Capitalismo e violência

 

 

Santiago Alba Rico (*)

 

 

 

 

P - Como Naomi Klein, embora de um ponto de vista diferente e com uma abordagem totalmente distinta, tu também escreveste bastante sobre as relações entre capitalismo e violência. Segundo ela, somente o capitalismo mais fundamentalista, o neo-liberalismo de Milton Friedman, necessitou impor-se pela força. A minha primeira pergunta é se estás de acordo com isto ou se consideras que a violência é inerente a todo tipo de capitalismo. Se assim for, o que é que faz do capitalismo algo de essencialmente violento?

 

SAR - O que há que dizer em primeiro lugar é que o livro de Naomi Klein, ‘A doutrina do choque’, é excelente; é uma extraordinária lição de história concreta que deveria ser utilizada em todas as escolas. Rigoroso, pedagógico, estremecedor, documenta as intervenções minuciosamente destrutivas do neo-liberalismo nos últimos 30 anos. Mas Naomi Klein é uma humanista neo-keynesiana, não marxista e, a meu ver, comete o erro de interpretar o capitalismo como um conjunto de medidas económico-políticas e não como uma relação estrutural que impõe limites muito precisos ao que se pode e não se pode fazer nos seus marcos. O que se pode fazer dentro deles é - mais ou menos - seleccionar as vítimas, de acordo o “cálculo de vidas” de Hayek. O que não se pode fazer - por muito que se pretenda controlar as forças telúricas do mercado “livre”- é generalizar a democracia e o bem estar entre todas as nações e todos os habitantes do planeta. Klein, creio, esquece dois dados importantes. O primeiro é o papel que desempenhou a União Soviética – sua própria existência – no estabelecimento de um Estado socialmente avançado nos países capitalistas desenvolvidos depois da segunda guerra mundial; se o capitalismo impôs à União Soviética a necessidade de copiar os seus ritmos produtivos, a União Soviética impôs ao capitalismo europeu - e em menor medida ao estadunidense - a necessidade de cumprir limitadamente os sonhos do socialismo. Mas isso apenas pôde realizar-se na Europa, e somente durante alguns anos, à custa dos outros povos da terra. Porque o segundo dado que esquece Naomi Klein é que a violência capitalista desatada sobre o mundo – com sua lógica de destruição/reconstrução permanente – não começa com a escola de Chicago e Milton Friedman nem com o golpe de estado do Chile em 1973. Para não estarmos aqui a remontar a 500 anos atrás, basta pensar no longuíssimo, sangrento e incompleto processo de descolonização, abortado e revertido precisamente através de violências monstruosas, ao mesmo tempo militares e económicas.

 

Quanto ao resto, não acredito que o capitalismo seja “especialmente” violento. Ele o é apenas na justa e necessária medida, naquilo que é imprescindível. E imprescindível para quê? Para seguir transformando tudo o que existe – seres humanos e recursos naturais – em altas taxas de lucro. O capitalismo produz pobreza e morte mas não é esse o seu objectivo. O capitalismo produz riqueza, prazeres e medicamentos mas também não é esse o seu objectivo. É precisamente essa indiferença que o converte, não em mais cruel ou mais selvagem, mas sim em mais perigoso e mais potencialmente destrutivo. Ele é de um misticismo aterrador: não reconhece limites, nem na moral nem na natureza.

 

Portanto despreza materialmente – minuto a minuto – tanto as resistências antropológicas como as ecológicas. Não porque seja especialmente violento mas porque esta é a própria condição da sua reprodução. Não pode distinguir entre uma criança e uma máquina de costurar, entre um rio e um aterro de lixo, entre a construção de uma nova Madrid sob o boom imobiliário e a destruição de Bagdad debaixo das bombas estadunidenses.

 

Mas isso acrescenta uma particular injustiça ao capitalismo. Como não pode fazer diferenças e desenvolveu de uma maneira sem precedentes as forças produtivas – incluídas as tecnologias médicas – colocou à disposição do ser humano potencialidades que, ao mesmo tempo, não lhe permite utilizar. As mortes por malária, por sarampo, por dengue, por cólera, por desinteria, são mortes naturais? Não são, ao contrário, profundamente acusatórias num mundo que pode curar tais enfermidades?

 

A violência do capitalismo tem a ver também com os seus instrumentos de emancipação; ou seja, com a sua necessidade intrínseca de – ao mesmo tempo -  multiplicar a riqueza e reprimir o seu uso, de aumentar os meios de salvação e proibir a sua utilização. Isto se traduz na naturalização da morte e da destruição. “Os pobres”, nos diziam os jornais há uns meses, “vivem 30 anos menos que os ricos”. A quem, a que força silenciosa se deve imputar uma tal diferença?

 

P - Quais são as causas profundas dessa crise ?

 

SAR - Não sou economista mas creio que todos os analistas sérios – Beinstein, Brenner, Martins, Wallerstein – a explicam como uma crise de sobre-produção capitalista que vem dos anos 70 e contra a qual se recorreu à financeirização da economia como um alívio e ao mesmo tempo uma prolongação da sua agonia. Como explicaram Nacho Alvarez e Bibiana Medialdea, o que entrou agora em crise não é o capitalismo, que já estava em crise, mas sim as medidas que foram tomadas para superá-la. Estas medidas têm a ver com o objecto do livro de Klein, aquilo que Atílio Boron chamou muito justamente (evocando aliás a sua fanática inspiração religiosa) “contra-reformas” neoliberais que foram desmantelando, pouco a pouco, durante 30 anos, através de golpes de Estado, guerras ou programas de ajuste estrutural do FMI, as pequenas conquistas arrancadas ao capitalismo durante dois séculos. Foi isso que chamamos “globalização”, ou seja, a fuga para frente de um sistema que acelera o processo de “permanente destituição” em que ele consiste e de que depende para sobreviver. Essa violência – essa fuga – é magistralmente descrita em ‘A doutrina do choque’.

 

P- Era inevitável essa crise?

 

SAR - Creio que depois do que acabo de dizer não poderia responder que não. Se se pudesse evitá-la, ter-se-ia evitado pois vem sendo anunciada há muitos anos, não somente por parte de economistas marxistas. No interior do capitalismo, se tomou precisamente as medidas que haveria que tomar, mas, dentro do sistema, elas não podiam nem poderão fazer mais do que piorar a situação – embora talvez durando décadas.

 

P - Acreditas que esta é uma crise conjuntural ou que o capitalismo, ele próprio, tal como o conhecemos, está em perigo?

 

SAR - O capitalismo só conhece crises “conjunturais”, das quais se recuperou em ciclos mais ou menos longos. Crises permanentes – que são consideradas períodos de “normalidade” ou até de “boa saúde” - são o que marca as vidas das vítimas do capitalismo, mas essa situação é sempre considerada aceitável, desde que se produzam lucros suficientes para o sistema.

 

Quanto a saber se esta crise anuncia o fim do capitalismo, não sei. Por vezes recordo uma mensagem muito optimista escrita em uma parede de um (não sei qual) país latino-americano: “capitalismo, tens os milénios contados!” O que nesses momentos está em claro perigo é a sobrevivência a médio prazo da própria humanidade. À força de ignorar os limites, o capitalismo acabou por chocar com dois limites absolutos: o sofrimento humano e a finitude dos recursos naturais.

 

P - É possível “refundar o capitalismo”?

 

SAR - É possível refundar o canibalismo? Um canibalismo de rosto humano? Um canibalismo sem dentes? O que propõe o G20 não é “refundar” o capitalismo mas sim prolongar a sua existência por todos os meios, inclusive ao preço de agravar as crises energética, ecológica e alimentar. Há que salvar os bancos, as empresas imobiliárias, a indústria automobilística, etc., das quais depende o sistema e os próprios seres humanos, desde que eles vivam nos quadros do sistema. Mas isso não se pode fazer – paradoxalmente – sem ameaçar mais fontes das quais (fora do sistema capitalista) também dependem os seres humanos para sobreviver. Creio que basta esta redução ao absurdo para excluir a refundação do capitalismo: sua própria existência – com sua necessidade de crescimento ilimitado – determina que os seres humanos dependam, para sobreviver, dos meios de destruição das suas próprias condições de sobrevivência. Individualmente, transformamo-nos em activíssimos “desejos de morte”. Inclusive as Comissiones Obreras (CCOO) pedem aos seus afiliados um aumento militante do consumo para superar a crise.

 

P - Mais além do âmbito económico, acreditas que essa crise mudou as relações humanas ou poderia mudá-las no futuro?

 

SAR - O modelo tecnoconsumista, com o seu “hedonismo de massas” – para utilizar uma velha expressão de Pasolini -, se impôs de tal maneira que toda diminuição dos níveis habituais de consumo será vivido também como uma catástrofe subjectiva, como uma perda cataclística para a qual haverá que buscar algum culpado.

 

Nunca dantes houve mais condições objectivas e menos condições subjectivas para uma transformação radical. As sociedades ocidentais são sociedades de individualismo devorador generalizado e isto dissolve os laços de solidariedade. Não é um problema ideológico mas material: a subjectividade capitalista está materialmente construída à margem de todos os valores e princípios que permitam, simplesmente, uma negociação. Na Europa e nos EEUU vejo como mais provável a barbárie ou o neofascismo do que a recuperação de uma mínima sensatez antropológica.

 

P - Qual é o maior perigo desta crise? Quem pode beneficiar-se mais dela?

 

SAR - O maior perigo é a combinação da insensatez antropológica com as armas de destruição massiva: o retorno à barbárie com meios de destruição do século XXI. Os que mais podem beneficiar-se, como sempre, são as “minorias organizadas”, quer se trate de multinacionais, máfias ou seitas.

 

P - Muitos falam dessa crise como uma oportunidade de mudança, uma vez que o capitalismo parece viver o seu pior momento desde muitos anos. Em que consistiria então a suposta “oportunidade” desta crise? Existe realmente algum movimento social que possa ser agente desta mudança?

 

SAR - A esperança é América Latina. Europa é hoje um continente morto, exausto em todos os sentidos, inclusive culturalmente. E não temos uma esquerda organizada, poderosa, unida, capaz de converter a catástrofe objectiva em consciência subjectiva. Talvez seja demasiado tarde, mas devemos lutar para criar uma esquerda assim.

 

P - O que se devia mudar nos âmbitos económico, político e cultural?

 

SAR- Essa esquerda, já o disse algumas vezes, deveria operar uma tripla mudança: revolucionária no económico, reformista no político e conservadora no antropológico. Desta forma, creio que o conteúdo da proposta é claro. O capitalismo não admite reformas e deve portanto ser substituído (através de uma revolução) por um regime de produção e distribuição de bens e serviços capaz de proporcionar uma vida digna a todos os habitantes do planeta. Os povos em luta conquistaram ao longo dos últimos séculos toda uma série de liberdades (sufrágio universal, divisão de poderes, Estado de Direito, etc.) que não podem ser confundidos com o capitalismo e que devem ser melhorados (através de reformas) e defendidos. Quanto ao dano causado à natureza e à cultura pelo produtivismo capitalista e seus ritmos de crescimento e de consumo, ele é de tal forma dramático que – como dizia Gunther Anders – a missão da esquerda, a este nível, deve ser não mais a de mudar o mundo mas, simplesmente, a de conservá-lo.

 

 

 

 

 

 

 

(*) Santiago Alba Rico (n. 1960) é um escritor, ensaísta e filósofo político espanhol, radicado no mundo árabe desde 1991 e actualmente residente em Tunis. Nos anos 1980 foi autor, conjuntamente com Carlos Fernández Liria, de dois libros de referência na filosofia marxista e de crítica ao social-liberalismo do PSOE: ‘Dejar de pensar’ (1986) e ‘Volver a pensar’ (1989). É ainda autor, nomeadamente, de ‘Las reglas del caos. Apuntes para una antropología del mercado’ (1995), ‘¡Viva el mal! ¡Viva el capital!’ (2001) ‘¡Viva la CIA! ¡Viva la economía!’ (2003) e ‘Capitalismo y nihilismo’ (2007). A presente entrevista foi conduzida por Carlos Sardiña Galache e publicada no portal ‘Kaos en la Red’. Tradução de Ronaldo Fonseca.