade; doravante, é a sociedade que terá que adaptar-se às exigências dos gestores de capitais. Esta inversão da relação entre capitalismo e sociedade constitui a essência da Grande Regressão.

 

Veremos que se tratou de um processo político organizado e não de uma fatalidade histórica independente da vontade dos governantes. É preciso, por isso, proceder à desconstrução de dois mitos complementares que estruturam hoje a percepção comum: a “desaparição” das margens de manobra dos governos nacionais num mundo globalizado e a “necessidade” de atrair os ricos aos seus respectivos territórios. Durante os três decénios de domínio neo-liberal, o peso e o papel dos Estados, na verdade, aumentou, em lugar de diminuir. O Estado-Nação não recuou, foi privatizado, o seu poder foi mobilizado ao serviço de interesses privados. De facto, não é a intensificação “natural” da concorrência mundial que obrigou as nações a adoptarem as mesmas políticas neo-liberais; na realidade, foram estas políticas que instalaram a competição generalizada para quebrar as resistências e as barreiras que continham o poder do capital. A vaga de fundo que permanece ocultada por debaixo da espuma das crises é a vitória de uma estratégia de guerra social que deixou toda a sociedade à mercê das pulsões predadoras de uma minoria de ganhantes.

 

Os efeitos desta vaga de fundo que ainda hoje nos submerge serão analisados nos capítulos II e III. Não estamos confrontados com uma “crise”, mas com uma multiplicidade de desastres que afectam todas as dimensões de vida das sociedades e dos seres humanos: a economia, a finança, os ecossistemas, as relações sociais, a política, a saúde, o equilíbrio psíquico, a moral, as relações internacionais… A impressionante conjunção de todas estas desregulações não é uma coincidência: elas fazem sistema, participam numa espécie de marcha à retaguarda de civilização moderna. Ao deixar livre curso à fruição individual e à competição dos indivíduos, as sociedades modernas acabaram por acumular tantas desordens económicas, ecológicas, psicológicas e sociais que já não conseguem sustentar-se sem pôr em causa a liberdade e a democracia. O que é ainda mais perturbador é que, perante cada um destes becos sem saída onde se afundam as sociedades modernas, elas não descortinam caminhos que possam contorná-los e se obstinam na mesma regressão, para naufragar de novo nos mesmos escolhos. Assim se desenha uma armadilha sistémica que parece montada por uma vasta regressão da inteligência e por uma aliança política vitoriosa dos cínicos, dos fanáticos e dos imbecis.

 

Isto muda o modo de colocar a questão que forçosamente surge no estádio a que chegamos: como evitar a regressão? Há duas maneiras de a colocar. A primeira, secretamente comandada pela urgência da acção, interroga-se sobre a famosa “alternativa”. O que deve substituir-se a este sistema, a esta política e à ideologia dominante?

 

Em minha opinião, esta é a menos urgente das questões, porque desde há muito que as repostas possíveis são bem conhecidas, tanto mais que algumas delas já são hoje mesmo praticadas nas nossas sociedades. Elementos de resposta aparecem, desde logo, no próprio modo do pôr o problema e no meu livro L’Autre Societé, já desenvolvi amplamente todos os traços de uma alternativa contemporânea ao capitalismo e à ideologia neo-liberal. A nossa preocupação não é a de saber o que deve ser feito para evitar a regressão: sabemo-lo, podemos fazê-lo, mas não o fazemos! Esse é o único verdadeiro enigma. Por isso, não vou, mais uma vez, desenhar pormenorizadamente o caminho para o qual devemos bifurcar, mas interrogar-me sobre as condições e sobre a própria possibilidade dessa bifurcação. Porque a existência de um outro caminho possível não cria, só por si, o movimento colectivo necessário para mudar radicalmente de direcção e ultrapassar as resistências de todos aqueles que mantém o seu interesse no statu quo. Pode muito bem acontecer que uma grande maioria que teria o maior interesse nessa bifurcação não conheça ou não disponha dos meios políticos que lhe permitiriam reivindicá-la.

 

Essa é precisamente a situação paradoxal da Grande Regressão nas sociedades pretensamente democráticas em que vivemos: enquanto uma minoria tira descaradamente todo o proveito de uma dinâmica destrutiva para a vida do maior número, não emerge nenhuma força política maioritária que possa impor uma outra via! Mesmo em pleno desastre, quando a casa do capitalismo está a arder, poucos moradores pensam em abandonar a casa e deitar os pirómanos pela janela fora: nas eleições europeias de 2009, em plena crise, os cidadãos dos 27 países membros da União voltaram a conferir plenos poderes aos mesmos incendiários! E os cidadãos americanos não se perturbam por ver nos postos de comando do conselho económico da administração Obama cinco figuras emblemáticas das políticas neo-liberais desenvolvidas desde os anos 1980 (25). Apesar de o sistema económico e social instaurado desde há trinta anos se revelar catastrófico, os eleitores não parecem dispostos a mudá-lo!

 

A partir desta constatação desconcertante, aqueles que tiram partido da regressão deliciam-se na defesa da tese de que “não há outro sistema possível” (TINA, “there is no alternative”); porque, dizem eles, se existisse alguma alternativa que fosse vantajosa para o maior número, o partido político que a propusesse, já teria há longo tempo e, para sempre, ganho as eleições.

 

Quem acredita que é possível uma outra via e mais conforme às aspirações do maior número, deve, por isso, e com a maior urgência, deixar para mais tarde todos os estudos supérfluos sobre os últimos aperfeiçoamentos do seu programa e atacar o enigma com que se deliciam troçam os seus adversários. Como é que “ideias falsas” e um “sistema insustentável” podem persistir, durante tanto tempo, em nações onde um simples voto de uma maioria de eleitores, poderia permitir uma mudança de orientação todos os quatro ou cinco anos? Recordo que, neste estádio do nosso estudo, o capítulo II já terá evacuado a resposta já gasta segundo a qual as políticas nacionais teriam perdido todo o seu poder de interferir numa economia mundializada. Se os povos mantém ainda as suas capacidade de transformar a sociedade e mudar as políticas, a submissão da maioria às políticas que alimentam a Grande Regressão supõe uma estranha cegueira geral, uma pandemia que afecta o entendimento humano, ou a operação oculta de uma armadilha que inibe e acção colectiva.

 

Sustento precisamente neste livro que as sociedades modernas desenvolveram uma doença do pensamento e uma ratoeira política que, reforçando-se mutuamente, tornam hoje improvável um renascimento que, todavia está ao alcance das nossas mãos. O último capítulo analisará esta doença e esta ratoeira para delimitar com maior precisão as condições de um renascimento.

 

A pista de uma perversão do pensamento comum e da cultura por uma ideologia nociva para o equilíbrio mental da humanidade é já antiga. Como António Gramsci (26) já havia notado, há cerca de setenta anos, numa sociedade moderna, o domínio pela força bruta de uma classe minoritária é impossível sem hegemonia cultural, isto é, sem a colonização dos espíritos através de representações colectivas que sustentam o poder de uma minoria e a submissão do maior número. Esta reinterpretação do marxismo não era demasiado evidente numa época em que a força bruta do capital era ainda bem real e a tropa tinha todas as condições para reprimir os movimentos sociais. Hoje, representa uma evidência banal, em sociedades saturadas de informação e de redes de comunicação e onde a fábrica da opinião se tornou a mola real da competição tanto política como económica. Neste contexto, uma minoria pode dispor de meios inéditos para exercer uma manipulação dos espíritos em grande escala e engendrar uma nova forma de servidão voluntária das massas. Daqui até ao pensamento de que a regressão se explica pelo domínio manipulador dos capitalistas sobre a fábrica da opinião, vai apenas um passo.

 

Não contesto, nem a existência nem a amplitude desta manipulação, mas ela não basta para explicar verdadeiramente a vitória das ideais falsas. Com efeito, não é possível passar por cima da seguinte questão: exceptuando o caso de uma imbecilidade generalizada, o que é que pode predispor uma maioria dos espíritos modernos a tomar a má sociedade pela boa e a aceitar inépcias grosseiras como verdades evidentes? Seja qual for a grandeza dos meios de que dispõe, a manipulação dos espíritos não pode funcionar, em benefício de uma ideia qualquer, sem uma propensão dos espíritos destinatários para a aceitarem em lugar de combatê-la. Em todo o caso, ainda existe uma porção de militantes, de pensadores e de jornalistas que não caiem na ratoeira e que a combatem e denunciam, o que mostra que isso é possível. “Explicar” a submissão voluntária à regressão compromete-nos, portanto, na decifração das razões pelas quais tantos espíritos modernos assimilam a cultura dos neo-conservadores, apesar da sua radical falsidade e da crítica massiva de que é constantemente objecto (27).

 

Os meus trabalhos anteriores sobre os fundamentos antropológicos do pensamento político e económico (Dissocieté, L’Autre Societé) conduziram-me a identificar as concepções erróneas do ser humano que estruturam o essencial do debate público moderno, para além das clivagens progressistas-conservadores, direita-esquerda, idealistas-materialistas, etc. A ideologia neo-conservadora vai colher uma grande parte da sua força de convicção no facto de que ela evoca, conscientemente ou não, representações do homem e da sociedade que muitos espíritos modernos estão predispostos a ter por verdadeiras, quaisquer que sejam as suas opiniões políticas de partida. O que se cumpre na estranha convergência dos nossos contemporâneos para as ideias falsas é a regressão para os mesmos erros primitivos dos modernos que, para o dizer com a maior brevidade, alimentaram a marcha para os excessos individualistas e produtivistas dos tempo hiper-modernos.

 

Mostrarei que a regressão não é a simples inversão do movimento do progresso moderno, mas o próprio efeito deste movimento. A vitória política dos reaccionários anti-modernos forjou-se nos becos sem saída de uma hiper-modernidade. A desforra dos obscurantistas sobre as Luzes mascara paradoxalmente a nossa contaminação geral por uma doença infantil do pensamento que mergulha as suas raízes no mais profundo da cultura moderna.

 

Não escaparemos à regressão restaurando os traços antigos de uma modernidade que teria sido desviada por um qualquer grupo de perversos ou qualquer circunstância desagradável. Será antes necessário ultrapassar uma modernidade impotente para cumprir a sua promessa, não para a abolir como esperam os “anti Luzes” de várias cores, mas precisamente para cumprir a promessa de emancipação e de progresso para a humanidade. À partida, podem desenhar-se os traços possíveis de um renascimento: um regresso às fontes do projecto moderno, não para restaurar esta ou aquela das formas antigas que o incarnaram, mas para reencontrar o espírito e a energia hoje necessárias para pensar uma nova emancipação. Como foi lindamente expresso pelo filósofo Slavoj Zizek: “A única maneira de apreender a verdadeira novidade do Novo é analisar o mundo através da perspectiva daquilo que era eterno no Antigo” (28). Como o nosso primeiro Renascimento, aquele de onde surgiu o mundo moderno depois da Idade Média, o segundo dependerá na nossa capacidade de reactivar a verdade eterna que as ideias revolucionárias (que ainda hoje continuam a sê-lo) continham no seu seio, de liberdade, de igualdade, de fraternidade, de progresso e de democracia.

 

Mas desenhar um renascimento não o faz chegar. A força material e bem real das ideias é indissociável da força real dos interesses, das tecnologias, dos combates políticos e das instituições que moldam conjuntamente a nossa história. Hoje, como outrora, múltiplos pensadores sabiam indicar aos seus contemporâneos os caminhos possíveis para uma outra sociedade diferente da sociedade de mercado capitalista e uma nova perspectiva de progresso humano. Mas, sem uma saída política concreta estas novas “Luzes” não dissipavam a obscuridade muito para além das bibliotecas. Aqui se anicha uma outra armadilha sistémica que entrava o renascimento. Mostrarei como a deriva e depois o afundamento ideológico do campo progressista e o desvio da democracia para o marketing político (entre outros factores) bloqueiam hoje uma bifurcação decisiva para o progresso humano.

 

A despeito das aparências e do seu título, este livro não é pessimista! No fundo, ele diz que a via do progresso humano é conhecida e é possível. Ele anuncia que fomos mais ou menos até ao fim de todos os becos sem saída onde a Grande Regressão nos conduziu e chegámos ao ponto em que a humanidade tem, de um modo ou de outro, que tomar outro caminho. A única questão é a de saber se, para isso, teremos que levar a regressão até ao afundamento total ou se uma nova maioria progressista poderá encetar a tempo uma grande transformação (29) democrática: aquela que nos faça sair da dissociedade de mercado e nos conduza para a sociedade de progresso humano. Verificar que um empreendimento tão simples de conceber é hoje altamente improvável pode ser decepcionante e desencorajante. Mas saber que ele é tão simples que só depende da acção humana não poder deixar de ser um motivo de esperança.

 

 

 

 

 

(*) Jacques Généreux (n. 1956) é um economista universitário francês, mestre de conferências, presentemente colocado no Institut d’Études Politiques (IEP) de Paris. Adversário intelectual de longa data do chamado “neoliberalismo” (que ele prefere chamar “mercadismo”) publicou diversas obras de grande relevo, com destaque para Manifeste pour l'économie humaine (2000), Les vraies lois de l'économie (2001), La Dissociété (2006) e L'Autre société (2011). Em Novembro de 2008 abandonou o Partido Socialista para participar na fundação do Partido de Esquerda (Parti de Gauche) do qual é secretário nacional para a Economia. O presente texto é o primeiro e introdutório capítulo da sua obra mais recente: ‘La grande régréssion’, Seuil, Paris, 2011, 279 págs.. A tradução é de João Esteves da Silva.

 

 

 

__________

NOTAS:

 

(1) Urbanista canadiana mundialmente reconhecida pelos seus trabalhos sobre as mutações das cidades americanas. Vide designadamente: Jane Jacobs, The Death and Life of Great American Cities (1961), New York, Random House, 2002. Tradução francesa: Le Déclin des grandes cités américaines, Paris, Arman Colon, 1974.

 

(2) Jane Jacobs, Dark Age Ahead, New York, Random House, 2004.

 

(3) Tradução francesa (“memoire morte”) e estranhamente premonitória de read only memory (ROM).

 

(4) As aplicações mais recentes desta estratégia velha como o mundo são abundantemente ilustradas por Naomi Klein em The Shock Doctrine: the Rise of Disaster Capitalism, New York. Metropolitan Books/Henry Holt, 2007. Tradução francesa: La Stratégie du Choc. La montée d’un capitalisme du désastre, Arles, Lémeac/Actes Sud, 2008.

 

(5) É absolutamente necessário conferir a esta expressão tão gasta um sentido preciso. Uma “economia de mercado” não pode designar simplesmente um sistema em que existem mercados, isto é, lugares onde e/ou sistemas organizados de troca entre compradores e vendedores; de acordo com esta definição, seriam economias de mercado todas as economias de todas as grandes sociedade humanas desde a Antiguidade (incluindo a economia soviética). A expressão só designa um sistema particular desde que retenhamos a sua acepção teórica; um sistema regido pelo confronto livre de ofertas e procuras de bens, de serviços, de trabalho, de capital, ou seja, um sistema no qual os preços e as quantidades produzidas e trocadas não reflectem senão um equilíbrio oferta/procura entre actores iguais e independentes uns dos outros (caso contrário, elas reflectem relações de força, ou de posição dominante, monopólio, cartéis, acordos).

 

(6) Jonh K. Galbraith, Le Nouvel État Industriel (1967) Paris, Gallimard, 1989.

 

(7) Karl Polanyi, La Grande Transformation (1944), Paris, Gallimard, 1983.

 

(8) Vide The Death and Life of Great American Cities, op. cit.

 

(9) O alargamento da produção se massa de bens estandardizados destinados às famílias, havia provocado, desde o fim da guerra, um salto da produtividade em toda a Europa. Este efeito, ligado à emulação do modelo industrial americano (o “fordismo”) esgotou-se em seguida com a elevação da taxa de equipamento dos lares e a consequente saturação da procura.

 

(10) Acrescente-se que o fracasso da União Soviética não manifestava o da ideia comunista, mas sim o do estalinismo e da ditadura de um partido. Sobre a actualidade desta ideia vide Alain Badiou, Slavoj Zizek, L’Idée du communisme, Fécamp, Nouvelles Éditions Lignes, 2010.

 

(11) No dia 15 de Agosto de 1971, ao decidir suprimir a convertibilidade do dólar em ouro, Richard Nixon sabotou o sistema monetário internacional que assegurava anteriormente taxas de câmbio fixas. Seguiu-se uma forte volatilidade das taxas de câmbio e, a partir de 1973, a quase totalidade dos governos tinha renunciado à intervenção nos mercados cambiais para garantir a estabilidade das taxas de câmbio em relação ao dólar.

 

(12) Para uma exposição do estado actual do conhecimento económico veja-se Jacques Sapir, Quelle économie pour le XXI siècle?, Paris, Odile Jacob, 2005. Para uma exposição acessível aos não especialistas, vide Jacques Généreux, Les Vraies lois de l’économie (2001, 2002) Paria, Seuil, “Points Économie”, 2005.

 

(13) James K. Galbraith (2008), The Predator State. How Conservatives Abandoned the Free Market and Why Liberals Should Too, New York, Barnes and Nobles, 2008. Tradução francesa, L’État prédateur. Comment la droite a renoncé au marché libre e pourquoi la gauche devrait en faire autant, Paris, Seuil, 2009.

 

(14) Para uma análise destes conhecimentos vide Jacques Généreux, L’Autre Societé, Paris, Seuil, “Ponts Essais” a sair em 2011 (primeira edição publicada sob o título Le Socialisme néomoderne ou l’Avenir de la Liberté, Paris, Seuil, 2009, capítulo 2 e 3.

 

(15) Jacques Delors, presidente da Comissão Europeia de 1985 a 1995.

 

(16) Esta novíssima concepção da justiça podia encontra uma caução académica na Teoria da Justiça publicada pelo filósofo John Rawls em 1971. Rawls pretende demonstrar que as desigualdades sociais são justas, se as posições sociais forem acessíveis a todos segundo um princípio de igualdade de oportunidades, já que o suplemento de eficácia económica engendrado pela desigualdade, permite melhorar a sorte dos mais pobres. A Theory of Justice (1971). Harvard University Press, 1991. Tradução francesa: Théorie de la justice, Paris, Seuil, “Points Essais”, 1997.

 

(17) Vide, Daniel Lindenberg, Le Rappel à l’ordre. Enquête sur les nouveaux réactionnaires, Paris, Seuil, «La République des idées», 2002.

 

(18) Por memória, o tratado do “Acto Único” (1986) previu a constituição de um grande mercado unificado de bens, serviços, de trabalho e de capital, sem se comprometer com qualquer harmonização do direito social e fiscal dos Estados membros. Aquando da criação da Comunidade Económica Europeia, a livre circulação interna só se aplicava às mercadorias.

 

(19) Em 1989, John Williamson (economista chefe do Banco Mundial) denominou assim um programa de reformas que era consensual no seio das instituições financeiras internacionais e a Administração americana, todas com sede em Washington.

 

(20) Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man, New York, Free Press, 1992. Tradução francesa: La fin de l’histoire et le dernier homme, Paris, Flammarion, 1992.

 

(21) Esta secção limita-se a propor uma introdução geral ao tema abordado nos capítulos seguintes. Aliás este livro é deliberadamente um resumo: apoia-se noutros trabalhos mais volumosos reunidos principalmente em três obras: Les Vraies Lois de l’économie (2005) op. cit. La Dissocieté (2006), nova edição revista e aumentada, Paris, Seuil, “Points Essais” (2008), L’Autre Societé (2009), op. cit. A fim de aligeirar os reenvios frequentes a estas obras empregar-se-ão respectivamente as seguintes referências: Vraies Lois, Dissocieté, Autre Societé (eventualmente seguida por um nº de capítulo).

 

(22) Entre estas raras excepções, já assinalámos James K. Galbraith, l’État prédateur. Comment la droite a renoncé au marché et pourquoi la gauche devrait en faire autant. Op. cit..

 

(23) Bolívia, Equador e Venezuela. Todos os outros países do continente são governados pela direita ou por uma pseudo-esquerda que contém o descontentamento popular com ajudas sociais, sem alterar significativamente a lógica neo-liberal.

 

(24) A marca ecológica é a medida das actividades humanas expressa em termos da superfície terrestre necessária para dispor dos recursos utilizados e do tratamento dos dejectos. Vide WWF, Rapport planète vivante, 2008.

 

(25) Timothy Geithner, Christina Romer, Robert Rubin, Lawrence Summers e Paul Volker. Vide os seus retratos em Damien Millet, Éric Toussaint, La crise, quelles crises? Bruxelles, Liège, Genève, Aden- CADTM-Cetim, 2010.

 

(26) Vide os seus Cahiers (ou Carnets) de prison, escritos no cativeiro de 1928 a 1934.

 

(27) Uma simples visita regular às livrarias permite verificar que, por cada livro que faz o elogio do regime neo-liberal, aparecem cem que procedem à sua crítica.

 

(28) Slavoj Zizek, Après la tragédie, la farce? Ou comment l’histoire se répète, Paris, Flammarion, 2010. p. 15.

 

(29) Uma piscadela de olho a Karl Polanyi do qual falaremos, de novo, mais tarde.