O trabalho na trama das redes:
para uma crítica do capitalismo cognitivo


Ruy Braga (*)



A cena foi assistida por milhões de pessoas ao redor do mundo. Em Minority Report, o astro Tom Cruise trava um duelo mortal com um adversário por entre robôs que fabricam carros futuristas em uma fábrica cuja principal característica consiste em prescindir do trabalho humano vivo. Segundo a adaptação para o cinema do conto de Philip K. Dick, não existem operários na linha de produção do futuro. A idéia segundo a qual sistemas compostos por robôs e autômatos substituirão fatalmente o trabalho humano vivo em um futuro mais ou menos próximo não corresponde a uma novidade alardeada pela mídia mundializada. Na verdade, desde que as primeiras máquinas de tear movidas a carvão surgiram nos primórdios da Revolução Industrial na segunda metade do século XVIII, as sociedades capitalistas industriais convivem com os temores oriundos de um mundo submetido ao imperativo tecnológico.

O temor de um “futuro sem trabalho”.

As primeiras revoltas operárias contra a subsunção real do trabalho ao capital, isto é contra a transformação dos homens em simples apêndices de máquinas, assumiram características fortemente marcadas pelo ódio endereçado às inovações técnicas. Ned Ludd talvez tenha sido o primeiro mártir da era industrial. Por volta de 1779, “King Ludd”, como acabou se tornando conhecido, destruiu uma máquina de tricotar meias na fábrica onde trabalhava transformando-se rapidamente em um herói popular na região do condado inglês de Leicestershire. O movimento social “luddita” composto por rebeldes anti-industriais agia abertamente quebrando aquilo que parecia corresponder à fonte última do desemprego do antigo artesão e da miséria do camponês. Seu líder foi caçado e enforcado.

Contudo, mesmo diante do temor causado pela introdução generalizada da máquina no contexto da industrialização nascente, a previsão “apocalíptica” da supressão absoluta do trabalho humano vivo não se realizou. Ao contrário, a elevação da produtividade do trabalho tornou-se a base instrumental para a generalização da forma industrial e a criação de novos empregos. Os sucessivos ciclos de internacionalização do capital subseqüentes à Revolução Industrial e a difusão da relação salarial por todo o mundo ao longo do século passado serviram para, em alguma medida, contradizer os temores de um mundo futuro capaz de prescindir do trabalho humano vivo.

Com o advento da Revolução Microeletrônica das décadas de 1960-1970, as representações teóricas e sociais referentes ao “fim do trabalho” foram renovadas com grande contundência. Muitos foram aqueles que afirmando o caráter revolucionário da natureza “capital-intensiva” das novas tecnologias telemáticas, este verdadeiro casamento “sinergístico” entre as telecomunicações e a informática, previram um futuro sem trabalho (RIFKIN, 1996). Por outro lado, alguns analistas imaginaram que o desenvolvimento científico inerente ao ciclo de inovação radical trazido pela microeletrônica poderia oferecer uma saída tecnológica às contradições do próprio capitalismo (RICHTA, 1969). Afinal, robôs não compram mercadorias. As diferentes sociedades, inclusive as de tipo soviético, poderiam transitar para fora da dominância das relações mercantis e em direção ao comunismo simplesmente impulsionando a revolução das técnicas microeletrônicas e expandindo a aplicação da robótica.

Evidentemente, não existem soluções tecnológicas para as contradições do capitalismo. O tal futuro sem trabalho tendo em vista o desenvolvimento tecnológico, novamente, faltou ao encontro marcado. A relação entre inovação tecnológica e trabalho é infinitamente mais complexa do que a equação simplória: tecnologia = desemprego (ver HUSSON, 2000 e 2001). Na verdade, se assim o fosse, os países tecnologicamente mais avançados do mundo, Estados Unidos e Japão à frente, seriam os de maior taxa de desocupação. Mas é justamente o contrário que ocorre. Ao longo das últimas duas décadas, tanto o Japão quanto os Estados Unidos apresentaram taxas de desemprego entre as menores do mundo, ao passo que sociedades economicamente dependentes e tecnologicamente atrasadas, como é o caso da sociedade brasileira, por exemplo, apresentam taxas de desempregos elevadas (POCHMANN, 2002).

A revolução microeletrônica simplesmente não ocorreu conforme o esperado, com a robotização e a automatização generalizada e indiscriminada dos processos produtivos. Na verdade, o sistema financeiro beneficiou-se muito mais dos avanços da microeletrônica do que o sistema industrial (MEIRELLES, 2003). Travamos contatos com caixas eletrônicos habitualmente. Quer sacando dinheiro, pagando uma conta ou simplesmente passando em frente deles. Os caixas eletrônicos de tão comuns já se encontram integrados à paisagem urbana. São autômatos de serviços pessoais financeiros. Contudo, poucos estiveram frente a frente com um robô industrial. E mesmo aqueles que já viram um robô de perto sabem que muitos empregos são necessários para fazê-lo funcionar corretamente. O programador, o técnico em manutenção...

Quero dizer com isso simplesmente que é correto falar em revolução tecnológica quando uma inovação radical é produzida alterando rapidamente o paradigma técnico anterior e criando um ciclo contínuo de novas inovações e aperfeiçoamentos de processos e de produtos (KATZ, 1995). Mas não devemos derivar automaticamente da revolução tecnológica, transformações sociais profundas de natureza universal. Quer seja uma “nova era” de abundância emancipada da opressão capitalista, quer seja uma “nova idade média” com senhores feudais dominando hordas de desocupados. Via de regra, aqueles que se aventuram pela estrada da previsão social equipados unicamente com a bússola da inovação tecnológica acabam por se perder na metade do caminho.

O mais decisivo para a análise sociológica marxista da tecnologia consiste em evitar a idéia muito difundida segundo a qual inovações técnicas acarretam “impactos” sociais. Como se existisse uma relação de exterioridade entre tecnologia e sociedade: a tecnologia vem de “fora” e se choca com a sociedade causando um “impacto”. Na verdade, tecnologia é sociedade, ou seja, traduz-se em produto de relações sociais determinadas historicamente e condicionadas pelas contradições que (des)organizam o conjunto das coletividades humanas. Carrega consigo, portanto, este traço, tão mais importante quanto mais difundida sua presença em relações, estruturas e processos sociais. Somente a partir de uma perspectiva antireducionista da tecnologia é possível apreender as condicionalidades que atam trabalho, tecnologia e modernização social.

Se a representação do “fim do trabalho” por meio do desenvolvimento tecnológico tem dado sucessivas mostras de inconsistência factual, uma segunda representação igualmente forte e mais recente sobre a relação entre trabalho e tecnologia parece carregar consigo um apelo mais sedutor: trata-se da “virtualização” do trabalho supostamente produzida pela revolução das tecnologias informacionais (CASTELLS, 1999; HARDT, NEGRI, 2001). Nos últimos trinta anos, dizem alguns, o trabalho humano vivo estaria mudando de conteúdo: do material para o imaterial. Se antes da informatização da produção de bens e serviços o conteúdo do trabalho era essencialmente material, isto é implicava o dispêndio físico de energia objetivando transformar a matéria, com as novas tecnologias informacionais o dispêndio físico cede lugar às aptidões cognitivas e o objetivo final do processo de trabalho é acumular informação agregando um valor adicional oriundo da criatividade intelectual (VERCELLONE, 2003).

Metamorfoses do trabalho na trama das redes.

O trabalho humano teria sua natureza fundamentalmente alterada na medida em que transitaria rumo à nova economia global informacional (ver a interessante crítica de HUSSON, 2000). O fundamento último do trabalho transformado pela revolução tecnológica em curso radicaria em seu caráter imediatamente cooperativo, sua natureza comunicativa e sua valorização afetiva (NEGRI, LAZZARATO, 2001). Os gestos repetitivos e o controle burocrático, marcas do paradigma taylorista-fordista, assim como a regulação salarial e a jornada normal de trabalho estariam cedendo lugar ao trabalho emancipado e criativo centrado nas trocas simbólicas e na estrutura de produção de bens e serviços em rede (RIFKIN, 2001). Aliás, a rede transformar-se-ia no espaço e no meio de produção e circulação dos bens e serviços produzidos por esse novo tipo de trabalho, por alguns designado imaterial ou cognitivo (RULLANI, 2000).

Para alguns dos defensores desta tese, a nova “Escola Cognitivista” (EC, a partir de agora), por exemplo, formada por economistas franco-italianos e organizada em torno da revista francesa Multitudes – “herdeira” de uma outra revista francesa publicada entre os anos de 1990 e 1998, a Futur Antérieur –, o capitalismo estaria experimentando uma transição, conflituosa, por certo, em direção a uma nova forma histórica. Essa nova etapa carregaria consigo potencialidades subversivas e capazes, sem a necessidade de “acontecimentos dramáticos ou espetaculares”, de dissolver o próprio modo de produção capitalista. Ou seja, a revolução social tornar-se-ia supérflua diante da força da revolução tecnológica em curso. Novamente, o que temos na verdade são velhas ideologias para a nova esquerda pós-fordista.

O motor dessa subversão não estaria localizado na combatividade e auto-organização dos próprios trabalhadores e sim nas transformações em curso da divisão do trabalho tendo em vista a generalização hegemônica do “trabalho cognitivo”. Segundo VERCELLONE (idem), uma primeira interpretação dessa transição foi desenvolvida na passagem do anos 1980 para os anos 1990 pela Teoria Francesa da Regulação que buscou apreender as transformações em curso conforme a teoria das metamorfoses da sociedade salarial e, posteriormente, do capitalismo patrimonial, centrada no protagonismo do acionariado salarial (fundos salariais “co-geridos” por trabalhadores e acionistas).

Depois do advento do capitalismo patrimonial, a sociedade contemporânea estaria assistindo à crise terminal do paradigma industrial com a conformação das redes comunicacionais dinamizadas pela generalização das tecnologias de informação e comunicação (TIC’s). Essa sociedade pós-industrial seria sinônimo da mutação das condições gerais do capitalismo sob a hegemonia do “trabalho cognitivo”. Segundo essa tese, nesta nova situação do capitalismo, também denominada de “pós-industrial”, a atividade cognitiva tornar-se-ia o fator essencial de criação de valor. Este, por sua vez, passaria a ser produzido fundamentalmente fora do espaço fabril e, conseqüentemente, “emancipado” do tempo de trabalho socialmente necessário. Nas palavras de Enzo RULLANI (2000): “Desincorporados de qualquer suporte material, os conhecimentos desequilibram as teorias do valor, tanto a marxista quanto à neoclássica, recolocando o problema de sua valorização, pois, em virtude mesmo de sua desincorporação, eles podem ser reproduzidos, trocados, utilizados separadamente do capital e do trabalho”.

O conhecimento transformar-se-ia em um fator de produção tão necessário quanto o trabalho e o capital, e a valorização deste fator intermediário obedeceria a leis muito “particulares”, a tal ponto que o capitalismo cognitivo funcionaria de maneira diferente do “capitalismo comum”, com o efeito subversivo segundo o qual a teoria do valor não poderia dar conta da transformação do conhecimento em valor (RULLANI, idem). O trabalhador já não necessitaria mais do capital fixo colocado a sua disposição pelo capital. O capital fixo mais importante, conforme o argumento cognitivista, aquele que determina as diferenças de produtividade, encontrar-se-ia no cérebro dos seres que trabalham. Tal seria a “grande transformação” do capitalismo de nossos dias: dos músculos ao cérebro.

Considerações finais.

Mesmo se considerarmos as formulações mais sofisticadas dessa representação teórica sobre as metamorfoses do trabalho contemporâneo que incorporam a discussão a respeito do modelo centro-periferia do trabalho imaterial, isto é, um centro composto por trabalhadores qualificados e criativos e uma periferia composta por trabalhadores desqualificados e ocupados com tarefas de transferência de informação, ainda assim a tese é problemática. Em primeiro lugar, é preciso chamar a atenção para o fato de que a parcela “imaterial” da classe trabalhadora representa uma fração minoritária em termos quantitativos (POCHMANN, idem). E em termos qualitativos, é importante não esquecermos que, se existem mudanças no conteúdo do trabalho, o trabalho associado à difusão do paradigma sócio-técnico cognitivista é trabalho de tipo capitalista, isto é, determinado formal e concretamente pela exploração da força de trabalho objetivando a valorização do capital.

Por vezes, os diferentes estudiosos da relação trabalho-tecnologia informacional acabam se esquecendo que durante o período que o trabalhador vende sua força de trabalho ao capitalista, é este quem define as regras de seu uso. Tal realidade não se altera porque as novas formas de organização do trabalho centradas na estrutura em rede tendem, nos reduzidos extratos superiores das classes trabalhadoras, à instrumentalização da atenção e da memória do trabalhador no controle de seu próprio processo de trabalho ou porque o capitalista extrai do conhecimento operário certos instrumentos para aumentar a produtividade e, conseqüentemente, seus lucros.

Alguns autores confundem o fato segundo o qual o capital, em certos setores do processo produtivo, explora conjuntamente a força e o intelecto operários, o gasto de energia de seus músculos e cérebro, com a existência de indivíduos livres, cooperativos e criativos. O trabalho é essencialmente trabalho assalariado e como tal, a capacidade humana de realizar um trabalho criativo é frustrada e distorcida inevitavelmente, ainda quando haja divergência de níveis entre setores minoritários das classes trabalhadoras que podem dispor de algum controle do uso de sua força de trabalho e de sua criatividade e aqueles setores majoritários submetidos à atividade mecânica e repetitiva, que são meros apêndices das máquinas como assinalou Marx.

 

 


(*) Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e autor, entre outros, de A nostalgia do fordismo (São Paulo: Xamã, 2003). O presente ensaio foi originalmente publicado em ‘Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación’, Vol. VI, n. 3, Sep. – Dec. 2004: www.eptic.com.br.

 

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Referências bibliográficas:

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HUSSON, M. Nouvelle économie: capitaliste toujours! Critique communiste n°159/160, été/automne 2000.

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KATZ, C. Evolução e revolução na tecnologia. In: KATZ, C., COGGIOLA, O. Neoliberalismo ou crise do capital. São Paulo: Xamã, 1995.

LAZZARATO, M., NEGRI, A. Trabalho imaterial. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

MEIRELLES, F. Informática nas empresas: perfil, indicadores, gastos e investimentos. In: RUBEN, G., WAINER, J., DWYER, T. Informática, organizações e sociedade no Brasil. São Paulo: Cortez, 2003.

NEGRI, T. Valeur-travail: crise et reconstruction dans le post-moderne. Futur Anterieur, n. 10, Paris, 1992.

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RICHTA, R. Civilization at the crossroads. Nova Iorque: International Arts and Sciences Press, 1969.

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RULLANI, E. Le capitalisme cognitif: du déja vu? Multitudes nº 2, p. 87-97, 2000.

VERCELLONE, C. (org.). Sommes-nous sortis du capitalisme industriel? Paris: La Dispute, 2003.