Vivendo na plataforma gelada

- a dissolução da humanidade


Mike Davis (*)



1. Adeus ao Holoceno

O nosso mundo, o velho mundo que temos vindo a habitar nos últimos 12.000 anos, acabou, mesmo que nenhum jornal da Europa ou da América do Norte tenha ainda publicado o seu obituário científico.

Em Fevereiro passado, enquanto os guindastes içavam soldadura para o 141º andar da Torre Burj Dubai (que em breve terá o dobro da altura do Empire State Building), a Comissão de Estratigrafia da Sociedade Geográfica de Londres adicionava um novo e mais elevado patamar para a coluna geológica.

Esta sociedade londrina é a mais antiga associação de cientistas da Terra, fundada em 1807, e a sua comissão actua como um colégio de cardeais na adjudicação das escalas de tempo geológicas. Os estratígrafos dividem a história terrestre, conforme ela aparece preservada nos estratos sedimentários, em hierarquias de eones, eras, períodos e épocas, delimitados por “picos dourados” de extinções em massa, eventos de especiação e abruptas mudanças na química atmosférica.

Na geologia, como na história ou na biologia, a periodização é uma arte complexa e controversa. A mais amarga disputa na ciência britânica do século XIX – ainda conhecida como a “grande controvérsia devoniana” – desenrolou-se sobre interpretações concorrentes acerca de uns saibros cinzentos galeses e de um velho arenito rubro inglês. Mais recentemente, os geólogos lutaram sobre como demarcar estratigraficamente oscilações na idade do gelo ao longo dos últimos 2,8 milhões de anos. Alguns deles nunca aceitaram que o mais recente intervalo quente inter-glacial – o Holoceno – deva ser distinguido como uma “época” de direito próprio, só porque compreende em si toda a história da civilização.

Em resultado disto, os estratígrafos contemporâneos definiram padrões extraordinariamente rigorosos para a beatificação de quaisquer novas divisões geológicas. Embora a ideia de um “Antropoceno” – uma época terrena definida pela emergência da sociedade urbano-industrial como uma força geológica – venha sendo debatida há muito tempo, os estratígrafos têm-se recusado a reconhecer provas convincentes do seu advento.

Ora, pelo menos no que diz respeito à Sociedade Geográfica de Londres, essa posição foi agora revista.

À questão “Estamos agora a viver no Antropoceno?”, os vinte e um membros da comissão declararam, unanimemente, “Sim”. Eles aduziram provas robustas de que a época holocénica – o instante inter-glacial de clima invulgarmente estável que permitiu a rápida evolução da agricultura e da civilização urbana – acabou, tendo a Terra entrado num “intervalo estratigráfico sem paralelo aproximado nos últimos milhões de anos”. Para além da acumulação de gases com efeito de estufa, os estratígrafos citam a transformação paisagística humana, que agora “excede a produção sedimentar natural [anual] por uma ordem de magnitude, a ominosa acidificação dos oceanos e a imparável destruição de espécies animais e vegetais.

Esta nova era, explicam eles, é definida tanto por uma tendência geral ao aquecimento (cujo paralelo mais próximo pode ser a catástrofe conhecida como o Máximo Termal Paleocénico Eocénico, há 56 milhões de anos atrás) como pela radical instabilidade que deve ser esperada dos futuros ambientes. Em prosa sombria, eles advertem que “a combinação de extinções, migrações globais de espécies e a generalizada substituição de vegetação natural por monoculturas agrícolas, está a produzir um distinto sinal bio-estratigráfico contemporâneo. Estes efeitos são permanentes, pois a futura evolução terá lugar a partir das espécies sobreviventes (com frequência, antropogeneticamente relocalizadas)”. Por outras palavras, a própria evolução foi forçada a tomar uma nova trajectória.

2. Descarbonização espontânea?

A coroação do Antropoceno, pela Comissão, coincide com uma crescente controvérsia científica sobre o Quarto Relatório de Avaliação do Painel Inter-governamental sobre Mudanças Climáticas (PIMC). O PIMC está mandatado para estabelecer as linhas básicas científicas para os esforços internacionais de mitigação do aquecimento global, mas alguns dos mais proeminentes pesquisadores neste campo estão agora a desafiar os seus cenários de referência como sendo demasiado optimistas, senão mesmo lunaticamente fantasistas.

Os cenários correntes foram adoptados pelo PIMC em 2000, para modelar as futuras emissões globais com base em diferentes “enredos” sobre crescimento populacional, bem como desenvolvimento económico e tecnológico. Alguns dos cenários mais destacados do Painel são bem conhecidos dos decisores políticos e dos activistas contra o aquecimento global, mas muito poucos foram os que, fora da comunidade dos pesquisadores, leram efectivamente ou compreenderam a sua letra miúda, em particular a confiança do PIMC de que uma maior eficiência energética será um subproduto “automático” do desenvolvimento económico futuro. Na verdade, todos os cenários, mesmo nas variantes “os negócios como de costume” (“busisness as usual”), pressupõem que pelo menos 60% das futuras reduções de carbono ocorrerão independentemente de medidas efectivas de mitigação do efeito de estufa.

O Painel, com efeito, apostou a fazenda (ou, melhor dito, o planeta) em progressos não planeados, impulsionados pelo mercado, em direcção a uma economia mundial pós-carbono, uma transição que implicitamente requererá que a riqueza gerada por preços de energia mais altos seja finalmente canalizada para novas tecnologias e energia renovável. (A Agência Internacional de Energia estimou recentemente que custaria $45 triliões de dólares norte-americanos cortar em metade as emissões de gases com efeito de estufa até 2050.) Acordos do tipo Quioto e os mercados de emissões de carbono estão concebidos apenas – quase como análogos ao “despesismo” keynesiano – para cobrir a distância, apesar de tudo subsistente, entre a prevista descabonização espontânea e as metas de emissões requeridas por cada cenário. De um modo felicíssimo, isto reduz os custos da mitigação do aquecimento global para níveis que se alinham com aquilo que parece ser, pelo menos teoricamente, politicamente possível, tal como exposto na britânica ‘Stern Review on the Economics of Climate Change’ de 2006 e outros relatórios semelhantes.

Os críticos, porém, afirmam que isto é um enormíssimo salto no escuro, que substima radicalmente os custos económicos, os obstáculos tecnológicos e as mudanças sociais que é necessário vencer para tão só minorar o crescimento dos gases de efeito de estufa. As emissões de carbono europeias, por exemplo, continuam a crescer (dramaticamente nalguns sectores) apesar da muito elogiada adopção pela União Europeia, em 2005, de um sistema de quotas de poluição comercializáveis. De igual modo, tem havido muito poucas provas de crescimento da eficiência energética nos últimos anos, o que é uma condição sine qua non para os cenários do PIMC. Embora a revista ‘The Economist’, de modo bem característico, coloque as suas objecções, a maioria dos pesquisadores em energia acredita que, desde o ano 2000, a intensidade da energia tem na verdade crescido ainda mais; ou seja, as emissões globais de dióxido de carbono mantiveram o mesmo ritmo de crescimento que o uso de energia, ou cresceram mesmo a uma taxa marginalmente superior.

A produção de carvão, em especial, está a conhecer um dramático renascimento, com o século dezanove a perseguir com os seus espectros o século vinte e um. Centenas de milhares de mineiros estão agora a trabalhar em condições que teriam estarrecido Charles Dickens, extraindo os sujos minerais que permitem à China abrir duas novas centrais térmicas a carvão por semana. Enquanto isso, prevê-se que o consumo total de combustíveis fósseis aumente pelo menos 55%, ao longo da próxima geração, com as exportações internacionais de petróleo a duplicar em volume.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que conduziu o seu próprio estudo de metas sustentáveis em energia, avisa que será necessário “um corte de 50 por cento na emissão mundial de gases com efeito de estufa em 2050, tomando como referência os níveis de 1990”, só para manter a humanidade fora da zona de alerta vermelho do aquecimento galopante (geralmente definido como um aumento superior a dois graus centígrados este século). Contudo, a Agência Internacional de Energia prevê que, com toda a probabilidade, essas emissões vão na verdade aumentar no mesmo período cerca de 100% - gases suficientes para nos projectar descontroladamente sobre vários limiares críticos.

Enquanto os mais elevados preços de energia conduzem os SUV (1) à beira extinção e atraem mais capitais de risco para a energias renováveis, também abrem a Caixa de Pandora da extracção de combustíveis fósseis em estado mais bruto, das areias betuminosas canadianas ao petróleo pesado venezuelano. Como avisou já um cientista britânico, a última coisa que deveríamos desejar (sob o falso lema da “independência energética”) é estabelecer novas fronteiras na produção de hidrocarbonos que façam avançar a capacidade humana de acelerar o aquecimento global e atrasem a urgente transição para “ciclos de energia não-carbónicos ou de baixo teor carbónico”.

3. A expansão finissecular

Que confiança podemos nós ter na capacidade dos mercados para realocar investimentos das velhas para novas energias, ou mesmo, digamos, das despesas em armamento para a agricultura sustentável? Somos incessantemente propagandizados (em especial na televisão pública) sobre a forma como companhias gigantes - a Chevron, a Pfizer Inc., a Archer Daniels Midland, etc. - estão a trabalhar arduamente para salvar o planeta, semeando de novo os seus lucros nos tipos de pesquisa e exploração que garantirão no futuro combustíveis de baixo teor carbónico, novas vacinas e colheitas mais resistentes à seca.

Como ficou demonstrado, de forma escandalosa, com a presente corrida ao etanol-milho - que retirou 100 milhões de toneladas de grão da alimentação humana, canalizando-os sobretudo para os motores automóveis norte-americanos - o “biofuel” pode ser um eufemismo para subsídios para os ricos e fome para os pobres. Do mesmo modo, o “carvão limpo”, apesar do vigoroso apoio do senador Barack Obama (que também apregoa as virtudes do etanol) é, presentemente, apenas uma enorme vigarice: uma campanha publicitária e de lobbying de 40 milhões de dólares a favor de uma hipotética tecnologia que a própria revista ‘Business Week’ caracterizou como “estando ainda a décadas de distância da viabilidade comercial”.

Para além disso, há sinais perturbadores de que as companhias e serviços públicos de energia estão a renegar os seus compromissos públicos de desenvolvimento de tecnologias energéticas alternativas e de métodos de captura de carbono. O “projecto-vitrine” da Administração Bush, FutureGen, foi anulado este ano, após a indústria do carvão ter recusado pagar a sua quota na “parceria” público-privado; de modo similar, a maior parte das iniciativas privadas norte-americanos de aprisionamento de carbono foram recentemente canceladas. No Reino Unido, entretanto, a Shell acaba de saltar fora do maior projecto mundial de energia eólica, o London Array. Apesar dos seus níveis heróicos de publicidade, as corporações de energia, tal como as companhias farmacêuticas, preferem rapar o fundo ao domínio público disponível, enquanto deixam os impostos (não os lucros) pagar toda a pesquisa nova realmente feita, por mais urgente e longamente ansiada que seja.

Por outro lado, os proventos dos altos preços da energia continuam a jorrar copiosamente para o imobiliário, os arranha-céus e os activos financeiros. Estejamos ou não efectivamente no cimo do Pico de Hubbert – esse tal momento do pico do petróleo - , esteja ou não a bolha do petróleo finalmente prestes a rebentar, aquilo a que estamos a assistir é provavelmente à maior transferência de riqueza da história moderna.

Um eminente oráculo de Wall Street, o McKinsey Global Institute, prediz que, se o preço do petróleo permanecer acima dos $100 dólares por barril – e neste momento está a aproximar-se dos $140 dólares - os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo, por si só, “arrecadarão uma enxurrada acumulada de quase $9 triliões de dólares por volta de 2020.” Como nos anos 1970, a Arábia Saudita e os seus vizinhos do Golfo, cujo produto interno bruto total quase duplicou em apenas três anos, estão inundados de liquidez: $2,4 triliões de dólares em contas bancárias e fundos de investimentos, de acordo com uma recente estimativa da revista ‘The Economist’. Independentemente da tendência dos preços, a Agência Internacional de Energia prediz que “mais e mais petróleo terá a sua origem em cada vez menos países, com os membros da OPEC [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] do Médio Oriente na primeira linha.

O Dubai, que tem pouco rendimento petrolífero próprio, tornou-se o eixo financeiro regional para toda esta vasta reserva de riqueza, com ambições a, eventualmente, vir a competir com Wall Street e a City de Londres. Durante o primeiro choque petrolífero, nos anos 1970, muito dos excedentes da OPEC era reciclado através de encomendas militares nos Estados Unidos e na Europa, ou estacionado em bancos estrangeiros para se converter nos empréstimos de risco (“subprime”) que devastariam a América Latina nas décadas seguintes. No rescaldo dos ataques do 11 de Setembro, os Estados do Golfo tornaram-se muito mais cuidadosos quanto a confiar a sua riqueza a países, como os Estados Unidos, governados por fanáticos religiosos. Desta vez, eles estão usando “fundos de riqueza soberanos” para adquirir uma participação mais activa nas instituições financeiras estrangeiras, enquanto simultaneamente investem fabulosas quantidades de rendimentos petrolíferos para transformar as areias da Arábia em cidades hiperbólicas, paraísos comeciais e ilhas privadas, destinadas a estrelas rock britânicas e gangters russos.

Há dois anos atrás, quando os preços do petrróleo estavam a menos de metade dos seus níveis actuais, o jornal ‘The Financial Times’ estimava que as novas construções planeadas na Arábia Saudita e nos emiratos excedia já $ 1 trilião de dólares. Hoje, deve estar muito mais próximo dos $ 1,5 triliões, consideravelmente mais do que o valor total do comércio mundial em produtos agrícolas. A maioria das Cidades-Estado do Golfo está a construir alucinatórias linhas de horizonte urbano – e, de entre eles, o Dubai é a super-estrela inquestionável. Em pouco mais de uma década erigiu 500 arranha-céus e presentemente tem alugados um quarto dos guindastes altos existentes no mundo.

Esta expansão induzida do Golfo, que a celebridade da arquitectura Rem Koolhaas diz estar a “reconfigurar o mundo”, levou os investidores do Dubai a proclamarem o advento de um “estilo de vida supremo”, representado por hotéis de sete estrelas, ilhas privadas e iates de classe J. Não surpreende, assim, que os Emiratos Árabes Unidos e seus vizinhos tenham a maior “pegada” ecológica no planeta, medida per capita. Entretanto, os legítimos donos da riqueza petrolífera árabe, as massas acantonadas nos prédios sobrelotados de Bagdad, Cairo, Amman e Karthoum, pouco mais têm dela, para si, que um pequeno gotejar (“trickle-down”) de empregos nos campos petrolíferos e de madrassas subsidiadas pelos sauditas. Enquanto hóspedes desfrutam dos quartos de $5.000 dólares por noite do Burj Al-Arab, o célebre hotel do Dubai em forma de vela, os cairenses da classe trabalhadora amotinam-se nas ruas por causa do preço incomportável do pão.

4. Podem os mercados emancipar os pobres?

Os optimistas, é claro, sorriem a todos os cenários catastrofistas (“gloom-and-doom”), invocando o próximo milagre do comércio das emissões de carbono. O que eles põem de parte é a possibilidade – contudo bem real – de que um mercado dinâmico das emissões poluentes venha de facto a emergir, tal como previsto, tendo contudo um impacto mínimo na folha de balanço global do carbono atmosférico, enquanto não houver mecanismos coactivos que imponham reduções líquidas reais no uso de combustíveis fósseis.

Nas discussões correntes sobre os sistemas de comércio de direitos de emissão, é frequente confundirem-se as chaminés por árvores. Por exemplo, o rico enclave petrolífero do Abu Dhabi (como o Dubai, um associado dos Emiratos Árabes Unidos) gaba-se de ter plantado mais de 130 milhões de árvores – cada uma delas cumpridora do seu dever de absorver dióxido de carbono da atmosfera. Contudo, esta floresta artificial no deserto também consome grandes quantidades de água de irrigação produzida (ou reciclada) a partir de dispendiosas estações de dessalinização. As árvores podem permitir ao Sheik Ahmed bin Zayed exibir uma certa áurea em reuniões internacionais, mas a dura realidade é que elas são, de facto, apenas uma faixa de beleza energético intensiva, como muito do chamado capitalismo verde.

E enquanto estamos com a mão na massa, porque não perguntar, simplesmente: E se a compra e venda de créditos de carbono e de licenças de poluição falhar no seu objectivo de baixar o termóstato? Exactamente o quê motivará finalmente os governos e as indústrias globais a juntar as mãos numa cruzada para reduzir as emissões através da regulação e da tributação?

A diplomacia climática do tipo Quioto parte do princípio de que todos os protagonistas, uma vez aceite a ciência contido nos relatórios do PIMC, reconhecerão um interesse comum supremo em colocar sob controlo o efeito de estufa galopante. Mas o aquecimento global não é a ‘Guerra dos Mundos’, em que invasores marcianos estão empenhados em aniquilar toda a humanidade, sem distinções. As mudanças climáticas, pelo contrário, produzirão inicialmente impactos dramaticamente desiguais, entre regiões e classes sociais. Reforçarão, em vez de diminuir, a desigualdade geo-política e o conflito.

Como realça o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no seu relatório do ano passado, o aquecimento global é, acima de tudo, uma ameaça para os pobres e para os ainda não nascidos, “dois sectores com pouca ou nenhuma voz política”. A acção global coordenada em seu nome pressupõe, assim, ou uma tomada revolucionária do poder da sua parte (um cenário não considerado pelo PIMC), ou uma transmutação, sem precedentes na história, do interesse egoísta de países e classes ricas em “solidariedade” esclarecida. Da perspectiva de um “actor racional”, o segundo cenário só parecerá realista se puder ser demonstrado que os grupos privilegiados não dispõem de opções de saída preferenciais, que a opinião pública internacional conduz efectivamente as decisões políticas em certos países chave, e que a mitigação dos gases com efeito de estufa pode ser alcançada sem elevados sacrifícios para os mais altos escalões sociais no Hemisfério Norte – nenhuma destas condições parece provável.

E se a crescente turbulência ecológica e social, em vez de galvanizar uma heróica inovação e cooperação internacional, conduzir antes as elites a tentativas cada vez mais frenéticas para se separarem e defenderem com muralhas do resto da humanidade? A mitigação global, neste cenário inexplorado mas não improvável, seria tacitamente abandonada (como, em certa medida, já tem sido) a favor de um acelerado investimento em adaptações selectivas para os passageiros terrestres de primeira classe. É a perspectiva da criação de oásis verdes, de prosperidade permanente, para lá dos portões, num mundo que se afundaria generalizadamente em graves problemas.

É claro que haverá sempre tratados, créditos de carbono, campanhas contra a fome, acrobacias humanitaristas, e talvez mesmo a conversão integral de algumas cidades ou pequenos países europeus às energias alternativas. Mas a mudança para estilos de vida que impliquem emissões zero, ou mínimas, seria inimaginavelmente dispendiosa. (Na Grã-Bretanha, custa presentemente $ 200.000 dólares a mais construir eco-casas de “nível 6”, de zero carbono, do que custaria uma unidade normal na mesma área.) E isto tornar-se-á, certamente, ainda mais inimaginável, após 2030, mais ou menos, quando o impacto convergente das mudanças climáticas, do pico do petróleo, do pico da água e de uns 1,5 biliões de pessoas a mais no planeta, começar a estrangular seriamente o crescimento.

5. A dívida ecológica do Norte

A verdadeira questão é: Os países ricos alguma vez mobilizarão a vontade política e os recursos económicos para de facto atingirmos as metas do PIMC ou mesmo, tão só, para ajudar os países mais pobres a adaptar-se ao inevitável, ao já “cometido” quociente de aquecimento que está neste momento a fazer o seu caminho até chegar a nós, através da lenta circulação dos oceanos?

Para se ser algo mais vívido: Irão os eleitorados dos países ricos pôr de lado o seu actual chauvinismo e as suas fronteiras fortificadas para admitir refugiados dos previstos epicentros de seca e desertificação, como o Meghreb, o México, a Etiópia e o Paquistão? Estarão os norte-americanos - o povo mais sovina do mundo, se medido pela quantidade de ajuda externa per capita – dispostos a tributarem-se a si próprios para ajudar a realojar os milhões que provavelmente vão ser deslocados pela elevação do nível dos mares, de áreas densamente povoadas, mega-regiões delta como o Bangla-Desh?

Os optimistas de orientação pró-mercado, uma vez mais, apontarão para os programas de compensação em carbono, como o Mecanismo do Desenvolvimento Limpo (Clean Development Mechanism), o qual, segundo eles, permitirá ao capital verde fluir para o Terceiro Mundo. A maior parte do Terceiro Mundo, porém, provavelmente preferiria que o Primeiro Mundo reconhecesse a bagunça ambiental que criou e se responsabilizasse por a limpar. Muito justamente, eles praguejam contra a noção de que o maior fardo do ajustamento à Época Antropocénica haja de pesar sobre os ombros daqueles que menos contribuiram para as emissões carbónicas e menos benefícios tiraram de 200 anos de industrialização.

Num estudo recentemente publicado em Proceedings of the [US] National Academy of Science, uma equipa de investigadores tentou calcular os custos económicos da globalização económica desde 1961, expresso em termos de deflorestação, mudanças climáticas, pesca excessiva, rarefação do ozono, conversão dos manguais e expansão agrícola. Depois de feitos os relacionamentos com os resultantes encargos, eles concluíram que os países mais ricos, pelas suas actividades, geraram 42% da degradação ambiental em todo o mundo, enquanto arcaram com apenas 3% dos custos daí resultantes.

Os radicias do Sul apontarão também, muito justamente, para uma outra dívida. Durante 30 anos as cidades no mundo “em desenvolvimento” cresceram a um ritmo alucinante, sem nenhum equivalente em termos de investimento público em infraestruturas, serviços, habitação ou saúde pública. Numa larga medida, isto foi o resultado de dívidas externas contraídas por ditadores, pagamentos exigidos pelo Fundo Monetário Internacional e sectores públicos despedaçados pelos acordos de “ajustamento estrutural” do Banco Mundial.

Este défice planetário de oportunidades e de justiça social é retratado no facto de mais de um bilião de pessoas, de acordo com a UN-Habitat, viverem presentemente em bairros de lata, esperando-se que o seu número duplique por volta de 2030. Um número equivalente, ou mesmo superior, sobrevive como pode no chamado sector informal (um eufemismo do primeiro-mundo para desemprego em massa). Entretanto, só o previsível crescimento demográfico, aumentará a população urbana mundial em 3 biliões de pessoas ao longo dos próximos 40 anos (90% deles em cidades pobres), e ninguém – mas mesmo ninguém – faz a mais pequena ideia de como um planeta de bairros de lata, com as suas crises energética e alimentar em agudização, poderá prover à sua sobrevivência biológica, para não falar já das suas inevitáveis aspirações básicas à dignidade e à felicidade.

Se isto parece indevidamente apocalíptico, considere-se que a maioria dos modelos climáticos projectam impactos que reforçarão a presente geografia da desigualdade. Um dos pioneiros analistas da economia do aquecimento global, William R. Cline, professor agregado do Intituto Peterson, publicou recentemente um estudo, país por país, sobre os efeitos prováveis das mudanças climáticas na agricultura, lá para as última décadas deste século. Mesmo nas simulações mais optimistas, os sistemas agrícolas do Paquistão (decréscimo de 20% na produção em relação aos níveis presentes) e da Índia do Noroeste (decréscimo de 30%) serão provavelmente devastados, do mesmo modo que muito do Médio Oriente, do Maghreb, da cintura do Sahel, da África meridional, das Caraíbas e do México. Vinte e nove países em desenvolvimento perderão 20% ou mais da sua presente produção agrícola devido ao aquecimento global, enquanto que a agricultura do já rico Norte conhecerá, em média, um incremento de 8%.

À luz destes estudos, a presente competição desenfreada entre os mercados de energia e de alimentos, amplificada pela especulação internacional em mercadorias e terra agrícola, é apenas um modesto presságio do caos que poderá brevemente crescer exponencialmente, a partir da convergência entre rarefação de recursos, desigualdades intratáveis e mudanças climáticas. O verdadeiro perigo é que a própria solidariedade humana, como um banco de gelo da Antártida ocidental, se fracture a estilhace num milhar de fragmentos.





(*) Mike Davis (n. 1946) é um ensaísta, teórico urbanístico, historiador e activista político norte-americano, residente no Sul do estado da California. Embora tenha tido uma carreira escolar muito tardia e irregular (foi também operário, camionista e militante da radical Students for a Democratic Society), é actualmente professor no Departamento de História da Universidade da California em Irvine. É também editor da New Left Review e autor de numerosas obras de grande impacto, com destaque para ‘Prisoners of the American Dream’ (1986), ‘City of Quartz’ (1990), ‘Ecology of Fear’ (2001), ‘Late Vitorian Holocausts’ (2001), ‘Planet of Slums’ (2006) ou ‘In Praise of Barbarians’ (2007).



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NOTA:

(1) [Nota do Tradutor] Sport Utility Vehicles ou veículos automóveis utilitários desportivos, vulgarmente conhecidos como “jipes”.