Introdução

 

 

 

 

 

O aspirador centrípeto da grande finança internacional aperta as suas tenazes sobre os trabalhadores e a “classe média” portuguesa, por intermédio do servil governo de Lisboa. O povo do Maputo saíu à rua contra a fome e o governo da FRELIMO sujou as mãos com o seu sangue, para depois recuar. Enquanto isso, no Brasil vive-se uma hora fugaz de euforia afirmativa do “seu” capitalismo no mundo, pela mão de um ex-operário barbudo que sempre soube “dar um jeito”. A grande roda da história vai girando com seu rangido de fundo monótono, por vezes com lances inesperados e irónicas piruetas, mas sempre amassando impiedosamente a carne viva das multidões laboriosas para dela extrair o suco da riqueza social apropriada por uns quantos, na forma de artefactos civilizacionais, que nestes tempos de decadência capitalista são cada vez mais um miasma de ostentação impudente e presunçosa insignificância.

 

Neste número de ‘O Comuneiro’, abrimos com um ensaio, já de há alguns anos, do filósofo madrileno Santiago Alba Rico, que, apesar de relativamente jovem, é um dos mais profundos críticos contemporâneos do capitalismo e do feérico dilaceramento antropológico que ele produz. ‘El naufrágio del hombre’ é precisamente o título do seu último livro, escrito em colaboração com o seu companheiro intelectual de há muitos anos Carlos Fernandez Líria, de quem publicamos igualmente um artigo. Trata-se de uma homenagem a Paul Lafargue, genro de Marx e membro destacado da primeira geração de intelectuais marxistas franceses, que é também um elogio ao sistema produtivo actualmente vigente da sua nativa Cuba, precisamente naquilo em que ele soube superar (por desígnio ou por necessidade) o modelo estalinista de desenvolvimento industrial extensivo e ecocida.

 

É precisamente da Cuba actual, na sua encruzilhada histórica, que nos fala o artigo de Narciso Isa Conde - comunista da vizinha ilha da Hispaniola e acompanhante da revolução cubana desde a primeira hora – nesta hora em que se preparam reformas profundas na sua estrutura de emprego e o seu próprio "modelo económico" está em discussão, da qual nos chegam apenas alguns reflexos maliciosamente distorcidos por intermédio da grande imprensa corporativa transnacional. Emir Sader fala-nos também de outros equívocos ideológicos correntes na análise dos acontecimentos sociais e políticos contemporâneos, em particular na América Latina.

 

Na frente de luta que se constitui contra as ameaças aportadas à civilização e à própria humanidade por este capitalismo agonizante, foi dado um importante passo, com a realização da I Conferência Mundial dos Povos sobre Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra, na cidade boliviana de Cochabamba, cidade lutadora e vencedora, dez anos atrás, contra os criminosos planos de privatização da sua água municipal. Publicamos neste número de ‘O Comuneiro’ o documento final aprovado nesta conferência, que é uma peça política de grande significado - na linha do eco-socialismo e de uma certa ressacralização da relação humana com a natureza – com objectivos políticos político traçados de forma muito concreta e tangível.

 

A parte mais destituída da humanidade está confrontada com um perigo muito real e imediato de fome, em grande escala, em resultado da especulação bolsista com colheitas e produtos alimentares, conforme nos expõe com clareza e penetração Michael Krätke, um grande pensador social contemporâneo que nos vamos esforçar por manter entre os nossos colaboradores regulares.

 

A crise da finanças públicas atacou de frente a Europa, mais exposta à agressão por parte dos grandes especuladores mundiais, dada a sua fragilidade e incongruência institucional. Neste número publicamos um interessantíssimo documento fundador do ‘Comité Grego contra a Dívida’, cujos princípios bem gostaríamos de ver transpostos e replicados em Portugal. Publicamos também o ‘Manifesto dos economistas aterrados’, que embora distante dos nossos próprios propósitos e concepções, é um documento de grande valia e interesse, na crítica à continuada hegemonia da ortodoxia neoliberal na Europa, e também por assinalar a emergência de focos de inquietação e vozes dissidentes, em favor de uma “outra Europa”, no seio das suas próprias classes profissionais dirigentes.

 

De Michael Lebowitz, que já é nosso amigo e colaborador habitual, publicamos dois documentos de reflexão muito sintética sobre os desafios que a situação política actual no mundo coloca aos intelectuais apostados na sua transformação revolucionária. Do veterano Edgar Morin e de André Tosel, publicamos um interessante diálogo sobre a relevância do pensamento de Marx para os desafios do nosso tempo. Finalmente, o nosso editor Ângelo Novo faz um breve apanhado descritivo e analítico sobre a proposta de criação de uma “Quinta Internacional”.

 

 

Ângelo Novo

 

Ronaldo Fonseca